quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Filemon Martins (Poemas Escolhidos) XXVI

 

AMOR E SAUDADE
 
Vou prosseguindo pelo meu caminho
em busca do meu sonho mais dileto:
- cantar feliz e amar qual passarinho,
que no seu ninho sente-se completo.

Correr ao vento, roupa em desalinho,
plantando amor e paz no meu trajeto,
quero encontrar um pouco de carinho
que me dê paz no mundo sem afeto.

Vejo, porém, que continuo o mesmo,
descrente, sem amor, vagando a esmo
sem encontrar a tal felicidade.

E os sonhos que sonhei em minha vida
vão acenando em triste despedida
cravando, no meu peito, esta saudade.
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ANTES QUE A NOITE CHEGUE...

Quando o sol se debruça no horizonte
deixando a tarde bela e mais fagueira,
antes que a lua, pelo céu, desponte,
a saudade se achega e faz trincheira.

Ao longe, em tom avermelhado, o monte
transmite uma quietude verdadeira,
trazendo ao coração o som da fonte
que canta, docemente, em corredeira.

Assim, vou recordando os tempos idos,
sonhos fagueiros, lindos e vividos,
que a memória jamais vai esquecer...

E, antes que chegue ao fim dessa jornada,
terei, por certo, em minha caminhada
muitos versos de amor para escrever.
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A VOZ DO TEMPO
 
O tempo vai levando cruelmente
vidas, amores, glórias e venturas.
Dissabores espreitam lá à frente
e os sonhos viram pó e desventuras.
 
Ao procurar motivo que contente
um coração cansado das agruras,
minha oração se eleva docemente
e busca a paz que desce das alturas.
 
Mas o tempo não para e nem descansa,
não permite sequer uma esperança
que me deixe mudar o itinerário...
 
Impossível fugir do meu destino
já traçado, talvez, desde menino:
Levar sozinho a cruz do meu calvário!
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CURVA DO CAMINHO

Eis-me chegando à curva do caminho,
onde vejo os escombros do passado:
a casa em que nasci, cresci, malgrado
o quarto de dormir em desalinho.

Não me faltou, porém, muito carinho
vivendo no Sertão injustiçado,
onde o “mandante” sempre desalmado
faz o povo sofrer, no Pelourinho...

No entanto, a vida é bela e deslumbrante,
mesmo que a estrada se apresente escura
sempre brilha uma luz ao viajante...

... E quando eu me tornar uma saudade,
minha alma esquecerá a desventura
para cantar, em verso, a Eternidade!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

ELOGIO AO AMOR

Neste caminho eu sigo contemplando
a Natureza exuberante e bela,
passarinhos nos ramos saltitando
entoando canções em aquarela.

Aonde quer que eu vá, eu vou cantando
a pureza do amor, pintado em tela,
que Deus o produziu, por certo amando,
para mostrar ao mundo, em passarela...

O amor? Triste de quem não tem amor,
nem sentiu nesta vida alguma dor,
nem teve uma saudade a recordar?

Pois o amor é um sublime sentimento
que ferve, vibra e invade o pensamento,
e  nos leva ao delírio para amar!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

IPUPIARA

Feliz é quem trilhou estes caminhos
que levam à vibrante Ipupiara,
ouvindo o som de belos passarinhos
numa paisagem deslumbrante e rara.

Ibipetum, Pintada e outros vizinhos
Sodrelândia, Vanique e Caiçara,
Chiquita, Bela Sombra com seus ninhos,
Brejões, Coxim que muito me ensinara.

Jamais vou esquecer... O Olho d´Aguinha,
Veríssimo, Barreiro e até Matinha,
Deus me Livre, Umbaúba e Boa Vista.

Felicidade, então, é ter nascido
e neste berço um dia ter vivido
com gente hospitaleira e idealista!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

RESSURREIÇÃO

Já não lamento o fim daquele sonho
que o tempo, impiedoso, me levou.
- Venturas e alegrias – pressuponho
tombaram pelo chão, nada sobrou.

Por que sofrer, chorar, viver tristonho?
Se o vendaval que assusta já passou?
Reconstruir é tudo o que me imponho
e gritar para o mundo: aqui estou.

Tal como a fênix ressurgir da morte
e as cinzas sacudir buscando a sorte,
embora os olhos marejados d´água.

Meus versos jorrarão como uma fonte
fervilhando de amor vencendo a ponte,
mesmo cobertos de saudade e mágoa!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

REVISITANDO A INFÂNCIA

Refaço, de memória, a longa estrada,
caminhos que trilhei desde menino.
De manhã cedo, ainda na alvorada,
eu preparava a terra, meu destino.

Tempos depois, aposentei a enxada,
para estudar, no chão diamantino.
A vida era feliz lá na Chapada,
quando brilhava a luz do sol, a pino...

Tudo passou, bem sei, tão de repente,
meu coração, parece, anda descrente
e o sentimento, quantas vezes, trunca...

Hoje, guardo no peito, com cuidado,
lembranças que marcaram meu passado
e uma saudade que não passa nunca...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Filemon Martins (1950)
FILEMON FRANCISCO MARTINS é um renomado escritor, poeta e trovador brasileiro, reconhecido como um dos nomes expressivos da poesia lírica e do trovadorismo nacional. Nasceu em 1950, na cidade de Ipupiara/BA (região da Chapada Diamantina). Passou a infância e juventude na Bahia (em Ipupiara e Morpará). Posteriormente, mudou-se para São Paulo (SP), onde fixou residência por longos anos para estudar e trabalhar. Cursou Administração de Empresas na Faculdade de Administração e Ciências Econômicas "Santana", em São Paulo. Prestou serviços para grandes corporações e órgãos públicos, incluindo a Empresa Folha da Manhã S.A. e a Prefeitura Municipal de São Paulo. Desenvolveu sólida carreira no Judiciário Federal, atuando e aposentando-se na Subsecretaria de Feitos da Presidência (UFEP). Foi também filiado ao Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (SINTRAJUD).
Filemon possui uma produção diversificada em artigos, crônicas, sonetos e trovas, sendo membro de várias entidades literárias e culturais de destaque. Sua trajetória é marcada por reconhecimentos em trovas e antologias poéticas pelo país. Membro da Academia Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras, Anápolis/GO; The International Academy of Letters of England, (London, England); Academia de Letras de Ipaussu/SP; Clube Baiano de Trova, Salvador/BA; Instituto Cultural do Vale Caririense, em Juazeiro do Norte/CE; Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (SINTRAJUD), Confraria Brasileira de Letras (PR).
Sua bibliografia abrange obras poéticas e pesquisas genealógicas: “Flores do meu jardim” (Poemas, 1997), “Anseios do coração” (Poemas, sonetos e trovas, 2011); “Dicionário genealógico da família Ribeiro Martins” em coautoria com Mário Ribeiro Martins (2007); “Fagulhas” (Miscelânea, 2013); “Sonetos & Trovas” (2014); “Histórias que só agora eu conto” (2018) e – “Caminhos do Jordão da Bahia” (2022).
A relevância do autor reside na preservação das formas clássicas da poesia e na contribuição para o resgate histórico e cultural brasileiro.

Fontes:
Biografia = Scortecci, Unicamp, Página 3, Anseios do Coração, Confraria Brasileira de Letras, etc.

Eduardo Affonso (Nada Além)

Quando eu morrer, assim que chegar do lado de lá e confirmar que não há lado de lá, faço questão de baixar em algum centro só para dar a má notícia.

– Se houver algum espírito entre nós, que se manifeste.

– Não tem espírito nenhum porque espírito não existe. Vim só para dizer que não tem nada do lado de cá. O Além é uma ilusão.

– Se não tem nada desse lado daí, onde é que tu estás?

– Em lugar nenhum. Ateus são como a Buzina do Chacrinha: acabam quando terminam. Morreu, céfini. E não precisa me tratar na segunda pessoa porque sei que este centro é em Magé, não em Bagé.

– Mas se tu, quer dizer, se você acabou e não está em lugar nenhum como é que estamos conversando neste momento. Não faz sentido…

– Exatamente. Sabe qual a diferença entre o unicórnio de 4 chifres e o de 7 chifres?

– Um tem 3 chifres a mais.

– Não, não tem diferença nenhuma. Nenhum dos dois existe. Você estar falando agora com um espírito ateu inexistente é a mesma coisa de estar falando com um espírito de luz, que também não existe. É tudo uma projeção do seu inconsciente, tudo sua imaginação.

– Você está insinuando que isto aqui é uma armação?

– Uma armação, eu não digo. Um delírio, com certeza. Mas acredito que seja uma forma de consolar as pessoas, e nada mais consolador que a fantasia. Então, tá de boa.

– Mas não tem mesmo nada aí?

– Nadica.

– “Nosso lar” então era…

– … licença poética. Onde já se viu passarela para espírito, que não tem corpo, ter guarda-corpo? Tinha que ter guarda-espírito…

– É que os espíritos…

– Nem vem. Espírito é espírito, corpo é corpo. Uma coisa é o relógio, outra é a corda do relógio.

– Você não está comparando a alma humana com a corda do relógio, está? A corda é uma coisa mecânica…

– … e a alma é uma coisa química. Ou quer que eu acredite que, quando um relógio para, a corda do relógio vai para a “Nossa relojoaria”, onde continua tendo a forma de despertador, cuco, carrilhão, Casio, Rolex? E que depois um reloginho desses de ponteiro, se nunca tiver se atrasado na vida, pode reencarnar – quer dizer, reenrelojar – num relógio digital ou mesmo num celular…. me poupe.

– Mas é que a alma, o espírito, o perispírito, a psique, princípio vital…

– Mano, eu só vim para avisar que vocês vão se decepcionar quando chegarem aqui e não for nada do que imaginam. Porque aqui não existe. É só um imenso Nada, um Nada absoluto. Até eu, que sabia que ia encontrar o Nada fiquei abismado com um o tamanho do Nada que encontrei. Vazião mesmo.

– Ok, o papo tá ótimo, mas tem outros ectoplasmas na fila de espera para se manifestar e o pessoal aqui do centro tá ficando meio indócil com essa nossa conversa. Ide em paz, espírito ateu!

– Valeu, irmão! E obrigado pela segunda do plural. Pena que não exista nenhum centro espírita ateu. Ia ser divertido baixar lá com Freud, Einstein, da Vinci, Hawking, Sagan, Sartre, Niemeyer – que também chegaram aqui, não encontraram nada e vão passar o resto da eternidade sem uma corrente pra arrastar, uma cartinha para ditar, uma gira para animar, uma casa mal assombrada pra assombrar. Pensando bem, inexistir tem suas vantagens. A gente descansa. Fui!

– Já vai tarde. (Suspira fundo) Desculpem, irmãos. Tivemos uma interferência aqui na conexão com o Além, que já foi restabelecida. Tem alguém aqui cujo nome começa com a letra M? O espírito de um ente querido tem uma mensagem de paz para você…
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Eduardo Affonso (1959)
    O professor, cronista e arquiteto mineiro EDUARDO AFFONSO é uma das vozes mais originais e bem-humoradas da crônica contemporânea brasileira. Ele se destaca nacionalmente por suas reflexões irônicas sobre o comportamento humano, sua análise lúdica das redes sociais e sua paixão pela etimologia e pelo aportuguesamento criativo de termos estrangeiros. Nasceu em 1959, em Belo Horizonte/MG. Mudou-se para o Rio de Janeiro /RJ, onde se estabeleceu profissionalmente, graduou-se e fixou sua residência de longo prazo. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ). Embora tenha atuado como arquiteto no passado, acabou se distanciando da profissão ao ser seduzido pelos estudos da psicanálise, da linguística e da escrita criativa. Atua há anos na imprensa de grande circulação, mantendo uma prestigiada coluna semanal/quinzenal na página 3 do jornal O Globo. Escreve também crônicas para revistas e portais de destaque, como a Veja Rio. Destaca-se fortemente no ambiente digital como palestrante, tendo ministrado apresentações marcantes como o TEDxSaoPaulo sobre a "estantologia" (a ciência das estantes de livros nas transmissões de vídeo).
Sua trajetória na escrita começou pela poesia. No entanto, após o que ele define ironicamente como "um pé na bunda da poesia", consolidou-se como cronista urbano. Tornou-se um formador de novos talentos e um articulador cultural focado no ambiente democrático e independente. Ele é o idealizador e coordenador da Oficina Literária Eduardo Affonso, um projeto focado em estimular a escrita criativa e orientar novos produtores de crônicas. É um dos fundadores da FLIQUE (Feira Literária de Quem Escreve). Não possui filiação a academias de letras tradicionais, preferindo manter sua atuação voltada à literatura de imprensa, à internet e ao mercado de oficinas livres. Não é conhecido por acumular prêmios institucionais ou acadêmicos clássicos. Seu grande reconhecimento reside na altíssima fidelidade e engajamento de seus leitores, na circulação massiva de seus textos que viralizam organicamente pelas redes sociais e pelo respeito conquistado na grande imprensa carioca.
Durante anos, construiu sua reputação literária quase inteiramente por meio de textos em jornais, blogs e redes sociais. Posteriormente, começou a estruturar e organizar seus livros e antologias de forma impressa: Crônicas de A a Z – Livro coletivo do qual é coautor e organizador, editado em parceria com a FLIQUE; Antologias e publicações em formato de livro digital/físico reunindo suas centenas de crônicas de cotidiano de O Globo.
A relevância de Eduardo Affonso para a literatura atual está em sua capacidade de renovar a crônica jornalística na era digital. Autodenominado por críticos como um "inventalínguas", ele chama a atenção pela forma genial com que aborda a língua portuguesa viva: em vez de adotar estrangeirismos corporativos e tecnológicos em inglês, ele os abrasileira sistematicamente em seus textos — criando expressões divertidas como "romiófice" (home office), "feiquenius" (fake news), "apigreide" (upgrade) e "pleiliste" (playlist). Com um estilo que evoca o olhar arguto de crônicas clássicas misturado à agilidade da comunicação pós-moderna, ele consegue democratizar o acesso à literatura por meio de suas oficinas, ensinando que o cotidiano mais banal e as contradições do comportamento humano são matérias-primas ricas para a alta literatura.

Fontes:
Biografia – Veja Rio, TED, Facebook.

Estante de Livros (“A Ferro e Fogo”, de Josué Guimarães)

A saga da colonização alemã, particularizada na luta pela sobrevivência e na identificação com as condições históricas rio-grandenses por parte da família Schneider, lembra como processo narrativo O tempo e o vento, de Erico Verissimo. Porém o sopro épico que anima as páginas do escritor de Cruz Alta é substituído por uma preocupação maior com o prosaico, com a mesquinha luta cotidiana, com a tarefa inglória de resistência em meio a uma terra estranha.

Local e época:

A narrativa se passa no Rio Grande do Sul [abrangendo as terra que hoje correspondem ao Chuí, Santa Vitória do Palmar, São Leopoldo, Porto Alegre, Rio Grande e Portão], no tempo do Império, num ambiente hostil, pobre e violento durante e após a guerra da Cisplatina, onde os personagens principais vivem em meio a bugres, negros, castelhanos, gaúchos, soldados e alemães.

Caracterização dos personagens:

Catarina - era uma mulher de rosto redondo e forte. Uma mulher decidida, batalhadora, humilde e mãe de três filhos. Apesar das dificuldades que passou, era solidária, carinhosa, cristã, corajosa e paciente. Ela era esperta, pois sabia lidar com os negócios, e trabalhadora. Não tinha preconceitos e tomava as iniciativas pois possuía uma personalidade forte.

Daniel Abrahão - era indeciso, covarde, queria preservar sua vida, não enfrentando as situações e acabou ficando alheio a tudo e obcecado pela religião. Era um homem sem iniciativa que acabou sendo comandado por sua mulher.

Grundling - era um homem perspicaz, ganancioso, preconceituoso, fazia de tudo para realizar os seus objetivos, gostava de ostentação, de mostrar sua riqueza. Ele apreciava beber e frequentar casas de prostituição. Embora gostasse muito da esposa com a qual teve dois filhos.

Resumo:

O governo brasileiro estava trazendo imigrantes da Alemanha para o Rio Grande do Sul, com a promessa de que eles receberiam terras, sementes, animais,... Dentre esses imigrantes estava a família de Daniel Abrahão Lauer Schneider, que se instalou na Real Feitoria de Linho Cânhamo [atual São Leopoldo]. Ele, sua mulher Catarina e seu filho Phillip viviam em condições miseráveis.

Daniel e um grupo de amigos se reuniam para beber e Grundling era quem pagava essas bebedeiras. Um dia, Grundling propôs um negócio para Abrahão, ele daria todas as condições para uma viagem ao sul do estado, forneceria um casal de escravos, um índio chamado Juanito e terras, mas Grundling não especificou qual era o negócio, disse apenas que iriam armazenar mercadorias. Daniel estava indeciso, quem optou por ir foi Catarina, pensando no futuro de seus filhos. Depois de alguns dias de viagem, chegaram ao local e começaram a realizar as reformas necessárias. Apareceu por lá Harwether, uma amigo das antigas bebedeiras, trazendo as mercadorias que deveriam ficar guardadas ali até Mayer ir buscá-las.

Já estavam há algum tempo no negócio, quando se iniciou a Guerra da Cisplatina, e Daniel descobriu que as mercadorias armazenadas por ele eram armas e os castelhanos já estavam desconfiados do contrabando. Certa vez, Juanito viu uma tropa aproximando-se, avisou Catarina que ordenou a Daniel que se escondesse em um poço e ela mentiu para os soldados castelhanos que o marido não estava. Eles descobriram as armas e as levaram. O movimento de soldados era contínuo, não só de castelhanos com também de brasileiros, por isso Daniel permaneceu vários meses no poço que ate já estava mais estruturado. Catarina foi violentada por soldados e Juanito ficou coxo por causa das surras. Mayer mentiu em São Leopoldo que Daniel contrabandeava armas para os castelhanos, por isso os soldados brasileiros também estava atrás de Daniel.

Enquanto os Schneider passavam dificuldades, Grundling e seu amigo Major Schaeffer, amigo da Imperatriz Leopoldina, se divertiam com bebedeiras e prostitutas. Grundling, a pedido do doutor Hillebrand, decide ajudar uma moça deixada por bugres na cidade. Com o passar do tempo ele se apaixona pela moça chamada Sofia, casa com ela e tem filhos.

Aparece na estância dos Schneider um soldado chamado Ostereich, um alemão convocado para lutar na guerra, informa Catarina sobre o fim da guerra da Cisplatina e que ele voltava para São Leopoldo. Catarina menciona o desejo de deixar aquelas terras e ir para São Leopoldo. Então eles entram em um acordo, ela trocaria as terras pelas propriedades de Ostereich.

Os Schneider foram para lá e Catarina decidiu que Daniel voltaria a exercer sua profissão de origem, a de seleiro. Além disso, abriu vários empórios, e já estava fazendo concorrência aos empórios de Grundling. Daniel ficou traumatizado com a guerra e constrói um alçapão para permanecer durante a noite.

Grundling descobriu que Catarina estava na cidade e foi falar com ela. Foi recebido hostilmente com uma arma empunhada por ela, sendo inviável a comunicação ele retornou para casa. Enquanto isso, havia uma conspiração por parte dos alemães que reclamavam da demora na entrega das terras prometidas, houve algumas mortes de alemães o que aumentava ainda mais a revolta.

Grundling não permitia que a esposa saísse às ruas pois eram sujas e ele não gostaria que ela tomasse sol e queimasse sua pele branca. Sofia acabou ficando anêmica e morreu. Catarina resolve ir acertar as contas com Grundling, em quem ela colocava toda a culpa pelas desgraças que aconteceram em sua vida. Quando chega ao local, Grundling pensa que ela vem em solidariedade por causa da morte da esposa. Ao olhar a profunda tristeza que invade Grundling, ela desiste do seu objetivo [matar], esquece seu velho ódio e segue junto a ele o cortejo, contendo o choro.

Fonte:
Algo Sobre.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Lucília A. T. Decarli (Semeando Trovas)

 

1
A mensagem do poeta,
por muitos despercebida,
de forma sábia e completa
exalta a essência da vida!
2
Ante um fato contundente,
não podendo fazer nada,
é nas mãos do Onipotente
que eu coloco a minha estrada.
3
Antes que a vida se acabe,
não seja vão o viver
e aquilo que não se sabe,
que se comece a aprender.
4
As cinzas, na quarta-feira,
servem para nos lembrar
que esta vida é passageira
e que ao pó vamos tornar…
5
Da sua casa ao cartório
apenas um quarteirão...
Dada a preguiça, o casório
se fez por procuração.
6
Decretaste uma sentença
bem cruel, na despedida,
ao privar-me da presença
que era tudo em minha vida!
7
Deixando em mim forte anseio
pelo seu jeito de amar,
você se foi como veio:
- numa noite de luar!
8
Desde os tempos mais pagãos,
mulher, revelas quem és...
O mundo sempre nas mãos
e sempre um homem... aos pés!
9
Desprovida de coragem
não pude o amor declarar,
mas minha muda mensagem
estava escrita no olhar!
10
De volta, naquela viagem,
carregando o olhar tristonho,
via de perto a paisagem,
mas bem distante o meu sonho...
11
Envolvidos em discórdia,
a Deus pedimos perdão
e a "Eterna Misericórdia"
responde "sim"... de antemão!
12
Esta paixão, minha e tua,
transcende em cada arrebol…
Se é noite, ao clarão da lua,
e se é dia, à luz do sol!
13
Este ciúme, meu tormento,
brota em lágrimas veladas,
que, independente do intento,
revolvem "águas passadas"...
14
Foi pirraça inusitada
aquela da sogra à nora:
ficou com ela abraçada
para passar catapora!...
15
Levo pela vida afora
este dilema sem fim:
o "sim" que eu neguei outrora
fez mal ou bem para mim?!...
16
Mesmo em escrito disperso,
nossa língua portuguesa,
seja em prosa, seja em verso,
reveste-se de beleza!
17
Musa de tantos amores,
neles, inspirada a lua,
repete ao sol sem temores:
– “Incendeia-me… sou tua”!
18
Não conhece despedidas,
nem discórdias, nosso teto:
- é que ligam nossas vidas
os laços fortes do afeto!
19
Não sei se todos ponderam
a troca que o livro traz:
- grandes homens o fizeram,
grandes homens ele faz!
20
Na rua a multidão passa...
Humanos, juntos - é  certo -,
mas, vejo, pela vidraça,
cada qual no seu deserto.
21
Nas ruas de minha vida,
cada esquina uma lição,
e em cada etapa vencida,
muito zelo… de antemão!
22
Nau partindo – céu aberto,
nas verdes águas do mar;
navega com rumo certo
na incerteza de chegar!…
23
Nem sempre vamos vencer
nessa ou naquela disputa...
O que importa é não perder
a coragem para a luta!
24
No bilhete em que disseste:
"vou, mas volto sem demora",
por descuido não puseste
nem o dia nem a hora...
25
Nos ombros dilacerados
Tu carregaste, Senhor,
o peso dos meus pecados
e o meu vazio... de amor!
26
Nossa amizade é tão forte
que eu ouso exemplificar:
– se um corre risco de morte,
o outro morre em seu lugar!…
27
O café, condecorado
por ter sabor sem igual,
hoje, fato consumado:
– é bebida universal!
28
O destino, em nossas vidas
trouxe o reencontro, depois
das distâncias percorridas
nos caminhos de nós dois
29
O relógio, sem piedade,
marcando o tempo inclemente,
foi transformando em saudade,
a esperança decrescente…
30
Os abraços das chegadas
e os abraços das partidas,
com tantas datas marcadas,
vão marcando as nossas vidas!
31
O terapeuta sugere:
- “Apimente” a relação!
Mas a mulher interfere:
- “Tô fora! Pimenta não!
32
Para enxergar a cobiça
e amparar prejudicados,
não deveria, a Justiça,
manter seus olhos vendados!
33
Por nunca amar quem me ama
e amar quem nunca me quis,
as feridas do meu drama
deixam dupla cicatriz...
34
Prisioneira deste encanto
que transmite o teu olhar,
preciso fugir, no entanto,
não quero me libertar!
35
Quando fingir é preciso,
seriamente eu me concentro:
– levo na face um sorriso,
enquanto eu choro por dentro.
36
Quando vens, só de passagem
no escasso tempo, mas pleno,
o amor faz grande a coragem
e o medo fica pequeno!..
37
Quem julga o seu semelhante
carrega pedras na mão
e o que odeia a todo instante,
as guarda em seu coração!
38
Quero ser como o coqueiro,
que não desiste, jamais;
mesmo envergado, altaneiro
à fúria dos vendavais!
39
Repasso o livro da vida...
Nessas páginas viradas,
reverti muita partida
em momentos de chegadas!..
40
Sanar miséria contida
no coração do indigente,
não consiste em dar comida,
mas tratá-lo como gente!
41
Se és menos corpo, mais alma,
se o mundo te fez ancião,
leva no semblante a calma
de ver findando a missão.
42
Sendo a existência pautada
com regras de retidão,
que a marca maior da estrada
seja os passos do perdão!…
43
Se viveres, amiúde,
longas noites de boemia,
perderás tua saúde
e para sempre a alegria…
44
Todo homem tem na mulher
um mistério a desvendar:
- sempre ela sabe o que quer,
mas nem sempre quer falar!...
45
Vigiando o companheiro
ela fica no seu pé;
só se afasta indo ao banheiro,
mesmo assim, de marcha a ré...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Lucília A. T. Decarli (1939)
        LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova (poema de quatro versos setessílabos com rimas alternadas) e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da UBT – Seção Bandeirantes, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes e os livros oficiais da UBT. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a UBT e a ALCAB, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.

Biografia = Folha do Norte do Paraná, UBT-Recife, Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná, Dário Indústria & Comércio, etc.

Mensagem na Garrafa 213 = A estrela verde

Imagem = IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Era uma vez... Milhões e milhões de estrelas no céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas, lilases, prateadas, douradas, vermelhas, azuis.

Um dia, elas procuraram o Senhor Deus, Todo-Poderoso, o Senhor Deus do Universo e disseram-lhe:

- Senhor Deus, gostaríamos de viver na Terra, entre os homens.

- Assim será feito, respondeu Deus. Conservarei todas vocês pequeninas, como são vistas, e podem descer à Terra.

Conta-se que naquela noite, houve uma linda chuva de estrelas. Algumas se aninharam nas torres das igrejas, outras foram brincar e correr com os vagalumes, no campo, outras misturaram-se aos brinquedos das crianças e a Terra ficou maravilhosamente iluminada. 

Porém, passado algum tempo, as estrelas resolveram abandonar os homens e voltar para o Céu, deixando a Terra escura e triste.

- Por que voltaram? perguntou Deus, à medida que elas chegavam ao Céu.

- Senhor, não nos foi possível permanecer na Terra. Lá existe muita miséria, muita desgraça, muita fome, muita violência, muita guerra, muita maldade e muita doença.

E o Senhor lhes disse:

- Claro, o lugar real de vocês é aqui no Céu. A Terra é o lugar do transitório, daquilo que se passa, do ruim, daquele que cai, daquele que erra, daquele que morre, é onde nada é perfeito. Aqui no Céu, é o lugar da perfeição. O lugar onde tudo é imutável, onde tudo é eterno, onde nada padece.

Depois de chegarem todas as estrelas e conferindo o seu número, Deus falou de novo:

- Mas está faltando uma estrela. Perdeu-se no caminho?

Um anjo, que estava perto retrucou:

- Não, Senhor. Uma estrela resolveu ficar entre os homens. Ela descobriu que seu lugar é exatamente onde existe imperfeição, onde há limites, onde as coisas não vão bem.

- Mas que estrela é essa? – voltou Deus a perguntar.

- Por coincidência, Senhor, era a única estrela dessa cor.

- E qual é a cor dessa estrela? insistiu Deus.

E o anjo disse:

- A estrela é verde, Senhor. A estrela verde do sentimento de esperança.

E quando então olharam para a Terra, a estrela não estava só.

A Terra estava novamente iluminada, porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa.

Porque o único sentimento que o homem tem e Deus não tem é a esperança. Deus já conhece o futuro, e a esperança é própria da natureza humana. Própria daquele que cai, daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que ainda não sabe como será seu futuro.

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Erro crasso”

General romano Crasso

A cultura popular incorporou essa expressão a partir do erro do general romano Marco Licínio Crasso, que em 53 a.C. perdeu a batalha de Carras e nela também a própria vida. Crasso era um figurão que dividiu o poder com Júlio César e Pompeu no ano 59 a.C, no período historicamente conhecido como Primeiro Triunvirato. Obcecado por conquistar o Império Parto, na Mesopotâmia, esse oficial atacou a cavalaria inimiga em campo aberto com uma tropa de infantaria a pé, e o resultado foi que teve seu exército dizimado. 

Assim, a expressão "Erro crasso", equivale a um erro grosseiro, visível, primário, inaceitável e possui duas conotações: a da sua origem linguística real e a aventura militar que devastou tantas vidas. 

A palavra deriva do latim “Crassus”, que literalmente significa gordo, denso, espesso, bruto ou volumoso. Com o tempo, passou a ser usada em sentido figurado para indicar algo sem refinamento, tosco ou muito evidente. Um "Erro crasso" é um erro elementar, percebido de cara, algo tão denso, volumoso e visível, que não pode passar despercebido. 

Quanto à origem histórica, como dito antes, a expressão é associada à tragédia das tropas do general romano Marco Licínio Crasso, que viveu de 115 a.C. a 53 a.C., o homem mais rico de Roma, cujo eco anabolizado e superlativa vaidade, eram infinitamente maiores do que sua própria fortuna pessoal.

Faminto por glória militar, liderou ele uma campanha contra o Império Parta (região onde está o Iraque), porém ignorou os conselhos dos oficiais do seu “staff”, recusou a ajuda de aliados e marchou com 40.000 soldados pelo deserto para o combate frontal, sem o devido respaldo tático ou logístico. O resultado dessa sandice foi que, ao encontrar as tropas adversárias na Batalha de Carras, a infantaria romana foi cercada e quase aniquilada pelos arqueiros partas, que disparavam flechas certeiras de um plano mais alto, montados em seus cavalos. 

Na refrega, que os apanhou desprotegidos, mais de 20.000 combatentes de sua tropa morreram, incluindo o general e seu filho, sendo os milhares de feridos e sobreviventes, capturados e aprisionados. Foi um dos piores desastres militares de toda a história de Roma, que desfrutava da fama de ser imbatível. 

Embora linguistas reforcem que o adjetivo “crassus”  já existia no latim com o sentido de "grosseiro" antes mesmo do general Crasso ficar famoso pela fragorosa derrota, que consolidou para sempre a expressão na cultura popular. 

No cotidiano, jornais, blogs, sites, redes sociais e o noticiário televisivo nos revelam notícias estarrecedoras sobre erros crassos cometidos nas mais diversas profissões, sejam manuais, técnicas ou intelectuais. 

Cirurgiões esquecem pinças no abdome de pacientes; engenheiros constroem prédios que desabam ao sopro mais vigoroso do vento; comandantes encalham navios por equívocos nas plotagens de rumos; motoristas morrem e matam ao ultrapassarem em locais proibidos; árbitros de futebol validaram gol feito com a mão em Copa do Mundo, dentistas erram nos moldes das próteses móveis e o cliente sai praticamente mudo do consultório...  

Na literatura, na música popular brasileira e em geral no cancioneiro nacional, o termo "erro crasso" é frequentemente usado por críticos literários, professores e linguistas para classificar graves desvios gramaticais, de concordância nominal ou verbal, inadvertidamente cometidos por desatentos autores. As petições judiciais, redigidas na refinada linguagem forense, é o território fértil onde argutos advogados alfinetam impiedosamente colegas que por pura desatenção cometem gafes primárias, denunciando-as ao juiz em termos respeitosos, porém destilando veneno contra “quem de direito”. Um exemplo, pinçado do anedotário jurídico, foi o que escreveu o causídico, contestando incisivamente o pedido feito pela parte contrária:

“MM JUIZ: O pedido da autora é improcedente. Ajuizou a presente ação de investigação de paternidade em favor do menor M.D.C, porém laborou em grave equívoco, pois na aludida ação figura como ré Marinusa da Silva(*). Trata-se, a toda evidência, de clamoroso, lamentável e imperdoável erro crasso de  para V. Exa., por impossível biologicamente, que a senhora Marinusa Silva não é o pai do menor M.D.C!!!...”

Ainda no universo das relações jurídico-processuais, os Oficiais de Justiça, quem diria, eventualmente engordam as extravagâncias forenses com suas certidões incorretas, imprecisas, quando não simplesmente anedóticas. Em “Ação de busca e apreensão de uma motocicleta” proposta por uma instituição financeira contra o cliente que deixou de pagar as prestações do financiamento, o zeloso meirinho certificou nos autos: 

“CERTIFICO E DOU FÉ, que no dia 28/07/1997 compareci ao endereço constante do mandato e lá chegando, fui informado na portaria do prédio que o requerido não mais residia naquele endereço. Dialogando com alguns moradores presentes ao ato, uma atenta e bem informada vizinha do réu declarou que tão logo soube da ação visando apreender sua moto, o devedor se evadiu para lugar ignorado, montado na mercadoria. Assim, devolvo o presente mandato para os devidos fins”. 

O festejado escritor, historiador, pesquisador, palestrante, artista plástico, acadêmico e advogado Sebastião Godinho, destacado membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo, que lidera quixotescamente as batalhas contra a dilapidação dos monumentos de Belém e a deturpação da memória história do Pará, recentemente se valeu da expressão “Erro crasso” para denunciar mais uma danosa omissão da Prefeitura, quanto à incorreta denominação dos logradouros da Capital paraense. Profligou ele, em sua apreciada página no Facebook e sem dissimular a indignação, a grafia incorreta da placa que identifica uma das nossas importantes ruas:

“Outro erro crasso que compromete o bom entendimento da História. Angostura e não Angustura era o nome da fortificação que se rendeu, sem combate, às forças brasileiras que a ocupou em 30 de dezembro de 1868, dentre os conflitos ensejados pela Guerra do Paraguai. Mais um equívoco que expõe a nossa ignorância a respeito do tema, sem que ninguém mova uma palha para retificá-lo. Enquanto isso, o presidente da câmara de Belém se preocupa em aprovar uma lei que eleva a condição de patrimônio imaterial do povo belenense, o som automotivo. Pode?”.

Ressalve-se, por necessário, que no ilimitado universo da arte, em especial na poesia, o que poderia ser visto como "erro crasso" é tolerado e aceito como licença poética, recurso estilístico ou variação linguística necessária para manter a métrica, a rima e a identidade cultural de uma canção. 

Ildefonso Guimarães, saudoso mestre da ficção que no passado abrilhantou a Academia Paraense de Letras, em seu livro “Senda bruta” (que em 1963 merecidamente recebeu o Prêmio Samuel Mac Dowell da APL), discorrendo sobre as antigas festas juninas, nos mostra em “Caminhos do Vento” (p. 40/41) que fazer rimas perfeitas não é a única forma de dar musicalidade aos versos:

“Eu sou caçador afamado
Que vim lá da cabeceira;
Hoje eu mato esse boi,
Seja lá de que maneira!

Não caçador!
Faz pena, faz horror!
Não mate esse boi
Que meu amo criou!!!”

Um verdadeiro show, em especial por se tratar de texto da lavra de poetas anônimos, o que nem de longe significa escrever errado. E a prova disso são os versos de rima falsa que o genial escritor utilizou, como acima se vê. Regra geral, versos rimados precisam terminar com a mesma sonoridade, isto é, não se pode combinar singular com plural, som fechado com aberto, nem tônico com átono, etc. Por tal razão, fora do amplo espectro da licença poética, rimar de outra forma, sempre é vista pela crítica como “erro crasso”, expressão cuja origem o leitor agora já sabe exatamente de onde veio, assim como e porque se albergou em definitivo no nosso português de cada dia!
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(**) Nome fictício
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Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem =  Zentral Media 
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.

Edy Soares (Cristais Poéticos) VII

 

EPÍLOGO

Já sem querer mudar o mundo,
Sinto-me apenas um sentinela,
Um simples vigia.

Arrisco olhares pela janela.
É imenso, é profundo
O abismo da cidade fria.

Nem frestas, nem lampejos,
Nem luz no fim do túnel.
Até me fraquejo!
Nada vejo; nada espero!

Ao que me parece,
No intervalo de cada prece,
Assim como as mentes,
As ruas ficaram vazias.

Sem luta, sem luto,
Sem recompensa,
Se finda a história.

Não há música,
Ninguém toca,
Ninguém mais escuta,
Não há mais, sequer,
Quem movimente a batuta.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

JANGADEIRO

Jangadeiro na noite escura,
Sem vela, sem armadura,
Sem remo, perdeu o norte.
Tá entregue ao acaso e à sorte.

Jangada que sob os pés se desfaz,
Socorro que não chega mais,
Pois a esquadra perdeu seu dono,
E os fuzileiros caíram no sono.

Tempestades que trazem medo,
Mares de céu cinzento,
Jangadeiro pede socorro,
À deriva vai noite adentro.

Na terra, ficou sem chão;
No mar, quase sem jangada
à procura de peixe ou pão,
Perdeu-se da enseada.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O SILÊNCIO

Silenciaram-se os sinos e buzinas,
O trem não mais saiu da estação.
Folhas vagam sopradas nas calçadas,
Faz algum tempo...
Muito tempo, desde aquele último clarão.

Da janela, nunca mais trancada,
A vista da rua gélida, fantasma.
Nada que tenha vida ou movimento,
A não ser coisas que o vento ainda sopra.

Imagens na memória, longínquas,
De pessoas sentadas na praça,
E gritos infantis nunca mais ouvidos,
Somente o ruído do vento que passa.

A lua...
Ah! A lua parada no céu,
Até o sol, não mais movimenta,
Parece que a terra agarrou em sua órbita,
Nem sei se é ela, ainda um planeta.

Apalpo nas coisas, me apalpo a toa,
Que susto!...
Nada sinto! Nada sinto!
Estou abstrato, não toco nem grito,
Não tenho um formato, tá tudo esquisito.

Pouco a pouco arisco, arrisco um grito,
Nada sai da garganta, me vem um arrepio!
Não há marcação de tempo, só ouço o vento,
Não há mais dia ou noite... Ficou infinito.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

QUANDO A ALMA SE VAI

Um dia a alma acorda,
Bate asas e vai-se embora.
Aqui ela deixa apenas
Saudades nos olhos que choram.

Se vai pra lugar distante,
Repousar em outras esferas,
Preparar, talvez, lugares
Pra outras que aqui esperara.

De onde veio é incógnita,
Aonde vai não se sabe.
Se encontra lugar melhor,
Em nosso pensar não se cabe.

Se aonde vai é eterno,
A alma não é pequena,
Mas grande se prende ao fato
De que a vida aqui vale à pena.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

REBANHO PERDIDO

Estourada boiada, sem rumo,
Berrante que não ecoa,
Manada que, sem um norte,
Se perde correndo à toa.

Sem um campeiro nobre,
Condutor que conhece a trilha,
Tem lugar, tantos errantes,
Que entregam o rebanho à matilha.

Não andam mais, perfilados,
Dispersos e em desatino,
Pisoteia-se toda a manada.

Qual rebanho que, sem campeiro,
Em trote, vão sem destino
Ou perdidos em disparada.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Edy Soares (1964)
EDY SOARES (cujo nome de batismo é Edmardo Lourenço Rodrigues) é um poeta, sonetista clássico e trovador brasileiro. Nascido na cidade de Ibatiba/ES, em 1964, se destaca nacionalmente como uma das principais vozes da revitalização e preservação do movimento trovadoresco e do soneto clássico no Sudeste do Brasil. Nascido em solo capixaba e filho de pais agricultores, sua trajetória internacional e regional moldou sua vivência. Residiu nos Estados Unidos entre os anos de 1991 e 2006. Santo: Após retornar ao Brasil, fixou residência no município de Vila Velha/ES, onde vive, trabalha e mantém sua base de atuação cultural e empresarial. Paralelamente ao seu envolvimento de décadas com as letras, Edy Soares atua profissionalmente como empresário do ramo hoteleiro. Destaca-se por sua atuação em grandes eventos literários, tendo integrado ativamente as equipes de apoio, debates e programação da FLIC (Feira Literária Capixaba) nas edições de 2015, 2016 e 2017, além de participar da Bienal Capixaba do Livro.
Edy Soares possui uma vasta folha de serviços dedicados à comunidade literária de forma institucional, atuando de maneira marcante na liderança de agremiações de fomento à poesia. Exerceu o cargo de Presidente Estadual da UBT no Espírito Santo e presidiu a seção municipal em Vila Velha. Membro efetivo da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO); Membro da Academia Pan-Americana de Letras e Artes (APALA);* Acadêmico Correspondente da Academia Iunense de Letras (AIL); Membro da ASSEI (Associação de Escritores de Ibatiba), em sua terra natal.
O autor é amplamente reconhecido por dominar a técnica de formas poéticas fixas. Suas principais publicações incluem: Poemas, Canções e Sonetos; Flores no Deserto; Sonetos Sonantes; Três em Trovas (coautoria); Além de participação como prefaciador de obras regionais e publicação em dezenas de antologias e coletâneas literárias nacionais. Ao longo de sua trajetória na poesia acumulou importantes distinções, como Troféu Carlos Drummond de Andrade (2015): Recebido na histórica cidade de Itabira/MG, em reconhecimento à sua produção poética. Diploma Especial de Mérito Cultural concedido por academias literárias capixabas devido à sua dedicação e contribuição para a difusão da arte e das letras. Classificado recorrentemente em certames nacionais e internacionais e convidado frequente para compor comissões julgadoras de concursos de trovas.
A relevância de Edy Soares para a literatura contemporânea reside essencialmente no seu papel de preservador e articulador das formas poéticas tradicionais no Brasil. Em uma época literária amplamente dominada pelo verso livre, ele atua como resistência estética ao produzir e ensinar o soneto clássico e a trova. Mais do que produzir textos, sua importância manifesta-se no associativismo: ao liderar a UBT no Espírito Santo, ele ajudou a transformar a trova de uma prática de escrita solitária em um movimento coletivo forte. Edy estimula o surgimento de novos trovadores, organiza concursos de fomento à escrita rápida e sintética e atua ativamente conectando a literatura clássica às novas dinâmicas das redes sociais e feiras de livros modernas.

Fontes:
Edy Soares. Flores no deserto. Vila Velha/ES: Ed. do Autor, 2015. Livro enviado pelo poeta.
Biografia = Recanto das Letras, Academia Iunense de Letras, Facebook, Clério Borges, etc.