sábado, 22 de novembro de 2025

Lia Monterra (Chico Manhoso)

Este causo me foi contado pelo seu João Rocha, enquanto o chimarrão corria de mão em mão, lá na cozinha da dona Rosalina. Não posso precisar se o causo se passou lá na Palmeira mesmo, ou não. Mas que é pitoresco isso é.

Lá nas bandas, onde eu morava, tinha um bolicho (bar e armazém) donde os cueras (pessoas valentes) se enfiavam o domingo todo, tomando cachaça e comendo linguiça e rapadura.

Nós não sabia como ia enjeitá um tal de Chico Manhoso. O cara que metia espinho nos garrão (parte da perna) da gente! Um dia ele chegou e, como sempre, contando lorota.

“Eu sou um ortigão (quem vive no mato) que ninguém bobeia e quem chega perto de mim já sabe que leva coceira! Não nasceu ainda o guasca (homem caipira e rude) que me bote areia no olho! Bem, seu Fabrício, vá buscá a ovelha que lhe comprei, tenho que metê o pé, quero vê se chego cedo pra entregá esta bicha ao patrão. Parece que ele vai carmá amanhã.”

Amarrou a dita cuja e ia puxando ela pela corda, meteu as espora nas anca do pingo (cavalo) e lá se foi naquele passo lerdo do matungo.

Foi aí que eu tive uma ideia e falei:

— Vamos passá um trote no bicho Manhoso?

— De que jeito? perguntaram os companheiros.

— Dá prá cá um par de chinelo novo e fique esperando. Lhes garanto que dentro de dez minutos eu tô de volta com a ovelha do Chico!

— Os cueras toparam e dali a pouco eu montava no Tufão um cavalo que era uma beleza e seguia por um atalho indo esperá o Chico chegá. Me escondi numas toceras e esperei pra ver se o loroteiro caía na armadilha que eu tinha preparado para ele.

Dali a pouco eu via lá longe, o Chico pará e olha pro chão onde eu tinha botado um pé de chinelo. Depois, como era só um pé, decerto achou que não adiantava e seguiu adiante. Parou desta vez ali perto da onde esta. E, eu vi ele dizê:

— Vejam só! Eu deixei de pegá aquele pé lá adiante por ser desparcerado e agora acho o outro! Vou vortá e pegá ele. 

Deixou o cavalo amarrado numa arvorezinha e voltou a pé no mais.

Eu que tava esperando por isso desamarrei a ovelha meti em cima dos arreio e finquei o pé, voltando pro bolicho; eu só queria vê a cara do Chico quando deu falta da ovelha...

Não demorou e o Chico voltava dizendo:

— Vim comprá outra ovelha. Não é que vendi aquela!...

Nós se olhemo mas não dissemo nada.

— Então leve esta, Chico, é do mesmo peso e preço da outra.

E o Chico sem nada desconfiá comprou a mesma ovelha. Mas a história não ficou aí, logo que eu vi o danado sumi na vorteada do caminho montei de novamentes, no meu pingo e fui esperá ele no mesmo caminho.

Nisso chega o Chico, assobiando uma toada.

— Deixa que logo tu deixa de assobiá, te garanto, resmunguei.

Depois comecei a berrá que nem ovelha me metendo cada vez mais pra dentro do mato. Aí eu ouvi o Chico gritá todo faceiro:

— Ah! Tu tá ai fujona! Deixa que já te ensino.

E se meteu mato adentro procurando a ovelha.

Eu que não era bobo nem nada, aproveitei e peguei a ovelha e lá me fui pro bolicho! Os companheiros não queriam acreditá no que viam! Mas ali estava a ovelha outra vez!

— Veja, lá vem o Chico de novo! Será que ele desconfiou?

— Vai me dizê, Chico, que quer comprá outra ovelha?

— Disse bem, seu Fabricio, respondeu o arteiro, com ares importantes. Acontece que passei a bendita nos pila! Achei um trouxa que me comprou, logo ali adiante, comigo é assim: olho vivo e pé ligeiro!

Mas aí eu não aguento mais e estourei:

- Não seja gabola, Chico Manhoso! Tu é mais burro de que eu pensei! Tu caiu bem direitinho no meu logro! Eu te tirei pela primeira vez a ovelha quando tu foi buscar aquele pé de chinelo. E te tirei a segunda ovelha quando tu saiu para campear dentro do mato a ovelha que tu pensava que tinha fugido, agora comprou pela terceira vez a mesma ovelha.

— Fica sabendo que fui eu quem te levei no "pacote" das ovelhas. Isso talvez te cale a boca!

Nós caímo na gargalhada. O Chico não sabia por onde se virá e quasi que não achava a porta da saída! Saiu que nem veado acuado, mas lhes garanto que naquele terreiro ele não canta mais...

Fontes:
Revista Jangada Brasil. Imaginário. Março 2011 - Ano XIII - nº 145. Acesso em 28.12.2012
http://www.jangadabrasil/20revista/im14502.asp.htm 
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Contos do Folclore Brasileiro (Alagoas) A Lenda da Princesa do Furado


Diz a tradição que na conquista holandesa, os flamengos se apoderaram do Engenho Santo Antônio do Furado, comumente conhecido como Furado. 

Quando os flamengos foram derrotados, não puderam conduzir um grande tesouro, que teria sido enterrado na gruta de pedra calcária ali existente e que denominaram Buraco do Furado. Logo à entrada da gruta existia uma pequena sala, cujo teto tinha o formato de um sino, que desapareceu com a extração da pedra para a fabricação da cal. Após esta sala, a gruta torna-se mais estreita, afirmando as pessoas que lá estiveram, mas adiante passa uma nascente que vai sair à beira do Rio São Miguel. 

Perto da gruta há um antigo paredão de alvenaria, principalmente de uma represa, que não se sabe para que foi levantado, e entre o paredão e a entrada da gruta existe uma pedra à superfície da terra onde há desenhos, parecendo sinais cabalísticos. 

Dizem ter ali uma passagem secreta subterrânea para o lugar do tesouro, sendo os sinais hieróglifos indicadores dessa passagem. 

Coisa interessante é a capela do engenho, que antigamente o dono da propriedade que residia perto da gruta não podia dormir, porque da hora do Ângelus em diante, se ouvia parecendo vir do fundo da gruta, rufar de tambores, cornetas e ordens de Pádua. 

Foi construída uma Igreja com a frente voltada para gruta, desde dali desapareceu a assombração. Contam também que, em noites de luar, viajantes que por ali passavam, rumo à cidade, deparavam com uma linda moça loura, sentada na pedra da entrada da gruta, que costumava fazer encomendas de fitas, linhas, agulhas e outras bugigangas, não sendo encontrada na volta para a entrega das encomendas.
Fontes:
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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Asas da Poesia * 133 *


Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Tenho tantas perguntas 
O tempo dá-me as respostas possíveis 
Não necessariamente aquelas
Que mais gostaria de escutar 
Sinto-te e quero-te...
Um querer tão forte que provoca um aperto
Nesta ambivalência onde me sou inteiro
E onde também estás em completude.
Confio no universo 
Num caminho de sinais
Acreditando que nem tudo tem resposta plausível 
Sei que algo virá 
Que em momento certo acontecerá 
Desejos abraçados, corpos unificados
Um sentimento único, não mensurável.
Quero-te tanto
Nesta consciência que dói
Nesta realidade de saber que preciso 
Libertar as asas da tua felicidade.
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Soneto de
TIAGO
(António Barradas Barroso)
Paredes/ Portugal

Sinais da Idade

O verso já não flui com à vontade,
As rugas, o meu rosto, vão sulcando,
A noite, já mais cedo, está chegando,
E há mais recordações da mocidade.

No peito, cresce, agora, uma saudade,
Cabelos brancos há, mas rareando,
E, aos poucos, um inverno se instalando,
Promessas de trovões e tempestade.

Sinais, tantos sinais que a vida dá,
Que vão surgindo aqui, ou acolá,
Mas sempre com condão, ou com virtude

De esclarecer, em mim, grande dilema,
Devo, ou não, elaborar novo poema
Se inda há, no pensamento, juventude?
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Poema de
EUGÊNIO DE SÁ
Sintra/ Portugal

Ontem...

Ontem, perdi as ilusões de ser feliz
Pensei... que depois do adeus, te veria de volta
Mas, bárbaro destino; nenhum de nós o quis!

Depois de ontem...

Ontem, esquecido o norte, barco à solta
Sem leme, sem vontade a dar-me rumo
Já nem um esgar assumo, de revolta.

Um ano depois de ontem...

Ontem, vi-te num bar; queres um café?
Como vai tua vida, estás feliz?
E as mãos se deram, sem saber porquê.
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Trova Popular

O pouco que Deus nos deu
cabe numa mão fechada;
o pouco com Deus é muito,
o muito sem Deus é nada.
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Soneto de
TITO OLÍVIO 
Faro/ Portugal

Meu Futuro

Vou pintar meu futuro de esperança
E por-lhe asas azuis, da cor do céu,
Para atingir o sol, se houver bonança,
Sem ninguém ver, oculto por um véu.

Será, porque assim quero, apenas meu,
Já que o passado foi, desde criança,
Luta minha, que a sorte pouco deu,
Mas passei a ter já mais confiança.

Quero beber a luz de cada aurora,
Chorar cada minuto de demora
P’las coisas que no tempo já perdi.

Não sei quanto me resta. Quero só,
Até ser finalmente outra vez pó,
Gozar tudo o que ainda não vivi.
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Poema de 
CRIS ANVAGO
Lisboa/ Portugal

A lua e o sol 

Esta noite a lua não está cheia
Nem é lua nova
Pode ser meia-lua ou quarto minguante
Não sei distinguir

A lua só aparece quando quer
Por vezes esconde-se por detrás das nuvens

A lua é inconstante
Assim como o sol

São irreverentes
Têm vontade própria
E brilham à sua maneira
Mas podem ser amigos a vida inteira

Encontram-se poucas vezes…

Quando o sol caminha para outro lugar
A lua aparece já sem tempo para o abraçar

Mas, quando se querem abraçar
ou encontrar-se mais perto
Existe a eclipse lunar
e, a terra não os deixa abraçar

A lua e o sol comandam as marés…

A lua não pode ter o sol a seus pés
O sol é movido pelo sentimento das marés

São distintos, fortes e frágeis
Belos elementos da natureza
Furacão, sentimento e beleza

O sol e a lua são seres potentes
Enigmáticos
Seres únicos na natureza!
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Dobradinha Poética (trova e soneto) de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Pés andarilhos

O trem sua meta alcança,
girando as rodas nos trilhos…
Meu caminhar que, hoje, avança,
conta com pés andarilhos!

Não sei dizer, quanto em quilometragem,
nem quantas as estradas percorridas...
Posso afirmar: depois de longa viagem
meus pés estão dispostos a outras idas.

Sendo andarilhos, levam na bagagem
minhas vitórias — poucas — conseguidas;
também derrotas, e essa desvantagem
é que impulsiona para mais corridas!

“Tanta importância dada aos pés, no entanto,
parece injusta e traz calado espanto
a um corpo, quase todo" — alguém diria.

Lembro que, ao corpo, dão sustentação
e exalto, aqui, o poder: locomoção...
Porque sem pés, andar não poderia!...
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Poema de
ISIDORO CAVACO 
Faro/ Portugal

Sonho Louco

És a luz no infinito
E o sonho em que acredito
Poder contigo encontrar;
Faço poemas na rua
Com os retalhos de Lua
Que vejo no teu olhar.

Grito mais alto que o vento
Porque trago em pensamento
Esse amor que tanto quero,
Neste silêncio que é meu,
Onde apenas vivo eu
E a toda a hora te espero.

Dizer que te amo é pouco
Ao viver meu sonho louco
Numa ilusão permanente;
Até nas ondas do mar
Eu ouço pronunciar
Teu nome constantemente.

Tenho na alma esculpida
Essa tua imagem qu’rida,
Que já não posso apagar
Deste meu destino estreito,
Que vegeta no meu peito
Sem asas para voar.
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Soneto de
DANTE MILANO
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

Divagação

Penso, para esquecer... Apenas vivo
Aquilo que me passa pela mente
E se vai desdobrando interiormente
Em forma de soneto pensativo.

Invento — não existe — algum motivo.
Como quem escrevendo à amada ausente
Imagina maior o amor que sente,
— Oh, tudo o que há no amor de descritivo —

Como o que ama de longe, assim pareço.
E ao me lembrar de tudo quanto esqueço,
(O voo da ave é uma existência à-toa?)

Escrevo a minha vida que se esfuma
Na distância... — Ah, bem sei que habito numa
Bola que rola e piso um chão que voa...
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Poema de 
CREMILDE VIEIRA DA CRUZ 
Lisboa/Portugal

Embrulho

Embrulhei-me num embrulho,
Fiquei assim embrulhada.
Quis desfazer o embrulho,
Mas fiquei mais embrulhada.

Pus o embrulho num canto,
Perdi o canto do embrulho.
Fiz de tudo uma embrulhada,
Perdi até o meu canto;

Ficou dentro do embrulho.
Ando assim desesperada,
À procura do embrulho!
De campainha na mão,

Subo escada, desço escada,
Chamo, chamo, pelo embrulho,
Espreito pelo corrimão,
vejo só uma embrulhada.
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Soneto de 
MÁRIO ZAMATARO
Curitiba/PR

A coisa do povo

Que coisa estranha o legado deste povo...
É coisa sua e quem usa a sua coisa
é outro alheio senhor da coisa alheia
apoderado das coisas do poder

E a coisa feia é pintada como linda
emoldurada em tecido corrompido
onde a pobreza é disfarce da miséria
e onde a verdade é forjada na caneta

Coisa tomada por quem quer ter direito
e é tão suspeito e comete o vão delito
à luz do dia ou da noite tanto faz

Coisa perversa que ecoa no silêncio
e que malversa a ilusão de ser feliz
enquanto a pública rês rumina morte
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Hino de 
Muitos Capões/RS

Ascende a chama do nosso Planalto
Capoense do Sul altaneiro
Esta querência que leva o reponte
Campeirismo na voz do rodeio.

Irmanados nos pagos que acampa
Na essência nativa da terra
Simbolizando a cultura gaúcha
Nestes campos de cima da serra.

Soberano Patrão das alturas
Que a nós estendeu orações
Abençoe as águas do Saltinho
Natureza de Muitos Capões.

E o campo tem muitas riquezas
Araucária nasceu o pinhão
Na certeza de um novo amanhã
Houve sempre o cantar do charão.

Na certeza de um novo amanhã
Houve sempre o cantar do charão
Cavalhadas, festas de rodeio
Patrão do tempo no lombo da história.

Tradição de um povo serrano
Que o Rio Grande guarda na memória
Este pago serrano garboso
Hospitaleiro, sem luxo.

Muitos Capões cavalga rumo ao futuro
Exaltando seu pampa gaúcho
Muitos Capões cavalga rumo ao futuro
Exaltando seu pampa gaúcho.

Soberano Patrão das alturas
Que a nós estendeu orações
Abençoe as águas do Saltinho
Natureza de Muitos Capões
E o campo tem muitas riquezas.

Araucária nasceu o pinhão
Na certeza de um novo amanhã
Houve sempre o cantar do charão

Na certeza de um novo amanhã
Houve sempre o cantar do charão.
= = = = = = = = =  

Soneto de 
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR , 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

Sai... azar!

Seis horas. Estação da Leopoldina.
Tomo o trem. Mal me abanco, uma velhota,
De setenta anos, fala, sopra, arrota,
Numa desenvoltura de menina.

Quero ler. A carcaça, de voz fina,
Tanto fala e me diz tanta lorota,
Que, na raiva, o jornal se me amarrota
E ainda o raio da velha me bolina.

Quero fugir. A peste me segura.
Por pouco mais me torno um assassino.
Sinto que passa um vento de loucura.

E julgo ver que, em meio ao desatino,
Eu era da polícia a atroz figura,
E a velha era a figura do Aurelino.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O urso e o amador de jardins

Em um bosque solitário
De funda mudez sombria.
Por lei do destino vário
Oculto um urso vivia.

Podia perder, coitado,
O juízo; vem dele a míngua
Ao que se vê isolado
Sem ter com quem dar à língua.

É muito bom o falar,
O calar-se ainda é melhor.
Dos sistemas no abusar
É que se encontra o pior.

Como no bosque recurso
Para conversar não achava,
Aborreceu-se o nosso urso
Da vida que ali levava.

E enquanto em melancolias
Ia consumindo o alento,
Não longe passava os dias
Um velho em igual tormento.

O velho amava os jardins
Que a capricho Flora esmalta:
Belo emprego, mas dos ruins
Quando um bom amigo falta.

E cansado de viver
Com gente que muda nasce,
Meteu-se a caminho, a ver
Se achava com quem falasse.

Ora, quando o velho ia
Saindo para a jornada,
Do bosque o urso saía
Levando a mesma fisgada.

Encontraram-se — era cedo —
E o velho, como é de crer,
Teve do urso grande medo
Como teria qualquer.

Mas por fim, julgando-o manso,
Com ele simpatizou:
«Queres jantar com descanso
No meu lar?» Ele aceitou.

Comeram; de alma no centro
Nenhum receou perigos;
E ficam portas a dentro
Vivendo os dois como amigos.

O velho as flores regava,
Com que muito se entretinha;
O urso saía, caçava
E abastecia a cozinha.

E tanto afeto exibia,
Embora em maneiras toscas,
Que quando o velho dormia,
Até lhe enxotava as moscas.

Mas um moscardo* maldito
Apareceu, tão ruim,
Que o urso se viu aflito
Para conseguir o seu fim;

E, de raiva furioso,
Agarra num matacão*,*
E esborrachou o teimoso...
Sobre a tola*** do patrão!...

A mil iguais fulanejos****
Lance a Parca a dura foice:
Querem encher-nos de beijos,
E o que dão, por fim, é coice!
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* Moscardo = moscão.
** Matacão = Grande pedra solta, arredondada
*** Tola = não achei significado, creio ser “cabeça”, “cachola”. (JF)
**** Fulanejos = fulanos quaisquer
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Renato Benvindo Frata (Nosso labirinto particular)


Relendo a História de Minotauro antes de Teseu e analisando seu sofrimento por ter nascido diferente dos humanos - metade homem e touro, que vivia num labirinto a aprisionar e a matar para se alimentar, vem a pergunta: por que as pessoas se arriscavam nos estreitos corredores do labirinto, sabendo-o perigoso? Por curiosidade. Acreditavam que as paredes contavam o futuro de cada um em histórias fantásticas, daí a motivação. Creta, então, vivia o dilema: possuía uma riqueza especial com paredes falantes e, também um monstro horroroso.

Minotauro, na porção humana, era triste, pensativo e, sabendo da imperfeição em relação a outros, se tornou soturno, tomado pela necessidade de compreensão, de amor, de conexão que o fizesse se não igual, ao menos aceitável. E ali, no labirinto, com somente ele sabendo da entrada e da saída, fizera seu abrigo. Em contraste, também sua prisão em meio às pedras especiais. Estava destinado a viver só, com o amargor de pensamentos, desejos e sensações.

Sua história é linda e em muito se assemelha à de cada um de nós respeitada a individualidade. Ele sonhava em poder sair, vencer seus muros, apreciar o sol, lua, estrelas, sentir o perfume da relva em manhã de orvalho. Ter alguém com quem dividir a alegria, a tristeza que tece a vida como a um quebra-cabeças, e que faz do ser humano o único capaz de resolver tão intrincadas coisas que constroem. O ser humano era aguerrido, insatisfeito com o que fazia, por isso inventava. Ele gostaria de fazer o mesmo que o lenhador, o oleiro, construir com tijolos sua proteção, afiar uma faca para melhor cortar, arredondar o quadrado para melhor conduzir. Mas sua imperfeição corporal não o permitia. Por isso a imorredoura tristeza, a revolta e a agressão contra aqueles que lhe invadiam seu único espaço.

Trazendo o mito desse “monstro” solitário que vive em nós, e analisando as noites insones que nos pegam por horas encontrar, na penumbra, a solução ao que tira nosso sono, podemos dizer que cada um, nessa condição, constrói seu próprio labirinto, onde conviverá com seus defeitos ou deficiências em auto piedade enquanto se inunda de tristeza e faz da situação, a eterna prisão, ou agir com sabedoria como Ariadne, que entregou ao amado Teseu um rolo de barbante orientando-o a que amarrasse uma ponta na entrada do labirinto e a esticasse aonde fosse, para encontrar o caminho de volta.

O labirinto de Minotauro era tão misterioso como é nossa mente; intimamente ele buscava a saída não somente da prisão/abrigo, das paredes invisíveis que construíra dentro de si, assim como nós ao supervalorizar os problemas diários, as perdas, as lutas inglórias, os chororôs do insucesso, as pendências financeiras ao ponto de trocar horas de nosso sagrado repouso, ao ruminá-los sem sucesso.

Diz com sabedoria ‘MC Von Zuben’, no trabalho “O Nó(s) que Nunca Desata: o Fio de Ariadne e o Labirinto do Autoconhecimento” – que merece ser lido. - Contempla em resumo que: todos e cada um estamos conectados em um nó que nunca desata. Nossas relações, por mais complexas, não podem ser apagadas: há um fio invisível a nos unir e um labirinto para cada um. Esse fio sempre nos leva até nós mesmos; e só podemos lutar contra nosso Minotauro com a força animalesca que temos, guiados pelo fio para sair do ‘labirinto’. Desprovido dele, continuaremos a vagar pelo escuro como temos feito indefinidamente, razão de nossa amarga insônia.
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RENATO BENVINDO FRATA (79) nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
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José Feldman (No coração da arte)

Texto construído tendo por base a trova de Antônio Juraci Siqueira (Belém/PA)
Mata a revolta em teu peito,
não a deixes florescer:
rio com pedras no leito
não pode alegre correr!...
Em uma cidade do interior, onde a vida pulsava em cada esquina e as cores das flores enfeitavam os jardins, havia um ar de expectativa. No entanto, sob a superfície dessa beleza, muitas pessoas carregavam revoltas silenciosas. A cidade, com suas ruas movimentadas e sorrisos superficiais, escondia angústias que frequentemente se manifestavam em olhares tristes e conversas sussurradas.

Entre os habitantes, estava Daniel, um jovem artista cujas obras refletiam a complexidade da vida ao seu redor. Ele era conhecido por sua sensibilidade e por captar a essência das emoções humanas com suas pinceladas. Mas, nos últimos meses, Daniel se sentia cada vez mais frustrado. A pressão da sociedade, as expectativas familiares e a luta por reconhecimento como artista o deixavam inquieto. Sua alma criativa, antes livre, agora estava aprisionada por uma revolta crescente.

Certa manhã, enquanto caminhava pela feira local, Daniel viu algo que o tocou profundamente. Uma mulher idosa, com o rosto marcado pelo tempo, estava vendendo flores. Seus olhos, embora cansados, brilhavam com uma sabedoria única. Ela sorria para cada cliente, oferecendo não apenas flores, mas esperança. Daniel parou para admirar a cena, mas logo a revolta em seu peito começou a se manifestar. “Por que as pessoas não veem a beleza que realmente importa?”, pensou, sentindo-se frustrado com a superficialidade ao seu redor.

A mulher percebeu sua inquietação e, quando ele se aproximou, disse: – Caro jovem, mata a revolta em teu peito, não a deixes florescer. 

As palavras dela ressoaram em sua mente, como um eco de sabedoria. Daniel hesitou, mas decidiu compartilhar suas preocupações. 

– Sinto que a arte e a sinceridade estão se perdendo nesta cidade. Todos parecem tão focados em seguir o que é esperado, esquecendo-se do que realmente importa.

A mulher sorriu com ternura. 

– A vida é como um rio, meu jovem. Se o leito do rio está cheio de pedras, ele não pode correr alegremente. Se você deixar a revolta dominar, não conseguirá fluir. A arte deve ser um reflexo da vida, e a vida é feita de altos e baixos. Encontre beleza nas pedras e transforme-as em parte da sua jornada.

A conversa com a mulher deixou Daniel pensativo. Ele percebeu que estava permitindo que a revolta o impedisse de criar. Aquelas palavras o inspiraram a buscar a beleza nas dificuldades, a transformar sua dor em arte. Decidiu que era hora de mudar sua perspectiva e não deixar que a frustração o definisse.

Nos dias seguintes, Daniel começou a trabalhar em uma nova série de pinturas. Em vez de se concentrar apenas nas alegrias da vida, ele decidiu capturar também as lutas e as emoções complexas que todos enfrentavam. Usou cores escuras para representar a dor e a revolta, mas também introduziu tons vibrantes que simbolizavam a esperança e a resiliência. Cada pincelada era uma tentativa de mostrar que, mesmo em meio ao sofrimento, a beleza poderia surgir.

Quando chegou o dia da exposição, a cidade estava em festa. As pessoas se reuniram para celebrar a arte e a cultura local. 

Daniel estava nervoso, mas também animado. Suas pinturas, que refletiam sua jornada interna e a luta comum de muitos, começaram a atrair a atenção. As pessoas paravam diante de suas obras, algumas com lágrimas nos olhos, outras sorrindo ao reconhecer suas próprias histórias nas telas.

Uma jovem se aproximou dele e disse: – Seus quadros me tocaram profundamente. Nunca pensei que alguém pudesse expressar tão bem o que sinto por dentro. 

Daniel sorriu, sentindo que a conexão que buscava finalmente se concretizava. Ele percebeu que sua arte tinha o poder de tocar os corações das pessoas e que, ao compartilhar suas emoções, poderia também aliviar a revolta que muitos carregavam.

A exposição foi um sucesso, e a cidade começou a se transformar. As pessoas começaram a falar mais sobre suas emoções e a compartilhar suas lutas. Daniel se tornou um símbolo de coragem e autenticidade, mostrando que é possível enfrentar a revolta e ainda encontrar beleza na jornada. As conversas nas praças e cafés agora incluíam discussões sobre arte, vida e a importância de abraçar tanto as alegrias quanto as tristezas.

Certa noite, enquanto caminhava pela cidade iluminada, Daniel encontrou a mulher idosa vendendo flores novamente. Ele se aproximou e a agradeceu. 

– Você me ajudou a ver a beleza que estava escondida. Agora, consigo fluir como um rio. 

A mulher sorriu, seus olhos brilhando com a sabedoria que só o tempo pode trazer. 

– Lembre-se, jovem artista, que a vida é feita de ciclos. Sempre haverá pedras no caminho, mas é sua escolha como lidar com elas.

E assim, Daniel aprendeu que a revolta, quando bem direcionada, pode se transformar em força criativa. Pois, ao matar a revolta em seu peito, ele não apenas encontrou seu próprio caminho, mas também reacendeu a luz em outros, mostrando que, mesmo com pedras no leito, é possível fazer o rio correr alegremente.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".
Fontes:
José Feldman. Caleidoscópio da vida. Floresta/PR: Plat. Poe. Voo da Gralha Azul.
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Daniel Munduruku (Escrita indígena: registro, oralidade e literatura O reencontro da memória)


A escrita é uma conquista recente para a maioria dos 305 povos indígenas que habitam nosso país desde tempos imemoriais. Detentores de um conhecimento ancestral apreendido pelos sons das palavras dos avôs, estes povos sempre priorizaram a fala, a palavra, a oralidade como instrumento de transmissão da tradição, obrigando as novas gerações a exercitarem a memória, guardiã das histórias vividas e criadas.

A memória é, ao mesmo tempo, passado e presente, que se encontram para atualizar os repertórios e possibilitar novos sentidos, perpetuados em novos rituais, que, por sua vez, abrigarão elementos novos num circular movimento repetido à exaustão ao longo da história.

Esses povos traziam consigo a Memória Ancestral. Entretanto, sua harmônica tranquilidade foi alcançada pelo braço forte dos invasores: caçadores de riquezas e de almas. Passaram por cima da memória e escreveram no corpo dos vencidos uma história de dor e sofrimento. Muitos dos atingidos pela gana destruidora tiveram que ocultar-se sob outras identidades para serem confundidos com os desvalidos da sorte e assim sobreviver. Esses se tornaram sem-terras, sem-teto, sem-história, sem-humanidade. Tiveram que aceitar a dura realidade dos sem-memória, gente das cidades que precisa guardar nos livros seu medo do esquecimento.

Por outro lado – e graças ao sacrifício dos primeiros povos – outro grupo pôde manter sua memória tradicional e continuar sua vida com mais segurança e garantia. Esses povos foram contatados um pouco mais tarde, quando os invasores chegaram à Amazônia e tentaram conquistá-la, como já haviam feito em outras regiões. Tiveram menos sorte, mas também fizeram relativo estrago nas culturas locais e as tornaram dependentes dos vícios trazidos de outras terras. Foram enfraquecidos pela bebida, entorpecidos pela divindade cristã e envergonhados em sua dignidade e humanidade.

Esses povos – uns e outros – estão vivos. Suas memórias ancestrais ainda estão fortes, mas ainda têm de enfrentar uma realidade mais dura que a de seus antepassados. Uma realidade que precisa ser entendida e enfrentada. Não mais com um enfrentamento bélico, mas através do domínio da tecnologia da cidade. Ela é tão fundamental para a sobrevivência física quanto para a manutenção da memória ancestral.

Se estes povos fizerem apenas a “tradução” da sociedade ocidental para seu repertório mítico, correrão o risco de ceder ao canto da sereia e abandonar a vida que tão gloriosamente lutaram para manter. É preciso interpretar. É preciso conhecer. É preciso se tornar conhecido. É preciso escrever – mesmo com tintas do sangue – a história que foi tantas vezes negada.

A escrita é uma técnica. É preciso dominar essa técnica com perfeição para poder utilizá-la a favor da gente indígena. Técnica não é negação do que se é. Ao contrário, é afirmação de competência. É demonstração de capacidade de transformar a memória em identidade, pois ela reafirma o ser na medida em que precisa adentrar no universo mítico para dar-se a conhecer ao outro.

O papel da literatura indígena é, portanto, ser portadora da boa notícia do (re)encontro. Ela não destrói a memória na medida em que a reforça e acrescenta ao repertório tradicional outros acontecimentos e fatos que atualizam o pensar ancestral.

Há um fio muito tênue entre oralidade e escrita, disso não se duvida. Alguns querem transformar esse fio numa ruptura. Prefiro pensar numa complementação. Não se pode achar que a memória não é atualizada. É preciso notar que a memória procura dominar novas tecnologias para se manter viva. A escrita é uma delas (isso sem falar nas outras formas de expressão e na cultura, de maneira geral). E é também uma forma contemporânea de a cultura ancestral se mostrar viva e fundamental para os dias atuais.

Pensar a literatura indígena é pensar no movimento da memória para apreender as possibilidades de mover-se num tempo que a nega e que nega os povos que a afirmam. A escrita indígena é a afirmação da oralidade. Por isso atrevo-me a dizer como a poetisa indígena Potiguara Graça Graúna:

Ao escrever,
dou conta da minha ancestralidade;
do caminho de volta, do meu lugar no mundo.
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DANIEL MUNDURUKU (61), nasceu em Belém/PA. Escritor, professor, ator e ativista indígena brasileiro originário do povo munduruku. Graduou-se em Filosofia, História e Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, mestrado em antropologia social e doutorado em educação pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Diretor-presidente do Instituto Uk'a - Casa dos Saberes Ancestrais na cidade de Lorena, ONG e selo editorial especializados na temática indígena, é também membro da Academia de Letras de Lorena. Autor de mais de cinquenta livros, dentre os quais: Histórias de índio (1997), Kaba Darebu (2002) Coisas de índio (2003), Todas as coisas são pequenas (2018), Das coisas que aprendi (2014), Foi vovô que disse (2014), Catando piolhos, contando histórias (2014), Vozes ancestrais: dez contos indígenas (2016) etc. Vencedor de dois prêmios Jabuti: o primeiro, com a obra Coisas de índio em 2004, na categoria livro didático, ensino fundamental e médio; o segundo, com a obra Vozes ancestrais: dez contos indígenas, em 2017, na categoria literatura juvenil.

Fontes:
DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloisa Helena Siqueira; DANNER, Fernando (Orgs.) Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. (ebook)
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