sábado, 21 de fevereiro de 2026

José Feldman (Carta derradeira)

A quem possa interessar — ou melhor, a quem sobrar para ler.

Este é o ponto final de uma pessoa que caminhou e caminhou que não vê a luz do dia de uma jornada que, sinceramente, perdeu o sentido. Olho para os lados e vejo que o "patamar" que tentei alcançar é cercado por muros altos de diplomas e títulos de pós-doutorado, onde mentes supostamente grandes não têm ouvidos e se mostram cegos para quem não fala a língua acadêmica. Entendi, finalmente, que aos olhos deles sou apenas um completo imbecil sem curso superior.

Acreditei, por uma ingenuidade que não combina com minha idade, que poderia fazer alguma diferença. Que as medalhas e troféus que hoje acumulam poeira na minha sala eram prova de alguma dignidade. Mas as conquistas só existem se houver com quem partilhá-las, e o silêncio ao meu redor me diz que elas foram apenas uma doce ilusão solitária.

Na internet o que publico continuará entregue às moscas; as pessoas nem ao menos comentam ou curtem, as palavras lá escritas agora pertencem apenas ao vazio. Cansou-me o esforço de querer ser alguém que a sociedade insiste em ridicularizar. O desgaste do cérebro, da energia e do tempo não compensa o preço de ser maltratado pela arrogância de quem só valoriza o papel timbrado da universidade.

A partir de hoje, coloco-me no meu lugar — o lugar que escolheram para mim, mas que agora abraço por cansaço. 

Abandonar o que eu acreditava não é uma derrota, é uma rendição necessária para ter paz. Meus poucos  anos restantes não serão dedicados a tentar mudar um mundo que me ignora. Eles agora pertencem aos filmes na TV, às histórias em quadrinhos e à fidelidade sem julgamentos de quem se importa comigo e me respeita, da minha cadela.

Invertendo o que disse D. Pedro I: se é para o bem do meu resto de vida e para o silêncio geral da nação, diga a todos que fico... mas fico no meu canto. E daqui não saio mais para tentar provar nada a ninguém.

Ponto final.

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