sábado, 14 de abril de 2018

Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 49 a 52

49 — SETE ANOS DE PASTOR

Quanto tempo fiquei metido com os livros, estudando, lendo, meditando? Nada menos de sete anos. O número sete me faz lembrar o famoso soneto de Luis de Camões:

“Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela...”

Sete anos servi os livros e fui por eles servido. Que foi que aconteceu no Brasil durante esse tempo? D. Pedro organizou o Império. Dominou as Províncias de Sergipe, Bahia, Maranhão e Pará, onde havia tropas portuguesas revoltadas. Muitas nações reconheceram a Independência do Brasil. Reuniu-se a Assembleia Constituinte, que mais tarde foi dissolvida violentamente, sendo presos alguns deputados.

Como consequência desse fato houve muitos protestos e motins nas províncias do Norte. Pernambuco estava exaltadíssimo. 0 povo não gostava do Governador Pais Barreto, que se viu obrigado a resignar, ficando o governo aos cuidados duma junta presidida por Pais de Andrade. Mas Pais Barreto foi mais tarde nomeado presidente da província. Não permitiram que ele tomasse posse.

Houve barulho. Tropas revoltadas. Resultado: Pais de Andrade (Pode haver confusão assim com dois Pais...) formou com as Províncias de Pernambuco, Ceará, Piauí, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba uma república que tomou o nome de Confederação do Equador.

O governo mandou forças com o fim de atacar a nova república. Pais Barreto comandou o ataque. Os confederados resistiram por algum tempo mas acabaram se entregando. Os revolucionários foram julgados. Muitos, executados. Entre estes, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

De 1824 a 1825 tivemos a Guerra das Províncias Unidas do Rio da Prata. A coisa se passou assim: O governo de Buenos Aires reclamava ao Brasil a restituição da Banda Oriental. O Brasil, moita. Então, o caudilho Lavalleja e mais 33 orientais (os famosos 33 eram 34) invadiram a Cisplatina e proclamaram a sua independência. Vocês poderão dizer: Belos tempos em que 33 homens tomavam uma província! Eu lhes direi que neste nosso século de progresso dois homens num grande avião de bombardeio podem dominar sozinhos uma cidade de vários milhares de habitantes. Mas, voltando à vaca fria, que no caso presente é a Guerra do Prata — a Argentina declarou guerra ao Brasil. D. Pedro veio até o Rio Grande. O país se agitou. Houve encontros em terra e no mar. Travou-se a faladíssima Batalha de Ituzaingó, ou do Passo do Rosário cujo resultado não ficou muito claro, sendo até hoje discutido. Quem venceu? A Argentina ou o Brasil?

Não sei. Não vi. O que importa saber é que hoje Brasil e Argentina vivem em boa paz. Portanto: vamos passar uma esponja no passado.

No fim da guerra o governo do Brasil reconheceu a independência da Cisplatina, que tomou o nome de República Oriental do Uruguai. A autoridade de D. Pedro 1 enfraqueceu muito depois dessa campanha sem raízes na opinião popular. Havia muitas queixas contra o nosso Imperador. Morreu em Portugal o Rei D. João VI. Durante a guerra última faleceu também a esposa de D. Pedro I. O Imperador estava abatido. Estouravam revoltas em vários pontos. O jornalista Ferreira da Veiga dirigiu uma campanha feroz contra o governo. Entre muitas coisas, dizia-se que agora com a morte de D. João VI, D. Pedro I pretendia unir de novo o Brasil a Portugal Em Minas a exaltação de ânimos era tão forte, que D. Pedro I resolveu ir até lá em pessoa. Na volta foi recebido no Rio com festas da parte dos portugueses mas com vaias da parte dos brasileiros. Conflitos. E uma noite memorável que passou para a História com o nome de “noite das garrafadas”.

A revolta se generalizou: povo e tropa. O Imperador abdicou em favor de seu filho, o Príncipe D. Pedro de Alcântara, de 5 anos e 4 meses. Estávamos a 7 de abril de 1831.
50 — FUJA! FUJA!

Por esse tempo me aconteceu um fato curioso. De repente abandonei os livros e senti de novo uma grande vontade de voltar para a vida de aventuras. A culpa era ainda dos livros. Eu tinha lido narrativas heroicas de guerras, romances de espadachins e aventureiros, descobridores e bandoleiros. Fiquei assanhado.

Saí para a rua e procurei alguns camaradas. O Rio fervilhava de boatos. Tinha-se formado uma regência de três membros para governar o Brasil, pois o Príncipe era muito criança. Havia perturbação da ordem nas províncias. Os comentários borbulhavam. Pará, Pernambuco, Maranhão... Uma revolta na Ilha das Cobras. Andei a noite inteira inquieto. Lá por volta de meia-noite achava-me eu perdido à beira do mar, olhando as ondas, com saudade de meus tempos de índio livre. Pensei nas aventuras do passado e suspirei. O vento levou o meu suspiro, Fiquei olhando para as estrelas, como a lhes pedir conselho.

Voltei para casa muito tarde. Subi a escada que levava a meu quarto. Escuridão completa. De repente lá no alto, no patamar, surgiu uma luz. Era a dona da casa, com uma vela na mão. A luz batia no rosto enrugado da mulher. Parecia a cara dum fantasma. Não pude deixar de me lembrar de Curupira. Parei. Ela me olhou. Depois desceu alguns degraus, aproximou-se de mim com olhos arregalados e cochichou:

— Fuja!... Fuja!... Vieram os soldados... revistaram seu quarto... Eles vão voltar... Fuja!...

Eu estava embasbacado. Gaguejei:

— Mas eu não fiz nada!

A velha apertou o meu braço.

— Vá embora, meu filho. Alguém o denunciou. Decerto algum inimigo. Esteve aqui uma escolta de dragões. Fuja!... Eles voltam. Olhe a forca!

Senti na garganta a pressão da corda... A forca! Um calafrio me percorreu o corpo. Corri para o quarto. Tirei do baú a minha pistola e a minha faca. Pus-las na cintura, fiz uma trouxa com algumas roupas, juntei todo o dinheiro que tinha, paguei o alugue] do quarto, meti o resto no bolso e fugi. Mal tinha dobrado a primeira esquina, ouvi o estrépito de patas de cavalo. Espiei, com cautela. Eram os dragões que voltavam. Apearam na frente da casa onde eu morava. Deitei a correr, procurando sempre a sombra das casas. Quando o dia clareou, eu estava longe do Rio.

Com alguns dias de marcha cheguei a São Paulo. Entrei numa hospedaria barata, onde descansei por algumas horas. Pelo hospedeiro fiquei sabendo que um plantador precisava de um homem de coragem para tomar conta de suas plantações. Ofereci-me, consegui o lugar e ali passei algum tempo.

Dois anos correram. Não me pagavam mal. Mas eu andava triste. Tinha pena dos escravos. Tratava-os bem e isso de certo modo desgosta o patrão. Um dia vi o feitor chicoteando uma negra. Não me contive. Segurei-lhe o braço e arrebatei-lhe o chicote. O homem investiu contra mim, furioso. Desferiu um soco. Abaixei-me, rápido, e livrei-me do golpe. No instante seguinte minha munheca batia em cheio no queixo do feitor, que rolou pelo chão. O patrão surgiu furioso, trazendo consigo alguns caboclos armados.

— Peguem esse bandido! — gritava ele. — Peguem!

Deitei a correr. Saltei a primeira cerca, saltei a segunda, atravessei uma roça e dez minutos depois me encontrei na estrada, livre. Neste ponto minha memória me trai. Não sei que foi que me aconteceu. Lembro-me vagamente de uma carreta que entrei, carregada de fardos...

E por mais esforço que faça agora, só consigo me lembrar de um dia do ano de 1835 em que, montando num bom cavalo, eu me dirigia para o sul do Pais. A viagem foi longa e penosa. Mas eu me sentia bem ao ar livre, batido de sol, atravessando rios, cortando florestas e campos verdes.
51 — “ESTÁ PRESO!”

Uma noite me deitei debaixo dama grande figueira, conversei um pouco com as estrelas e dormi para só acordar no outro dia, já com sol. Olhei a meu redor e vi um grupo de homens mal vestidos, muito armados e de aspecto ameaçador.

Um deles se aproximou de mim, segurou-me os ombros, sacudiu-me e disse:

— Está preso. É um espião dos legalistas.

Gaguejei uma desculpa. Não me serviu de nada. Amarraram-me as mãos às costas e me fizeram caminhar a pé. Encontramos depois de marcha curta um acampamento. Levaram-me à presença do chefe. Fui submetido a um rápido interrogatório.

— Como se chama?

— Tibicuera.

— De quê?

— De nada.

O comandante resmungou.

— Que é que anda fazendo por estas bandas?

— Correndo mundo.

— Com que fim?

— Com nenhum.

— Sabe onde está?

— Não.

— No Rio Grande do Sul.

— Que bom!

— E sabe que estamos em guerra?

— Guerra? Ótimo! Ótimo!

Meus olhos chisparam: não vi, é claro, mas senti. E então fiquei sabendo que explodira no Rio Grande do Sul uma revolução. Li na cara do chefe que eu não lhe era antipático.

— Queres ser um dos nossos? — perguntou-me ele.

Minha resposta foi pronta e firme:

— Quero.

52 — TIBICUERA ENTRE “OS FARRAPOS”
Foi assim que me transformei em farrapo. Estávamos em 1835 e aquela era a Revolução Farroupilha. A pouco e pouco, no intervalo entre um combate e outro, na estrada por ocasião das longas marchas através das coxilhas, eu fui sabendo dos pormenores da revolução. O povo estava desgostoso com o presidente da província, o Dr. Antônio Rodrigues Fernandes Braga, que era acusado de simpatizar com a Sociedade Militar, que queria restaurar o trono de Pedro I. No dia 20 de setembro daquele ano de 1835 os chefes revolucionários — Onofre Pires e José Gomes de Vasconcelos Jardim tomaram conta de Porto Alegre. (Estive pensando numa coisa: Se os nossos heróis tivessem nomes mais curtos, seria mais fácil o estudo da História, do Brasil.) O Presidente Braga fugiu. A província caiu em poder dos revolucionários, E lá estava eu em cima dum cavalo, armado de lança, espada e pistola, lutando só por amor à aventura. Os meus ideais de poeta ficaram esmagados debaixo das patas dos cavalos. E depois do quinto combate comecei a gostar de meus companheiros e a amar aquela terra do Rio Grande, aquelas coxilhas que dão a impressão de um mar de ondas verdes que tivesse parado e se cristalizado de repente, por obra de um velho encantamento.

Não vou descrever os combates em que tomei parte. Foram tantos... Mas não queiram saber o que é uma carga de lanceiros, um entrevero ou o assalto a um quadrado.

Os anos passaram. Fui ferido duas vezes. Chegavam-nos notícias do Rio. A regência de três membros, que eu deixara tão forte e esperançada, não se aguentara Acharam melhor entregar o governo a um único regente. Passaram o rojão para as mãos do Pe. Diogo Feijó, que não quis ver estourar. Atirou-o para os braços de Araújo Lima. Ora, a revolução do Rio Grande parecia varíola, de tão contagiosa. Na Bahia um homem chamado Sabino provocou uma revolta que ficou com o nome de sabinada. No Maranhão houve também uma revolta cujo chefe tinha o apelido de Balaio, motivo por que esse movimento ficou na História com o nome de Revolta dos Balaios.

Chegaram os políticos à conclusão de que era melhor declarar a maioridade do príncipe e entregar-lhe o governo. Foi o que fizeram.

Em 1836, um dos nossos chefes, o Cel. Antônio de Sousa Neto proclamou a República Rio-Grandense, que teve por sede a Vila de Piratini.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

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