domingo, 1 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 3 *


José Feldman (Floresta/PR)

GRALHA AZUL

Nas matas frias de verde pinheiro,
vivia a ave de penas comuns.
Sem o azulado do céu por inteiro,
buscava o brilho em tempos de jejuns.

Diz a lenda que o bicho dormia,
no galho seco que o vento balançou,
mas um machado, com fúria e agonia,
o pinheiral no chão derrubou.

A ave subiu ao reino do alto,
pedindo a Tupã um novo poder,
ganhou o manto do azul do planalto,
para as florestas de novo erguer.

Voltou à terra com foco e coragem,
colhendo o pinhão com o bico fiel.
Enterra a semente em cada pastagem,
sob a proteção do sagrado dossel.

É a Gralha Azul, que a mata semeia,
plantando a araucária no solo do sul,
enquanto o destino no bico se enleia,
pinta o destino em tom de azul.

José Luiz Boromelo (Domingo no parque)


O garoto era muito esperto para a idade. Com apenas seis anos se mostrava espirituoso, captava tudo no ar e dava trabalho aos pais, que evitavam certos comentários em sua presença. A mãe, incomodada com a situação chegou a levá-lo a um especialista. “É um dom natural, não há motivos para preocupação” tranquilizou o médico. Por via das dúvidas a atenção era redobrada e os diálogos restritos ao cotidiano da casa, para evitar constrangimentos com estranhos. Mas naquele fim de semana a programação estava definida. O pai, taxista,  trabalharia a noite toda e ficaria em casa descansando. Somente à tarde os apanharia no local combinado. Era domingo, fazia frio e o garoto cismou em não aceitar o passeio. Exigia que a mãe cumprisse com a promessa da semana passada. “Quero ir ao rodízio de pizza” dizia ele, bufando como touro bravo. A irmã menor o apoiava, para desespero da mãe que via seu tão esperado programa, adiado por diversas ocasiões, ir literalmente pelos ares. “Vai ter bastante gente lá”, tentava argumentar ela já antevendo a resposta na ponta da língua quando o pirralho empacava. “Na pizzaria também tem”. Foi preciso o pai convencer o menino, que não escondia sua contrariedade. Ficou acertado que depois do passeio, todos iriam saborear a tão desejada pizza.

Logo a mãe se arrependeria daquele programa dominical. Famílias inteiras chegavam ansiosas por desfrutarem da natureza generosa em forma de clorofila. No início o menino se distraiu com as novidades, mas não demorou muito para mostrar seu gênio difícil, principalmente quando se aproximavam de algum grupo de pessoas. “Mãe, o prefeito está doente?” soltou ele, com sua voz estridente. Diante da inusitada pergunta e dos olhares curiosos, a mãe hesitou e o garoto emendou: “Papai disse que ele está sofrendo de pressão política”. A mãe ficou sem ação por alguns instantes, no que o garoto completou: “É por isso que essas pessoas estão chorando?” Desconcertada com a espontaneidade da criança a mãe tratou de sair logo dali, com a intenção de mostrar o parque aos pequenos. E foi explicando que algumas pessoas estavam emocionadas pelo retorno da santinha ao seu local original, por conta das obras na gruta onde foi recolocada novamente.

 Os pedidos por refrigerante, pipoca, doces e outras guloseimas fizeram a mãe exceder sua dose extra de paciência, naquele que prometia ser um dia todo especial. A companhia do pai seria oportuna, visto que o garoto a testava ao máximo para se assegurar até onde chegariam seus limites. “Quero ir ao banheiro” avisou ele, em tom de desespero. “Faz ali, atrás da árvore mesmo” respondeu impaciente a mãe, diante da fila interminável para utilização do sanitário. Mais uma vez, o menino radicalizou: “Só se ninguém olhar”, arrancando gargalhadas dos visitantes que em solidariedade, formaram um cordão de isolamento para que o pequeno se aliviasse.

O passeio pelo parque continuava e como a temperatura ficou agradável resolveram permanecer até mais tarde. O garoto não deixava passar nada em branco. Comentou que os bichos de concreto eram “sem sal”, melhor seria se transformados em bancos. Quase não se conteve quando a mãe o proibiu de alimentar os saguis. Mesmo com a temperatura amena insistia em molhar os pés nas águas do lago. Depois de um bom tempo, a disposição do garoto já não era mais a mesma. Agora não apresentava o deboche do início, típico de quando era contrariado, limitando-se a tecer alguns comentários dispersos. Era uma das táticas da mãe vencê-lo pelo cansaço. Isso quase sempre funcionava.

 Mas eis que num descuido, aproximou-se de uma família e logo entabulou conversa. Contou que estava ali contra sua vontade, a mãe o deixara com fome, estava com os pés molhados e com frio e o pai ficara em casa dormindo. A mentira dessa vez foi longe demais, somente esclarecida quando a mãe apavorada com o sumiço do filho notou a presença de uma viatura policial e em seu interior um garotinho que reinava absoluto, falando pelos cotovelos. Prometendo não deixar o filho sozinho nem por um instante sequer, encerrou o passeio imediatamente. Na saída, a mãe se deu por vencida: “Melhor ir para a pizzaria” disse ela. “De táxi”, rematou imediatamente o encrenqueiro. E assim, com essa e outras divertidas histórias, a população teve a oportunidade de usufruir de um belo domingo ensolarado no parque público.
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José Luiz Boromelo, é de Marialva/PR, policial rodoviário aposentado, escritor, cronista e agricultor, colaborador da Orquestra Municipal Raiz Sertaneja.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 07.06.2015
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/5269507

Geraldo Pereira (O Segundo Bandolim)


À tardinha e em sábado assim, de uma tropicalidade exagerada, sentado no alpendre de casa e sob o trinar derradeiro do sabiá, li O Segundo Bandolim, de Octávio Pernambucano da Costa. Um pequeno romance, no qual estão inscritas e escritas velhas histórias, transformadas em estórias. Algumas do século XIX, ouvidas dos antepassados e outras do tempo contemporâneo, por isso mesmo posta ali, no livro, a título de resgate pessoal das memórias. Personagens que foram reais, diz o autor, que preencheram cenários e que protagonizaram cenas da vida, menos Aurora, nascida do imaginário, simplesmente criada ao gosto do ficcionista. Essa, a mulher ideal, que aflora na hora da inspiração literária, forjada às custas de muitas outras, trazendo no todo uma integralidade construída em partes. Pela beleza que impressionou e pelas formas de corpo que mais se adequaram às sensuais exigências do escritor, pela inteligência e pela loquacidade, como pela sensibilidade, de almas femininas tocadas pelas virtudes do espírito e do sentimento. Figurante, pois, de enredos carregados de afetividade, de carinhosas palavras dantes verbalizadas e anos após novamente expressas sob o manto agora mais do que protetor da ficção. Só assim o prosador, poeta tantas vezes, faz ressurgir figurantes dos tempos, que as brumas do passado embalam com as nostálgicas loas das lembranças!

E com o texto de Pernambucano da Costa tive a satisfação de fazer uma longa viagem de volta nos anos, a lugares até que não imaginava retornar dessa forma, em pensamento. Fui rever o Quem-me-Quer, aquela longa mureta no centro da cidade, emoldurando as margens do rio das capivaras, de um lado e de outro, na qual sentavam muitos dos que me acompanharam na jornada da juventude. Lugares reservados às moiçolas casadoiras da banda de cá, nas proximidades do São Luiz. E mais outros, na banda de lá, para as mulheres de vida fácil, mas de cujas dificuldades tantas se sustentaram. E diz o nosso romancista, estreante na arte da ficção, que ali há: “... gente fazendo uma parada para esquecer a mágoa, gente expandindo felicidade, gente pedindo gente com os olhos”. E era isso mesmo! Quantas e quantas vezes vi com esses olhos de agora figuras absortas, olhando o largo vazio do firmamento, distante do mundo e das coisas, como as pessoas pensando na vida, no existir terreno, mastigando desditas e mitigando o padecer d’alma! Ou quantas vezes assisti o riso brotar das viçosas faces de meus contemporâneos, de moças e de rapazes vendendo alegria e distribuindo humores! Do mesmo jeito os amores, aqueles que floresceram e de todos os deuses mereceram as bênçãos e os que feneceram no pranto chorado, silente ou ruidoso, nas muretas de pedra!

Fui à rua Formosa – a Conde da Boa Vista de hoje –, à Imperatriz e à rua Nova, à rua do Sol e a muitas outras, todas do Recife daqueles antanhos, fiz o footing e outra vez me sentei no Quem-me-Quer, destino derradeiro dos encantos urbanos. Nos bairros de São José e Santo Antônio, na Boa Vista e no Espinheiro vi as cadeiras nas calçadas e o povo fiando conversa. Nas casas de grandes quintais, nos terreiros de outrora, estavam estendidas as roupas lavadas, a secarem ao sol e ao vento, despertando fantasias, como no livro, no imaginário dos meninos! Ouvi os pregões do Recife, cantados e decantados por Octávio Pernambucano da Costa. Temática, aliás, sobre a qual já me detive e para a qual obtive a maior de todas as repercussões! O escritor lembra do homem que trazia às costas verdadeiro armazém de utilidades: “papé pega-mosca, abridô de lata, espanadô, vassoura e abano, rapa-coco e grêia…”. Mais interessante ainda o amolador de tesouras, que, na verdade, a tudo amolava, tocando um realejo de tubos crescentes, a deslizar nos lábios, para um lado e para outro, sob a ação de um sopro nascido das inspirações do espírito. E foi no povoado de Duarte Coelho, na velha Olinda, onde Aurora encontrou-se com Álvaro, que eu me encantei também com a musa de meus dias e fiz daquilo ali, das calçadas altas e largas, os meus altares, deixando-me fluir o culto à magia da beleza e da inteligência.

Eu também li A Carne às escondidas, no quarto da empregada, com a cumplicidade de Virgínia, nascida nos Palmares, criada na palha da cana e amada na bagaceira. E conheci a petisqueira, na qual se guardavam as frutas das árvores do quintal e na qual estavam penduradas as xícaras, pelas asas. Desapareceu do ambiente doméstico por falta de espaço, substituída pelos armários da modernidade! E fui, então, acrescentando as minhas coisas, para misturar as saudades! Na sala, o velho Lavatório, em desuso já, mas trazendo de volta a minha avó paterna, a casa-grande do engenho, como a louça inglesa e os talheres de prata, com inscrições que diferenciaram a família antes da debacle do açúcar.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing