Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 25 de setembro de 2010

Malba Tahan (O Gato do Cheique)


Entre as lendas mais características do velho Egito, uma existe que merece ser contada sete vezes.

Vivia na cidade do Cairo um cheique de grande cultura chamado Calil El Modabighi, cujo nome aparecia sublinhado pela simpatia e pelo respeito que os muçulmanos soem emprestar aos sábios que são generosos e modestos. Era um homem verdadeiramente feliz; a vida para ele corria sempre suave, em meio de invejável conforto e ritmada por uma prosperidade que crescia na ordem natural das coisas, dia para dia.

O bom cheique vivia isolado; possuía, porém, um gato preto pelo qual tinha particular predileção.

Uma noite, tendo despertado casualmente, ouviu o sábio um ruído estranho, junto à porta de sua casa, e viu, com infinita surpresa, o gato levantar-se, abrir cautelosamente a larga janela e perguntar:

— Quem bate?

Alguém, que estava fora, no meio da escuridão da rua, respondeu, com voz sucumbida:

— Venho em busca do teu auxílio, ó poderoso djin! Abre a porta.

Retorquiu o gato:

— Proferiram o nome de Deus, junto à fechadura, e eu sou fraco para vencer esse encanto!

— Atira-me, então, um pedaço de pão pela janela — implorou o misterioso pedinte. — Dá-me, ao menos, um pouco d’água.

— Proferiram o nome de Deus junto do jarro, e eu sou fraco para vencer esse encanto! — declarou ainda o gato.

E ajuntou:

— Na casa ao lado moram infiéis que não pronunciam nunca o nome de Deus. Entra por minha ordem na sala do vizinho e tira de lá o que quiseres.

E, isso dizendo, voltou para o leito, meteu-se entre as cobertas e pôs-se a dormir sossegado.

Compreendeu o cheique, com maior assombro, que o gato preto era um djin, isto é, um gênio dotado de poder sobrenatural, capaz de praticar feitos mágicos e prodigiosos, como fazem os espíritos bons que povoam o espaço.

No dia seguinte o honrado ancião, depois de acariciar longamente o seu gato, disse-lhe, carinhoso:

— Meu bom companheiro, ó gatinho do coração! Bem sabes quanto tenho sido teu amigo! Quero possuir um palácio...

Esquivou-se o gato das mãos de seu dono e saltou para o peitoril da janela. E, naquele mesmo tom com que à noite falara ao estranho visitante, disse:

— Cheique! A tua amizade, outrora tão preciosa, de hoje para o futuro perdeu, infelizmente, para mim, todo o valor! Descobriste o segredo de minha existência; já sabes o que sou! Passaste, pois, a ser meu amigo por interesse!

E, tendo proferido tais palavras, pulou para a rua, fugindo de casa e nunca mais voltou.

Desse dia em diante, a vida do velho cheique desandou por completo; e antes, talvez, que as águas lutulentas do Nilo invadissem pela segunda vez as terras era ele apontado como um dos homens mais infelizes do Cairo.

Perdera, por causa de sua louca ambição, o único amigo e protetor.

Na verdade, a mais sólida e perfeita amizade não resiste ao veneno sutil do interesse.

Fonte:
TAHAN, Malba. O Gato do Cheique e outras lendas. RJ: Ediouro.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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