Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 20 de julho de 2008

Folclore Indigena (A Filha da Chuva)

O indígena vive em paz e integrado com a Natureza (hoje já não são todos que dispõe deste privilégio!). Acreditam também que todas as plantas possuem alma e são símbolos da vida humana. Isso se explica, pelo seu modo de observação do universo, acentuadamente antropomorfo. Há inclusive tendências totêmicas, no sentido de existência de parentesco com determinadas plantas.

A Natureza para o índio, não é passiva, objetiva, neutra e muda, mas é um ente integrante de sua sociedade. Observem que a categoria que comanda as relações entre o homem e a Natureza é, para a modernidade ocidental, a da produção concebida como ato de subordinação da matéria ao desígnio humano.

Já para as sociedades indígenas da Amazônia, a categoria paradigmática deste contexto é a da reciprocidade, a da comunicação simbólica entre sujeitos que se interconstituem pelo mesmo ato de troca. Estes povos, portanto, vivem sob o signo de uma troca de propriedades simbólicas entre os humanos e os demais habitantes do Cosmo e não de uma produção de bens sociais a partir de uma matéria informe.

É importante entendermos esta concepção indígena, para podermos desvendar seus mitos e compreendermos a dimensão do que lhe é sagrado, bem diversa dos povos civilizados em que o sagrado se apartou da universalidade da Natureza.

Ilustrando o que lhes digo:

Na fase final da festa Bemb (Caiapós), em marcha triunfal, os homens arrastam uma enorme árvore pela aldeia e erguem-na no meio de uma grande praça redonda. Os índios chamam tal árvore de “wari”.

Indagados pelo sentido de tal cerimonial, um deles respondeu:

-“Aquilo que para vocês significa bandeira, para nós Caiapós, é a árvore, wari”.

Mas vamos então a nossa lenda:

Nos tempos muito antigos, um grupo de índios Caiapós estava em uma jornada pelas matas e campos.. Os jovens corriam na frente, para encontrar o caminho.

Um desses jovens afastou-se de seus companheiros para fazer uma pequena necessidade. Encontrou então uma moça, sentada na raiz de uma imensa árvore. Era a filha da chuva, Nyobog-ti, ou seja, “a grande luz”.

O índio apressou-se em voltar para seus irmãos e chamou-os para mostrar-lhes o seu achado. Eles haviam trazido uma grande cabaça e dentro dela colocaram a moça. Em seguida, fecharam-na cuidadosamente e amarraram a tampa com cordas de algodão. Foi deste modo, que conseguiram transportar a filha da chuva sem que alguém percebesse.

Ao chegarem em casa, os irmãos esconderam a cabaça, pois nem à mãe queriam dizer que haviam encontrado a moça.

Passaram-se muitas luas sem que a mãe desconfiasse de coisa alguma. Mas certo dia, os jovens saíram para caçar e a senhora ficou sozinha em casa. Foi aí então, que ela descobriu a grande cabaça debaixo do teto da choça, coberta com folhas de palmeiras.

Cheia de curiosidade, a mãe dos jovens índios, desatou as cordas e levantou a tampa. Qual não foi a sua surpresa quando, no interior da cabaça, viu a moça.

-“Levanta-te”, falou a senhora, “de modo que eu possa vê-la melhor”.
-“Não quero”, respondeu a filha da chuva, “tenho vergonha”.
-“Mas vergonha de que?” indaga a mãe.
-“Por nada”, replicou a moça.
-“Gostaria tanto de te ver!”, insistiu a senhora.
-“Não quero, não quero que me olhes” retrucou a filha da chuva.

Daí a mãe enfiou a mão na cabaça, pegou a moça pelo braço e puxou-a para fora.

-“Venha, não tenhas medo”, falou “pois vou cortar teu cabelo e pintar-se, para ficares bonita”.

A filha da chuva sentou na beirada do jirau e a mulher começou a cortar o seu cabelo, raspando-o das entradas até a risca. Em seguida pintou-a: primeiro com a cor de urucu, aplicando-lhe uma faixa larga de vermelho, bem vivo, atrás do rosto e em volta dos olhos. Também pintou de vermelho o corpo, os braços e as pernas. Com traços finos fez um motivo artístico, usando a cor preta, brilhante, do jenipapo. Pintou a moça do mesmo modo que as mulheres Caiapós se pintam até hoje.

Tão logo acabou o trabalho, seu marido voltou para casa e ao ver a moça sentada na beirada do jirau, perguntou:

-“Mulher, por que libertaste a filha da chuva?”
-“Ora, eu queria vê-la, mas ela estava do jeito que caiu do céu, nada bonita, por isso, raspei seu cabelo e pintei-a. Agora ele ficou bonita, igual a qualquer uma de nossas moças. Agora ela é nossa parente e ninguém pode bater nela ou mal”, respondeu a esposa.

E a filha da chuva ficou com eles por muitas e muitas luas, viveu na aldeia com as outras moças Caiapós. Mais tarde casou-se com um indígena e teve filhos.

Aconteceu, então, que, por bastante tempo, os homens não tiveram sorte nas caçadas e as mulheres encontraram poucos frutos silvestres. Nypbog-ti, seu marido e filhos, começaram a passar fome. Aí, a filha da chuva falou ao esposo:

-“Lá em cima, no Céu, onde estão meu pai e minhas irmãs, há muitas coisas gostosas. Lá crescem batata-doce, mandioca, macaxeira. Nas florestas há muita caça e também muitas tartarugas terrestres. Aliás, para comer, há de tudo que se possa imaginar”.
-“Então vá lá buscar algumas dessas coisas gostosas para termos o que comer”, propôs o marido.

No dia seguinte, bem cedo, ele partiu com Nyobog-ti. Deixaram a aldeia e foram para os campos. Lá, o marido, de braço forte, dobrou uma palmeira buriti, para que sua mulher sentasse na ponta da árvore. Aí, então, o índio soltou a palmeira, que voltou à sua posição normal com tanta velocidade e força que a mulher foi atirada ao ar. E a filha da chuva voou alto e sempre mais alto, até o Céu.

O marido foi deitar-se à sombra de uma palmeira para espera-la. Assim ficou até o meio-dia, quando o sol estava em posição vertical no Céu.

Daí, um pouco triste, falou para si mesmo:

-“Minha mulher me abandonou”. Quando estava se levantando para ir embora, ouviu atrás de si, uma voz:
-“Aqui estou de volta!”

O indígena olhou para trás e viu Nyobog-ti. Muito feliz, exclamou:

-“Olhe, aqui está minha bem-amada mulher, de volta! E quanta coisa trouxe: batata-doce, macaxeira, bolo de mandioca e banana.

No entanto, a mulher falou:

“Lá no Céu, de onde eu venho, onde moram meu pai, minha mãe e minhas irmãs, há mandioca e ainda muitas outras coisas boas para comer. Espere um pouco, eles virão nos visitar e trazer dessas coisas”.

Logo apareceram seu pai, a chuva, chamado Bebgorórotí, sua mãe e suas irmãs. Trazendo, como prometido, muitas coisas gostosas do Céu.

Bebgorórotí, dirigiu-se ao índio advertindo-o:

-“Jamais deve bater em minha filha. Agora vou voltar para o Céu. De lá sempre vejo minha filha e protejo-a”

A filha da chuva e seu esposo voltaram juntos dos campos para casa. Levaram para a aldeia dos Caiapós batata-doce, macaxeira, banana, bola de mandioca e ainda muitas outras coisas.

Fonte:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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