Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 21 de setembro de 2013

Ignácio de Loyola Brandão (Sem ? é impossível perguntar)

Serginho olhou para o teclado e apertou a tecla 2.

Em seguida, digitou o shift e apertou 2.

Apareceu o símbolo @ .O que será isso?

Depois,ele apertou o shift e o símbolo + surgiu no monitor. Serginho ria, divertia-se com a novidade.

Se não apertasse a tecla shift, em lugar do + apareceria o sinal =.

O que será que queria dizer?

Que o + e o = são iguais, dependendo da tecla shift?

Se quisesse o 5,bastava apertar a tecla 5.

No entanto, ao apertar o shift junto com o 5,o que apareceu na tela foi um símbolo engraçado,%.

Perguntou e o pai explicou que era porcentagem.

– O que quer dizer porcentagem?

O pai ficou calado uns minutos.

– Veja! Você tem o número 100 .Mas deseja apenas 10% de 100. Ou seja, você deseja apenas 10.

– Por que vou querer 10% de 100?

Era uma boa pergunta, o pai ficou de responder no dia seguinte, estava atrasado para o trabalho.

Serginho teve certeza de que o pai não sabia o que era porcentagem e ficou alegre. Tão bom descobrir que o pai da gente não sabe todas as coisas do mundo. Assim fica igual à gente. Havia meninos cujos pais sabiam tudo, faziam tudo, podiam tudo. Eram meninos chatos, pentelhos, pareciam os pais. Ou será que eram mentirosos?

Todavia, Serginho não estava preocupado com nada disso. Tinha descoberto as mágicas do teclado, as estranhezas que podia fazer com ele.

Ao apertar o shift e o 3, surgia uma gradinha. Assim:#.

O que seria? Para que serve? para fazer uma jaula? Para prender mosquito? A questão era : para que servem as coisas, os sinais diferentes que a gente pode produzir no teclado de um computador?

Serginho gostou do 8 misturado ao shift. Ele produzia uma estrelinha simpática *.

Aproveitou, fez um monte, uma linha inteira

******************************************

Já o 6 com shift fazia surgir um chapeuzinho ^. Serginho não teve dúvidas. ‘’Vou ter uma chapelaria” pensou.

^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

Havia uma maçãzinha, ele apertou, nada aconteceu.

Ficou desapontado. Imaginou que sairiam maçãs, igual a máquina de refrigerantes que havia na lanchonete da esquina.

Apertou o 1 sozinho. Nada se passou. Quando apertou o 1 com o shift, viu o sinal!.

Quando o pai chegou, ele perguntou o que era.

- Isso é uma exclamação.

- E o que é uma exclamação?

Como explicar uma exclamação?

-Olhe, vou exclamar! Assim você saberá o que é a exclamação.

Então, disse, bem alto:

– Puxa! Meu deus! Ora! Nem me diga! Tudo com ênfase, firmeza, exclamativo.
– entendeu?

– Não!

O pai aproveitou:

– Viu? Esse não que você disse foi uma exclamação! Deu para sacar?
 
– Ah, uma exclamação é um não bem forte?

– A exclamação é o contrário da interrogação.

– E o que é interrogação?

– É uma pergunta.

– Quer dizer que a exclamação é uma não-pergunta?

O pai disse que precisava ir trabalhar.

Serginho apertou a tecla que ficava perto do shift e parecia um tracinho caindo, bêbado. Saiu no monitor um?.

O que é esse pauzinho torto?, pensou. Parece um corcunda!

O irmão mais velho, de 17 anos, passou com o skate nas mãos.

– Sabe o que é isso, Ciro?

– Sei, uma interrogação!

Apesar de brigar muito com o irmão, Serginho gostava dele, admirava. Ficou feliz. Ia saber o que é uma interrogação.

– O que é interrogação ?

– Sabe, é a coisa que você precisa quando vai fazer uma pergunta. Sem ela você não pode perguntar, ninguém vai saber que é pergunta.

– E a exclamação?

– É quando você exclama.

– E quando exclamo?

– Quando você diz puuuuuxxxxaaaaa!

– Puuuuuuuuuuuuxxxxxxxxaaaaaaaa, tão fácil!

Serginho tremeu. Que maravilha! Coisa mais incrível. Se não existisse o ? ninguém poderia perguntar. Como viver sem perguntar? Todo mundo sabe que para ter o sinal ? é preciso apertar o shift e o tracinho caindo? Ciro saiu, estava atrasado, deixando Serginho intrigado. Que coisa engraçada. Quer dizer que se eu não tiver um ? não posso fazer uma pergunta? E se não existisse o shift no teclado, não poderíamos perguntar? Estava achando tudo fascinante. O pai tinha trazido o computador, presente para os filhos, os mais velhos começavam a precisar para trabalhos da escola, para a internet, a irmã queria namorar por meio dele, a mãe desejava planejar o orçamento familiar, era uma família organizada.

    O computador tinha chegado na noite anterior e Serginho desde manhã estava tentando decifrar mistérios. Era divertido, complicado. Acima de tudo, mágico. Ele podia digitar uma letra (ainda que não soubesse que a palavra era digitar) e colocá-la fechada dentro de duas cercas (8),podia criar um mundo de estrelas *,de +,de chapéus ^.,

Não sabia ainda o que fazer com tudo, mas descobriria. Teria de ser sozinho, o pai mostrava não ter paciência. Ou talvez não soubesse. Porque o computador parecia remeter a coisas da vida que não tinham explicações fáceis.

O que é vida?

Por que não se vê o ar ?

Quando nasceram as letras?

Por que a água molha?

Por que o número 7 é o 7 e não o 8,e o 9 é não o 2?

Como a voz vem pelo telefone?

Serginho estava descobrindo que a vida e o computador abrigam coisas que os adultos não sabem, não conhecem, não explicam. Que a vida e o computador têm perguntas sem respostas. Mas que respostas existem e estão dentro do computador e das pessoas.

Disposto a descobrir, ele começou a apertar todas as teclas: Caps Lock, return, shift, tab, clear, help, home, Page up, Page down, control, option.

Estranhas palavras.     Quem fala assim? Língua de computador. Encheu o monitor de números, símbolos, signos, letras.

E ai viu uma tecla delete.

Apertou. Tudo sumiu, ficou branco.

O computador tinha engolido suas coisas de volta, mas estava pronto a devolver.

Devolver seus mistérios, sua mágica, o encantamento do shift, essa tecla solitária que produz tanta diferença.
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Nota:
CIRO=relativo aos ciros, antigo povo germânico que combateu juntamente com os hunos.

Fonte:
Deixa que eu conto. SP: Ática, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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