terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Arthur de Azevedo (Poverina)


Era naquele tempo o Salazar uma das figuras mais salientes do nosso diletantismo literário. Os seus artigos de critica, os seus versos, os seus contos, as suas fantasias estavam ao alcance de todas as inteligências, e eram lidos, senão com avidez, ao menos com simpatia.

Ele tornara-se conhecido, quase célebre, e não atravessava a Rua do Ouvidor sem ouvir estas e outras frases que o enchiam de orgulho: - Lá vai o Salazar! - Olha o Salazar! - O Salazar é aquele!

Pouco a pouco essas manifestações da admiração indígena o foram empanturrando de desvanecimento e vanglória, e não tardou muito que ele se julgasse, coitado! superior a quantos o cercavam, fazendo sentir a sua superioridade com uma importância ridícula.

O toleirão era casado, e a primeira vítima da transformação do seu caráter foi a própria esposa, excelente rapariga, bem educada, inteligente, muito inteligente, mas tímida, daquela timidez peculiar às moças brasileiras que não perderam noites em festas e bailes.

Estavam casados havia três anos, mas o literato nunca estudara nem compreendera sua mulher. Volvido o período da intitulada lua-de-mel, todo de brutalidade e egoísmo, e começando a aura do publicista, ele afastou-se da esposa tanto quanto uma pessoa pode afastar-se de outra com quem almoça e janta quase todos os dias, e com quem vive debaixo das mesmas telhas.

Não tinham filhos; faltava-lhes esse traço de união, que talvez os tivesse aproximado.

Entretanto, ela não se queixou nunca da indiferença do marido; sendo, aliás, bonita, muito bonita, mostrou uma resignação que ele seria o primeiro a admirar, se todo o tempo não lhe fosse preciso para admirar-se a si próprio.

Aquela frieza, aquela sobranceria, aqueles ares de semideus ainda mais se acentuaram quando o Salazar, um dia, recebeu, pelo correio, longa carta em que uma desconhecida, sob o pseudônimo de Poverina, manifestava pela sua interessante pessoa uma simpatia e uma admiração excepcionais.

O que mais o impressionou nessa missiva anônima foi o primor da forma. A desconhecida revelava cultura intelectual superior à dele, e dizendo-se, aliás, sua discípula, mostrava notáveis qualidades de estilista, que o outro não possuía.

A princípio supôs Salazar que a correspondência fosse de algum marmanjo, desejoso de se divertir à custa dele; mas outras e sucessivas cartas o convenceram do contrário. Quem quer que fosse tinha delicadezas femininas de que nenhum homem seria capaz.

Colocando-se, sempre com encantadora modéstia, num plano subalterno, a escritora aconselhava-o com muita discrição e habilidade, a corrigir-se de uns tantos defeitos; apontava-lhe contradições, incongruências, descuidos gramaticais, ligeiros solecismos indignos da pena de um escritor reputado; mas atribuía tudo à precipitação com que ele escrevia, e nem por sombras aludia à sua ignorância, muitas vezes apanhada em flagrante. Um homem não seria tão generoso.

Demais, essas observações e conselhos eram acompanhados de confissões gravíssimas. Ela declarava que o seu maior prazer seria, se pudesse, estar perto dele no seu gabinete de trabalho, auxiliando-o, passando a limpo os seus escritos, procurando um termo no dicionário, caçando um sinônimo, verificando um trecho em qualquer obra citada, corrigindo aqui um descuido, preenchendo ali um claro, mudando as penas, enchendo o tinteiro, cortando o papel em tiras, etc. "Enfim, dizia ela, quisera ser a tua secretária, uma secretária a quem, terminado o trabalho, remunerasses, não com dinheiro, mas com beijos e carícias.

"Mas para isso, continuava a desconhecida, seria preciso que um e outro fôssemos livres, e somos ambos casados; nem meu marido nem tua mulher merecem que os enganemos.”

O Salazar respondia a todas essas cartas, e, escusado é dizer, empregava súplicas, argumentos, razões, para que a Poverina se desvendasse.

Ela resistia energicamente. "Não procures saber quem sou; nunca o saberás. O encanto das nossas relações é esta abstração, este delicioso platonismo. Imagina que somos Heloísa e Abelardo, e que estamos separados por uma fatalidade psicológica…”
* * *

Durante um ano a correspondência continuou assídua de parte a parte. O Salazar recebia pelo correio as cartas de Poverina, e respondia-as pela posta-restante.

Pediu-lhe um dia que não lhe dissesse o seu nome, mas lhe mandasse ao menos o seu retrato. "Não, respondeu ela; mandar-te o meu retrato seria o mesmo que te dizer quem sou. Não suponhas que deixo de satisfazer o teu pedido pelo receio de me achares velha ou feia. Sou muito mais nova que tu, e de feia nada tenho. Digo-te mais: pelo interesse, pela insistência com que olhaste para mim certa vez em que nos encontramos na rua, creio que me achaste bonita... Não calculas como nessa ocasião tive ímpetos de me atirar nos teus braços, dizendo: - Poverina sou eu..."

O Salazar estava, por fim, radicalmente apaixonado, e, a proporção que esse amor desesperançado e extravagante o ia absorvendo e exacerbando, ele mais indiferente se mostrava para com a infeliz esposa, cada vez mais resignada, mais conformada com a sua triste sorte de mulher posta a um canto.
* * *

Mais seis meses de correspondência, e o caso tomou uma gravidade terrível. O Salazar estava obcecado por aquela mulher, por aquele fantasma, por aquele mistério! Já não produzia nada, limitando-se apenas à sua tarefa epistolar, que lhe monopolizava o espírito, como se fosse uma obra de fôlego, um trabalho de grande transcendência filosófica.

Um dia escreveu a Poverina, dizendo que não lhe era possível continuar a viver naquele desespero. Se ela não lhe proporcionasse ocasião de vê-la, de estar ao seu lado, gozando o benefício divino da sua presença, ele procuraria no cano de um revólver a tranquilidade que lhe fugira.

Depois de três ameaças idênticas, formuladas em termos decisivos, Poverina cedeu, marcando a Salazar uma entrevista a noite, no Largo do Machado, naquele tempo mais sombrio e menos frequentado que hoje.

Calcule-se a impaciência com que o literato contou as horas!
* * *

Cinco minutos antes do momento aprazado, ele entrou no jardim, e viu, de longe, uma mulher de preto, com o rosto coberto por um véu, sentada no banco indicado na carta de Poverina.

O coração do mísero saltava, as suas mãos estavam geladas, todo ele tremia...

Foi nesse estado que o Salazar se aproximou daquele vulto de mulher.

Ela convidou-o com um gesto a sentar-se.

Ele sentou-se.

- Aqui me tem! disse Poverina, erguendo o véu.

O publicista ficou estupefato: era a sua própria esposa!

- Tu?... que é isto... Eu... Tu... Eras tu que...?

- Sim, era eu que...

- Não é possível!

- Tenho em casa todas as minutas das cartas de Poverina. Podes encontrar.
* * *

Dali por diante aquele desalmado, que nem sequer conhecia a letra de sua mulher, foi o modelo dos maridos, e ela o modelo das secretárias.

Diziam até as más línguas que o secretário era ele. Não sei: já morreram ambos e a coisa ficou em família.

(Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1905)

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos vários.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 5. Conto – Finisterre

FINISTERRE


Cabo Finisterre (Cabo Fisterra na língua galega): Península no oeste da Galícia, Espanha. Cidade distante 80 km de Santiago de Compostela, a noroeste da Península Ibérica, na Espanha.

Ambiente:
Casa do Padrinho, numa ilha em Finisterre, no litoral da Espanha, terra dos antepassados da autora. Os fatos passam-se durante uma visita ao Padrinho já idoso.

Foco narrativo:
Primeira Pessoa.

Personagens:

Padrinho: Padrinho de batismo da autora.
Afilhada: A própria autora, Nélida Piñon.
Maruxa: Parente? Empregada da casa da avó?
Avó
Irmã do Padrinho
Amigos do Padrinho

É um texto emotivo de encontros e despedidas. O padrinho de 70 anos, morador da ilha, que é visitado pela sobrinha. O conto é um passeio pela gastronomia galega.

A protagonista da narrativa cruza o Atlântico para encontrar o padrinho de 60 anos, que vive em uma ilha galega. Tal mudança de espaços transborda significados. Por um lado, a viagem acena para a personagem com gestos confortadores, ao representar uma imersão em um núcleo originário:

“Olhei-o firme, fique tranquilo, padrinho, hei de salvar-me à custa dos próprios escombros. Por isso vim à ilha, recolher força e origem, terei então vida por tempo ilimitado”.

Por outro lado, o deslocamento assusta com ameaças de desintegração:

“Cabia-lhe, pois, cuidar que eu levasse de volta ao Brasil os mesmos olhos com que chegara. Sem perder a nacionalidade, este cravo espetado no coração. Padrinho, sou uma brasileira aflita com as trilhas do mundo. Assim, até um centolho ameaça o meu futuro, força-me à vigília, ensina-me a honra e a incerteza ao mesmo tempo.”

É a novidade da experiência representada pela mudança de espaço que lhe atravessa o corpo como uma adaga, sacudindo-lhe a identidade que, ameaçada, tenta se recompor novamente.

Não há dúvida – a identidade do ser se molda no contato com os espaços que ele habita e percorre. Mas, na escrita pessoal de Nélida Piñon, a conquista discursiva do espaço, além de se integrar na apresentação identitária da protagonista, vai além, assumindo uma simbologia marcante, essencial para a apresentação de si mesma que a escritora constrói, como as análises que se seguem pretendem mostrar.

Ambos são galegos, raça forte e emotiva. O almoço e o passeio são cheios de imagens de carinho e ternura do padrinho. Enfim a narradora se despede como quem nunca mais vai voltar a ver as pessoas queridas que deixa na ilha.

O título do texto Finisterre tem a ver com a lenda local que diz ser ali o lugar onde o "o Homem ia se confrontar com o Fim, com o seu fim, com a Morte”.

O texto coloca como personagem principal o padrinho, um velho que se aproxima da morte. Entre os povos ibéricos é profunda a relação entre padrinho e afilhado,visto que os padrinhos dos filhos são escolhidos cuidadosamente entre os amigos e parentes com os quais se tenham fortes laços afetivos.

Fontes:
– Cecília de Macedo Garcez. Cartografias Identitárias na Escrita Pessoal de Nélida Piñon. Niterói: UFF, 2013. Tese de doutorado.
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Contos e Lendas do Mundo (A Floresta de Lata)


Era uma vez um lugar amplo, varrido pelo vento e quase esquecido, que estava cheio de coisas que ninguém queria.

Mesmo no centro desse lugar, e exposta ao mau tempo, encontrava-se uma pequena casa, de janelas igualmente pequenas, com vista para o lixo que outros haviam feito.

Nessa casa vivia um velho.

Todos os dias, o homem tentava livrar-se do lixo, apartando e escolhendo, queimando e enterrando.

E, todas as noites, o homem sonhava.

Sonhava que vivia numa floresta cheia de animais selvagens, na qual havia aves coloridas, árvores tropicais, flores exóticas, tucanos, rãs-de-árvore e tigres.

Contudo, sempre que acordava, o mundo que via continuava igual.

Certo dia, algo chamou-lhe a atenção e uma ideia ganhou forma na sua cabeça.

Uma ideia que ganhou raízes e germinou.

Que ganhou folhas, alimentando-se do lixo.

Que ganhou ramos cada vez maiores.

Então, uma floresta inteira emergiu das mãos daquele homem.

Uma floresta feita de lixo. Uma floresta feita de lata. Não era a floresta dos seus sonhos, mas era, ainda assim, uma floresta.

Um dia, o vento trouxe consigo um pequeno pássaro para a planície deserta. O homem deitou no chão algumas migalhas que o pássaro logo comeu, empoleirando-se depois no ramo de uma árvore de lata. No dia seguinte, a ave partiu, e o velho ficou sozinho a vaguear pelo silêncio, com o coração a doer de vazio.

Nessa mesma noite, ao luar, o homem formulou um desejo…

No dia seguinte, acordou com o canto de pássaros. O seu visitante tinha voltado e trazia consigo um companheiro. Nos bicos, transportavam sementes, que largaram no solo árido. Em breve, havia rebentos por toda a terra.

O canto dos pássaros misturou-se com o zumbido dos insetos e o sussurrar da folhagem.

O tempo foi passando.

E foram surgindo pequenos animais, a rastejar por entre a floresta de árvores. Apareceram animais selvagens, que deslizavam por entre as sombras verdes.

Era uma vez uma floresta e quase esquecida, que agora estava cheia de coisas que todos queriam.

No meio dela, havia uma pequena casa, de janelas igualmente pequenas. Nessa casa, vivia um velho homem que nunca tinha deixado de sonhar…

Fonte:
Tradução e adaptação de Helen Ward; Wayne Anderson. The Tin Forest
New York, Puffin Books, 2003. Disponível em Contar e Encantar.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 4. Conto – O Ilustre Menezes


O ILUSTRE MENEZES


Ambiente:
cidade do Rio de Janeiro nos fins dos anos 1800. Residência da família Menezes.

Foco narrativo:
Primeira Pessoa.

Personagens:
Menezes: Homem de meia idade, "escrivão bem situado" de certas posses que lhe ficaram da primeira esposa, casado pela segunda vez com Conceição.

Conceição: Atual esposa de Menezes.

D. Inácia: Sogra de Menezes.

Amélia: Primeira esposa de Menezes, já falecida.

Pastora: Amante de Menezes.

Nogueira: Jovem primo da primeira esposa de Menezes que veio ao Rio para estudar.

RESUMO:
"Bem sei que já não sou o mesmo. Ainda que eu atrase o relógio, que trago sempre atado à presilha da calça, passa-me o tempo com demasiada pressa. E qual não é o meu espanto ao já não mais ver-me em 1860, mas já a pisar, e sem a firmeza de outrora, o chão de 1862. Eis dois anos decorridos sem a minha cumplicidade, deles sequer dei-me conta."

O narrador, Menezes, é casado com Conceição, uma mulher educada num rigoroso sistema moralista. Proíbe-se ter prazer ou conversar sobre sua intimidade. Menezes conta que tem o hábito de dormir fora de casa nas Quintas-feiras , pois vai ver sua amante Pastora. Apesar da impertinência da sogra, D. Inácia, ele dobra a mulher com as desculpas mais esfarrapadas, como por exemplo ir ao teatro sozinho com medo que a esposa se aborreça com as peças. Ele arruma uma segunda amante, Delfina, que acaba por abandona-lo. No conto, predomina a atmosfera de século XIX, com uma linguagem no estilo Machado de Assis. Aliás, o final da história faz referência ao célebre conto Missa do Galo, do referido autor.

COMENTÁRIO:
Menezes quer que tudo lhe gire em torno, de acordo com suas necessidades ou caprichos. Conceição é obediente e submissa ao extremo, devido à educação e às circunstâncias em que vive. O próprio marido impede-a de manifestar pensamentos ou opiniões e exige dela um comportamento de acordo com os moldes que ele lhe impõe. Mais que submissão ou obediência. O fato de o marido surpreender Conceição chorando demonstra o sofrimento da esposa, tolhida pelo autoritarismo da mãe e sela falta de amor do marido.

Os diálogos entre os dois são tão contidos que um não manifesta seus sentimentos ao outro. Recorrem às evasivas. Menezes sonha e não dá esse direito à esposa. “Os sonhos poderiam fazê-la” querer mudar de vida e ele não quer que a vida mude. £ como será que Conceição encara a vida?

Conceição tenha por ele os mesmos sentimentos que Amélia tinha por ele. Ele queria os bens de Amélia. Conceição quer; agora, os seus bens.

“A ameaça de que estava a ir-me muito breve não comoveu Conceição”.

Apoia-se na certeza de que, à minha morte, hão de restar-lhe alguns bens. Julgamos as pessoas conforme julgamos a nós mesmos. A mudança de comportamento de Nogueira demonstra que as coisas começam a fugir do controle de Menezes, em sua própria casa: "sua presença na casa brevemente seria incômoda. Não quero molestar-me agora com tais problemas.”

O final do conto, sem desfecho, dá ideia de que a vida, para aquela família, vai continuando com lentas modificações.

Fontes:
– Manuel Comellas Coimbra. In Algo Sobre, Resumos Literários.
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

domingo, 10 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 20 –

 


Gregório Duvivier (Epitáfio para um Bar que Acolhia Equinos Bípedes e Elegia aos seus Garçons)


“No Alcorão não há camelos”, diz o Borges, e isso, pra ele, prova que se trata de um livro árabe. Qualquer estrangeiro teria enchido a história de camelos. “Maomé, como árabe, não tinha por que saber que camelos eram essencialmente árabes. Estava tranquilo. Sabia que podia ser árabe sem camelos.”

O Hipódromo vai fechar. Isso não muda quase nada pra quase ninguém, mas muda quase tudo pra uma dúzia de pós-adolescentes como eu. Aqui na Guanabara não chamamos de hipódromo o lugar onde trabalha o jóquei —lugar este que chamamos de Jockey— mas o bar perto do hipódromo, na praça do Jockey —praça esta jamais frequentada por algum jóquei.

O bar abriu em 1945, dizia o letreiro, e estava tranquilo. “Sabia que podia ser um hipódromo sem cavalos.” Acolhia todos os tipos de equinos bípedes: poetas, jornalistas, comediantes, adolescentes e divorciados em geral, ou seja: todos aqueles que não tinham senso estético nem paladar apurado e que, por não terem encontrado seu lugar no mundo, ali encontravam consolo num chope aguadinho, numa fatia de pizza com ketchup e num garçom que sabia seu nome e o da sua família toda.

Cada garçom tinha sua expertise e seus clientes preferenciais. Sorriso trazia no olhar ao te ver a alegria de uma criança que vê seus pais chegando à creche, enquanto João de Deus, o Boi, trazia na testa o maço de cigarro equilibrado nas sobrancelhas, entre outros truques impagáveis.

Lacerda tinha a memória mais prodigiosa e o humor mais veloz —o melhor garçom do mundo segundo qualquer concurso que preste. Existia ali uma tecnologia do serviço avançadíssima e que mantinha o bar aberto apesar dele mesmo.

A luz fria, o cardápio imutável, o teto de espuma, nas paredes a foto de um pedaço de carne crua no espeto com os dizeres “esta é a churrasqueira do Hipódromo”. Aquilo era pra ser uma publicidade, mas soava como uma denúncia.

Em seu lugar, abrirá uma filial do Brewteco —espécie de importação carioca da ideia que um paulista faz do que é um botequim carioca. Não reclamo: a imitação da imitação supera muitas vezes o original. A comida será melhor, o chope nem se fala. Mas falta alma. Não faltam camelos. O botequim carioca dos paulistas está mais pra Aladim que pra Alcorão.

A prova: demitiram os garçons. Rezo pra que todos apareçam recontratados. O tal do novo normal tem muito a aprender com o velho. Prometo que, se assim for, estarei lá (assim que encontrarem a vacina, que não sou doido de compartilhar perdigoto com desconhecido).

Fonte:
Folha de São Paulo. 21 julho 2020.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Varal de Trovas 462

 


Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 3. Conto - I Love My Husband

I LOVE MY HUSBAND


Ambiente:
Interior do coração de uma mulher submissa e solitária.

Foco narrativo:
Primeira pessoa.

Personagens:
Marido e mulher.

RESUMO:
“Eu amo meu marido, De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre mal dormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição."

O marido é frio como o café que ele deixa esfriar. Ela lhe arruma o nó da gravata. Ele diz que esse é seu menor problema. Ela ri. Quer que ele saia tranquilo, “capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto.”

Ela é aclamada por cuidar do marido. Sabe que é a sombra dele. Os objetos “da casa são adquiridos pelo esforço comum”. Ele diz que ela gasta o dinheiro que ele ganha. Ela quer trabalhar, ser produtiva. Ela sente saudade do passado, do tempo em que sua vida não era ditada pelo marido, do tempo em que o marido não era seu dono. Ela sente que não é dona de si mesma. O marido lhe atara as mãos.

Revolta-se. Acaso é mulher apenas pelas unhas longas e coloridas? Já que ele não quer falar de amor, ela diz que talvez possam falar do futuro. Ele põe o jornal de lado. Ela torna a falar no futuro. Anseia por liberdade.

"O marido, com a palavra futuro a boiar- lhe nos olhos e o jornal caldo no chão, pedia-me, o que significa este repúdio a um ninho de amor, segurança, tranquilidade, enfim a nossa maravilhosa paz conjugal?"

"Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredirem doze meses. Encarregava-me, eu à distância da sua capacidade de sonhar. Cada sonhado meu marido era mantido por mim: E, por tal direito, eu pagava a vida com cheque que não se poderia contabilizar."

"Ser mulher é perder-se no tempo, foi a regra de minha mãe. Queria dizer, quem mais vence o tempo que a condição feminina? O pai a aplaudia completando, o tempo não é o envelhecimento da mulher, mas sim o seu mistério Jamais revelado ao mundo."

"Já viu, filha, que coisa mais bonita, uma vida nunca revelada, que ninguém colheu senão o marido, o pai dos seus filhos? Os ensinamentos paternos sempre foram graves, ele dava brilho de prata à palavra envelhecimento. Vinha-me a certeza de que ao não se cumprira história da mulher, não lhe sendo permitida a sua própria biografia, era-lhe assegurada em troca a juventude.”

O pai lhe garantira que não envelheceria se vivesse só para o marido. E ela agora se vê numa vida que não quis. Ela se casara na expectativa da novidade do casamento. Na “esperança de que o marido modelaria suas feições até o último dia de vida juntos.”

"Ele é único a trazer-me a vida, ainda que às vezes eu a viva com uma semana de atraso. O que não faz diferença. Levo até vantagens, porque ele sempre a trouxe traduzida. Não preciso Interpretar os fatos, Incorrer em erros, apelar para as palavras inquietantes que terminam por amordaçar a liberdade. As palavras do homem são aquelas de que deverei precisar ao longo da vida. Não tenho que assimilar um vocabulário incompatível com o meu destino, capaz de arruinar meu casamento."

COMENTÁRIO:
O conto quer mostrar o interior de uma mulher com um casamento só de aparências. Ela sofre, culpa-se pelos próprios sentimentos. E se vê incapaz de modificar a situação em que se encontra e com a qual é obrigada a conformar-se.

Narrado em primeira pessoa, trata dos enredos da vida de uma esposa conformada, educada sob o signo de uma cultura moralizadora e patriarcal. Ao longo da narrativa, mesmo depois de pensar em uma ou outra situação que não a agradou, ela afirma, tanto para si mesma, quanto para o leitor “Eu amo meu marido”, e ocupa-se imediatamente da descrição de atividades que possam favorecer sua felicidade ao lado de seu companheiro.

Embora não haja abordagem explicita, através de seus relatos, podemos notar seu posicionamento diante da sociedade e perante seu marido, a personagem é consciente de sua (in)existência. Sua vida se restringiu a ser, tão somente, a sombra do companheiro, em suas palavras “sou a sombra do homem que todos dizem eu amar”.

Logo no início da narrativa, já verificamos os indícios de sua aceitação diante da opressão, bem como de sua conformidade. A narradora, de certo modo, mostra-se satisfeita com fato de permanecer em uma zona de conforto. Como assinala Simone de Beauvoir (1986) ela, como tantas outras mulheres, é uma cúmplice de sua escravização, é apenas um objeto no relacionamento:

“Não posso reclamar. Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.”

O excerto acima destaca o processo cíclico do enredo que começa e termina da mesma maneira. A afirmação da dominação masculina, representada pela figura do marido, nasce a partir da negação de sua condição humana, seus desejos e vontades são anulados pela falsa certeza de que as coisas precisam ser assim. Segundo Maria Consuelo Cunha Campos (1992) esta aceitação está relacionada à aceitação da naturalização de papéis, o homem, enquanto provedor, cumpre seu papel de chefe de família, cabendo a mulher, em contrapartida, assumir sua função submissa.

Outra marca que perpassa toda a narrativa é a ironia do discurso da narradora que demonstra estar consciente de opressão à qual é submetida.  A certeza de estar no mundo, proporciona um momento de epifania, no qual sua identidade leva-a a enxergar o quanto tem sido subjugada pelo marido.

Ao dar conta da de perda sua identidade, a narradora põe-se a buscá-la. Imersa em seus pensamentos, a memória insiste em visitar os conselhos da mãe, a satisfação do pai ao vê-la recebendo uma educação para o casamento e, como reflexo deste processo, encontrara-se agora diante do comportamento machista do marido. Em “I love my husband” a família é apresentada como a principal incentivadora da dominação masculina.

Dividida entre a dominação e a submissão, podermos afirmar que a personagem de Nélida Piñon é mais um exemplo de mulher em busca de sua identidade: mulher/esposa/mãe. Não obstante, é importante destacar ainda que, ao longo da narrativa ao considerar a função de dominador assumida pelo marido, a narradora passa por três momentos: submissão, epifania e resignação. O conflito entre as duas mulheres, sujeito e objeto, fica evidente nas sobreposições de pensamento, sendo a vitória da mulher-objeto afirmada tanto pela sociedade patriarcal, quanto pelo modelo familiar tradicional.

Fontes:
– As relações de gênero em I love my husband, de Nélida Piñon. Jornal Vetor. 4 nov 2015.
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 19 –

 

Montagem da trova sobre imagem da Libreria Fogolla Pisa

Vanice Zimerman (Poemas Escolhidos) 4


ARTE E MISTÉRIO


Um olhar misterioso...
No palco: palmas, sapateado
Num ritmo intenso e belo!
No olhar da Dançarina Flamenca
Cintilam sonhos, espelhos,
Ao som encantado das castanholas, despede-se...
Palmas!
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CENTAURO DE CRISTAL

Veloz, ele passeia em meus sonhos
Sedutor, brinca de esconde – esconde...
Disfarça-se nas poesias
Cobre- se  de folhas...
Quase, desisto de tocá-lo,
Mas, o vento Cupido aproxima-nos…
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CUMPLICIDADE

Há uma cumplicidade linda,
Entre o claro e o escuro;
O dia e a noite,
O certo e o errado e,
Entre meus pensamentos
e a companhia do por-do-sol…
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JANELA ENTREABERTA

Noite de novembro
Janela entreaberta:
Aos poucos, a poesia abre a janela
Meus pensamentos seguem meus sonhos,
E escapam  buscando encontrar você…
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JANELAS AZUIS

Nas paredes brancas
Desabrocham flores...
Nas antigas  janelas azuis
Lembranças e poesias…
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MADRUGADA

Cessam os toques...
Descansam as teclas do computador
Teu rosto tão distante,
Silêncio…
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MÁGICO ESPELHO

Noite fria
Envolve o silêncio...
A saudade cintila
Desenha teu rosto
No espelho…
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NOITE DE PRIMAVERA

Noite de primavera
Janela aberta...
Na quietude do jardim
Desabrocham as rosas,
O  vento  suave passeia nas pétalas
Enquanto a saudade envolve-me…
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SAUDADE E RETICÊNCIAS...

A saudade transborda em lágrimas
E amor intenso deságua nas páginas em branco
Em forma de poesias e reticências…
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SONS DO ESPELHO

No espelho caem gotas d’água
Deslizam pequenos retratos,
Reflexos,  rostos e versos
Sussurram um nome…
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TULIPAS E PORTA-RETRATOS

Das tulipas vermelhas
Algumas gotas d'água deslizam
no porta-retratos
Breves lágrimas…
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VENTO...

 Fim de tarde
 A suavidade do vento
 desperta lembranças
 tece sonhos…

Fonte:
Recanto das Letras da Poetisa

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) Segundo Conto

AS QUATRO PENAS BRANCAS


Ambiente:
Rio de Janeiro, Niterói, bares/ uma fazenda, um hotel. Época atual.

Foco narrativo:
Terceira Pessoa.

Personagens:

Rubem e Pedro: Amigos do cotidiano.

Colombo: Alguém que Rubem conhece como vendedor de amendoim.

Bulhões: amigo de Colombo.

Alice: ex-esposa de Rubem com quem tem quatro filhos.

RESUMO:

São dois amigos: Rubem e Pedro. Pedro pega o amigo à porta do jornal onde Rubem deixara o artigo para o dia seguinte. Diz que vai com Rubem parar Niterói para que ele não fuja do Rio de Janeiro. A mulher do Rubem exige a pensão atrasada, dos quatro filhos dos dois. Em Niterói o pai empresta o dinheiro. Mas adverte que é só um empréstimo Admoesta o filho, chama-o à responsabilidade Rubem reage. Quer dividir responsabilidade e culpa com os pais que queriam netos, então acha que eles têm que ajudar a pagar a pensão deles. Acaba reconhecendo a própria culpa.

Rubem toma a barca para voltar ao Rio. Senta-se ao lado de um vendedor de amendoim. Puxa conversa. O homem diz que já fora rico, de ir em "boate grã-fina e dar gorjeta". Rubem interrompe-o. A vida do outro é melhor que a sua. Rubem pede-lhe que comece de novo. “O homem amarrou a cara. Escuta aqui, quem organiza a narrativa sou eu, escolho a porta por onde entrar e a janela por que sair. Quem não está satisfeito com o volume e a posição das palavras, abandona a sala.”

Colombo conta-lhes sua estranha e obsessiva amizade por Bulhões. O tempo que moraram juntos e sua vida na fazenda comprada por Colombo no tempo em que era rico. Após a separação dos amigos, Colombo vai à falência e passa a viver da venda de amendoins na barca Rio-Niterói.

Rubem apalpa o dinheiro no bolso. Tem que entregá-lo à mulher. Considera aquilo um roubo. Sua vingança consiste em saber que a mulher ter que cuidar dos quatro filhos e que ninguém a quer com a criançada.

Aceita um amendoim. Pergunta o nome do outro, Colombo, como o descobridor da América.

Enfim, após muita conversa, os quatro decidem ir beber umas cervejas. Num bar escuro, os três conversam quando, de repente chega Bulhões. Os quatro, então gastam todo o dinheiro da pensão dos filhos de Rubem.

COMENTÁRIO:


Penas soltas são leves e costumam ser levadas ao sabor do vento. Penas brancas são referências aos quatro amigos. Que não pisam em terra firme. Vivem o hoje, mas são despreocupados, não encaram a vida, deixam-se levar por ela. É como diz Colombo: "Eu só sabia viver a vida de modo confuso.”

Nayoka significa a ilusão atrás da qual Rubem parte. A vida com Alice não correspondera à ilusão. Rubem nem sabe explicar porque se separou dela e sente até saudade de sua comida. O amanhecer significa a volta à realidade da vida, quando reconhecem; "as máscaras somos nós, e elas agora se derreteram, foram feitas de cera.”

Fontes:
Análise pela Profª Sônia Targa, in OBRAS DA UEM - 2012 – 2013.
Trecho do resumo por Manuel Comellas Coimbra em Algo Sobre

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Varal de Trovas 461

 


Manuel Bandeira (Antologia Poética) 7


MINHA GRANDE TERNURA


Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.
****************************************

NATAL SEM SINOS

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ali meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos!

No noturno pátio
Sem silêncio, o sinos
De quando eu menino.
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.
****************************************

NATAL

Penso em Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh’alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal...
Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh’alma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana - pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
****************************************

NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana.
inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro, Teodora.
****************************************

NOITE MORTA

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras
Sobras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)
****************************************

NOVA POÉTICA

Vou lançar a teoria do poeta sórdido
Poeta sórdido:
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim
muito bem engomada,
e na primeira esquina passa um caminhão,
salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poeta deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas,
as estrelas alfas,
as virgens cem por cento
e as amadas que envelheceram sem maldade.
****************************************

O ANEL DE VIDRO

Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, -
Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste.

Fonte:
Manuel Bandeira. Poesia Completa e Prosa. 1967.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) Primeiro Conto

O JARDIM DAS OLIVEIRAS


Ambiente:
Rio de Janeiro nos tempos da ditadura militar. E a consciência do personagem- autor do monólogo.

Foco narrativo:
Primeira Pessoa.

Personagens:
O autor da carta: Alguém que sofreu a tiranias da ditadura.

Zé: O destinatário da carta. Alguém que pode ser um amigo ou um conhecido ou alguém necessário para desabafar o que explode no coração do autor da carta.

Sequestrador: "Tinha olhar de vidro e nariz...ligeiramente adunco."

"Um crioulo, um mulato e um branco, etnia carioca": algozes ou companheiros do autor da carta.

Antônio: Alguém que morreu após ser torturado.

Luíza: Namorada do autor da carta.

Resumo:
Ele escreve uma carta, urgente para o Zé. ......

Começa contando como foi levado para a tortura. Uma pessoa trava-o pelo braço quando sai de casa. Essa pessoa, da qual não consegue ler o semblante, lembra-lhe a humanidade.

"Ah, Zé, como a alma é uma gruta sem luz.”

Os dois caminham furtivamente. Ninguém os nota...Ele é jogado no banco traseiro do carro onde já estão seus algozes: "Um crioulo, um mulato e um branco, etnia carioca". Levam-no a um local, uma sala com apenas três cadeiras.

Ele sente medo, sente-se asfixiado, tem ânsia e vontade de vomitar; Já havia sido torturado antes. Sente-se covarde, “a desesperança de saber que a dignidade dependia de um corpo miserável a serviço da força alheia". O Zé não lhe compreende os sentimentos. Ele já fora herói. Agora não mais consegue sê-lo.

O branco ameaça, quer saber do Antônio. Ele diz que não sabe. Já confessara tudo nove anos antes. O interrogador insiste em saber do Antônio embora todos saibam que Antônio já está morto. Estilete no peito. Ele sente medo e remorso por ter dado as pistas para a prisão de Antônio. Sente vergonha e ódio.

“Eu era as palavras arrancadas à força, era a covardia que eles souberam despertar em mim, e antes me fora desconhecida”. E era ainda a vida que eu descobrira preciosa entre os suplícios infligidos.

Não desistem. Querem saber do Antônio, Torturadores com mãos como as de qualquer pessoa, aparentemente limpas. Mãos que enterraram Antônio.

Ele diz que não tem visto Antônio. Quer voltar à vida. Diz que Antônio desapareceu. O mulato assume. Ele se lembra de que vira Antônio, no ano passado, na saída do cinema. Gritara por ele que não ouviu e desapareceu. Estava mais gordo e com bigode. Surge um novo Antônio. É um jogo que lhe custa suor, vida e honra.

"Eu sei que a vida prova-se com a palavra, mas quando nos é ela extraída à força e ainda assim, a vida nos fica, não é a vida o único tesouro com que se recomeça a viver?"

Antônio está na sala, "Vivo, ardente, combatendo o mundo em tudo igual ao que havia deixado antes de partir.”

O branco diz que Antônio é um assassino de mulheres e crianças, que precisa ser levado à justiça. Sai da sala. Ele é levado para uma ceia. Pensa no suplício da manhã seguinte, ou da semana, ou de mês... Pegam-no de madrugada, colocam-no no carro, jogam-no perto de casa. Nem uma palavra.

“Acalentavam o sangue e o suor de um país com o torniquete da naturalidade e da supremacia”.

“Advirto-o assim, Zé, que temos Antônio de volta.”

Mas Antônio não dá notícias a ninguém. Menos a quem lhe facilitara a captura. Mas ele lhe deve a vida. Não o mataram.

"Terá sido desonroso reviver Antônio? O poder não fragiliza apenas a quem domina. O poder educa para que não esqueçamos as suas lições. Mas, como será quando a lição passar a ser aplicada por nós, povo pálido e submisso?"

Luíza não o recebe. Ele vai para casa. A vida de sempre. A espera do carrasco, um dia. O que se pode esperar de uma criatura fiel ao Estado a cobrar-lhe obediência como meio de assegurar a coletividade uma existência feliz? E que expulsa do seu corpo social todo e qualquer organismo infectado de pus, palavra e ação rebeldes? Ele se perfuma "moderado e elegante". Pequenas atenções conseguem mesmo. Acomodação à vida possível.

“ah, Zé, quantos capítulos são diariamente redigidos numa infindável série de resignações?”

Nada de paz, de sossego. Perplexidades. Sono difícil. Ele se sente culpado. Não crê na própria inocência.

“E com que direito protesto, fortaleceu-me quem tinha a arma na mão, dei-lhe a munição que escasseava.”

Mas ele não quer sofrer. Reconhece a própria fragilidade. Reclama da autoridade, mas, no intimo, quer ser autoridade, ter domínio, poder.

Até Luiza desconfia de Zé. O Zé fala bem, mas não se comove. Luiza não gosta de seu olhar crítico. Ela é cheia de pudor. “Onde esteja, sua linguagem é impecável. Sua ordem mental alija a paixão. Não sei onde se abriga o coração daquela mulher.”

COMENTÁRIO:

O Jardim das Oliveiras foi o local onde Jesus Cristo sofreu grande agonia antes de ser crucificado. . “O jardim das oliveiras”, de Nélida Piñon, as personagens principais evocam seu passado e expõem suas dores e seus medos, demonstrando uma relação tensa das personagens com o mundo. Nesses contos, ganham mais relevo a vida emocional das personagens e as sensações provocadas pelos acontecimentos do que os acontecimentos em si.

A autora usa esse título para demonstrar que o texto trata de uma grande agonia interior, de alguém que foi preso e torturado nos porões da ditadura militar. E um texto altamente filosófico, emaranhado de pensamentos que se sucedem numa tentativa dolorosa de explicar a própria vida que foge ao controle do personagem. O personagem é torturado física e psicologicamente. Sofre tanto que desiste de ser idealista. Faltam-lhe forças para isso. Encolhe-se em si mesmo para não sofrer. “Quer ter a ilusão de ser livre embora” sinta-se "como um polvo embaralhado nas 'próprias pernas". Descobre que o próprio amor que sente por Luíza não passa de egoísmo. Ela é a sua tábua de salvação. Descrição exata de uma vida sem fé. Vida que se transforma, para o personagem, numa luta desesperada para preservá-la, pois descobre o quanto é preciosa, Quem é o Zé? O dominador? O rico? O poderoso? A elite cultural? O amigo? Ou todos? Em todo caso, é o interlocutor do personagem a quem ele se desvenda.

Fonte:
Análise pela Profª Sônia Targa, in OBRAS DA UEM - 2012 – 2013.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 18 –

 


Professor Garcia (Poemas do Meu Cantar) Trovas – 2 –


A dor das ondas e as minhas,
são ante as queixas do mar,
consolo das ladainhas
que a noite vive a cantar!
- - - - - –
Ante os teus ciúmes loucos
e a loucura desmedida;
o amor, vai sentindo aos poucos,
os desencantos da vida!
- - - - - -
Caicó - a idade avança,
mas no meu imaginário...
És linda moça criança
no teu sesquicentenário!
- - - - - -
Coração - cofre sagrado,
és o mais secreto cofre.
Só tu sabes do passado
das ilusões de quem sofre!
- - - - - -
É quando a mágoa me açoita
que busco em meus alfarrábios,
a resposta que se amoita
no silêncio de teus lábios!
- - - - - -
É tarde!... Em tua moldura,
logo assim que o sol se esconde;
uma saudade murmura,
por outra, que não responde!
- - - - - -
Fecho a janela, abro as portas
aos sonhos sentimentais...
Não quero esperanças mortas,
presas aos meus madrigais!
- - - - - -
Foto antiga!... E, pelos gestos,
por culpa de um neto ingrato...
Há cupins, comendo os restos,
do resto do teu retrato!
- - - - - -
Meu sabiá, tão contente,
cantas, fingindo o teu pranto;
nem vês que o pranto da gente
é triste quanto o teu canto!
- - - - - -
Meu versinho é uma criança,
que sozinho me insinua...
A levar paz e esperança
onde faltar paz na rua!
- - - - - -
O silêncio mais profundo,
me inspira e nele eu medito.
Ouço as torturas do mundo
no silêncio do infinito!
- - - - - -
Ostentação, nada diz.
Pobre e feio, também ama...
O sapo é pobre e feliz
mantendo os pés sobre a lama!
- - - - - -
Ouço um canto, me arrepio
e, aquela voz diferente,
vem da cascata de um rio
pranteando as mágoas da gente!
- - - - - -
Passando sem percebê-los,
os anos, de forma ingrata,
deixam-me a cor dos cabelos,
branquinhos, da cor de prata!
- - - - - -
Passo a passo e, sem alarde,
prossegue o pobre velhinho...
Tão perto do fim da tarde,
tão longe do velho ninho!
- - - - - -
Percebo que as mãos do outono
pintam na dor do poente,
cores das tardes sem dono,
donas das tardes da gente!
- - - - - -
Pobres cabelos grisalhos,
encanecidos, tão velhos;
fibras de tantos retalhos
que tecem meus evangelhos!
- - - - - -
Por teu amor, me proponho
a ser fiel ante a dor!...
Quem vive de amor e sonho,
vive as neuroses do amor!
- - - - - -
Qualquer adeus, nesta vida,
deixa um sabor tão cruel...
Que o gosto da despedida
amarga mais do que fel!
- - - - - -
Revivendo os sonhos vãos,
pelo tempo, envelhecidos;
trocamos beijos pagãos
por beijos prostituídos!
- - - - - -
Se amas a luz do luar,
te encantas, com tanto brilho;
vê quanto brilho, há no olhar,
da mãe que amamenta o filho!
- - - - - -
Se nossas almas se enlaçam,
ouço fingidos rumores,
entre corpos- que se abraçam
nos braços de outros amores!
- - - - - -
Toda tarde, em meus cansaços
ouço os teus conselhos belos,
na cantiga de teus passos,
no estalo de teus chinelos!
- - - - - -
Um grande amor não fenece,
resiste ao tempo que passa;
quanto mais ele envelhece,
mais tem ternura e tem graça!
- - - - - –
Vida dura!... Mil percalços,
e, essa ausência, inesperada,
me deixa de pés descalços
no meio da caminhada!

Fonte:
Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020.
Livro enviado pelo autor.

Nilto Maciel (As Irreversíveis Lavas do Vesúvio)


Nunca consegui esquecer essa mulher que se grudou em meus olhos feito uma cegueira e tomou o lugar de todas as outras. De minha mãe, das santas de papel e gesso, das mocinhas fugidias, das heroínas dos compêndios de História, das personagens de ro­mances, das vedetes do cinema, das cantoras mortas, daquela com quem vivi quase uma vida. Dentro de mim, essa mulher ora me acalanta, ora me espreita, ora me sufoca. Doutras feitas, ora se mostra engrandecida, ora se faz sofrida, ora se enche de vida. Mais além é mero fulgor de sons, quando não me reclama ou não me espanta.

Depois de tanto tempo, agora, é como se eu e ela fôssemos o mito eterno e incriado de uma dor indefinível frente ao deses­pero ilimitado. No sonho, na vigília, na dimensão incompreen­dida da recriação.

Examinei-lhe o cadáver e persiste ainda em mim a vaga noção de tê-la viva – a mesma criatura daquele único, passageiro e casual encontro. Como se nos víssemos para além da vida e da morte – mitificados.

Seu corpo desfigurado pelo fogo me apavorou sempre, naquele dia, depois, agora. A mim, acostumado a conviver com mortos vindos das mais variadas formas de morrer. Não por re­encontrá-la defunta, semicarbonizada, mas por tê-la conhecido.

Desvendei-lhe a vida, do embrião à sepultura, numa investigação de celerado. Como se chamava, onde e com quem vivia, o que fazia e deixava de fazer, seus brinquedos, suas manias, seu jeito. Anos e anos dedicado a uma criatura sem biografia. E nada daquilo importava, a não ser para rebuscá-la inutilmente. Qual a importância de seu relacionamento com aqueles cabe­ludos que vagavam por ruas e estradas? Que significado tem a sua pouca fala sobre paz e amor, os hindus, Sidarta?

De tudo, talvez só o seu diário valha a pena ser preservado. E, para mim, hoje, quem sabe apenas a última anotação:

“Não sei onde anda o meu amigo, nem onde dormiu. Pode estar morto a estas horas, ou preso mais uma vez.”

Sua derradeira referência ao rapaz com quem andava, seu irmão de solidão, de quem eu nunca soube o paradeiro.

“De manhã vendi meu isqueiro a um desconhecido. To­quei-lhe o braço e fiz a oferta. Disse-me que não fumava e tra­tou de desvencilhar-se de mim. Tive ódio e comigo mesma cha­mei-o de porco, cachorro, miserável. Procurava com os olhos alguém que me ajudasse, quando ele voltou e perguntou por que eu queria vender o isqueiro. Olhava para mim com curiosi­dade, como se eu fosse um bicho estranho. Durou alguns mi­nutos nossa conversa e pude observar como se vestia bem, todo de branco, parecendo ser médico ou enfermeiro. Roupa lim­pa, corpo limpo, cheiroso. Senti desejo de abraçá-lo, beijá-lo. E ri de mim mesma, de minha tolice.

Falei de minha fome, da necessidade de dinheiro para com­prar comida. Não pensasse besteiras, podia confiar em mim, o isqueiro me pertencia de verdade, não costumava roubar. Meu lema era só paz e amor. Disse ainda uma porção de coisas, en­quanto ele apenas ouvia, metia as mãos nos bolsos, perguntava quanto eu queria pelo isqueiro. Notei sua pressa e tratei de fe­char o negócio. Pedi muito, esperando uma reação dele. Para minha surpresa, no entanto, ele me passou o dinheiro pedido, recebeu o isqueiro, disse adeus e retirou-se.

Ainda agora estou pensando no desconhecido. E também no dinheiro que ele trocou por um isqueiro. Nada mais me res­tou, porque o dinheiro eu o dei aos mendigos. E a fome passou. Quero só pensar em mim mesma.”

Termina aí o diário. E não há qualquer explicação para o suicídio, ocorrido ao escurecer.

Cabe a mim completar a história – essa pequena história vivida por ela e por mim.

Ao deixá-la, guardei o isqueiro no bolso e, enquanto caminhava para o carro, por uns dois minutos ainda me lembrei dela.

Ao chegar ao instituto, desfiz-me do maldito isqueiro. Ofe­reci-o a uma colega. Um mal-estar qualquer me indicava ser preciso apagar do espírito as imagens daquela menina.

Depois de jantar, informaram-me que me aguardava “um caso estúpido”. Lembro-me de ter perguntado se havia algum caso delicado naquela porcaria. “Uma garota se matou, tocou fogo às roupas”, completaram. Nem me passou pela cabeça a moça do isqueiro. Porém, ao ver o cadáver, tomei um susto. Seu ros­to, sua cara apavorada, parecia me dizer: “Cidadão, quer com­prar este isqueiro?”

Enquanto examinava a defunta, recordei o encontro da ma­nhã. Eu me havia compadecido daquela pobre criatura e em ne­nhum momento olhei para ela com olhos de cupidez. Pareceu­-me muito infeliz, não por andar suja, despenteada, faminta, mas por vender um isqueiro, como se vendesse o próprio corpo, para matar a fome.

Não tive palavras de conforto, de ajuda, de socorro, embo­ra haja pensado em falar das injustiças sociais, do desamparo à infância, à juventude, às pessoas em geral, fazer um discurso ético e político. Depois,  achei por bem apenas ouvi-la e aceitar a sua oferta.

Em determinados momentos senti que ela desejava uma aproximação maior, vender-me seu corpo, em vez do isqueiro, tal como está no diário. Ou simplesmente oferecê-lo de graça, tanta me pareceu sua solidão. Seu olhar transmitia isso. Eu, no entan­to, nenhum desejo senti, não por repugnância ao estado de seu corpo ou qualquer outro escrúpulo, mas por estar cheio de outros sentimentos.

Ao constatar o vazio de seu estômago, tive ímpetos de chorar, gritar, acordá-la, dar-lhe vida. E me senti impotente, inú­til, frágil, como se eu mesmo estivesse morto.

A partir daquele dia, ela não mais me deixou e, onde quer que eu esteja, ela me acompanha, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia. Aquele último dia dela cai sobre mim feito o Vesúvio – lavas irreversíveis.

Fonte:
Nilto Maciel. Itinerário: contos. Fortaleza, CE: Ed. do Autor, 1974.
Livro enviado pelo autor.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon)


A obra O calor das coisas, de Nélida Piñon, é um livro de contos que tratam de circunstâncias presentes no cotidiano das pessoas. São treze histórias nas quais é fácil perceber as mesmas preocupações da autora: a importância da palavra e a manipulação política da linguagem. Desta vez, porém, há uma grande carga de humor. De fina ironia e construção complexa para desvendar os mais recônditos cantões da alma de seus personagens.

Nélida utiliza imagens belas e delicadas para tratar das paixões humanas. Seus enredos, sempre originais, muitas vezes confundem-se com o discurso. Nélida alterna poesia e crítica, racionalidade e erotismo em páginas de leitura voraz e provocadora.

A obra de Piñon é instigante e envolvente. Ela traz em sua estrutura temática o desdobrar e o atualizar em cada publicação, seja de romances, de contos ou de ensaios. Reflete em sua obra a preocupação constante com questões referentes à criação do texto, à linguagem, à religião (panteísta ou cristã), ao mito, ao amor associado aos questionamentos do cristianismo, à paixão, à solidão humana e, entre outras, à realização feminina

Nesta obra têm-se personagens do mundo contemporâneo vivendo momentos significativos – mas não necessariamente excepcionais – e historicamente marcados.

A multiplicidade das histórias deixa ver um certo número de temas recorrentes, que se espelham entre si e se desenvolvem uns aos outros. Tem-se assim, por exemplo, o tema fantástico da união (im)possível de espécies diferentes e o da mutação humana, o do incesto e o da homossexualidade. Em todos os casos tem-se o homem infrator, ora por sua ação, ora pela inação que, nesses contos, não significa jamais fraqueza mas escolha e assunção de força. Esse homem infrator exige, limpa, ordena, organiza, que tais são os verbos recorrentes na gramática nelidiana.

Nas histórias que nesse livro se conta, não há reorganização (construção) do mundo destruído pelos personagens, pelas circunstâncias, pela narração. Quando ocorre, a auto-organização do protagonista implica a desvalorização de seu contexto, que só lhe interessa como cenário, palco de experiências próprias e não partilháveis.

De fato, tem-se nesses contos, em vários níveis e em vários matizes, a mesma narrativa de solidão, em que toda relação interpessoal é vista como radicalmente impossível e na qual é lesiva toda tentativa nesse sentido.

É por isso que não se pode, a rigor, falar da existência de diálogos nesses textos. Entre os personagens só há monólogos e o preenchimento do silêncio pelo pastiche do lugar-comum, falas que apontam o vazio de que são feitas.

Os contos “O calor das coisas”e “A sombra da caça” destacam-se na composição do livro de que participa. O primeiro por dar nome à coletânea de que faz parte, o outro por ocupar o significativo lugar de último conto do livro, como a indicar que nele se poderia buscar (como nos romances policiais) a chave para o(s) mistério(s) de sentido que se teriam enovelado até então.

Se, quando apreciados tematicamente, vê-se atravessar tais textos o sentimento de erosão, este também se exprime na linguagem. Assim, já à primeira abordagem, a dicção destes contos se mostra provocadora, elaborando uma narrativa densa, que exige toda a atenção do leitor para a percepção do seu sentido. Pode-se mesmo dizer que o discurso nelidiano revela-se uma experiência sobre as possibilidades de expressão da tensão pensamento/linguagem fora da norma linguística e que daí advém a dificuldade que oferece a seu leitor.

Nesse discurso pode-se também identificar a presença de alguns aspectos da retórica do “carnaval”, tais como o estilo grotesco como em “O calor das coisas” e “O sorvete é um palácio”.

É a presença do mecanismo da paródia que melhor caracteriza a estruturação dos mais significativos textos do livro em questão. Através de tal procedimento perpassam os mais bem sucedidos nesses contos, narrativas advindas de lugares tão variados quanto a Bíblia em “O jardim das oliveiras”; o repertório artístico popular brasileiro em “Disse um campônio a sua amada”; um determinado corpus de valores e padrões de comportamento em “I love my husband” ou “Tarzan e Beijinho”. Esses textos básicos (e considera-se como texto também o conjunto de valores e padrões de comportamento vigentes a partir dos anos 60 do século XX) constituem o indispensável pano de fundo do conto nelidiano, que os relativiza sem jamais os anular.

Estão, assim, sempre presentes, indicando o quanto o discurso da autora deles se serviu e o quanto deles se afastou e assinalando, dessa maneira, a tonalidade irônica desse discurso. Assim, por exemplo, a agonia de Cristo é convocada na expressão da angústia daquele que renega seus antigos valores, em “O jardim das oliveiras”, primeiro conto da obra. Este conto narra, em primeira pessoa, a história de um preso que não suporta ser torturado, que examina os horrores da ditadura e a covardia moral dos seres humanos. Assim como Pedro nega Cristo, o protagonista desta história pretende negar
a si mesmo.
___________________________
continua: análise dos contos .

Fonte:
Elvia Bezerra para o Passeiweb.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Varal de Trovas 460

 


Silmar Böhrer (Croniquinha) 14


É verão. Chuvas aguaceiras. Fugazes, ligeiras, logo vão. Parecem arremedar o tempo e o vento e a vida - passageiros. Mas não! Estes têm a constância do efêmero. As chuvinhas caem aqui, ali e acolá. Logo desaparecem.

E o tempo? Fala-se tanto do tempo. Tempo é o senhor. Tempo sobra. Tempo é remédio. Tempo falta. Tempo é linimento.

" Tempo é o que existe, inexistindo ", escreveu o poeta. O tempo dá voltas, volteios, volteadas. E assim chegamos a outro cruzeiro na convenção humana do tempo. Mudamos de ano, Mas o cruzeiro segue.
 
Refletir sobre o que passou. Benefícios. Malefícios. Mas essencialmente seguir abrindo portas, buscando caminhos e alternativas - como a água - desviando os obstáculos. Lembrando da interdependência e de que tudo é impermanente. Desavenças, tristezas, bem-estar, alegrias, doenças, morte, tudo é Devir. Tudo vem a ser, acontece e passa.

Essa é a trilha da vida. Seguir sempre, nos adaptando, harmonizando com seres e Natureza - partículas que somos do cosmo. Como escreveu o pensador, " O essencial é o caminhar - a alegria não está no final do caminho, ela é o caminho ".

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Mário Quintana em Prosa e Verso 11


A RUA DOS CATAVENTOS

I


Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando.
****************************************

II

Dorme, ruazinha... É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos...

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...
****************************************

III

Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos dourados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se...

Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.

Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio...
As famílias, que haviam de dizer?

Nenhum milagre é permitido agora...
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!...
****************************************

IV

Minha rua está cheia de pregões.
Parece que estou vendo com os ouvidos:
"Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!"
Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos,

Mas vem, Anjo da Guarda... Por que pões
Horrorizado as mãos em teus ouvidos?
Anda: escutemos esses palavrões
Que trocam dois gavroches* atrevidos!

Pra que viver assim num Outro plano?
Entremos no bulício quotidiano...
O ritmo da rua nos convida.

Vem! Vamos cair na multidão!
Não é poesia socialista... Não,
Meu pobre Anjo... É.. simplesmente... a Vida!...
****************************************

V

Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente...
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,

Nem é deste Planeta... Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal...

E enquanto o mundo em torno se esbarronda*,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda...

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!...
****************************************

VI

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o Sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola...

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente...
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…
****************************************
* Esbarronda – desmorona.
* Gavroches – moleques.


Fonte:
Mário Quintana. A Rua dos Cataventos. Publicado em 1940.

Estante de Livros (A Falecida, de Nelson Rodrigues)


análise pela Profa. Sônia Targa.


A Falecida, 1ª tragédia carioca, foi considerada um marco na obra de Nelson Rodrigues. Pela primeira vez o autor aproveitou sua experiência na coluna de contos A vida como ela é… para retratar o típico subúrbio carioca, com suas gírias e discussões existenciais. Os cenários passaram do “qualquer lugar, qualquer tempo” das peças míticas, para a Zona Norte carioca dos anos 50. Os personagens não representam mais arquétipos nem revelam alguma parte escusa da alma dos brasileiros. O que Nelson Rodrigues mostra agora é o cotidiano vulgar dos brasileiros. A falta de dinheiro, as doenças, o dedo no nariz das crianças, as pernas cabeludas de uma mulher, as cartomantes picaretas e o lado mais grosseiro da vida serão presenças constantes em suas peças daqui para frente.

A linguagem coloquial e repleta de gírias assustou a plateia do Teatro Municipal, afinal ninguém imaginaria colocar longos vestidos de veludo para assistir a uma peça onde o protagonista fala sobre futebol. Passado o estranhamento inicial da plateia com o “carioca way of life”, Nelson Rodrigues faz as pazes com o seu sucesso comercial. Talvez porque suas tragédias, quando viradas do avesso, comportem-se como comédias, preferência brasileira nos anos dourados.

Escrita em 26 dias, A Falecida foi encenada pela Companhia Dramática Nacional e recebeu direção do quase estreante José Maria Monteiro. Nos bastidores, Nelson Rodrigues apaixonou-se perdidamente por Sônia Oiticica, intérprete da protagonista feminina Zulmira. Apesar de se sentir lisonjeada com os galanteios do famoso dramaturgo, Sônia não lhe deu bola e, educadamente, deu a entender que era muito bem casada. A delicadeza, entretanto, não conseguiu evitar que o coração do dramaturgo se partisse pela primeira vez depois do fim do casamento com Elsa.

A Falecida conta a história de uma mulher frustrada do subúrbio carioca, a tuberculosa Zulmira, que não vê mais expectativas na vida. Pobre e doente, sua única ambição é um enterro luxuoso. Quer se vingar da sociedade abastada e, principalmente de Glorinha, sua prima e vizinha que não lhe cumprimenta mais. Zulmira tem uma relação de competição com a prima, chegando até mesmo a ficar feliz quando sabe que a seriedade da prima provém de um seio arrancado pelo câncer.

O marido, Tuninho, está desempregado e gasta as sobras da indenização jogando sinuca e discutindo futebol. Um pouco antes da hemoptise fatal, Zulmira manda Tuninho procurar o milionário Pimentel para que pague o enterro de 35 mil contos (o sepultamente normal, na época, não chegava a um conto!). Zulmira não dá maiores explicações nem diz como conhece o empresário milionário. Pede apenas para que o marido se apresente como seu primo.

Tuninho vai até a mansão de Pimentel e acaba descobrindo que ele e Zulmira foram amantes. Toma-lhe o dinheiro e, depois de ameaçar contar tudo a um jornal inimigo de Pimentel, consegue lhe arrancar mais ainda, supostamente para a missa de sétimo dia. Tuninho dá um enterro “de cachorro” à Zulmira e aposta o dinheiro todo num jogo do Vasco no Maracanã.

“Como definir A Falecida? Tragédia, drama, farsa, comédia? Valeria a pena criar o gênero arbitrário de ‘tragédia carioca’? É, convenhamos, uma peça que se individualiza, acima de tudo, pela tristeza irredutível. Pode até fazer rir. Mas se transmite uma mensagem triste, que ninguém pode ignorar. Os personagens, os incidentes, a história, tudo parece exprimir um pessimismo surdo e vital. Dir-se-ia que o autor faz questão de uma tristeza intransigente, como se a alegria fosse uma leviandade atroz”.

A Falecida revolucionou o teatro brasileiro da época ao abordar uma temática extremamente carioca. Foi a primeira de muitas peças onde Nelson Rodrigues colocou suburbanos frustrados e fracassados como protagonistas. Suas tragédias cariocas são mais simples que suas peças míticas, não há tantos símbolos e poesia. Em contrapartida, foi graças a elas que o brasileiro pôde se reconhecer no palco. O sucesso comercial foi muito grande e essas foram as peças mais assistidas de Nelson Rodrigues.

Para retratar fielmente o suburbano e sofrido carioca, Nelson Rodrigues trocou a poesia e as metáforas pela linguagem coloquial. As personagens conversam sobre temas triviais, comentam assuntos populares e usam muitas gírias. O autor foi muito feliz na escolha delas, já que a grande maioria transfere o leitor contemporâneo diretamente para a década de 50. Com faro para descartar modismos, Nelson Rodrigues usou em A Falecida expressões como “a polícia não é sopa”, “pintar o sete”, “pernas de pau”, “cabeça inchada”, “é batata!”, etc. Tem espaço até mesmo para as abreviações da linguagem falada, como “té logo!”, e estrangeirismos, como “all right” e “bye, bye”.

A ironia e o deboche são as características mais marcantes em A Falecida. A visão do autor é extremamente pessimista, como se no final tudo sempre estivesse predestinado a dar errado. A cartomante consultada por Zulmira numa das primeiras cenas perde o sotaque afrancesado assim que recebe o dinheiro. O filho da cartomante passa toda a consulta com o dedo no nariz, plantado ao lado da mãe. O médico, cujo nome é Borborema, diz que Zulmira não tem tuberculose, é apenas uma gripe.

Aliás, nenhum médico consultado pela protagonista lhe deu o diagnóstico certo. Determinada hora, Tuninho é mandado embora do jogo de sinuca por uma dor de barriga violenta. Assim que chega em casa, corre para o banheiro, mas está ocupado por Zulmira. Uma cena antológica acontece quando Tuninho consegue sentar no vaso e, com a mão no queixo, simula a atitude de O Pensador, escultura de Rodin.

Para conseguir mostrar com mais profundidade a realidade dura do subúrbio, Nelson Rodrigues apela para o vulgar e o grotesco.

Belos cavalos de enterros chiques são odiados porque soltam fezes pelo caminho. A mãe de Zulmira fica sabendo da morte da filha enquanto “coça as pernas cabeludas”. A prima da protagonista, Glorinha, é loira, mas oxigenada. Foge da praia não por timidez do maiô, como acreditava Zulmira, mas sim porque o câncer lhe extirpou um dos seios. Zulmira, por sua vez, tinha um cheirinho de suor que agradava o amante. O ódio que Zulmira sente do marido vem desde a lua de mel, quando ele lavou as mãos depois do ato sexual.

A falta de ilusão e o pessimismo feroz do autor mostram à plateia uma Zulmira enganada até mesmo na hora da morte, quando ela é enterrada no caixão mais barato da funerária – contrariando a regra da cultura ocidental de que o último pedido de um moribundo é lei. As personagens são mostradas em situação nada glamourosas, como espremendo cravos nas costas, fazendo necessidades no banheiro, etc.

Às avessas, A falecida é uma comédia das mais rasgadas. O dramático aparece em muitas cenas como digno de risadas. Determinada momento do 2° ato, o autor coloca na rubrica da cena em que Tuninho está viajando de táxi: “Luz sobre o táxi, em que viaja Tuninho. Táxi, evidentemente, imaginário. O único dado real do automóvel é uma buzina, gênero ‘fon-fon’, que o chofer usa, de vez em quanto. A ideia física do táxi está sugerida da seguinte forma: uma cadeira, atrás da outra. Na cadeira da frente vai o chofer, atrás, Tuninho. O chofer simula dirigir, fazendo curvas espetaculares”. Em outro momento, discute-se as razões que levaram Zulmira a se recusar a beijar o marido na boca:

“Tuninho – Afinal de contas, eu sou o marido. E se eu, por acaso, insisto, que faz minha mulher? Fecha a boca!

Cunhado – Muito curioso!

Tuninho – Mas como? – perguntei eu à minha mulher – você tem nojo de seu marido? Zulmira rasgou o jogo e disse assim mesmo: ‘Tuninho, se você me beijar na boca, eu vomito, Tuninho, vomito!’

Sogra – Ora veja!

Cunhado (de óculos e livro debaixo do braço) – Caso de psicanálise!

Outro – De quê?

Cunhado – Psicanálise.

Outro (feroz e polêmico) – Freud era um vigarista!”


Esta cena serve também para ilustrar o cuidado de Nelson Rodrigues com a caracterização das personagens de A Falecida. A personalidade tanto dos protagonistas quanto das personagens secundárias é revelada, muitas vezes, em apenas uma única frase. Às vezes, como no caso retratado acima, basta uma aparição no palco para a plateia se dar conta do tipo de pessoa. Primeira heroína frustrada de Nelson Rodrigues, Zulmira trai porque não vê muita motivação no seu mundinho.

Não tem dinheiro, não tem divertimento e não tem mais esperança de que sua vida possa mudar. Por isso concentra-se na sua morte, ou seja, em planejar nos mínimos detalhes o seu enterro de luxo. Seu marido Tuninho também é frustrado e infeliz. Não se acha capaz de conseguir um novo emprego e, por isso, resolve passar o tempo com os amigos, na praia, jogando sinuca ou falando sobre futebol. Todos têm em comum o fato de não terem o destino da vida nas mãos.

A grande inovação estrutural de Nelson Rodrigues em A Falecida está na troca de protagonistas que acontece no 3° ato. Zulmira tem a ação nas mãos nos dois primeiros atos, quando pesquisa preços para o seu enterro e visita médicos para se certificar de que está mesmo com tuberculose.

No final do 2° ato, a suburbana morre e passará o comando da peça para o marido, Tuninho. A partir daí, ele vai atrás de Pimentel para conseguir o dinheiro do enterro e descobre a traição de sua mulher. O foco narrativo muda, portanto, no meio da peça.

Mas Zulmira também tem aparições esporádicas no 3° ato, principalmente para elucidar aspectos ainda nebulosos de sua personalidade. Na cena em que Pimentel está revelando a infidelidade de Zulmira, Tuninho arrasta a sua cadeira e se coloca diante do quadro, na mesma posição de um observador da plateia. Aparece então Zulmira, que reproduz com Pimentel o contexto da traição.

O corte do flashback acontece com um grito de Tuninho, histérico com a “coragem” da mulher em traí-lo no banheiro de uma lanchonete enquanto ele esperava na mesa. Voltar no tempo para contar a traição de Zulmira foi uma solução bastante eficiente encontrada por Nelson Rodrigues. Se a história fosse apenas contada por Pimentel a Tuninho, a cena ficaria monótona e perderia parte de seu conteúdo dramático.

Outra novidade presente em A Falecida é a multiplicidade de cenários. Zulmira vai à cartomante, ao banheiro, ao quarto, à Igreja, à casa dos pais, à funerária e ao consultório, até morrer de hemoptise. Tuninho aparece num táxi, numa sinuca, na mansão do empresário Pimentel e até mesmo no Maracanã. Para poder abarcar tantas mudanças, o espaço é vazio e o único objeto fixo são as cortinas. Ao contrário do que possa parecer, a peça não ficou fragmentada e o resultado saiu original.

Frases

“A solução do Brasil é o jogo do bicho! E, minha palavra de honra, eu, se fosse presidente da República, punha o Anacleto (bicheiro) como ministro da Fazenda”.
Timbira, funcionário da funerária

“Estou com uma pena danada do Tuninho… A mulher morre na véspera do Vasco X Fluminense… O enterro é amanhã… Quer dizer que ele não vai poder assistir ao jogo… Isso é o que eu chamo de peso tenebroso!…”.
Oromar

“Mas como? – perguntei eu a minha mulher – você tem nojo de seu marido? Zulmira rasgou o jogo e disse assim mesmo: ‘Tuninho, se você me beijar na boca, eu vomito, Tuninho, vomito!'”.
Tuninho

“A mulher de maiô está nua. Compreendeu? Nua no meio da rua, nua no meio dos homens!”.
Zulmira

Fonte:
Jayro Luna.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 17 –

 


Gregório Duvivier (Abraço Caudaloso)


Amizade entre cronistas é um perigo: todo papo esbarra em crônica, já que toda crônica é uma espécie de papo. Foi numa conversa com o Antonio Prata, meu ex-amigo-platônico
– “ex” não por não ser mais amigo mas por não ser mais platônico – que a bola começou a quicar. “Isso dá uma crônica”, ele disse. Mas nenhum dos dois escreveu, por escrúpulos de estar roubando a ideia do outro. Eu, que tenho menos escrúpulos e menos ideias, resolvi escrever.

Palavras, percebemos, são pessoas. Algumas são sozinhas: Abracadabra. Eureca. Bingo. Outras são promíscuas (embora prefiram a palavra “gregária”): estão sempre cercadas de muitas outras: Que. De. Por.

Algumas palavras são casadas. A palavra caudaloso, por exemplo, tem união estável com a palavra rio – você dificilmente verá caudaloso andando por aí acompanhada de outra pessoa. O mesmo vale para frondosa, que está sempre com a árvore. Perdidamente, coitado, é um advérbio que só adverbia o adjetivo apaixonado. Nada é ledo a não ser o engano, assim como nada é crasso a não ser o erro. Ensejo é uma palavra que só serve para ser aproveitada. Algumas palavras estão numa situação pior, como calculista, que vive em constante ménage, sempre acompanhada de assassino, frio e e.

Algumas palavras dependem de outras, embora não sejam grudadas por um hífen – quando têm hífen elas não são casadas, são siamesas. Casamento acontece quando se está junto por algum mistério. Alguns dirão que é amor, outros dirão que é afinidade, carência, preguiça e outros sentimentos menos nobres (a palavra engano, por exemplo, só está com ledo por pena – sabe que ledo, essa palavra moribunda, não iria encontrar mais nada a essa altura do campeonato).

Esse é o problema do casamento entre as palavras, que por acaso é o mesmo do casamento entre pessoas. Tem sempre uma palavra que ama mais. A palavra árvore anda com várias palavras além de frondosa. O casamento é aberto, mas para um lado só. A palavra rio sai com várias outras palavras na calada da noite: grande, comprido, branco, vermelho – e caudaloso fica lá, sozinho, em casa, esperando o rio chegar, a comida esfriando no prato.

Um dia, caudaloso cansou de ser maltratado e resolveu sair com outras palavras. Esbarrou com o abraço que, por sua vez, estava farto de sair com grande, essa palavra tão gasta. O abraço caudaloso deu tão certo que ficaram perdidamente inseparáveis. Foi em Manoel de Barros. Talvez pra isso sirva a poesia, pra desfazer ledos enganos em prol de encontros mais frondosos.

Fonte:
Blog da Língua Portuguesa