quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Caldeirão Poético XV

ESTAÇÕES

Nós, duas almas que desabrochavam,
começavam viver os bons momentos,
cheios de grande amor, encantamentos
que em arroubos de ardor se enamoravam.

Braços, que ao sabor, já se entrelaçavam,
seguindo, os corações, os batimentos,
a mesma comunhão de sentimentos,
desnudos, nossos corpos que se amavam.

Primaveras, outonos... Estações,
velhos costumes,, sem as emoções
dia a dia a verdade que me ensina.

Nosso futuro, que nos corações,
se anunciavam, cheios de paixões.
agoniza no chão desta rotina.


 
A MÃO...
        Ao Dr. Claudino dos Santos

Tantas vezes, bem sei, e eu ouço, quando cismo,
Meu coração bater depressa, não o nego,
Mão invisível tem-me salvo, a mim, um cego,
Rolando como se rolasse num abismo...

Babilônias de horror, e montanhas de lodo,
E torres de Babel, sangrentas como lava,
Eu mais afoito do que um jovem deus, mais doido,
Eu passei sem saber por onde é que passava...

Sorrindo pelo ar, miraculosa e a esmo,
Tudo pôde abrandar, os ventos, e a mim mesmo,
Por um prodígio enfim que eu não explico, ateus!

...Donde veio essa mão nervosa, que me arranca
Dos abismos do mal, a Mão ideal e branca,
A mim, que nem sequer mais acredito em Deus?...




E É QUASE DIA...
Glosando Wanda de Paula Mourthé

MOTE:
No talvez da quase noite,
quando a espera me angustia,
horas batem feito açoite...
Tu não vens...e é quase dia...


GLOSA:
No talvez da quase noite,
eu me perco em devaneios
e temo que a dor se amoite
e se instale nos meus seios!

O pranto cai devagar
quando a espera me angustia,
sentindo – não vais chegar,
morre em mim toda a alegria!

A tristeza faz pernoite
no meu pobre coração...
horas batem feito açoite...
sem nenhuma compaixão!

Quando a solidão aumenta,
a noite perde a magia
e minha alma não aguenta,
tu não vens...e é quase dia...



ÚNICA

Fruto efêmero e hostil de um efêmero gozo,
Esta vida que arrasto, efêmera e improfícua,
Sinto-a embalde, e, debalde, entre pasmado e ansioso,
Sondo-a, palpo-a, examino-a, estudo-a, verifico-a.

E tudo quanto empreende o espírito curioso,
E tudo quanto apreende a análise perspícua,
É o falso, é o vão, é o nulo, é o mau, é o pernicioso,
Por menos que a razão seja perversa ou iníqua.

Logo, por que pensar? Logo, por que no Sonho
Não havemos deixar correr a vida fátua,
Obrigando o Destino a ser calmo e risonho?

Por que só não amar: É culpa? Eis-me: resgato-a
Agora que a teus pés todo o meu ser deponho,
Como um vil pedestal à tua excelsa estátua!. . .



BERIMBAU

Ariranha arranha a presa,
Aranha tricota a teia,
Faz charme a moça bonita,
Faz crochê a mulher feia.

Quando o dia se apressa
O homem acende a candeia,
A pecadora confessa,
O padre impõe muita reza:
O fogo dela incendeia.

Araruta faz polvilho
E dele faz-se o mingau,
Vaca dá leite ao novilho
No cocho lambendo o sal.

Surubim sobe a represa
Indo em busca do canal,
Mulher de saia rodada,
Não dança o mineiro-pau.

O coração machucado
Bate em ritmo anormal,
O homem que é afobado
Come cru e passa mal.

Eu fico aqui matutando
Para encontrar um final,
Nesses versos que eu te fiz
Sob o som do berimbau.



SONETOS COMO UM PÁSSARO

Criar sonetos como um pássaro
Que canta por cantar e abrir o bico
Ou porque tendo já descido ao tártaro
Subiste e sem culpa nem um tico.

E então ao leitor lembrar Camões
Sem poderem dizer que o imitas
Pela forma pouco lusa que compões
Ou pelos dois olhos com que fitas

A tua realidade que é só tua
Sendo outrossim de toda gente
Que persegue a palavra que flutua

Ao léu, por aí, no espelho astral
Onde o mundo então seja diferente
Mas nunca invertidos bem e mal...




O BIBLIOTECÁRIO BÊBADO

Parece que
do topo das estantes
vocês ficam olhando para mim...
O que querem que eu faça?
Que abra as mãos
e tente
segurar a Poesia?
Eu a sinto
 invisível pelo ar...

E se eu erguesse as mãos
por um acaso
tentando capturar
toda a Poesia
latente
na atmosfera desta sala
e condensasse
os versos em absinto,
eu viveria embriagado deles?

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