Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Fernando Sabino (O Bar da Esquina)

A designação de bar sugere características que o lugar não tinha - e não tem; continua lá até hoje, na Avenida Copacabana, esquina da Francisco Sá. Embora eu já não seja assíduo, creio que nada, além dos frequentadores, haja mudado.

É um balcão semicircular ao longo da esquina, no qual se serve tudo, do café ao sanduíche de presunto, passando por um traçado para os adeptos.

Em geral não bebíamos, a não ser um raríssimo chope. Tomávamos mesmo era um cafezinho, ou vários, três, quatro, renovando o pretexto de estarmos ali de conversa noite adentro, pois nem o café era lá essas coisas. Carlos Castello Branco, Evandro Carlos de Andrade, Fernando Lara Resende, Cláudio Mello e Souza Autran Dourado, Wilson Figueiredo, Carlos Alberto Tenório, Pedro Gomes - estes e outros, não necessariamente ao mesmo tempo, faziam parte da patota do Bar Bico, aberto dia e noite. De preferência à noite, até a madrugada. Éramos quase todos homens de jornal, e os jornais naquela época fechavam tarde, nunca liberando o pessoal antes de 11 horas, meia-noite.

Ao fim de duas horas de papo, já estávamos mortos de sono, em pé "como cavalo velho de rifa em barraquinha do interior" (na imagem de Marco Aurélio Matos, também frequentador assíduo). Quando nos dispúnhamos finalmente a ir para casa, surgia outro, trazendo bagagem nova de assuntos. Não tinha cabimento passar a noite inteira de pé, conversando fiado. Concordávamos com ele, mas estávamos ali apenas por alguns minutos, não era isso mesmo? Só mais um cafezinho para virgular o papo... E íamos ficando.

Otto Lara Resende - o que mais tempo nos retinha, arrastando-nos até o sol nascer com o sortilégio da sua boa conversa. Era também o que mais reclamava contra o tardio da hora, protestando sempre que já devia estar em casa há muito tempo. Certa época chegou mesmo a estabelecer com sua mulher um sistema de multas progressivas, como nos estacionamentos rotativos; pagaria a ela uma quantia preestabelecida por toda meia hora que excedesse a meia-noite. Era o limite que impunha a si mesmo, prometendo de trinta em trinta minutos não ultrapassá-lo um minuto sequer. Antes de iniciar novo assunto, perguntava-nos as horas. Cena noite, éramos três numa daquelas conversas de nos deixar com a língua de fora, quando um vulto se deteve no meio da rua e pôs-se a gritar:

- Faltam cinco para as duas.

- Bem - conformava-se ele, com um suspiro. - Então lá se vão mais cem pratas. Mas este caso que eu vou contar vale bem outra meia hora.

Despedia-se, enfim, de todos, quando via alguém mais se aproximando - o Borjalo, que morava ali perto, ou o Armando Nogueira, ou ambos. Era Burle Marx, o paisagista, que raramente aparecia:

- Só faltava esta - lastimava-se ele. - Com esses dois eu hoje vou à falência.

Paulo Mendes Campos era outro que sempre aparecia, em geral indo para algum lugar onde se pudesse sentar e tomar coisa melhor. Segundo sustentava, não tinha cabimento passar a noite inteira de pé, conversando fiado. Concordávamos com ele, mas estávamos ali apenas por alguns minutos, não era isso mesmo? Só mais um cafezinho para virgular o papo... E íamos ficando.

Certa noite, éramos três, numa daquelas conversas de nos deixar com a língua de fora, quando um vulto se deteve no meio da rua e pôs-se a gritar:

- Paulo! Otto! Fernando! Que coisa antiga, minha Nossa Senhora!

Ficamos apreensivos, pois ali perto já funcionava uma delegacia de polícia: não fossem nos prender, por conta de semelhante atoarda com o nosso nome no silêncio da madrugada.

Era Burle Marx, o paisagista, que raramente aparecia:

- Vocês três conversando aí nessa esquina a noite toda! Há quantos anos isso, meu Deus! Vão para casa, que vocês não têm mais nada que conversar! Que coisa antiiiga!

Para Rubem Braga, entretanto, o exemplo mais acabado de dissipação era passar a noite inteira junto a um café em pé discutindo futebol com o próprio pai, como fazia o crítico de cinema Moniz Viana.

Sobre o quê conversávamos? Sobre futebol, política, literatura, anedotas, amenidades. Tudo o que pode fazer o melhor da convivência entre amigos, que é o próprio sal da terra. Uma conversa enfiada na outra, abrangendo uma generalidade de assuntos que fossem do interesse de todos.

E de todos sei o destino que tiveram. Venceram na vida, casaram e mudaram. Mas continuam meus amigos e, desafiando os prudentes conselhos de Burle Marx, que coisa antiiiga! - a conversa também continua. Não mais no Bar Bico, mas onde quer que eu os encontre hoje em dia – ainda que sejam apenas figuras nascidas da lembrança, na solidão da noite...
                                          
Fontes: 
SABINO, Fernando. A Chave do Enigma.
Imagem = http://www.allartsgallery.com

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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