Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 28 de abril de 2018

Antonio Florêncio Ferreira (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa vol.1) II

IX

Deixa-me num frágil barco
Nas vagas de iroso mar,
Uma vez que nelas ouça,
Mesmo ao longe, o teu cantar!

Lancem-me na horrenda chama
Da cratera d'um vulcão,
Uma vez que assim o indique
Tua nivea, linda mão!

O morrer por ti é vida;
Que importa viver sem ti?...
Nem sequer um ai sonhaste,
Quando em tantos me exaurí!

X

Qual viajante nos desertos,
Que nunca a sede perdeu,
Encontrar em vão procuro
Amor que se iguale ao meu!

XI

Dize que seja ao sol-posto
Que me devem enterrar,
Para do sol e das aves
A despedida aceitar.

Quero guardar bem guardados
Esses mimos de ternura,
E dar-t'os quando gelada
Baixares á sepultura.

XII

Em horas tristes minh'alma
Vai ao encontro da tua,
Qual noturno caminhante
Ansioso da luz da lua.

E fico não sei que tempos
A teu lado, sem saber
Se nessa vida é que existo,
Se na que torno a volver!

XIII

O que for da nossa índole
Não se pode aniquilar;
Digam às rolas que matem,
Aos lobos que vão rolar...

Consegue-se por semanas
Á inexperiência mentir,
Mas, ou mais cedo, ou mais tarde,
Bom, ou mau, tem de surgir.

XIV

Tlim, tlim, tlim, tlim, tlim! – Quem bate?
-«O Amor.» -Que pretende? -«Entrar.»
– Vá-se embora! – «Então é gelo
O que a tantos vai queimar?...»

XV

Ai Coimbra, ó minha terra,
Não me encantas! Salgueiral,
Estas veias do Mondego,
Tempos idos, nada val'...

Meu coração está longe,
Oh! muito longe d'aqui!
Ela, tão distante, vejo-a!
Olho, e sempre a vejo a si!

XVI

Meu Amor, estás dormindo,
Não te quero despertar...
Ha de ser devagarinho
Que trovas te vou soltar.

De musgo, lírios e rosas
Uma cama irei fazer;
De jasmins e de saudades
O travesseiro há de ser.

Quero que vejas nos sonhos,
Lindos, belos, perfumados,
Os meus olhos, da vigília,
Tristes, lânguidos, magoados...

XVII

Como são belos os campos
Com esta luz verde e ouro!
Que namorados gorjeios!
E de frutos, que tesouro!

O que me trouxe indeciso,
O que me faz vacilar,
É se do sol se douraram,
Se tu que os foste enfeitar!

XVIII

Sinto por vezes morderem-me
Remorsos...– visão pungente!
Ditoso de quem for justo!
Feliz do que não os sente!

Mas nunca tive nem ódios,
Nem invejas, nem rancores!
Remorso é de arrependidos,
Do inferno aqueles horrores!

XIX

Teus beijos são diferentes
Dos que costumo trocar:
Falam, suspiram, seduzem,
Querem minh'alma arrancar!

São demorados, contínuos;
Encerram tanta doçura,
Que me parece abrangerem
Dos anjos toda a ternura!

XX

Quando, saído o meu catre,
Fui contemplar o portal
Da residência que logras,
Supus ver lá um rival.

Antes das feras as garras,
Condenado, morto, emfim,
Que imaginar que te roubam,
Que te separam de mim!

XXI

A noite! a noite!... as estrelas!...
Foi o sol que se escondeu,
Ou teu corpo, exceto os olhos,
Que num manto se envolveu?

XXII

Afirmas ser meu amigo;
D'aquele, que não és tal...
Achas bem o que pratico,
Do que faz me dizes mal.

Reunidos, todos o bajulas,
Pelas mãos metes os pés...
Leve o "demo" tais amigos,
Amigos como tu és!

XXIII

Olha aquela pobrezinha;
Coitada! chorosa vem!
Pede esmola... dão-lh'a, alegra-se,
Talvez pensando n'alguém!

Se me faltasses, não via
Nenhuma esp'rança luzir!
Tinha inveja da mendiga,
Não mais tornava a sorrir!

XXIV

Leva o amor ao sacrifício,
Mas – firmeza – é de amizade;
Não gostava d'este acerto
No vigor da mocidade...

XXV

Já reparaste que entramos,
Todos, no mundo a chorar?
D'ele também não saimos
Sem um suspiro exalar!

Choramos o apartamento
Do ventre de nossa mãe...
Suspiramos pelas glórias
Que outra vida em si contem!

Fonte:
Antonio Florencio Ferreira. Trovas: canções de amor. 
Lisboa: Imprensa de Libanio Silva, 1906

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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