Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 4 de novembro de 2018

Pierre de Ronsard (Poemas Escolhidos) I


SONETO XXIX

As cidades são vis, os burgos são odiosos,
padeço quando vejo o mundo indiferente;
passeio pela mata antiga, longamente,
vivendo a grande paz dos rumos silenciosos.

Não encontro no bosque animais tão furiosos,
nem pedra, vegetal ou rio transparente,
que não sofram comigo a minha dor freqüente,
tão cheia de paixão e anseios cobiçosos.

Um pensamento emerge de outro, e me acompanham
como prantos de amor que os meus sentidos banham,
a rolar em meu ser em forma de uma fonte.

Se acaso alguém me encontra em meio da folhagem,
fitando a minha barba e o horror de minha fronte,
julga ter encontrado algum monstro selvagem.

(Tradução Fernando Torquato Oliveira)

SONETO LXVI

Céu, ar e ventos, píncaros dispersos,
colinas e florestas verdejantes,
rios sinuosos, fontes borbulhantes,
campos ceifados, bosques tão diversos,

semiabertos covis, antros imersos,
pastagens, flores, ervas rastejantes,
vales longínquos, praias coruscantes,
e vós, rochedos, que guardais meus versos,

desde que partirei, mas sem dizer
adeus ao seu olhar, para esconder
esta emoção que nunca terá fim;

eu vos suplico, céu, ventos e montes,
pastagens e florestas, rios, fontes,
antros, flores: - dizei-lhe adeus por mim!

(Tradução Fernando Torquato Oliveira)

MADRIGAL
(do livro Sonetos para Helena)

Se amar, minha Senhora, é, de noite e de dia,
sonhar, querer, pensar o meio de agradar,
esquecer tudo mais e nada mais tentar
senão no amor de quem tanto assim me angustia;

se amar é perseguir fugitiva alegria
e perder-me a mim mesmo e sozinho ficar;
padecer sem consolo, e ter medo, e calar,
soluçar, implorar, alvo de zombaria;

se amar é existir, não em mim; mas só nela,
esconder o pesar, que em risos se rebela,
sentir dentro do peito a luta desigual,

frio e calor, febre de amor que me avassala,
temendo confessar de onde vem esse mal,
se isso tudo é amor, com fúria se revela.

Amo-a e sei muito bem que o que sofro é fatal.
O coração o diz, mas a boca se cala.

(Tradução de  Mello Nóbrega)
obs.: Forma curiosa de soneto medieval, com estrambote, versos adicionais aos 14 versos do soneto, como acabou se fixando, na forma chamada petrarqueana.

“TOME ESTA ROSA”

Tome esta rosa, flor como você,
a rosa que supera  as outras rosas,
a flor que brilha mais que as mais viçosas,
cujo perfume encerra um não sei quê.

Tome esta rosa e ao próprio seio dê
meu coração, repleto de amorosas
intenções, em que as chagas dolorosas
não mataram a crença de quem crê.

De mim difere a rosa, todavia:
nasce e morre uma rosa num só dia,
mil dias causticaram meu amor,

que vive sem repouso e amargurado.
Prouvesse a Deus a tal amor ter dado
um só dia de vida, como à flor!

(Tradução Francisco Pimentel)

UM SONETO PARA HELENA

Deus Amor, que no mundo és um rei de grandeza,
vê tua glória e a minha em seus jardins passar;
vê seu límpido olhar que é minha estrela acesa
ou é lâmpada em luz que ilumina um altar.

Vê seu corpo - retrato e exemplo da beleza,
aurora na manhã mais divina a raiar;
vê que doma o destino e excede a natureza
por sua alma, em que Deus se pode contemplar.

Vê como erra perdida em sonhos, pensativa,
como te vence, Amor, e te aprisiona em flores;
vê como a relva estende a seus pés um mantéu.

Vê dos olhos brotar-lhe a primavera viva;
vê como em profusão suas chamas de amores
embelezam a terra e enternecem o céu.

(Tradução Murillo Araujo)

SONETO XXXII

Eu amo a flor de Março,(1) eu amo a bela rosa;
esta é sagrada à Deusa antiga,(2) e tem-lhe a fama;
aquela tem por nome o nome de uma dama
que torna a minha vida incerta e tormentosa.

A três aves eu amo: a que a pluma formosa banha
em chuvas de Maio e pelo azul (3) se inflama;
a que vive sozinha (4) e seus males proclama;
e, por fim, a que ao filho (5) eleva a voz radiosa.

Eu amo esse pinheiro (6) onde Vênus atou
a minha liberdade, ao tempo em que tornou
meu coração fiel a uma doce pessoa.

E amo o galho do arbusto (7) a Febo devotado,
onde a dama que adoro, em um gesto encantado,
os cabelos prendeu - e fez-me uma coroa.

(Tradução Fernando Torquato Oliveira)

NOTAS:
(1) A violeta, que aparecia em Março, mês cujo nome lembra o de Maria - Mars/Marie.
(2) Vênus.  
(3) Cotovia.  
(4) Rola.             
(5) Aedo foi transformado em rouxinol porque matou, por descido o próprio filho.       
(6) Discreta indicação ao nome de sua amada- Marie Dupin.
(7) Loureiro.

Fonte:
J G de Araujo Jorge. Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou: Poesia Universal Européia e Americana. vol. III. 1a edição, 1966.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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