domingo, 21 de junho de 2026

Mensagem na Garrafa 189 = A Tentação do Repouso


FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(Pedro Leopoldo/MG, 1910 - 2002, Uberaba/MG)

Num campo de lavoura, grande quantidade de vermes desejava destruir um velho arado de madeira, muito trabalhador, que lhes perturbava os planos e, em razão disso, certa ocasião se reuniram ao redor dele e começaram a dizer:

- Por que não cuidas de ti? Estás doente e cansado...

- Afinal, todos nós precisamos de algum repouso...

- Liberta-te do jugo terrível do lavrador!

- Pobre máquina! A quantos martírios te submetes!...

O arado escutou... escutou... e acabou acreditando.

Ele, que era tão corajoso, que nem sentia o mais leve incômodo nas mais duras obrigações, começou a queixar-se do frio da chuva, do calor do Sol, da aspereza das pedras e da umidade do chão.

Tanto clamou e chorou, implorando descanso, que o antigo companheiro concedeu-lhe alguns dias de folga, a um canto do milharal.

Quando os vermes o viram parado, aproximaram-se em massa, atacando-o sem compaixão.

Em poucos dias, apodreceram-no, crivando-o de manchas, de feridas e de buracos. 

O arado gemia e suspirava pelo socorro do lavrador, sonhando com o regresso às tarefas alegres e iluminadas do campo ...

Mas, era tarde.

Quando o prestimoso amigo voltou para utilizá-lo, era simplesmente um traste inútil.

A história do arado é um aviso para nós todos.

A tentação do repouso é das mais perigosas, porque, depois da ignorância, a preguiça é a fonte escura de todos os males. Jamais esqueçamos que o trabalho é o dom divino que Deus nos confiou para a defesa de nossa alegria e para a conservação de nossa própria saúde.

José Feldman (A Visita do Tio Teodorico)


Na nossa família, o protocolo burguês sempre foi tratado com a seriedade de um tratado de paz da ONU. Minha mãe, criatura que mede a dignidade humana pelo número de fios do lençol e pela prataria brilhando na cristaleira, passou a semana inteira em estado de pré-infarto. O motivo de tanto frenesi cívico era um só: a iminente chegada do Tio Teodorico.

Teodorico era o irmão mais moço do meu pai, uma espécie de ovelha negra que, em vez de se formar em Direito para virar burocrata, resolveu sumir no mundo e virar "consultor de assuntos aleatórios" no interior de Goiás. Ninguém sabia direito o que ele fazia, mas todos tinham certeza de que ele não usava gravata. E na cartilha da nossa respeitável família da classe média alta, um homem sem gravata é um homem sem caráter.

Para receber o parente exótico, minha mãe montou uma operação de guerra que faria o cerco de Stalingrado parecer uma brincadeira de estalar bombinha de São João. O cardápio foi minuciosamente calculado para demonstrar uma opulência discreta, que é o ápice da sofisticação de Botafogo. Nada de feijoada ou churrasco, que são coisas muito telúricas e perigosas para o fígado da nossa fidalguia. O prato principal seria um coq au vin, que nada mais é do que um frango metido a besta que morreu afogado no vinho barato, acompanhado por arroz com amêndoas liofilizadas — seja lá o que isso signifique.

Às oito da noite, papai já estava devidamente engomado, usando um terno de linho que o impedia de dobrar os cotovelos, exalando um perfume importado tão forte que os mosquitos do bairro caíam mortos na calçada. Minha irmã, coitada, fora fantasiada de debutante tardia, com um vestido de pregas que pinicava até a alma. Eu, por ordens expressas da gerência doméstica, fui proibido de falar gírias e obrigado a manter as mãos fora dos bolsos. A ordem era fingir que éramos uma pintura a óleo do século dezenove.

O interfone tocou com a precisão de um gongo de execução. Minha mãe deu o último retoque no laquê do cabelo, respirou fundo o aroma do desinfetante de lavanda fina que impregnava a sala e abriu a porta com o sorriso congelado de quem tirou o primeiro lugar no concurso de miss simpatia.

Entrou o Tio Teodorico.

A primeira quebra de protocolo foi visual. Enquanto a sala inteira parecia um comercial de banco privado, ele vestia uma camisa de botão estampada com tucanos tropicais, calça jeans visivelmente confortável e uma sandália de couro de bode que emitia um odor persistente de curral. Na mão esquerda, trazia uma mala de lona remendada com fita isolante; na direita, uma gaiola com um papagaio mudo.

— Boa noite, patota! — berrou, com a voz de quem anuncia quilo de tomate na feira livre.

Minha mãe cambaleou dois passos para trás, tateando o ar à procura do colar de pérolas para se segurar. O "boa noite, patota" ecoou pelas paredes estucadas como um palavrão na missa de sétimo dia.

— Teodorico, meu querido... que surpresa agradável — gaguejou papai, tentando manter a pose enquanto estendia uma mão rígida para um aperto de mão protocolar.

Teodorico ignorou a mão engomada e desferiu um abraço de urso no meu pai, daqueles que deslocam a vértebra e deixam o sujeito sem ar por três minutos. Em seguida, cravou dois beijos estalados na bochecha da minha mãe, deixando uma leve marca de gordura de pastel que ele provavelmente havia comido na rodoviária.

A noite avançou num crescente de absurdos e constrangimentos calculados. Sentados à mesa de jantar, sob a luz de um candelabro que minha mãe comprou num antiquário fingindo que era herança de família, a etiqueta começou a sangrar.

Enquanto minha mãe tentava puxar assuntos elevados, como a última exposição de arte abstrata ou a alta do dólar que encarecia a temporada em Miami, Tio Teodorico queria debater a mecânica de caminhões a diesel e o preço da arroba do boi gordo. Quando o coq au vin foi servido pela empregada — que também fora fantasiada com um avental branco que parecia saído de uma peça de teatro de época —, ele olhou para o prato com sincera compaixão.

— Mas que diabo é isso, cunhada? O frango pegou uma pneumonia antes de ir para a panela? Tá roxo!

Minha mãe quase engoliu o garfo de peixe por engano.

— É uma receita tradicional francesa, Teodorico. Frango ao vinho — explicou ela, com uma voz tão fria que daria para conservar carne nela.

— Pois lá na minha terra a gente bota cachaça e joga um colorau que fica uma beleza. Mas vamos encarar o bicho — disse o tio, agarrando a coxa do frango com as próprias mãos, ignorando o faqueiro de prata alemã que repousava ao lado do prato.

Minha irmã fechou os olhos, rezando por um arrebatamento bíblico imediato. Papai começou a suar frio através do linho. E eu, confesso, comecei a achar que o Tio Teodorico era o único sujeito são num raio de cinco quilômetros.

O golpe de misericórdia na empáfia burguesa da noite aconteceu na hora da sobremesa. Minha mãe trouxe um petit gâteau feito com chocolate belga e uma pitada de flor de sal, a última palavra em frescura gastronômica. Teodorico provou uma colherada, mastigou com a buraqueira de quem procura um dente perdido e decretou:

— Olha, o bolinho tá meio cru por dentro, cunhada. Acho que o forno de vocês tá com problema no termostato. E o doce passou da conta, tá meio salgado. Mas não esquenta não, que eu trouxe o remédio para rebater esse negócio!

Sem esperar resposta, o homem levantou-se da mesa, foi até a sua mala de lona e retirou de lá um pote de vidro de maionese reaproveitado, cheio até a boca com um doce de leite pastoso e escuro, de fabricação caseira ilegal.

— Isso aqui sim é sobremesa de macho! — exclamou, cravando a colher de servir diretamente no pote de maionese e distribuindo pelotas de doce de leite em cima dos pratos de porcelana de Macau.

A essa altura, o verniz da civilidade já tinha derretido por completo. Minha mãe aceitou a sua colherada de doce de leite com a resignação dos mártires cristãos que enfrentavam os leões no Coliseu. Comeu. E para o desespero do seu próprio ego aristocrático, o doce de leite do curral era a coisa mais gostosa que já havia entrado naquela casa desde a fundação do edifício.

Quando a visita finalmente recolheu-se ao quarto de hóspedes, arrastando seus chinelos de bode e cantarolando uma modinha sertaneja de duplo sentido, a sala de jantar parecia o cenário de um bombardeio. O candelabro de prata parecia meio torto, o terno do papai estava amarrotado e o orgulho da mamãe jazia no chão, ao lado de um pedaço de osso de frango que o tio havia limpado com os dentes.

Olhei para a minha mãe, que mantinha os olhos fixos no pote de maionese vazio sobre a mesa. A fragilidade das nossas aparências havia sido exposta por um pote de doce de leite e uma camisa de tucanos. A burguesia dita as regras, cria os talheres certos, inventa os vinhos franceses, mas basta um tio esquisito vindo do interior com a verdade nos dentes para provar que, no fundo, todo mundo só quer comer com a mão e palitar os dentes depois do almoço.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título de Marechal das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes da biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.

Fernando Sabino (Empregadas )


DESAVENÇA

Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:

– A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar.

Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:

– Então isso não pode causar um incêndio?

FALAR DIFÍCIL

A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada.

Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:

– Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!

Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:

– Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.

OS SIMPLES DE CORAÇÃO

Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:

– Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?

A empregada veio anunciar o almoço:

– Gente, tá na hora de murçá.

– Não é assim que se fala – corrigiu a patroa.

E ela, imperturbável:

– Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.

O TAL DA TELEVISÃO

Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:

– Telefonou um moço para o senhor.

– Deixou o nome?

– Disse que era o tal da televisão.

Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa…

No dia seguinte, a mesma coisa:

– O tal da televisão tornou a telefonar.

– Se ligar de novo, pergunta o nome dele.

Da terceira vez, perdi a paciência:

– Eu não disse que era para perguntar o nome?

– Eu perguntei! – protestou ela. – Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.

Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão – que, aliás, estava em perfeitas condições.

Até que ele voltou a telefonar – só que desta vez eu estava em casa:

– O tal da televisão está chamando o senhor no telefone.

Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.

COME E DORME

E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

– Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera – mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?

Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

SÓ UMA VEZ

Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão.

Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:

– O padeiro.

– Mas você só foi uma vez à padaria! – estranhou a patroa: – Como foi acontecer uma coisa dessas?

Ela ergueu os ombros, com um suspiro:

– Deus quis…
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. Livro Aberto. Publicado originalmente em 2001.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.

Rubem Braga (Viúva na praia)

Ivo viu a uva; eu vi a viúva. Ia passando na praia, vi a viúva, a viúva na praia me fascinou. Deitei-me na areia, fiquei a contemplar a viúva.

0 enterro passara sob a minha janela; o morto eu o conhecera vagamente; no café da esquina. a gente se cumprimentava às vezes, murmurando “bom dia”; era um homem forte, de cara vermelha; as poucas vezes que o encontrei com a mulher ele não me cumprimentou, fazia que não me via; e eu também. Lembro-me de que uma vez perguntei os horas ao garçom, e foi aquele homem que respondeu; agradeci; este foi nosso maior diálogo. Só ia à praia aos domingos, mas ia de carro, um “Citroen”, com a mulher, o filho e a barraca, para outra praia mais longe. A mulher ia às vezes à praia com o menino, em frente à minha esquina, mas só no verão. Eu passava de longe; sabia quem era, que era casada, que talvez me conhecesse de vista; eu não a olhava de frente.

A morte do homem foi comentada no café; eu soube, assim, que ele passara muitos meses doente, sofrera muito, morrera muito magro e sem cor. Eu não dera por sua falta, nem soubera de sua doença.

E agora estou deitado na areia, vendo a sua viúva. Deve uma viúva vir à praia? Nossa praia não é nenhuma festa; tem pouca gente; além disso, vamos supor que ela precise trazer o menino, pois nunca a vi sozinha na praia. E seu maiô é preto. Não que o tenha comprado por luto; já era preto. E ela tem, como sempre, um ar decente; não olha para ninguém, a não ser para o menino, que deve ter uns dois anos.

Se eu fosse casado, e morresse, gostaria de saber que alguns dias depois minha viúva iria à praia com meu filho — foi isso o que pensei, vendo a viúva. É bem bonita, a viúva. Não é dessas que chamam a atenção; é discreta, de curvas discretas, mas certas. Imagino que deve ter 27 anos; talvez menos, talvez mais, até 30. Os cabelos são bem negros; os olhos são um pouco amendoados, o nariz direito, a boca um pouco dentucinha, só um pouco; a linha do queixo muito nítida.

Ergueu-se, porque, contra suas ordens, o garoto voltou a entrar n’água. Se eu fosse casado, e morresse, talvez ficasse um pouco ressentido ao pensar que, alguns dias depois, um homem — um estranho, que mal conheço de vista, do café — estaria olhando o corpo de minha mulher na praia. Mesmo que olhasse sem impertinência, antes de maneira discreta, como que distraído.

Mas eu não morri; e eu sou o outro homem. E a ideia de que o defunto ficaria ressentido se acaso imaginasse que eu estaria aqui a reparar no corpo de sua viúva, essa ideia me faz achá-lo um tolo, embora, a rigor, eu não possa lhe imputar essa ideia, que é minha. Eu estou vivo, e isso me dá uma grande superioridade sobre ele.

Vivo! Vivo como esse menino que ri, jogando água no corpo da mãe que vai buscá-lo. Vivo como essa mulher que pisa a espuma e agora traz ao colo o garoto já bem crescido. 0 esforço faz-lhe tensos os músculos dos braços e das coxas; é bela assim, marchando com a sua carga querida.

Agora o garoto fica brincando junto à barraca e é ela que vai dar um mergulho rápido, para se limpar da areia. Volta. Não, a viúva não está de luto, a viúva está brilhando de sol, está vestida de água e de luz. Respira fundo o vento do mar, tão diferente daquele ar triste do quarto fechado do doente, em que viveu meses. Vendo seu homem se finar; vendo-o decair de sua glória de homem fortão de cara vermelha e de seu império de homem da mulher e pai do filho, vendo-o fraco e lamentável, impertinente e lamurioso como um menino, às vezes até ridículo, às vezes até nojento…

Ah, não quero pensar nisso. Respiro também profundamente o ar limpo e livre. Ondas espoucam ao sol. O sol brilha nos cabelos e na curva de ombro da viúva. Ela está sentada, quieta, séria, uma perna estendida, outra em ângulo. 0 sol brilha também em seu joelho. O sol ama a viúva. Eu vejo a viúva.
(Rio, setembro, 1958)
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RUBEM BRAGA (Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1913 — 1990, Rio de Janeiro/RJ). Iniciou-se no jornalismo profissional ainda estudante, aos 15 anos, no Correio do Sul, de Cachoeiro de Itapemirim, fazendo reportagens e assinando crônicas diárias no jornal Diário da Tarde. Formou-se pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte, em 1932, mas não exerceu a profissão. Neste mesmo ano, cobriu a Revolução Constitucionalista deflagrada em São Paulo, na qual chegou a ser preso. Transferindo-se para o Recife, dirigiu a página de crônicas policiais no Diário de Pernambuco. Nesta cidade, fundou o periódico Folha do Povo. Em 1936, lançou seu primeiro livro de crônicas, O Conde e o Passarinho, e fundou em São Paulo a revista Problemas, além de outras. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como correspondente de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira. Fez diversas viagens ao exterior, onde desempenhou função diplomática em Rabat/Marrocos, atuando também como correspondente de jornais brasileiros. Após seu regresso, exerceu o jornalismo em várias cidades do país, fixando domicílio no Rio de Janeiro, onde escreveu crônicas e críticas literárias para o Jornal Hoje, da Rede Globo. Sua vida como jornalista registra a colaboração em inúmeros periódicos, além da participação em várias antologias, entre elas a Antologia dos Poetas Contemporâneos. Em 1987, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal. Morreu de insuficiência respiratória no Rio de Janeiro.

Fonte:
Rubem, Braga. “Ai de ti, Copacabana”. RJ: Ed. do Autor, 1960.

Aparecido Raimundo de Souza (Cochinchina)


FUI MORAR com uma mulher, não para namorar com ela, mas para dividir despesas, tipo aluguel, água, luz, supermercado, condomínio, essas coisas. A beldade trabalha o dia inteiro, de segunda a sexta, e praticamente todo final de semana viaja. 

Não pode ver uma excursão, se mete nela e fica uma semana, até duas fora. A última vez que caí na besteira de perguntar para onde estava indo, a danada sorriu matreira e me disse na maior cara de pau que visitaria os confins da Cochinchina.

— Cochinchina? Onde fica?

— Não sei, nunca fui lá...

— E por qual motivo optou por essa escolha?

— Pela curiosidade...

— E se a Cochinchina não lhe agradar?

Ela sorriu de novo e, desta vez mais graciosa, mandou a bomba:

— Se eu não gostar, mando a droga toda da tal Cochinchina pra Cochinchina.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

sábado, 20 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 10 *


 A vida é um túnel estreito
que à eternidade conduz.
- Só o amor nos dá o direito
ao desembarque na Luz.
A. A. DE ASSIS
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Bilhete é sempre um recado
para ser dado escondido
a um alguém apaixonado
por outro alguém proibido!
ADEMAR MACEDO
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As rosas do amor, colhi-as,
rosas de vários matizes...
Tenho hoje nas mãos vazias
saudades e cicatrizes.
ANDERSON BRAGA HORTA
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Mata a revolta em teu peito,
não a deixes florescer:
rio com pedras no leito
não pode alegre correr!...
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA
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Do passado, ouço a cantiga
que recorda, ternamente,
que há sempre uma rua antiga
nos velhos sonhos da gente...
ALBERTINA MOREIRA PEDRO
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Tropeiro da mocidade
galopando a solidão,
foste conquista, e és saudade
que deixa rastro em meu chão...
APARECIDO ELIAS PESCADOR
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Ternura - ponte afetiva
construída de calor,
que serve, quando se avisa,
de passagem para o amor.
APRYGIO NOGUEIRA
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Em tudo existe um encanto:
é regra da natureza.
Alguns tentam, e no entanto,
não enxergam a beleza.
ARTHUR THOMAZ
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Num simples verso se prova
este mistério profundo:
- Na pequenez de uma trova
cabe a grandeza do mundo
BATISTA SOARES
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Singra os mares desta vida
nosso amor, forte veleiro,
bate a procela atrevida
e chega ao porto altaneiro!
BELARMINO FRANCO
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Bem feliz seria o mundo
se pudesse a humanidade
ter um lugar bem fecundo
onde plantasse a bondade.
BENEDITO MOREIRA DE CARVALHO
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A lua beija a favela...
A estrela no céu reluz...
- Meu bem, apaga essa vela,
o amor não quer tanta luz!…
CAROLINA RAMOS
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Encontrei na minha trova
a vontade de escrever.
A paixão por coisa nova
faz a gente renascer.
CECIM CALIXTO
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A noite na minha rua
tem encantos sensuais...
sussurros chegam à lua...
na rua ficam os ais...
CECY FERNANDES DE ASSIS
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Foi depois de tantas fugas
que acabei por entender
que sem pranto, dor e rugas,
ninguém aprende a viver...
CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO
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O orvalho que cai agora
nos sobejos da queimada,
traduz o pranto que chora
a Natureza arrasada!...
CLARINDO BATISTA
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Todo livro ,quando aberto,
é pólen, é flor, é fruto...
fechado: é sombra, é deserto,
é silêncio, é campa, é luto.
CYRO ARMANDO CATTA PRETA
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Por um futuro de Paz
flores nós vamos plantando,
neste momento fugaz,
por onde vamos passando!
CYROBA BRAGA RITZMANN
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Com cautela... Sem conflito,
aprendo a lição do mar:
- foi contemplando o infinito
que eu aprendi a sonhar.
DJALDA WINTER SANTOS
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O poeta externa pouco
de sua imaginação,
o resto é um soluço louco
no fundo do coração.
DIOMEDES SANTOS
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Do que agitou nossas almas
restam sonhos calcinados,
cingindo as crateras calmas
de dois vulcões apagados.
DOROTHY JANSSON MORETTI
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Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO
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Cada vez que tento, em fuga,
mascarar o meu desgosto,
descubro mais uma ruga
a desmascarar meu rosto...
EDGARD BARCELLOS CERQUEIRA
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Anoitece e cintilando
qual lantejoulas num véu,
essas estrelas brilhando
são rastros de Deus no céu!
EDNA GALLO
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O poeta é só um sonho
da poesia mais seleta,
e a poesia, assim suponho,
é o ensaio do poeta.
EDNA VALENTE FERRACINI
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A página amarelada
de um álbum, quase esquecido,
tem a lembrança velada...
De tanto tempo perdido.
ELISA ALDERANI
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Velha ponte do caminho
nossa história é parecida:
- Suportamos de mansinho
tantas pisadas na vida!!!
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
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Ama a vida, simplesmente,
sem disfarce em seu caminho...
Quem ama a vida não sente
a dor de viver sozinho!
EVA GARCIA
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Um fantasma se assanhou
em bater papos, tadinho...
nas mil vezes que tentou,
ficou falando sozinho!
FERNANDO VASCONCELOS
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A distância é que nos mata
pois logo vem a saudade;
saudade – presença ingrata
da antiga felicidade.
FILEMON F. MARTINS
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Se do barro somos feitos,
e ao barro retornaremos,
porque tantos preconceitos,
se iguais todos nós morremos?…
JOSÉ FELDMAN
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– Musas divinas!... Ao vê-las,
no sonho que me seduz,
subo ao ninho das estrelas,
seguindo os rastros da luz!
JOSÉ LUCAS DE BARROS
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Eu sou pequeno, seu moço,
mas, quando tiro o chapéu,
minha alma estica o pescoço,
enxerga Deus lá no céu!
JOSÉ MESSIAS
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Sertão seco... Longo estio...
Em meio a paisagem triste
uma ponte... Mas o rio
infelizmente inexiste!
JOSÉ TAVARES DE LIMA
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Cai a tarde e a passarada
em gorjeios musicais
é orquestra desafinada
na algazarra dos pardais.
LICÍNIO ANTÔNIO DE ANDRADE
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Tenho por certo, em verdade,
bem vivo, embora pungente
que a mais pungente saudade...
é aquela de alguém presente!
MAURÍCIO FRIEDRICH
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Se um pai se entrega à bebida,
ao filho desencaminha.
O mau exemplo é na vida
pior do que erva daninha.
MILTON SOUZA
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Sorrateira, foi chegando 
a danada da saudade;
meu coração machucando,
sem dó e sem piedade!
NEMÉSIO PRATA
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Indo por outros caminhos,
neste mundo, às vezes, rude,
vou fugindo dos espinhos,
pois das mulheres não pude!
NILTON MANOEL TEIXEIRA
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Subo o caule das ideias,
rumo à copa de Deus Pai;
operário, sem colmeias,
sou a abelha que se esvai.
OLIVALDO JUNIOR
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Nos extremos desta vida,
um contraste se percebe:
– A terra chora a partida
daquele que o céu recebe!
OSVALDO REIS
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Meu coração suburbano
tu conheces muito bem!
Tem muito do amor humano
que preenche o teu também!
PAULO ROBERTO O. CARUSO
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Ainda guardo lembranças
de coisas não permitidas:
pedacinhos de esperanças,
restinhos de nossas vidas.
PROFESSOR GARCIA
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No caminho sem atalhos
que leva ao teu coração,
feri meus pés nos cascalhos
que espalhaste pelo chão.
RENATO ALVES
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Nas serestas da lembrança
onde o orvalho enfeita a tela,
a minha ilusão te alcança,
mas a razão diz: - Cautela!!!
RITA MOURÃO
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É a rua da minha infância!
Revejo a casa... ouço o trem...
E cismo, em sonho e à distância,
que ela envelheceu... também!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Na vida, eu prefiro o jogo,
não de azar, de sedução...
e, em vez de cartas, o fogo
que incendeia uma paixão.
VANDA ALVES DA SILVA
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Aquele que sempre joga
o lixo em qualquer lugar
é o desleixado que roga:
“ –Venha, dengue,  me atacar!”.
WAGNER MARQUES LOPES
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Que bom seria um enlace
entre a mente e o coração:
o que a gente desejasse
também quisesse a razão!
WANDA DE PAULA  MOURTHÉ
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A. A. de Assis (A era do ócio)


Está em pauta nas conversas a redução da jornada de trabalho. Como ocorre em toda inovação, tem gente contra e gente a favor, porém na verdade se trata apenas de um começo de adaptação natural às realidades do mundo novo.

Mecanização > automatização > informática > robótica > inteligência artificial... Somos uma geração atropelada por sucessivas revoluções tecnológicas, todas elas impulsionadas pela lei do menor esforço (“vis minima”).      

São conquistas que, de fato, concorrem para tornar mais fácil a vida; todavia, em razão delas, a mão de obra humana vai sendo aos poucos dispensada. Numerosas profissões já foram extintas e outras tantas perderão logo a razão de existir, disso resultando que a oferta de vagas no mercado de trabalho vai também rapidamente diminuindo.

Num futuro próximo, a maior parte dos empregos será para profissionais maximamente especializados, capacitados para pilotar robôs e outros engenhos sofisticados. Esses superespecialistas produzirão barato e em abundância tudo o que for preciso e os demais cidadãos e cidadãs terão acesso garantido por lei a tudo o que for necessário para o seu sustento e bem-estar.

Estará assim iniciada a Era do Ócio, profetizada há mais de dois mil anos pelos sábios da Antiguidade – entendendo-se ócio não como preguiça, mas como tempo livre para atividades prazerosas e serviços assistenciais voluntários.

E as escolas... ensinarão o quê? Decerto o mesmo que hoje, porém apenas para ajudar as pessoas a tirarem melhor proveito das novas maravilhas. Ensinarão principalmente esportes e artes. Alunos e alunas serão treinados para a prática de exercícios físicos, a fim de manter o corpo sadio, e para o cultivo de atividades artísticas e culturais que façam bem à cabeça.

Programadores e operadores de robôs viverão felizes, porque o de que eles mais gostam é mesmo de mexer com as suas ferramentas inteligentes. Os demais bilhões de seres humanos viverão também felizes, porque desfrutarão de um alto padrão de vida. Quem viver verá. 
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 21-5-2026)
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ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Texto obtido no facebook do autor