terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) 152


Nos dias da Idade da Pedra os básicos necessários eram alimentação e alguma ferramenta. A cultura engatinhava. Invenção de necessidades - veio a roda, domínio do fogo, artes rupestres…

O mundo mudou, a vida mudou, nosso "sophós"* mudou, está em constância constante buscando, e por isso acumula. Sem perceber juntamos tanta coisa - cacos, tralhas, miudezas – que temos pena de mandar embora. O tempo urge, um belo dia nos damos conta de que não usamos espaços ou locais para algo realmente útil e necessário.

E a gente lembra Saint-Exupéry: "O essencial é invisível aos olhos". Então entendemos que o material pode ser apenas acessório, e podemos descartar. Praticar desapegos, fazendo o conhecido "5 S”**, só o essencial. Aproveitar sem polarizar.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
* Sophós = é um termo do grego antigo que significa "sábio", "instruído", "esperto" ou "hábil". Na filosofia clássica, representa a pessoa que alcançou a sabedoria, o conhecimento profundo ou a virtude.
** 5 S =uma metodologia japonesa de gestão focada na organização, limpeza e padronização do ambiente para aumentar a produtividade, segurança e eficiência. Criado pela Toyota, baseia-se em cinco sensos (Seiri [desapego], Seiton [ordenação], Seiso [purificação], Seiketsu [harmonia], Shitsuke [autodisciplina]), focados em utilizar apenas o necessário.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com Microsoft Bing, e desenho do autor. por por Jfeldman

Raul Pompéia (Idílio retrospectivo)


Jamais dois entes se amaram tanto.

Um era para o outro, e ambos para o amor; um amor egoísta, feroz, exclusivo, selvagem, adorável, único.

Tanto ardor era um perigo.

As fogueiras imensas correm sempre o risco de morrer depressa.

Mas aquele amor parecia inextinguível como o fogo de Vesta.

Durante o dia, viviam na comunidade do seu afeto, idolatrando-se mutuamente, com toda a energia de adoração que o olhar possui. Durante a noite, a ilusão do sonho prolongava deliciosamente a ventura dos dias...

Depois, separaram-se, por uma fatalidade... Cada um sepultou religiosamente no mais sagrado recôndito de sua alma a relíquia rara e santa daquela paixão...

Veio então essa coisa terrível que se chama o tempo...

Um ano... dois anos... quarenta anos passaram-se sobre aqueles peitos.

E cada ano que passa é uma túnica de pedra que reveste os corações.

Ela passara quarenta anos no Sul, ele os passara no Norte.

Agora encontravam-se os velhos.

Ela começava a ficar corcunda, a multidão dos netinhos comprimia-se-lhe timidamente nos joelhos, pedindo bênção. O formoso rosto de outrora era uma ruína então; sentia-se, a subir, a hora dos anos. Aqueles lábios que mal se viam, tinham saudade dos lábios de quinze anos, que tão lindos sorrisos souberam fazer... Apenas os olhos, macios como a luz da lua, os dois grandes olhos, eram os mesmos ainda.

Parece até que as sobrancelhas de prata os faziam mais belos. Restava essa compensação.

Às ruínas daquele rosto ficara a doce consolação do luar daqueles olhos..

O venerando sexagenário apertou afetuosamente as mãos magras da avó e colo de crianças, tomou as mãos rugosas longamente aos lábios.

Beijava, nas rugas daquelas mãos, a suave recordação dos bons idílios dos vinte anos.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Raul Pompéia (Angra dos Reis/RJ, 1863–1895, Rio de Janeiro/RJ) foi um importante escritor, jornalista e desenhista brasileiro, expoente do Realismo/Naturalismo, conhecido pela obra-prima O Ateneu. Estudou Direito, foi republicano, abolicionista e dirigiu a Biblioteca Nacional. 
Principais Obras: O Ateneu (1888), sua obra mais famosa, uma crônica de saudades autobiográfica, centrada na análise psicológica e crítica de um internato; Uma Tragédia no Amazonas (1880): Romance de estreia; As Joias da Coroa (novela). 
Frequentou o Colégio Abílio (internato no Rio de Janeiro) que serviu de cenário para O Ateneu. Cursou Direito em São Paulo. 
Suas obras caracterizadas pelo impressionismo/ realismo, possui descrições subjetivas, psicológicas e minuciosas, muitas vezes focadas na memória e percepção do narrador. Crítica severa às convenções sociais, abordando a hipocrisia e a corrupção do caráter. Influência naturalista, mostrando o indivíduo moldado pelo meio social (o colégio). Narrativa em primeira pessoa com tons confidenciais e irônicos. Descrições cenográficas intensas, reflexo do talento do autor como desenhista. Suicidou-se no Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1895, aos 32 anos.
Fontes:
Publicado originalmente no Jornal do Comércio, seção "Lembranças da Semana", em 1892. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por JFeldman

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 6 *

Sinaá (ou Sina’a), o grande herói mítico e ancestral do povo Juruna (Yudjá), conhecido por seus poderes xamânicos e por guardar o segredo do fim do mundo.


José Feldman (Floresta/PR)

Sinaá: Guardião do Destino

No centro do mundo, em tempos remotos,
Sinaá vivia com grande saber,
ouvia dos rios os sons mais devotos,
e o que estava oculto podia ler.

Xamã poderoso de força infinita,
ele era o mestre de toda a invenção,
sua voz nas aldeias ainda ressoa e habita,
trazendo a memória de cada ancião.

Diz a lenda antiga que o herói era imortal,
pois sempre trocava de pele e de cor,
vencia o tempo, vencia todo o mal,
mostrando ao seu povo o seu alto valor.

Mas ele guardava um segredo profundo,
no topo da serra, em um grande lugar,
um jarro que encerra o fim deste mundo,
se a tampa um dia alguém levantar.

Se o jarro se quebra, o céu desabará,
as águas do rio virão para o chão,
e nada na terra então restará,
será o silêncio da destruição.

Sinaá se cansou da maldade da gente,
dos homens que esquecem de toda a raiz,
partiu para longe, de modo imponente,
para um reino distante, por ser mais feliz.

Ele mora hoje no alto da serra,
sentado ao lado do jarro fatal,
olhando as batalhas que existem na terra,
e o rumo que toma o destino final.

Às vezes ele chora e o céu se escurece,
a chuva que cai é o seu lamento,
a tribo se cala, a aldeia padece,
sentindo a força do seu pensamento.

Ele ensinou como a roça se planta,
como fazer o polvilho e o beiju,
sua sabedoria até hoje encanta,
desde o Xingu até o alto Pacaás Novos e o Juru.

Se o homem a lei da floresta  respeitar,
e cuidar da vida com muito cuidado,
para o jarro na paz  perdurar,
e o fim por Sinaá continue guardado.

Mensagem na Garrafa 152 = Pregos na Cerca


AUTOR DESCONHECIDO

Era uma vez um garoto que tinha um temperamento muito ruim.

O Pai desse garoto deu-lhe um saco com pregos e disse-lhe que toda vez que ele perdesse a paciência, deveria martelar um prego atrás da cerca. 

No primeiro dia o garoto enfiou 37 pregos.

Em algumas semanas, ia aprendendo a controlar seu temperamento, e o número de pregos martelados por dia reduziu gradativamente.

Descobriu que era mais fácil controlar seu temperamento do que martelar todos aqueles pregos na cerca... 

Finalmente chegou o dia em que o garoto não perdeu a paciência nenhuma vez.

E disse aquilo ao seu pai. Este sugeriu que ele retirasse um prego por cada dia que ele conseguisse controlar seu temperamento.

Finalmente chegou o dia em que o garoto havia retirado todos os pregos da cerca. 

Então o pai pegou a mão do seu filho e o levou para a cerca e disse: "Você foi muito bem meu filho! Mas olha todos esses buracos na cerca. A cerca jamais será a mesma. Quando você diz coisas com a cabeça quente, elas deixam marcas como estas. Você pode ferir um homem com uma faca e depois tirar a faca, não importa quantas vezes você pedir perdão, a ferida ainda vai estar ali. Uma ferida verbal é tão grave quanto uma física.”

Lembre-se da lição que o pai ensinou para o filho. Que "buracos" você tem feito recentemente? Alguns podem ser grandes e outros pequenos. Sejam do tamanho que forem, cada buraco que é feito com raiva faz a vida um pouco mais feia. A próxima vez que você começar a sentir raiva, tente se expressar de maneira diferente e reduzir o número de buracos que você faz.

Fontes:
Lendas para reflexão.
Imagem criada com IA Microsoft Bing por JFeldman

Humberto de Campos (O amigo)


O engenheiro Adriano Walsh havia chegado de viagem, e convidara para almoçar em seu palacete, no dia seguinte, o seu opulento amigo Dr. Polidoro Tavares, advogado jovem e competentíssimo que era tratado na família com as maiores considerações.

O almoço, nesse dia, correu delicioso. 

Alta, esguia, elegantíssima com os fartos cabelos de ouro arranjados com encantadora simplicidade, Mme. Walsh mostrara-se, como sempre, deslumbrante de formosura e de espírito. Atordoada pela alegria do marido, os seus olhos, cinzentos e lindos, lembravam duas pérolas grandes e misteriosas, luzindo, magníficas, entre os canteiros de violetas das olheiras. Vestida de linho espumante, o seu vulto emergindo, na mesa, do tumulto dos cristais e da baixela de ouro, era como uma grande rosa branca, em torno da qual fervilhassem, disputando-lhe o pólen, miríades de insetos faiscantes.

Após o almoço, quando o sol já sonhava, cansado, com o leito longínquo das colinas, os dois amigos tomaram o automóvel, e desceram, juntos, para a cidade. 

Na Avenida, saltaram, e caminhavam, palestrando, por uma das ruas transversais, quando diante de uma fabrica de móveis, o engenheiro estacou, preocupado:

- Diacho! - proclamou. - Minha mulher pediu-me para mandar consertar um móvel em casa, e eu não me lembro agora, qual é a peça da mobília?

- Não é o divã da alcova, que está rangendo muito? - atalhou o advogado, insensível.

- É isso! é isso mesmo! É o divã da alcova! - lembrou-se o Dr. Walsh batendo na testa.

E entrou na marcenaria.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Dicas de Escrita (Como Escrever Sobre uma Cidade Fictícia) Parte 2

Coescrito por Stephanie Wong Ken, MFA *


Parte 2 – Criando os elementos fundamentais da cidade

1 – Escolha um nome. 

– Este é um dos principais elementos de qualquer cidade, certo? Ele provavelmente será repetido com frequência na história pelos personagens ou pelas descrições, logo, deve-se pensar em um nome que soe bem e tenha um propósito;

- Se quiser dar um toque mais "pé no chão" para a história, escolha um nome que pareça genérico e "comum". Nomes de santos e presidentes da república são bastante comuns, aparecendo em diversos estados diferentes, além de não contarem muito sobre a cidade em questão. Evite usar nomes muito característicos como Springfield — os leitores certamente associarão o seu texto com o desenho dos Simpsons;

- Escolha um nome que combine com a região onde a cidade está localizada. Se a história se passa na Alemanha, por exemplo, escolha um nome ou termo alemão que combine com ela. Se a cidade está no Canadá, escolha um nome de cidade real de lá e mude-o um pouco para criar o nome fictício;

- Evite nomes óbvios demais, como "Vingança" ou "Inferno", pois o leitor já saberá logo de cara o significado por trás do nome. Tais obviedades podem funcionar apenas quando a cidade funciona em contraste com o nome. Por exemplo, uma cidade chamada "Inferno" com habitantes gentis e extremamente agradáveis.

2 – Monte um registro histórico da cidade. 

– Agora que já deu um nome, é preciso pensar no que aconteceu na cidade até agora. Assim, você dará mais credibilidade para os personagens, fazendo com que o leitor acredite mais na história. Responda diversas questões sobre a cidade, incluindo:

a = Quem fundou a cidade? Pode ser um explorador solitário que trombou com a terra, ou um povo nativo que a construiu com ferramentas básicas. Pense nos indivíduos responsáveis pela origem da cidade.

b = Quando a cidade foi fundada? Isso pode ajudá-lo a ter uma ideia melhor do desenvolvimento do local, pois uma cidade fundada há 100 anos terá uma história mais densa do que uma fundada há 15 anos.

c = Porque a cidade foi fundada? Responder a pergunta o ajudará a descrever melhor o passado do local. Talvez ela tenha sido fundada através da colonização de um explorador estrangeiro. Talvez tenha sido fundada por pessoas que encontraram a terra vazia. Os motivo o ajudarão a compreender melhor os personagens, pois eles talvez tenham conexões pessoais com a cidade devido ao passado dela.

d = Qual a idade da cidade? Este é um elemento muito importante; uma cidade mais antiga pode apresentar detalhes preservados do passado, enquanto uma mais nova pode ter poucos prédios antigos e um planejamento mais experimental.

3 – Descreva as paisagens e o clima. 

– A cidade é cercada por montanhas e florestas ou fica no deserto, cercada de dunas? Ela pode ser mais urbana, com uma população enorme e diversos arranha-céus, ou pequena, com uma população diminuta e poucas ruas. Concentre-se em como um estranho veria a cidade, incluindo a vegetação, o terreno e o visual.

– Pense também no clima. Ela é quente e úmida ou fria e seca? A questão também depende da época do ano onde a história se passa. Em uma história que se passa no meio do inverno em uma cidade próxima do Rio Grande do Sul, por exemplo, o clima pode ser quente durante o dia e frio durante a noite.

4 – Analise a demografia da cidade. 

Leve em consideração os indivíduos que compõem a população, incluindo dados como raça, gênero e classe. Por mais que seja ficcional, a cidade deve apresentar variações e detalhes que a tornem mais genuína.

– Pense nos grupos raciais e étnico da cidade. Existem mais negros do que brancos? Determinados grupos vivem em áreas específicas da cidade? Existem áreas onde alguns grupos não são permitidos ou nas quais sentem-se desconfortáveis?

- Pense na dinâmica de classes da cidade. Um personagem de classe média pode viver em uma área da cidade, enquanto outro mais rico vive em um local mais caro e luxuoso. A cidade pode ser dividida por classes, com algumas áreas disponíveis apenas para certos níveis sociais.

5 – Desenhe um mapa. 

A representação física pode ajudar bastante na hora de escrever, mesmo quando não se entende muito bem de ilustração. Faça um esboço simples da cidade, incluindo os principais marcos dela, as casas dos personagens e os locais mais frequentados por eles.

– Detalhe os marcos da cidade, como as montanhas ou as dunas que a contornam e protegem a fronteira. Adicione o máximo possível de detalhes para construir um mundo fictício ainda mais convincente.

- Se conhece alguém que mande bem nas ilustrações, peça ajuda para desenhar um mapa mais completo. Se preferir, você pode utilizar o computador para construir o mapa. Use softwares como o Photoshop para recortar e colar imagens da internet para criar um mapa ou uma representação física da cidade.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
continua… 
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
* Stephanie Wong Ken é uma escritora que mora no Canadá. Seus textos já foram publicados por Joyland, Catapult, Pithead Chapel, Cosmonaut's Avenue e outras publicações. Possui um Mestrado em Ficção e Escrita Criativa pela Portland State University.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Aparecido Raimundo de Souza (E as máscaras dos “carnavais fracassados”?)


HAVIA, OU MELHOR, houve um tempo em que as máscaras do carnaval eram promessas de brilho, de fuga e de reinvenção. Cada rosto escondido atrás de um véu colorido carregava a esperança de ser um outro mais leve, mais livre, mais feliz. Mas nem todo carnaval cumpre a sua promessa. Quem leu “O País do Carnaval”, do baiano Jorge Amado... talvez volte no tempo e se ache no texto que abaixo escrevo. 

Nos “carnavais fracassados”, segundo Paulo Roberto Barros Braga, “as máscaras não escondem, apenas denunciam. O sorriso pintado escorre com a chuva, o brilho se apaga antes da meia-noite, e a fantasia pesa como fardo”. O batuque da bateria soa distante, como se o coração da festa tivesse perdido o compasso.

No dizer de Joãozinho Trinta, “São carnavais em que a multidão dança sem acreditar na própria coreografia, em que os confetes se confundem com a poeira, e os foliões se tornam espectadores de uma alegria que não chega”. As máscaras, outrora cúmplices da ilusão, se tornaram espelhos daquilo que não se quis ver: a solidão no meio da multidão, o vazio pesado por trás da euforia.

No entanto, apesar disso, há uma beleza melancólica nesses carnavais frustrados. O saudoso Luiz Fernando Veríssimo em um brilhante texto publicado no Jornal Zero Hora, assim se expressou: “Porque mesmo quando a festa não acontece, a máscara insiste em existir. Em ser. Ela guarda a memória de um desejo, de uma tentativa, de uma coragem de se reinventar ainda que por instantes. E cá entre nós, consegue”.

Pois bem! Talvez seja isso que nos move: a certeza de que, mesmo nos “carnavais fracassados”, há sempre uma máscara esperando para ser usada de novo, como quem acredita que a próxima dança, o próximo canto, o próximo riso, finalmente vingará.

Nos jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, costuma-se falar dos “carnavais como símbolos de alegria coletiva, da explosão cultural que atravessa ruas e avenidas. Mas há também os “carnavais que não vingaram”.  Aqueles que por falta de público, de recursos ou de espírito, se tornaram apenas promessas não cumpridas”.

As máscaras desses “carnavais fracassados” não esconderam as euforias, mas revelaram os desencantos e as tristezas. Eram rostos pintados que caminharam em desfiles esvaziados, fantasias que brilharam sob luzes apagadas, sambas que ecoaram em arquibancadas quase silenciosas. O que deveria ser catarse virou registro melancólico: a festa do povo que não aconteceu.

Do ponto de vista geral, esses episódios revelaram a fragilidade da tradição quando não há sustentação social ou econômica. O carnaval, afinal, é mais do que música e dança: é a infraestrutura, é o investimento, é a mobilização comunitária. Sem isso, as máscaras viram símbolos mortos de uma resistência falecida, mas também se queda inerte no mais puro dos abandonos.

E, no entanto, há uma dimensão reflexiva que merece ser destacada. Os “carnavais fracassados” não foram de todo enterrados, eles ainda hoje, “expõem a distância entre o desejo e a realidade. Entre a realidade e o desejo. Eles nos lembram que a festa não é apenas espetáculo, mas também e sobretudo, um pacto coletivo”. Por ser assim, e dessa forma, quando essa coesão se rompe e esse pacto se eclode, restam as máscaras como testemunhas não da alegria, mas da tentativa.

Talvez seja justamente nessa destruição fracassada que se encontre uma verdade nojenta e incômoda: o carnaval não é garantido, é uma conquista. E cada máscara guardada em gavetas ou esquecida em depósitos carrega dentro de si a memória fortificada de um esforço que não se cumpriu, mas que insiste em permanecer de maneira abrupta como lembrança de que, mesmo na derrota, ou mesmo mesmo no infortúnio não esperado, houve uma vontade férrea e promissora, uma aspiração quase sobre-humana de vivenciar uma celebração literalmente fermentada.

Quando pensamos em carnaval, obviamente a imagem que vem à mente é a da multidão vibrante, antenada, estridente e das escolas de samba disputando cada nota, dos blocos arrastando foliões pelas ruas, praças e avenidas. Mas a história brasileira também guarda episódios de carnavais que não vingaram, ou seja, de festas interrompidas, de desfiles esvaziados, de celebrações que se perderam entre crises políticas, econômicas ou sanitárias.

Um exemplo marcante, apenas para relembrar, sem dúvida alguma o Carnaval de 1919 no Rio de Janeiro, que deveria ser o primeiro após a devastadora gripe espanhola. A cidade inteira, conforme escreveu Nelson Rodrigues, “ainda estava de luto, e muitos blocos não desfilaram. O que se viu foi uma festa fria, tímida, pacata e vazia, marcada mais pela tentativa de retomar à vida ao normal do que pela explosão vivificante da alegria”.

Outro caso foi o trazido à baila por Manuel Bastos Tigre (em O Pierrot), num texto onde ficou claro que o “Carnaval de 1940 em São Paulo, quando a Segunda Guerra Mundial trouxe restrições severas”. Alguém se lembra? “Houve corte de recursos, censura e até proibição de músicas consideradas ‘subversivas’. As máscaras, nesse contexto, não escondiam a alegria, mas refletiam a repulsa, a tensão, a ansiedade e o medo mórbido de um país em guerra”.

Mais recentemente, o Carnaval de 2021 descrito por Yaggo Arruda “entrou para a história como o carnaval que não aconteceu”. A pandemia de Covid-19 suspendeu desfiles, retirou das principais ruas e bairros, os blocos, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. As máscaras, ironicamente, deixaram de ser adereços prazenteiros, festivos e jubilosos para se tornaram equipamentos de proteção. O vazio colossal no dizer de Cynara Menezes, em seu blog, deixou claro que “das avenidas e a ausência descomedida das baterias mostraram que, sem pacto coletivo, não há carnaval possível”.

Esses episódios embaraçados acima descritos, revelam que o fracasso carnavalesco não é apenas ausência de festa, mas sintomas de tempos conturbados e difíceis. As máscaras guardadas em gavetas e armários, ou usadas em meio ao silêncio de portas fechadas e impedidas de se tornaram testemunhas calaram a voz das crises que atravessaram e atravancaram a sociedade. Ver textos de Carlos Heitor Cony e Ruy Castro, entre outros. 

Talvez, cá entre nós, seja justamente aí que reside a força da tradição: mesmo nos “carnavais fracassados”, a memória da festa persiste, insiste, não retroage. A cada baque, a cada cataclismo, nasce a promessa pujante de um retorno mais vibrante e febril. Porque o carnaval no Brasil, é mais do que espetáculo, é resistência, é oposição, é um baluarte cultural. 

O nosso carnaval é celebrado como motor cultural e econômico, todavia a sua ausência ou fracasso deixa marcas indeléveis e profundas. Quando a festa não acontece, não é apenas a alegria que se perde: vão para o ralo empregos, renda e a identidade coletiva. Ficam à deriva, sonhos e ambições, se fazem suspensas as alegrias e os esmeros, enfim, tudo descamba.

Historicamente, alguns carnavais como dissemos acima, fracassaram diante de crises maiores. Em 1919, repetindo o já dito, no Rio de Janeiro, o primeiro carnaval após a gripe espanhola foi por demais tímido, quase parando, marcado pelo luto e pela tentativa de retomar à vida. Em 1940, voltando, de novo a São Paulo, a Segunda Guerra Mundial trouxe censura e restrições, esvaziando a festa. Mais recentemente, em 2021, a pandemia de Covid-19 paralisou desfiles e impediu blocos em todo o país, transformando as máscaras em instrumentos de proteção sanitária.

Do ponto de vista econômico, o impacto causado se faz gigantesco. Estimativas apontam que o carnaval movimenta cerca de R$ 18 bilhões e gera mais de 39 mil empregos temporários em todo o Brasil. Quando cancelado, como nos idos de 2021, bares, hotéis, costureiras, músicos e vendedores ambulantes sentiram na pele o colapso imediato da renda. O carnaval, além de espetáculo, é o braço que sustenta a engrenagem, e a mão salvadora da sobrevivência para milhares de famílias.

Esses “carnavais fracassados” são bons sempre serem lembrados. Por qual ou quais motivos? Revelam a vulnerabilidade de uma tradição que depende de pactos coletivos e de condições sociais mínimas. A máscara, nesse contexto, deixa de ser símbolo de alegria e passa a ser testemunha de crises. Mas também guarda a memória viva da resistência: mesmo quando a festa não acontece, entretanto, a promessa de retorno permanece inalterável.

A derrocada, paradoxalmente, reforça a importância do carnaval como um todo. Ele não é apenas festa: é economia, é cultura, é identidade. E cada vez que a máscara é guardada sem uso, repetindo o já dito acima, de novo, para não ser esquecido, ela carrega consigo a esperança de que, no próximo ano, a dança volte às ruas com ainda mais força.

Nos “carnavais fracassados”, não são apenas os desfiles interrompidos ou os blocos esvaziados que chamam a atenção. Há também uma juventude pujante que corre pelas ruas em busca de algo que muitas vezes não sabe nomear. Para muitos adolescentes e jovens, o carnaval virou apenas ocasião de excessos: álcool, maconha, fuga, encontros rápidos, prostituição. A máscara, que antes simbolizava a identidade coletiva e a resistência cultural, se tornou adereço descartável.

Essa juventude, a nossa juventude, muitas vezes, não percebe que o carnaval é mais do que festa: é memória, é história, é sobretudo a expressão popular que atravessou séculos como espaço de liberdade e crítica social. Ao reduzir o carnaval a uma maratona de blocos, se perde o sentido profundo da celebração. O risco é transformar a festa em consumo vazio, em repetição pobre e sem consciência.

E é justamente aí que surgem os “carnavais fracassados” da contemporaneidade: não porque faltam recursos ou desfiles, mas porque carecem, sobremaneira, de compreensão. A máscara, em vez de revelar a potência da cultura, passa a esconder a alienação. O jovem que se perde em caminhos tortuosos, seja pela violência, pelo abuso ou pela indiferença, é também a vítima fatal de um carnaval que deixou de ensinar ao mundo o que na verdade representa.

Do ponto de vista reflexivo, esse fenômeno revela uma crise de transmissão cultural. O carnaval, que já foi espaço de crítica política, de invenção estética e de resistência popular, corre o risco de se tornar num futuro próximo, apenas cenário de consumo imediato. A juventude que não conhece essa história dança sobre um chão de giz que não sabe se foi ou não de autoria de Zé Ramalho. Menos ainda, de onde veio.

Mas acreditem, ainda há esperança: Ainda, apesar dos pesares. Cada geração pode redescobrir o carnaval. Basta que as máscaras sejam recolocadas não como disfarces, mas como símbolos vivos e eternos de pertencimento. O desafio é transformar a festa em aprendizado, para que os jovens não se espalhem ou não se percam, tampouco se desintegrem, mas encontrem no carnaval um caminho da folia e de identidade e de contrapeso, uma trilha sobejamente excelente de um futuro lindamente promissor.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Aparecido Raimundo de Souza (72), escritor e jornalista, de Vila Velha/ES
Fontes:
Texto enviado pelo autor
Imagem criada com IA Microsoft Bing com desenho do autor por JFeldman.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 154 *


Poema em Dupla de
SANDRA PERES 
LUIZ TATIT
São Paulo/SP

Gramática

O substantivo
É o substituto do conteúdo

O adjetivo
É a nossa impressão sobre quase tudo

O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo

O imperativo
É o que aperta os outros e deixa mudo

Um homem de letras
Dizendo ideias
Sempre se inflama

Um homem de ideias
Nem usa letras
Faz ideograma

Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama

Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama

Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto

E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto

No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto

Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto

Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu

O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
VILMAR DE ABREU LASSANCE
Niterói/RJ (1915 – 2009)

Descansa, coração

Ausentei-me do amor - vou descansar.
Tudo cansa, afina, até o amor...
Dei demais, de mim mesmo, sem pensar,
e, agora, vou parar, para recompor

meu pobre coração que, sem cessar,
levou anos e anos num furor
de paixões, num querer sem fim, sem par,
num paroxismo que atingia à dor.

Hoje, vou descansar - fechei a porta
à última ilusão,  já quase morta,
que pretendia penetrar-me o peito:

disse "não", ao amor que retornou.
Ao amor que se foi e, hoje, voltou,
eu disse, num soluço: - "Não te aceito!"
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
MANUEL ALEGRE
(Manuel Alegre de Melo Duarte)
Águeda/Portugal

Trovas do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Popular

Olhos pretos matadores,
cara cheia de alegria,
um beijo na tua boca
me sustenta todo dia.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN

Lágrimas

Eu não sei o que tenho... Essa tristeza
Que um sorriso de amor nem mesmo aclara,
Parece vir de alguma fonte amara
Ou de um rio de dor na correnteza.

Minh' alma triste na agonia presa,
Não compreende esta ventura clara,
Essa harmonia maviosa e rara
Que ouve cantar além, pela devesa.

Eu não sei o que tenho... Esse martírio,
Essa saudade roxa como um lírio,
Pranto sem fim que dos meus olhos corre,

Ai, deve ser o trágico tormento,
O estertor prolongado, lento, lento,
Do último adeus de um coração que morre...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
REGINA MÉRCIA
(Regina Mércia Sene Soares)
Novo Horizonte/SP

Essa Felicidade?

Existe essa tal felicidade?
Essa pergunta faço com tristeza
Era só meu aquele amor
Não era a dois...
De repente a dor me surpreende
Por que um amor não correspondido?
Duvidas surgiram de que eu era...
Iludida, só o meu amor vivia
Sinto muita falta e sinto-me
Entregue aos medos e receios
Feliz fiquei ao perceber
Que estava amando...
Meu coração levava consigo
O aconchego de alguém...
Que havia chegado
Precipitando talvez o encontro
Com esse alguém que quisesse
Realmente me amar...
Só esperando o momento certo
Bem lá escondido no cantinho
Do coração cheio de desejo
Para nascer um grande amor…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
JACINTO DE CAMPOS
Canavieiras/BA (1900 – ????) Rio de Janeiro/RJ

As duas palmeiras

Quando passo buscando a humana lida,
A alma tecida de ilusões tão várias,
Junto à velha choupana carcomida
Vejo duas palmeiras solitárias.

Uma já morta, outra reverdecida,
Num desmancho de palmas funerárias,
E ao som da harpa do vento a que tem vida,
Saudosa plange salmodias e árias.

— Ó tu, que me olvidaste no caminho,
Meu coração deixando como um ninho,
Sozinho e triste, ao vento balouçando...

A saudade me diz, como em segredo:
Que és a palmeira que morreu bem cedo,
E eu sou aquela que ficou chorando.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Quadrão à Beira Mar de
NEZITE ALENCAR
Distrito de Quixariú/Campos Sales/CE

Pelo mar, entre os abrolhos,
Lembro o verde dos seus olhos,
As lágrimas me descem aos molhos,
Pois é grande o meu penar:
Um dia um barco ligeiro
Levou meu amor primeiro
Vestido de marinheiro
No quadrão à beira mar.
“Beira mar, beira mar,
O quadrão só é bonito
Quando é feito à beira mar”.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE (1889 – 1858) Rio de Janeiro/RJ

O meu retrato

Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
Tendo muito de orgulho e de altivez.
Trago a pender dos lábios um cigarro,
Misto de fumo turco e fumo inglês.

Tenho a cara raspada e cor de barro.
Sou talvez meio excêntrico, talvez.
De quando em quando da memória varro
A saudade de alguém que assim me fez.

Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
Cultivo a tradição da minha raça
Golpeada de aventuras e de amores.

E assim vivo, desatinado e a esmo.
As poucas sensações da vida escassa
São sensações que nascem de mim mesmo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Brincando de ser mulher

Brincando de ser mulher,
aquela mulher-menina
sem saber bem o que quer,
segue a sua triste sina...

Á quem pagar o seu preço,
ela cede os seus favores.
Pobre mulher-menina,
desgraçados os senhores.

De shortinho bem curtinho
na esquina a caminhar,
acena a pobre menina
para quem de carro parar.

Mal sabe a pobre menina
que o tempo vai passar,
e um dia, sem que perceba,
se a doença não lhe pegar,
nas mãos de algum cretino,
a morte vai encontrar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun de elevada prece

TEMA:
Na aurora de cada dia,
a Deus elevo uma prece;
- Pai, enchei de poesia
nosso povo que padece!
Joamir Medeiros 
Natal/RN

PANTUN:
A Deus elevo uma prece;
ó Pai, salvai por favor,
nosso povo que padece
por falta de pão, de amor,

Ó Pai, salvai por favor,
os excluídos do afeto,
por falta de pão, de amor,
vivem sem lar e sem teto.

Os excluídos do afeto,
não têm voz, nem têm razão,
vivem sem lar e sem teto
ante a cruel exclusão.

Não têm voz, nem têm razão,
por berço, a melancolia,
ante a cruel exclusão
na aurora de cada dia.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
Dourados/MS

Sob um céu de alvorada fagueira,
Surge a terra de amor e afeto;
Eis Dourados, vibrante, altaneira,
Nosso berço, rincão predileto.

Sob um céu de alvorada fagueira,
Surge a terra de amor e afeto;
Eis Dourados, altaneira,
Nosso berço, predileto.
Eis Dourados, altaneira,
Nosso berço, predileto.

Estribilho: (2 vezes)
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
No futuro confiante
Lindo Oásis do Brasil.
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
Joia brilhante - do Brasil

Seu passado vai longe com glória
Da esperança foi sempre uma flor,
O seu nome desponta na história
Com beleza, com paz e amor!

Seu passado vai longe com glória
Da esperança foi sempre uma flor,
O seu nome, na história
Com beleza - Paz e amor!
O seu nome, na história
Com beleza - Paz e amor!

Estribilho: (2 vezes)
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
No futuro confiante
Lindo Oásis do Brasil.
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
Joia brilhante - do Brasil
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
(José Carlos Torres Matos de Vasconcelos)
Paços de Ferreira/Portugal

Os Versos Guardados

Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

como lençóis de seda fina
ou anel de noivado

como guarda o pobre
as migalhas que não come

como guarda a menina
a boneca antiga

Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

pelo tempo fora
o tempo todo

caminhando descalço
sobre um rio
de lume

ou lodo
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O Sol e o Vento

Entraram em contenda o Sol e o Vento
Sobre qual tem mais força, mais alento.
Passava nesse tempo um caminhante,
Assentaram que havia ser triunfante
O que tivesse forças, que lhe bote
Dos ombros para fora o seu capote.

Fez o Vento tal força, que mostrava
Que já por esses ares lhe levava,
Mas o dono às mãos ambas o sustenta;
Porém foi tal a força da tormenta,
Que ele já de sustê-lo desanima,
E, enrolando-se bem, deitou-se em cima.
O Vento andou de roda, deu-lhe um jeito,
Deu-lhe outro; porém tudo sem efeito.

Entrou na empresa o Sol, mas sem violência,
Antes com mansidão e com clemência:
No meio de uma tal serenidade
Os raios tinham tanta atividade
Que já os não sofria o passageiro.
Chegou-se a um sombrio castanheiro,
O capote depôs, que o martiriza,
A veste, e fica em mangas de camisa:
Com assombro do Vento furioso,
Ficou por manso o Sol vitorioso.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = =