Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Paulo Pellota (Paz na Terra aos homens de botequim)

Crônica premiada no "Concurso Grandes Escritores de São Paulo", Litteris Editora, 1977.
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Beber bem e bater papo são duas artes com grandes afinidades entre si. E o melhor lugar para exercitá-las é o botequim.

Há um consenso entre os grandes praticantes de que o bar, feito exclusivamente para beber e conversar, é o ambiente onde essas artes evoluem com notável fluência. Fluência que é percebida nas mesas de profissionais, gente que leva a sério 0 supremo ofício de rir e conversar.

A função social do bar é justamente liberar os espíritos e fazer aflorar as identidades a fim de facilitar a conversa. Os temas vão surgindo naturalmente e vai-se falando de tudo um pouco. Importantes decisões sobre os destinos da humanidade são tomadas. Política, futebol, discos voa- dores, o melhor chopp da cidade, tudo é discutido. Meu amigo Pérsio, competente em matéria de botequim, afirma que há nessas mesas uma fantástica cornucópia de onde brotam os mais interessantes assuntos. Médicos falam sobre direito, advogados tratam de medicina, empresários palpitam sobre música, músicos discutem política, vagabundos pontuam sobre direito do trabalho, em desordem alternada, podendo mudar o ponto de vista a qualquer momento. A lógica, a coerência, podem perfeitamente ficar do lado de fora, já que o bom papo de boteco não tem censura nem admite cobranças posteriores.

Já os amadores, que vão ao bar de vez em quando para comemorar um aumento de salário ou para falar sobre a crise, são facilmente identificáveis ela monotonia notada em suas mesas."Será que chove? Hoje está mais quente do que ontem." são as mais acaloradas discussões. 0 papo não anda, estão sempre a olhar o relógio, como questionando se deveriam estar mesmo no bar ou poderiam estar gastando seu tempo na academia ou correndo em volta do quarteirão. Se forem realmente amadores, podem questionar à vontade, mas, se por algum motivo se tornaram aprendizes, é dever lembrá-los que os exercícios físicos, hoje tão comuns para cultuar o corpo, não passam de modismos. Como tal, apresentam-se como fenômeno passageiro e, mais dia menos dia, pelo perigo que representam, serão extirpados da sociedade.

Quantas entorses, quantas lesões musculares, fraturas, distensões. Quantos infartos esses esforços violentos têm causado. O negócio é tão perigoso que se pedem diversos exames médicos antes de iniciar qualquer atividade física.

No botequim nada disso acontece. Não há registros de mortes súbitas em mesas de bar. Muito menos se comete a indelicadeza de pedir atestado médico antes de um chopp bem tirado.

Claro que é preciso estar em forma. Tanto profissionais como aprendizes sabem que precisam eleger seus bares preferidos e frequentá-los com assiduidade. Perseverar. Como tudo que se queira fazer bem feito, frequentar botecos também demanda tempo, dedicação e treinamento. E no bar, é na prática do cotidiano que se aprende com frequentadores de outras mesas. E uma alegre tarefa do grupo melhorar a atuação individual e coletiva, com a abordagem de temas originais, com a capacidade de surpreender, usando com competência e humor a liberação dos espíritos proporcionada pela atmosfera do ambiente.

Se disciplina é fundamental, também é importante que o novato reconheça que muitas vezes poderá cometer pequenos deslizes, como dar uma caminhada mais longa ou até mesmo uma corrida. Isso não deve ser motivo para pânico , principalmente se não acontecer com frequência. No começo, isso é normal, porque o iniciante não tem o condicionamento necessário para evitar certos programas e talvez tenha dificuldade para dizer "não". No fundo, o bom mesmo é rir dessa situação e no dia seguinte compensar esse tropeço tomando algumas doses a mais com os amigos.

Os mais assíduos frequentadores de bares têm plena consciência de que rir e conversar são importantíssimos para manter-se sempre rindo e conversando. Parece uma redundância, mas é muito mais profundo do que isso e, se houver dúvida, o tema poderá ser experimentado na próxima mesa.

0 aprendiz deve levar em conta a tradição. O hábito humano de reunir-se para conversar, beber, rir e comemorar faz parte da História do Mundo. A cerveja parece ter sido criada no antigo Egito, Noé carregou vinho na arca e produziu cerveja ao chegar no monte Ararat, Cristo consagrou o pão e o vinho como alimentos do corpo e do espírito, os vitoriosos unem-se e brindam.

*
Até na Santa Ceia todos sentaram-se à mesa e tomaram vinho — o único que não quis tomar nada e saiu mais cedo foi bem sóbrio receber os trinta dinheiros.

Não há, no entanto, menções históricas dando conta de que algum imperador, grande general, profeta ou o mais divino dos seres tenha dado uma corrida e voltado para o mesmo lugar, certo de que estava abafando.

Há que estar preparado, portanto, para a Novíssima Era que está chegando, em que homens e mulheres não discutirão se têm alguns quilos a mais ou alguns centímetros a menos na barriga. Estarão, sim, reunidos em torno de copos e garrafas, usufruindo do grande prazer de comer sem ter fome e de beber sem ter sede, de compartilhar experiências e de rir com os outros e de si mesmos.

Fonte:
PELLOTA, Paulo. Paz na Terra aos homens de botequim. SP: Clio Editores, 2003.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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