domingo, 12 de abril de 2026

José Feldman (Sonhando ou Não?)


Local: Uma Universidade, Sala 203.

Hora: 21h30 da noite.

Clima: Ar-condicionado no talo, cheiro de café velho e tensão literária no ar.
 
A sala 203 do departamento de Letras Inglesas estava mais agitada que o normal. O ar condicionado parecia ter entrado em greve, e o calor tornava a discussão sobre as fadas e duendes de Shakespeare um desafio extra.

A turma estava reunida para discutir Sonho de uma Noite de Verão. A professora Léia, uma mulher que vestia tweed mesmo no calor de 30 graus, ajustou os óculos e olhou para a classe.
 
— Muito bem, turma. Hoje vamos desconstruir a obra-prima de Shakespeare. Quem pode começar dizendo o que entendeu da relação entre o mundo real e o mundo mágico na floresta?
 
Silêncio absoluto. O tipo de silêncio que faz parecer que todo mundo está estudando anatomia do próprio umbigo.
 
Até que o Juninho, que sentava sempre na última carteira e chegava sempre atrasado, levantou a mão devagar.
 
— Professora, posso falar?

— Claro, Juninho. Surpreenda-me.

— Bom, eu acho que o livro é basicamente uma farra que deu errado. Tipo, imagine a situação: quatro amigos vão para uma mata, todo mundo apaixonado pela pessoa errada, tem um duende que fica jogando suco de flor no olho das pessoas e... pronto, vira bagunça generalizada. É tipo o carnaval, mas com mais elfos e menos bloco da Banda Mole.
 
A turma riu. A professora suspirou, mas sorriu.
 
— Uma analogia interessante, Juninho.

— Eu simplesmente não entendo por que o Oberon não poderia ter simplesmente conversado com a Titânia - disse Brenda, uma aluna com um coque apertado que parecia prestes a explodir de tanto conhecimento reprimido. – Todo aquele drama com a flor mágica... francamente, um pouco de comunicação resolveria tudo.

— Ah, Brenda, mas onde estaria a graça? - retrucou Carlos, um rapaz com óculos de aro grosso que parecia mais interessado nos padrões do carpete. – Shakespeare não escreveu uma peça sobre 'Diálogo de Casal em Uma Tarde Quente de Verão'. Ele escreveu sobre magia, caos e... bem, um monte de gente correndo pela floresta atrás da pessoa errada.

A Professora Léia, uma mulher britânica com um olhar que já tinha visto mais sonetos do que a maioria das pessoas viu novelas, pigarreou. – Carlos tem um ponto, Brenda. A peça explora os impulsos irracionais, a natureza do amor e do desejo, que muitas vezes desafiam a lógica e a comunicação clara. A magia é um catalisador para isso.

— Mas vamos aprofundar. E sobre o amor? Shakespeare retrata o amor como algo racional ou... caótico?
 
A Márcia, a aluna destaque que sempre tinha o livro grifado em 5 cores diferentes, levantou a mão antes mesmo do professor terminar a frase.
 
— Com licença, professora. Na minha visão, a peça ironiza o amor cortês. Veja bem: Lisandro diz "O amor é um cego e um audacioso", ou seja, ele admite que a paixão anula o raciocínio lógico. É uma crítica social à forma como nos deixamos levar pela emoção ao invés da razão.
 
— Isso tudo muito bonito, Márcia — interrompeu o Pedro, que estava coçando a cabeça — mas vamos ser sinceros? O problema ali não é amor não, é má comunicação! Se o pai da Hérmia tivesse sentado e conversado como gente grande, ao invés de falar "ou casa com quem eu quero ou vai para o convento", nada disso teria acontecido. É o tipo de pai que acha que autoridade é tudo e diálogo é conversa fiada.
 
— Exato! — gritou a Bia do fundo — E a Helena então? Meu Deus, que menina carente! Ela fica correndo atrás do Demétrio tipo "me ama, me ama", e ele tratando ela mal. Eu queria entrar no livro e dar um sacode nela: "Amiga, se toca! Ele não te quer! Vamos tomar um açaí e esquecer esse boy lixo!"
 
— Mas é justamente aí que está a genialidade, Bia! — defendeu Márcia, já esquentando — Ela representa a perseverança do amor verdadeiro!

— Perseverança nada! É falta de amor-próprio! Hoje em dia ela tinha um grupo de amigas no WhatsApp dizendo "ele não te merece, amiga"!
 
A discussão estava esquentando quando o Zé, um cara mais quieto que só falava quando tinha algo realmente engraçado para dizer, resolveu dar sua opinião sobre os personagens operários.
 
— Eu quero falar daquela trupe de teatro, o Bottom e a turma. Aquilo sim é a cara da nossa universidade.
 
— Como assim, Zé? — perguntou a professora.
 
— Tipo, eles são uns amadores, sem noção nenhuma, mas acham que são os maiores atores do mundo. O Bottom então? Quer fazer todos os papéis! Quer ser o herói, quer ser a donzela, quer ser o leão! É igual aquele aluno que se inscreve em todos os projetos de extensão, quer falar em todas as bancas, mas na hora do vamos ver...
 
— ...não sabe nem recitar uma fala direito! — completou Juninho, caindo na gargalhada.
 
— Pera lá! — protestou Zé — E o melhor momento da peça inteira? Quando o duende coloca a cabeça de burro no cara! Poxa, que vingança mais shakespeariana! Imagina você tá lá, todo convencido, do nada acorda com cabeça de jumento. Que trauma, professora!
 
— É a metamorfose da vaidade, Zé. Ele se achava superior, então foi transformado naquilo que seu comportamento representava: teimosia e arrogância.

— Sei, mas que vergonha ele deve ter sentido né? Principalmente quando a rainha das fadas acordou e se apaixonou por ele com a cabeça de burro. Coitada, deve ter bebido muito suco de flor mesmo.

— Mas o Puck! - exclamou Brenda, batendo levemente na mesa. – Aquele duende é o maior causador de problemas! Ele transforma o Bottom em um burro! Um burro! E por quê? Porque ele estava seguindo ordens mal dadas. Se ele tivesse um bom senso de humor, teria transformado o Oberon em um sapo.

Um risinho escapou de Miguel, que estava esparramado em sua cadeira, fingindo tirar um cochilo. Ele se endireitou. — Ou talvez o Puck só estivesse entediado. Imagina ser um duende imortal. Você precisa de algum entretenimento, certo? E transformar um tecelão em um burro para o deleite da rainha das fadas parece um bom passatempo.

— Um bom passatempo que causa um transtorno amoroso monumental! - insistiu Brenda. – E o que dizer da Helena? Ela é praticamente uma stalker. Ela não tem um pingo de dignidade.

— Dignidade? - riu Carlos. – Amor não tem a ver com dignidade, Brenda. Tem a ver com perseguição, com loucura, com fazer coisas completamente estúpidas. Helena é a personificação do amor não correspondido levado ao extremo.

Brenda arqueou uma sobrancelha. — Você quer dizer que você perseguiria alguém pela floresta, implorando por atenção, depois que a pessoa te chamou de tudo, menos gente?"

Carlos deu de ombros. — Talvez não pela floresta. Talvez mais por mensagens de texto com muitos emojis de coração partido. A essência é a mesma.

A professora Léia sorriu. — A beleza de Shakespeare, meus caros alunos, é que ele nos permite explorar essas facetas da natureza humana – o amor, o ciúme, a confusão, o desejo – através de um lente fantástica. A floresta mágica é um reflexo do nosso próprio mundo interior, onde a lógica muitas vezes se perde e os impulsos tomam o controle.

— Então, o que você está dizendo, professora - disse Miguel, com um sorriso maroto – é que todos nós temos um pouco de Puck dentro de nós, querendo transformar alguém em um burro?"

Um coro de risadas preencheu a sala,

A discussão mudou de rumo novamente. A Carol, que estava quieta até agora, perguntou:
 
— Professora, mas uma coisa que eu não entendo é: tudo isso acontece em uma noite? Tudo isso? Casamentos, confusão, teatro, transformação... Em uma noite só?
 
— Sim, Carol. A ação se passa em menos de 24 horas.

— Nossa, que agilidade! Eu demoro três dias para decidir que roupa usar e eles resolvem toda a vida amorosa em um sábado à noite. Inspirador.
 
— É que na época não tinha Instagram, Carol. Se tivesse, o Lisandro teria postado story com a Helena, depois apagado, bloqueado, desbloqueado... ia demorar um mês para resolver — brincou Pedro.
 
A professora olhou para o relógio e viu que já eram 22h35. A aula tinha passado voando.
 
— Muito bem, turma. Vocês conseguiram transformar uma tragédia romântica... ou melhor, uma comédia romântica, em uma sessão de conselhos amorosos e críticas sociais. Mas quero deixar uma última pergunta para vocês pensarem: afinal, tudo o que aconteceu foi real ou foi apenas um sonho, como o título sugere?
 
Juninho bateu na carteira, com a resposta na ponta da língua:
 
— Professor, com toda a certeza do mundo... foi sonho!

— Por que, Juninho?

— Porque ninguém consegue ser tão louco, se apaixonar tão rápido e viver tantas aventuras assim e acordar vivo no dia seguinte sem ter sido uma alucinação coletiva! Ou então... eles tinham fumado alguma coisa naquela floresta. Shakespeare era moderno demais, professor.
 
— Cala a boca, Juninho! — gritou a turma toda rindo.
 
— Enfim — concluiu a professora, fechando o livro — A beleza da obra é que cada um vê o que quer. Para uns é poesia, para outros é confusão, para o Juninho aqui é uma festa underground. De qualquer forma, para a próxima aula quero um ensaio de duas páginas sobre "O uso da magia como elemento narrativo". E Juninho...

— Sim, senhora?

— Nada de mencionar "festa" nem "cabeça de burro" no seu texto. Pelo menos não com essas palavras.
 
— Fechado, professora. Vou escrever sobre "metamorfose zoológica e suas implicações sociais".

— Aula encerrada!
 
A turma começou a arrumar as mochilas, ainda rindo e discutindo se o Bottom merecia aquilo ou não. Lá fora, a lua brilhava, e na Sala 203, Shakespeare finalmente pôde descansar em paz... ou talvez estivesse rindo junto com eles do outro lado do espelho.
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RESUMO DA OBRA
A obra mistura o mundo real com o sobrenatural em uma trama repleta de desencontros amorosos e magia. A história se passa em Atenas e em um bosque místico nos arredores da cidade. Hérmia ama Lisandro, mas seu pai, Egeu, quer que ela se case com Demétrio. Sob a ameaça da lei ateniense, o casal foge para a floresta, sendo perseguido por Demétrio e por Helena (que é apaixonada por Demétrio). No bosque, o Rei Oberon e a Rainha Titânia estão em conflito. Oberon ordena que seu servo, o duende Puck, use o suco de uma flor mágica para fazer Titânia se apaixonar pela primeira criatura que vir ao acordar. Puck também tenta intervir nos problemas dos amantes humanos, mas acaba confundindo os casais, causando um caos generalizado onde ambos os rapazes passam a perseguir Helena. Um grupo de trabalhadores amadores ensaia a peça "Píramo e Tisbe" para o casamento do Duque Teseu. Puck transforma a cabeça de um deles, Bottom, na de um burro. Devido ao feitiço de Oberon, Titânia acorda e se apaixona perdidamente pelo homem com cabeça de burro. 
Após uma noite de confusões extremas, Oberon decide desfazer os feitiços. Puck corrige os erros com os amantes: Lisandro volta a amar Hérmia, e Demétrio permanece sob o efeito da magia, apaixonado por Helena. Todos acreditam que os eventos da noite foram apenas um sonho. A peça termina com um casamento triplo e uma apresentação cômica e desastrosa feita pelos artesãos no palácio. 
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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Geraldo Pereira (O Gordo e o Magro)


Tem gente no mundo mais do que interessante, pois que não descuida dos outros, mas não cuida de si mesma! Quando o semelhante, penitente deste mundo de Deus, engorda um pouco - o meu caso agora - é impossível livrar-se dos comentários nascidos de todos os lados. 

Vai pra lá e vem pra cá, ouve, sempre, uma observação nunca cautelosa! A mais simples de todas: “Você engordou!”. Alguns, entretanto, deixam de passar as mãos nas costas do amigo e adotam o alisar da protuberância abdominal - da emergente barriga -, como se o lugar dos afagos e dos carinhos tivesse mudado. 

Poucos são aqueles que fazem como o gazeteiro - Mané do jornal -, há muito desaparecido dessas paragens pombalinas e que voltando a gritar os jornais pelo nome, disse: “Quase não lhe conheço, de tão gordo e bonito!”. Aí, também, já é exagero!

A verdade é que às custas dos acepipes e de outras guloseimas, degustados nas recepções e nas festas que ando frequentando, por conta dos meus deveres do aqui e do agora, os do ofício, o mostrador da balança mudou de número. E, inevitavelmente, mudaram os comentários! 

Ora, sou de outros tempos, pois que nascido e criado nos meados do século, cresci ouvindo a máxima: “Saúde e Gordura!”. Menino novo, naqueles anos, tinha dobras e mais dobras e até participava de concurso nas emissoras de rádio, vencendo o mais rechonchudo. As mulheres, também, eram massudas! Na minha rua, nos idos de sessenta, andavam três irmãs de dotes assim, protundentes e a meninada, de logo, criou o apelido apropriado à época e à mesa: “As Albacoras!”. Não que se desdenhasse das moças, mas pela indiferença à rapaziada do lugar! Vingança, pois!

As madonas de avantajadas formas tinham admiradores certos e uma delas até, posta diante do prédio dos correios, esperando o marido, que fora ali postar uma carta, quase protagoniza uma briga. É que estando o cônjuge do outro lado da rua e encontrando amigo há muito distante, ouviu do velho companheiro a observação definitiva: “Olha pra ali! Vê que mulher!”. É minha esposa, respondeu, sem graça, o interlocutor de ocasião! E quase vão às turras! 

Hoje em dia, pode-se deixar, à vontade, na av. Guararapes ou noutro lugar qualquer, uma gordinha, que seja, sem risco algum de gracejos ou de sedutoras formas de verbais elogios. Ninguém presta mais atenção aos culotes, tão decantados nos meus outroras ou ninguém liga mais para as pernas volumosas, de cujas batatas nasceram tantas das fantasias pueris, naqueles pretéritos!

Contabilizo, na memória dessas sensualidades perdidas, diversas figuras femininas que marcaram época, com essas obesas características! Gente do porte de uma Marinete, que mesmo tendo um busto contido, dentro das proporções das adequações nacionais, avolumava-se daí pra baixo! Aquela mulher não tinha cadeiras, mas poltronas - Isso sim! - e guardava, nos longos e protetores vestidos, pernas tão grossas, que despertavam as tentações todas do mundo. Por essa razão, não podia ir pra casa sozinha, tal o cuidado do amante, que na garupa da lambreta transportava a Vênus do tempo, desfilando desejos nas ruas do Pombal. 

Ainda hoje, nas brumas perdidas, pairam os devaneios e os sonhos, enquanto ela, a musa encantada, cumpre o bailado sagrado da feminilidade. Vez ou outra, nas nuvens dos céus, senta-se no divã de algodão dos deuses e acomoda no colo todos os anjos. Ouve-se, então, o som das trombetas, em louvor à deusa dessas tupiniquins origens. Um ode à beleza das celulites!

Vive-se, entretanto, neste presente da globalização, um tempo diferente, o reinado dos magricelas. Se uma modelo qualquer, esquálida, que seja, desfila na telinha de casa, mostrando os ossos e as saliências, é incluída, de pronto, dentre as belas. Louva-se a caquexia e sobretudo a anorexia, desprezando-se, então, grandeza do paladar! 

Tem gente por ai que não conhece o sabor de uma “Mão de Vaca” ou de uma “Dobradinha com Feijão Branco”, que ignora o “Sarapatel” e a “Galinha de Cabidela”, que dá de ombros se chega à mesa um “Cozido a Brasileira”! Ninguém se arrisca ao caldinho da feijoada, pior o pé de porco, o paio e a charque. 

Em toda farmácia que se preza, de outra parte, há, sempre, uma balança digital, com os números em vermelho bem vivo, determinando sentenças. Se o resultado supera as expectativas, instala-se a depressão e se restringe o prato. Quando há dinheiro sobrando, o socorro está nas clínicas sofisticadas de emagrecimento. É a escravidão das verduras!

Mas, os verdureiros de outrora, que usavam balaios ou empurravam carroças, repletos de cenouras, de xuxu e de alface ou cheios de jerimum, de vagem e de tomate, que na verdade é fruta, se reaparecessem agora, fariam a festa, a feira e a féria, tal a procura nos dias que correm, céleres, como se fossem contados em minutos, apenas! E o homem do miúdo, com o tabuleiro carregado por seu auxiliar, negociando o fígado e a passarinha e entregando o miolo de boi, que garantia a inteligência e o talento de meu pai, na crença da época? Morreria de fome! Bom seria para o vendedor de laranjas, com dois sacos enormes, carregados da cítrica fruta.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. A medida das saudades. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
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Humberto de Campos (Represália)


Informado da maldade com que a baronesa de São Bonifácio punira, na véspera, na chácara dos Peixoto Leroux, a tríplice viuvez da sua sobrinha, Mme. Lilita Wilson, o almirante Ribas, tão famoso pela sua malícia irreverente, resolveu tomar uma desforra da linda titular, punindo-a pela perfídia com que se referira à sua encantadora amiguinha de outrora. E o lugar escolhido para a vindita foi a segunda mesa à direita, na Lalet, onde se acharam, frente a frente, ontem, à tarde, entre o desembargador Ataulfo e Me. Carvalho Gondra, a maravilhosa Anfitrite do norte e o velho tritão dos grossos mares do sul.

A palestra decorria brilhante e amável, quando o almirante, encontrando uma oportunidade feliz, observou, rindo, à baronesa:

- É verdade; achei admirável aquela comparação da Lilita com os rios que mudam frequentemente de leito!

- Quem lhe contou isso? - estranhou a baronesa, espantada, recuando o busto soberbo.

- O desembargador Abelardo, que a ouviu dos seus lábios.

- Indiscreto... - sussurrou a fidalga, num muxoxo, retomando a xícara.

O almirante precisava, porém, de uma vingança mais positiva, mais clara, mais ferina, e, sem deixar que a presa fugisse, mudando de assunto, volveu, impiedoso:

- A baronesa sabe, porém, quando é que os rios mudam de leito?

A fidalga encarou-o, franzindo a testa magnifica, e ele, aproveitando o diálogo em que se distraíam os dois companheiros de mesa, fulminou-a, terrível, descendo os olhos pelo vestido significativamente frouxo:

- É quando engrossam... Compreendeu?

E, vendo-a empalidecer, alto, e risonho:

- V. Ex. está se sentindo mal?
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
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A. A. de Assis (Noventa e três anos)


Fico até espantado só de pensar que 7 de abril, completei 93 anos, quase um século de permanência neste planetinha. Em janeiro completei também 71 anos de residência em Maringá e 68 de casamento com Lucilla.

Nasci num lugar chamado Bela Joana, na região montanhosa do município de São Fidélis-RJ, onde meu pai cultivava café, feijão, milho, mandioca e frutas. Com 8 anos, fui mudado para a cidade, a fim de continuar os estudos iniciados numa escolinha rural, mas continuei a passar as férias na roça.

Lá eu tinha uns poucos amigos: dois sobrinhos da minha idade – Paulinho Fernando e José Augusto, e os filhos dos sitiantes vizinhos – os gêmeos Renan e Renato, o Antônio do Arquimedes, o Jacy de Dona Davina.

A gente inventava um monte de brinquedos, porém era proibido caçar passarinhos. Meu pai não nos permitia usar estilingues, nem arapucas. Para compensar, formou um pomar atrás de nossa casa e entre as árvores colocou umas caixas onde punha alpiste, canjiquinha e outros alimentos. Com isso atraía pássaros de toda espécie: azulões, sabiás, coleirinhos, melros, pica-paus, periquitos, juritis, saíras. Era o dia inteiro aquela cantoria.

Costumo pensar que os passarinhos foram meus primeiros professores de poesia. Eu ficava horas no pomar observando a movimentação deles e ouvindo os seus gorjeios. Alguns eram mais achegados, me conheciam e vinham até pousar nas minhas mãos.    

A infância e adolescência envolvidas nesse ambiente silvestre me deixaram marcas fortes. Quando vim para Maringá, nos primeiros tempos gostava de ir nos domingos ao Horto Florestal matar saudade. Era o jardinzão onde a população pioneira tomava banho de sol, fazia piquenique e as crianças se divertiam.

Mas os anos passaram, a vida rapidamente urbanizou-se, o contato com a natureza foi rareando. De vez em quando a gente escuta ainda o canto de um sabiá. Porém o cheiro e os sons primitivos da roça e do mato nunca mais serão os mesmos.

(Crônica publicada no Jornal do Povo)
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A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis), (93), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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sábado, 11 de abril de 2026

Asas da Poesia * 174 *


Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

– Minha filha, tens certeza?
– Tenho, mãe, é gravidez!
– Se vais dizer: “foi fraqueza”,
já não cola, é a quarta vez!
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Poema de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Tradução

Cada verso teu traduz a tua história;
Solta em cada linha livre que tu traças
Quando tu te expressas, da tua memória
Nascem tantas formas onde tu te enlaças.
 
Cada vez que leio cada fragmento
Dos teus sentimentos, no meu coração,
Um amor sublime faz desse momento
Mais que um sentimento de admiração...
 
Parece que há muito eu já te conhecia
E deixo  meu ser voar qual passarinho
No rumo sutil da tua poesia
Onde a fantasia cria o seu caminho.
 
Ando-te sem pressa, sem preocupar-me
Com a vida,  o tempo... e a ti me dedico,
Quero encontrar-te e busco encontrar-me
Na tua emoção com a qual me identifico.
 
Tu és minha irmã... eu sou o teu irmão
Quando tua doce alma me convida
A eternizar-te no meu coração
E a compreender um pouco a tua vida.
 
E assim que te vais após cada leitura,
Deixas no meu peito a doce sensação
Que tua palavra cheia de ternura
Cura as amarguras do meu coração.
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Aldravia de
SUZANA PEIXOTO
(Suzana Maria Cruz Peixoto)
Belo Horizonte/MG

mãos
carinhos
danças
bailes
saudosas
lembranças
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

As palavras perfumadas da confidência
(Maria Goreti Andrade Carneiro Dias in “Textos de Amor", p. 40)

“Palavras perfumadas de confidência”
Dizias tu baixinho ao meu ouvido
E eu, delas tão sedento e atrevido
Ia perdendo, aos poucos, a inocência.

O amor ardia em nós com tal urgência
E como quase nada era proibido
Sem saber o caminho percorrido
Quase demos às portas da demência.

Dormem os nossos corpos saciados
Perdidos nos lençóis amarrotados
Envoltos numa paz que nos aquece.

Em redor tudo é calmo e é perfeito.
E eu sinto em mim que o mundo é o nosso leito
Como se nele nada mais houvesse.
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Trova de
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH
Porto União/SC, 1945 – 2020, Curitiba/PR

Até hoje, na velhice,
lembro as canções de ninar
que mamãe, pura meiguice,
cantava pra me embalar!
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Dobradinha Poética de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Cidade Natal

Ao procurar as raízes,
tem o meu sonho tal ânsia,
que ao buscar dias felizes
volto à fazenda da infância.

Seu pai era jardineiro
e ele era um menino arteiro,
que só queria brincar.
Mas, quando a mãe o chamava,
as flores, logo abraçava
e o pai ele ia ajudar.

Cresceu… deixou a cidade.
Longe de tudo, a saudade,
quase que o fez regressar.
Mas, sabendo o que queria,
formou-se em agronomia
depois de muito estudar.

Já casado e com família,
passou anos em vigília
e por trabalhar assim,
formou dois filhos doutores
mas, nunca mais plantou flores
e nem cuidou de um jardim!

Ao perder a companheira,
sua ilusão derradeira,
já tendo bastante idade,
procurou suas raízes
lembrando os tempos felizes
lá, na pequena cidade.

Voltou à morada antiga,
ouviu a velha cantiga,
foi à igreja e ao botequim.
E, na praça da cidade,
onde dói mais a saudade,
plantou flores no jardim!
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TROVA POPULAR

Infeliz me considero 
em todos os meus intentos:
Quando penso achar venturas,
não acho senão tormentos.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Delírios da aurora

Quando a aurora bem cedo, abre a cortina,
ante os raios do Sol, o orvalho chora,
pestaneja no céu, a luz divina
e resplende, na terra, a luz da aurora!

Basta o olhar dessa aurora peregrina,
passageira que, ao longe, o céu decora,
e, aos pouquinhos, dos braços da campina,
o silêncio da noite vai embora!

Sobre as copas de antigos arvoredos,
lindas aves revelam seus segredos,
dando vivas, à luz do Sol nascente...

E entre coros, canções, ressurge a vida,
despertando essa paz adormecida,
que adormece de novo, ao sol poente!
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Trova de
ANTONIO BISPO DOS SANTOS
São Cristóvão/SE, 1917 – 2010, Niterói/RJ

Não quero louro ou riqueza.
Nada além do amor perdura.
Em minha feliz pobreza
Deus me cobre de ternura.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Sol eterno

Há mais alegria na procura que no encontro
A poesia da vida está na surpresa das esquinas
Em liberdade as diferenças se fazem divinas
Não se toma água limpa em fonte suja
Quem não garimpa dentro de si mesmo
Enferruja com seu toque tudo que amanhece
Não se conhece nem se doa ao próximo
É como canoa que temesse a festa da correnteza
A Natureza acontece na candura da simbiose
Ao horizonte do amor basta a luz da ternura
O sabor da fruta não depende da semente
Vem do calor da mão calejada do plantador
Pôr-do-sol que não se põe no peito da gente!
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Soneto de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Soneto italiano

    Frescura das sereias e do orvalho,
    Graça dos brancos pés dos pequeninos,
    Voz das manhãs cantando pelos sinos,
    Rosa mais alta no mais alto galho:

    De quem me valerei, se não me valho
    De ti, que tens a chave dos destinos
    Em que arderam meus sonhos cristalinos
    Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?

    Também te vi chorar... Também sofreste
    A dor de ver secarem pela estrada
    As fontes da esperança... E não cedeste!

    Antes, pobre, despida e trespassada,
    Soubeste dar à vida, em que morreste,
    Tudo, — à vida, que nunca te deu nada!
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Trova de
ANDRÉ RICARDO ROGÉRIO
Arapongas/PR

Quando, então, do céu descer
um brilho no seu olhar
é porque no entardecer 
meus sonhos vão te buscar.
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Spina de
ANA MEIRELES
Belém/PA

O pescador 

Pesqueiro do a(m)ar 
- Lançador de redes,
um eterno sonhador. 

Lança sua tarrafa com fé,
espera a maré, sob ondas
sente sua alma, terno ardor,
conhece o amor, vê águas 
de beijar praias, o pescador.
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Trova de
EVA YANNI GARCIA
Caicó/RN

Sei que me esperas, suponho,
te sinto além do infinito;
se és a musa do meu sonho,
és meu sonho mais bonito!
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Sublimação

Tento louvar a beleza do universo,
cantar o céu, o infinito, o sol, a flor.
No silêncio existe som que escuto em verso,
do matiz inexistente vejo a cor.

Numa gota d’água posso ver, submerso,
do gigante mar azul todo o esplendor.
Penso em rosas onde o espinho mais perverso
cresce, banindo a alegria e impondo a dor.

A solidão povoei, o peito imerso
nos meus sonhos enfeitados com o verdor
da esperança, alado aroma ao céu disperso.

A viver concebo o Bem. Em meu fervor,
sonhando a Paz, quando há guerra, quão diverso
vê-se o mundo no altar-mor do meu Amor!...
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Trova de
TIAGO
António José Barradas Barroso
Paredes/ Portugal

O amor ia no cartão,
a rosa era o meu presente,
agora, anda pelo chão
pisada por toda gente.
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Poema de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Linha do Tempo! 

Corre o tempo, sem dar tempo 
de ver que o tempo passou, 
agora, passado o tempo, 
passado no tempo estou; 
porém não me importa o tempo 
passado, pois este tempo 
passado, já se passou! 

Olho o tempo no presente 
e vejo quão bom é o tempo, 
pois o tempo, simplesmente, 
me dá tempo de ter tempo 
pra gastar tempo com gente 
que por não ter tanto tempo 
não vive o tempo presente!

Mais um dia amanheceu, 
mais um dia se passou, 
mais um dia anoiteceu, 
mais uma noite chegou, 
mais uma noite passou, 
mais uma noite se foi, 
e mais um dia se foi, 
e se foi todo meu tempo, 
sem ter um pingo de tempo, 
pra notar que o tempo foi 
embora, sem perder tempo, 
pois o tempo não tem tempo 
pra quem também não tem tempo, 
por isso não perca tempo, 
tire um pouco do seu tempo 
tão pouco, sem perder tempo, 
antes que o dia anoiteça, 
antes que você se esqueça, 
antes que você pereça, 
e viva todo este tempo 
que lhe resta, dando tempo 
para quem já não tem tempo 
de ver o tempo passar; 
não é tempo de esperar, 
vamos, pois, remir o tempo, 
antes de o tempo findar!
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Triverso de
JOSÉ APARECIDO BOTACINI
São Paulo/SP

Espelho cruel 
Refletindo janeiros: 
Rugas na face. 
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Sextilha de
MILTON SEBASTIÃO SOUZA
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

No entrevero, metido, que alegria,
deixo a chuva molhar meu coração,
pois eu sei, esta chuva que desliza
traz na seiva esta paz de cada irmão,
e a palavra precisa que preciso
para ser bom aluno na lição.
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Trova de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

Uma lágrima reluz
numa pétala dourada.
Orvalho cheio de luz,
clareando a madrugada.
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Hino de 
COLORADO/ PR

Sou filho de Colorado
Tenho orgulho do meu torrão
Amo tanto este berço adorado
Que hei de tê-lo sempre em meu coração.

Colorado és a terra de esplendor
Tudo em ti me encanta e seduz
Aqui o sol tem mais vida e calor
E as estrelas têm mais brilho e mais luz.

Neste solo onde existe tanto amor
Há um desejo perene de sucesso
Onde a prece altiva é o labor
E o caminho palmilhado é do progresso.

Tua gente lutadora e varonil
O teu nome sempre guardará
Colorado terra amada e gentil
Filha altiva do gigante Paraná.

Honra e glória aos seus descobridores
Que anteviram os caminhos da vitória
Para eles este hino de louvores
Por nos legarem este templo de glória.
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Poetrix de
ROMILDO AZEVEDO 
Brasília/DF

obstáculos

São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.
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Soneto de
EDIVAL PERRINI
(Edival Antonio Lessnau Perrini)
Curitiba/PR

Proa

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Que venham as tormentas, que venha o que vier,
tenho o sonho comigo, o sonho é meu pastor.

O mundo da aparência não me engolirá.
Conheço bem suas manhas, meu ofício é interior:
girassol que é girassol tem proa pro amanhecer.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Com ele eu teço o mundo, reinvento a via láctea.
Mistérios são bem-vindos, o sonho é meu pastor.

Ou eu busco a verdade ou ela não me achará.
Minha verdade, o sonho, é pomar e é brasão.
Seu universo, os versos, fio do sim e do não.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Encontro nele a luz, meu alimento e cor.
Que escorra a ampulheta, o sonho é meu pastor.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Tire as trovas da memória
do seu bom computador. 
Deixe que façam história
indo em livros ao leitor.
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Conto em Versos de
ARTHUR DE AZEVEDO
(Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo)
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

As festas

Era o Alfredo casado
Com formosa mulher, nova e sadia,
Mas não a merecia:
Andava enamorado,
Como um velho babão lascivo e tolo,
De uma reles corista
Com pretensões a artista,
Que trabalhava no teatro Apollo.

Fazia versos maus o pobre diabo,
E era empregado num pequeno banco:
Não podia dar-se ares de nababo,
Não podia mostrar-se muito franco,
Pois o que ali ganhava
Para os gastos da casa mal chegava;
Mas o parvo supunha
Que do Apollo a corista lhe quisesse
Não por vil interesse,
E o seu carnal desejo em versos punha,
Convencido de que ela
Com tal moeda se satisfizesse.

Escusado é dizer que ele da bela
Nada mais conseguira,
Tangendo a sua lira,
Senão coisas vulgares,
Sorrisos ternos, lânguidos olhares,
Porque já não há musa
Que às coristas seduza...
Já lá se vai o tempo em que um soneto,
Embora não tivesse chave de ouro
No último verso do último quarteto,
Tinha a chave que abria,
Depois de longo e pertinaz namoro,
O duro peito da mulher mais fria.
A mísera poesia,
Por tantos explorada,
Hoje é moeda desvalorizada.

O visionário Alfredo
Vai uma noite ao teatro muito cedo
E faz chegar às mãos da semi-artista,
Dentro de um ramalhete,
Perfumado bilhete,
Pedindo uma entrevista.
E no dia seguinte, à hora do ensaio,
Vai ter com ela e diz: — Daqui não saio,
Enquanto uma resposta não me deres,
Ó tu que és a mais linda das mulheres,
Flor das musas do Apollo!

Abre a tipa uma bolsa de veludo
Que traz a tiracolo,
Dessas em que as madamas guardam tudo:
Lencinhos, luvas, pó de arroz, bilhetes,
Pentinhos, alfinetes,
E dinheiro miúdo;
Dois retalhos de seda
Tira de dentro, sorridente e pronta,
E do Alfredo aos atônitos ouvidos
Estas palavras múrmura segreda:
— Qual mais te agrada destes dois vestidos? —

Ele o melhor aponta,
— Pois vai compra-lo e traz-me-o. A resposta
Terás então daquele bilhetinho
À cálida proposta…

Encontras a fazenda no Godinho.
Catorze metros bastam. Adeusinho! —
E a corista fugiu que nem um raio,
Porque a estavam chamando para o ensaio.

Após ligeiro pasmo,
Perdeu o Alfredo todo o entusiasmo,
Por ver, naquele instante,
Que, para a amada se tornar amante,
O metro dos seus versos
Não era ainda bastante:
Ela exigia metros bem diversos:

Metros de seda cara,
Que custar deveriam...
Quanto? — os olhos da cara!
E os lábios seus tremiam!
Para a ingrata o Parnaso era o armarinho,
E o Apolo era o Godinho!

Meteu, desiludido, na algibeira
Os retalhos. Saiu. Foi para o banco,
E, inspirado, nervoso, num arranco,
Passou a mais feroz descalçadeira
Na exigente corista em verso manco.
À noite, em vez de lhe mandar fazenda,
Na forma da encomenda,
Mandou-lhe a versalhada.
Leu-a a corista e deu muita risada.
Andou de mão em mão a poesia,
E foi lida por toda a companhia.
Alfredo, esse dormiu tranquilamente,
Aliviado e contente,
Durante a noite inteira.

Foi a esposa a primeira
Que da cama se ergueu. Eu cá duvido
Haja no mundo uma mulher casada,
Embora muito honrada,
Que não reviste os bolsos ao marido,
Quando este ainda se acha recolhido...
Tinha do Alfredo a esposa tais trabalhos,
E por isso encontrou os dois retalhos.
Quando ele despertou, ela, sorrindo,
Rosto sereno, olhar sereno e lindo,
Lhe disse: — Finalmente,
Alfredo, minha vida,
Vais dar-me de presente
Um vestido de seda! Agradecida!
Que belas festas de princípio de ano!
Não imaginas como estou contente!
Ter um vestido assim era o meu plano!
Duas amostras vêm — naturalmente
Para escolher: pois bem... esta prefiro…

Depois daquele triste desengano,
O Alfredo enveredou no bom caminho,
E a senhora, modelo das honestas,
Teve esse ano de festas
Um vestido de seda... Mal sabia
Que a uma corista reles o devia!
(Contos em versos. Publicado em 1909. Disponível em Domínio Público)