Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Juliana Dummel (Atirei o pau no gato)


Aluna da Oficina de Escrita Criativa, de Marcelo Spalding
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Meu nome é João, João de Santo Cristo. Nasci no Natal de 97 e minha mãe me chamou João. Foi a enfermeira da sala de parto que quis colocar o Santo Cristo.

Mas minha vida começou de verdade no dia 26 de dezembro de 2002, o dia que atirei o pau no gato. É. Fui eu que atirei o pau no gato, o gato amarelo da Dona Chica.

Dona Chica é tia-avó da minha mãe, tem 85 anos, e mora na minha casa desde que seus 9 filhos foram para o nordeste trabalhar em uma temporada de corte de cana. Prometeram voltar em 5 meses, mas desde então não tivemos notícias. Foi Dona Chica quem me alimentou até os 5 anos de idade. Depois disto, além de comida me deu um bocado de instrução.

Minha mãe é faxineira no Hospital Geral do Exército do Rio de Janeiro e com este trabalho sustenta a família que somos eu, ela, Dona Chica e o gato. Minha mãe trabalha todos os dias da semana. Quando não está no seu horário, está cumprindo o serviço de colegas. O que mais lhe rende é tirar o serviço dos feriados, Natal e ano-novo são os mais caros. E minha mãe sempre aceita trabalhar, pelo dinheiro.

No meu primeiro aniversário ela estava de serviço. No segundo, no terceiro e no quarto ela tirou o serviço de colegas e recebeu um dinheiro que valia a pena. Quando completei 5 anos ela estava em casa, mas desejei que  estivesse. Ela fez faxina em casa e xingou a Dona Chica de “porca imunda” vinte e nove vezes. E ninguém lembrou do Natal e nem do aniversário.

O dever de Dona Chica era não me deixar com fome.  Minha mãe deixava a comida preparada e ela colocava o prato para mim.  O resto do tempo ela gastava sentada em sua poltrona de chenille, em frente à televisão, acariciando o gato amarelo.

O meu dever era sentar ao lado da Dona Chica, no meu banquinho de madeira, e me comportar. Comportar-se  significava não derrubar nem um único grão de arroz na mesa, não me arrastar no chão para não ficar com pelo de gato na roupa, não falar para não atrapalhar o  programa de televisão, não espiar pela janela e não judiar do gato. Caso houvesse alguma falha na minha conduta, Dona Chica alertava com sua alta e grossa voz: “Menino malcriado, olha a porquice na mesa!”, “Menino malcriado, cala essa boca!”, “Menino malcriado, te arranca da janela!”.

Até que no dia posterior ao meu quinto aniversário eu atirei um pau de madeira no gato da Dona Chica. O gato deu um berro estridente de dor. Dona Chica admirou-se, enfureceu-se e saltou para cima de mim: “Menino malcriado, os bichos são como gente, eles também sentem!”.  Esta foi minha primeira aula. Desde então, Dona Chica decidiu me dar educação. E eu passei a ganhar mais do que comida.

Não sei ao certo se, o que mudou a minha história, foi o pau que atirei no gato ou o “também” do berro da Dona Chica. Só sei que se comenta muito sobre o berro do gato: miau!

Fonte:
http://escritacriativaonline.blogspot.com.br/search/label/Contos

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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