Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 17 de janeiro de 2010

Vicência Jaguaribe (O Sonho Encenado )


Na calçada, o inexpressivo violão acompanhando a voz rouquenha e desafinada. Na cabeça, dez anos de sonho. A encenação do sonho, que, de tanto ser sonhado, soava-lhe realidade.

No começo, viajava à capital, onde – dizia – encontrava-se com seu ídolo, um cantor de sucesso do momento. Levava-lhe fitas cassetes, com músicas que compunha. E deixava-as com ele, que as incluía no disco seguinte. Mas, na ficha técnica, apareciam como se fossem composições do próprio cantor. Ele dizia-se revoltado e continuava a tocar o inexpressivo violão, que acompanhava a voz rouquenha e desafinada.

A cidade inteira falava da desonestidade do cantor. Os mais entendidos aconselhavam-no a procurar um advogado. Mas ele persistia nas idas à capital, para apresentar-lhe suas composições. E o cantor continuava a gravar as músicas dele como suas.

Nas últimas visitas não mais o recebia. Estava sempre viajando. Depois, ameaçou-o – dizia ele. O moço desistiu de tentar contato. Mas continuou a tocar seu inexpressivo violão, acompanhando a voz rouquenha e desafinada, que cantava composições de sua lavra. Aquelas composições, suas, que o cantor gravara como se fossem dele. E as músicas faziam sucesso, estouravam nas paradas, recebiam elogios da crítica. Mas não eram as suas composições que faziam sucesso, estouravam nas paradas, recebiam elogios da crítica. Eram composições do cantor. A ficha técnica revelava isso.

E o cantor – seu ídolo – ganhava dinheiro às suas custas. Era voz geral.

E por que não ia conversar com o cantor? Adiantaria alguma coisa uma conversa com ele? Ele sustentaria que o outro era um doente mental, um alucinado, não sabia o que estava dizendo.

O moço resolveu, então, ganhar dinheiro com sua voz rouquenha e desafinada, acompanhada pelo inexpressivo violão.

Naquela tarde de domingo, recebia amigos e conhecidos, que convidara para ouvi-lo cantar suas últimas composições. O palco? A própria calçada.

Todos se entreolharam assustados, quando o moço anunciou o início do show. Quem estava ali não era ele, mas seu ídolo – o mesmo tipo de roupa, o mesmo corte de cabelo, o mesmo repertório. Anunciou-se a si mesmo pelo nome do outro e pegou o inexpressivo violão que acompanharia a voz rouquenha e desafinada.

Naquele momento, a encenação era a própria realidade. Sua integridade mental, ameaçada desde a infância, acabara de esfacelar-se. Ele não reconhecia a si em si mesmo. Em si mesmo, reconhecia o outro. Para todos os efeitos, ele era o outro. Sua mente não podia reconhecer a figura real, porque há muito ele era o outro.

Anunciou o repertório – todo de composições suas, disse. Os amigos, sentados na calçada, e os passantes que paravam para ver o espetáculo – o inexpressivo violão acompanhando a voz rouquenha e desafinada. E todos viram quando ele largou o violão e desnudou-se.

Naquela noite mesmo, levaram-no à capital, onde o internaram em um hospital psiquiátrico. Ao lado da cama, o inexpressivo violão, que não mais acompanharia a voz rouquenha e desafinada, ouvida, todas as tardes, no proscênio criado pela imaginação.

Fontes:
Revista de Literatura e Arte. Maringá/PR. http://www.conexaomaringa.com/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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