Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Gizelda Morais (Baú de Textos)



POEMETO N°1
(verso / 1958)

Neste minuto agora
solitário
olho o começo de uma estrada
indecisa.
Mais indecisa fico
e o tempo passando
me arrasta com ele
por essa estrada assim
sem meta nem reta.

(reverso/ 2002)

houve sempre retas que não vi
metas que não cumpri
o tempo nunca passou
senão por mim
já não conto as horas
dos relógios
perdidos e quebrados
não restou nem um
do meu vocabulário
risquei rimas
sinas
risquei
do começo ao fim do meu caminho
um grande signo
a interrogação.

POEMETO N°2

(verso/ 1958)

Mais uma hora que passa.
Mais uma hora contada
no passado que o tempo já levou.
Mais uma hora vivida
em cada vida
mais uma hora de angústia
de dores
de risos
de sonhos.

(reverso/ 2002)

um diâmetro
uma corda
uma circunferência
geômetras do nada
reinventando o átomo
delimitando pontos
apreendendo a matéria
aprisionando o círculo
reformulando o quadrado
plasmando o paralelepípedo.

POEMETO N°3

(verso / 1958)

Petrificou-se o tempo
silenciaram-se os ares
silêncio de pedra
nas pedras
no vento
nas portas
nos corpos
e nos olhares.
Silêncio de ferro
nos lábios mudos
nas mãos sem gestos
nos pés sem passos.

(reverso/ 2002)

estas estátuas falam
com seus lábios mudos
suas mãos sem gestos
seus olhos cavos
estas estátuas andam
com seus pés sem passos
seus corpos de ferro
suas mãos de pedra
estas estátuas escutam
com seus ouvidos ocos
puxam os seres humanos
do passado
rondam este presente

POEMETO N°4

(verso/ 1958)

Escoam-se os minutos
e a agonia marcada nos ponteiros
aponta nos semblantes
uma expressão de angústia.
Mais um segundo.
E continua a marcha
dos minutos
olhados pelos olhos ansiosos
da humanidade inteira
que passa
que passou
que passará.

(reverso/ 2002)

partimos a existência
em milésimos de segundo
inventamos os ponteiros
criamos a paciência
para enfrentar o quê?
– a morte ou a resistência?

POEMETO N°5
(verso/ 1958)

Pensamentos de asas de vidro
vagando
e horas à frente
gemendo
as faces caídas
poemas repetidos
idéias repetidas
e vidas únicas
sós
irrepetidas.

(reverso/ 2002)

único é o fio da navalha
cortando o que não vemos
somos sínteses
amálgamas de eras
heras nas paredes
invisíveis
asas de vidro
vencendo
ventos

CARROSSEL
(verso/ 1958)

Carrossel foi fincado
na praça de Aracaju
cavalo colado
cadeira pregada
carrossel rodou cheio de crianças
carrossel girou, girou
foi pra dentro da gente
fez da gente pião
e lá fomos rodando
pelo mundo afora.
Carrossel fincado dentro da gente
carrossel fincado na praça de Aracaju.

(reverso/ 2002)

carrossel retirado
da praça de Aracaju
cavalo queimado
cadeira quebrada
carrossel despregado
do peito da criança
pinhão solto no mundo
atravessado
entalado na garganta
regurgitado
no sono
dos sobreviventes

BALADAS DO INÚTIL SILÊNCIO

I

se há por quês
é porque não se cansam
as andorinhas de voar
nem os mágicos
de tirarem coelhos da cartola
e o tempo é o gesto
e o espaço um pedaço de pão.
––––––––––––––––––-
PREPAREM OS AGOGÔS
( transcrição, início do primeiro capítulo).

SOAM GUIZOS
Volto ao hotel. Difícil adormecer. Sobe a temperatura. Febre, talvez uma gripe. Tomo uma aspirina, ligo a televisão. Os olhos esbugalhados de Vicent Price andando pelos corredores de um castelo mal assombrado. Um livro se desfazendo em suas mãos, comido pelas traças.

Espirros, pó, cal, poeira. – Quem disse, dr. Tomás, ser Gonzaga teu sobrenome? Por acaso atrás de tua pele branca não há um pouco mais de negritude?

O jantar na casa de meus anfitriões em Lagos se transformara num filme de horror. Histórias de séculos passados – na África a ganância, a escravidão, as lutas fratricidas. No Atlântico a travessia, os porões das galeras, bergantins, sumacas, faluchos, chalupas, brigues. No Brasil, as senzalas, os currais, os troncos, festas e quilombos. O retorno, o refluxo depois da abolição. A Nigéria dos ingleses.

Os fulas batendo os agogôs no ritmo dos pés, embaixo de grandes baobás. A boca abobalhada de Vicente Price na tela à luz de uma vela iluminando o longo corredor. Os hemisférios norte e sul se misturando num doido mapa astral. Música sacra, oitocentista, o Scala de Milão, vozes de Djavan, Milton Nascimento, Gilberto Gil. – Doutor, não te anunciaram o sucesso dos negros tanto quanto o dos brancos?

Eu, admirando minha pele clara se tornando intensamente negra, igual à das crianças sentadas em torno de um grande prato. Entôo, paparaô, papá oô, pápa oô oô, e avanço meu braço pra pegar um bocado. Recebo uma palmada. Uma menina recolhe o alimento e oferece. A mãe come diretamente nessa mão supina. A filha inclina a cabeça e recebe a sua parte. Todos podem comer, menos eu, um rejeitado. Meu braço continua suspenso. Com os olhos comprimidos observo, e choro. Então a mãe me oferece o peito e me vejo paparicando no seio dessa negra que se fartara na mão da filha adolescente.

O sono treme nas pálpebras de Vicent Price, tremem minhas pálpebras, as mãos deixam cair o castiçal, o lápis, a pena. Ça suffit! Ça suffit! Ah, ah, ah. O grito ecoando nas paredes do castelo, nas paredes do quarto do hotel.

Abro bem os olhos. Benzo-me três vezes. Medo? Do fundo da infância e da adolescência surge o gesto automático. O sinal da cruz, começando da testa até o tórax e de um ombro ao outro. Tento exorcizar os sonhos maus, afastar gnomos escondidos por detrás das portas, almas penadas, fantasmas reivindicando seus desejos.

De novo a sensação de desequilíbrio, a necessidade de apoio e segurança, intensamente ressentida em várias ocasiões, como no término do casamento.

Pego o telefone. Falar urgentemente com Marli. A chamada não se completa. Desço às pressas. O vigia dorme na portaria, ronca numa cadeira estreita, suas nádegas sobrando pelos lados livres das bordas. Sonha, na certa, e segura as chaves no bolso da calça. O aparelho na recepção, trancado com um cadeado, não envia mensagens.

Fontes:
Prof. Wagner Lemos
Rede de Escritoras Brasileiras

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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