quarta-feira, 6 de março de 2024

Mensagem na Garrafa = 108 =

Arthur Thomaz 
Campinas/SP

FORÇAS

Que forças do Universo são essas que, inexplicavelmente, provocaram este insólito encontro entre nossas distraídas almas? 

Que forças são essas que as fundiram em uma só, acenando com a promessa de eterna cumplicidade?

Que forças do Universo são essas que demoliram, em um único sopro, todas as fortalezas que construí para não sofrer dores de amor?

Que forças são essas que ataram minhas mãos às tuas com laços de ternura, em uma conexão que vislumbramos ser eterna?

Que forças do Universo são essas que lhe dotaram da plenitude na arte do amor?

Que forças são essas que lhe habilitaram a enfeitiçar-me, e assim, da minha alma passaram a apoderar-se?

Que forças do Universo são essas que lhe brindaram com o poder de seduzir Chronos, para que ele lhe concedesse o dom de alterar o curso do tempo, fazendo com que longe de ti, as horas se arrastem, e quando ao teu lado, os segundos voem incontroláveis?

Que forças são essas que alteraram a órbita dos astros e que cruelmente separaram nossas almas inapelavelmente?

Que forças do Universo são essas que imobilizaram meus braços, que, inertes, assistiram tu ires embora?

Que forças são essas que desapareceram no exato momento em que eu mais necessitava tê-las para suportar a vida sem ti?

Fonte: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor 

Contos e Lendas da África (“A morte começa com uma só pessoa”)

PERSONAGENS
Kâ (caramujo gigante)
Ngâmbi (iguana)
Kudu (jabuti)
Lonâni (pássaros)
Kema (macacos)
Um homem

PREFÁCIO

Todos esses animais, inclusive os inocentes, foram prejudicados pelo barulho causado por poucos deles.
Alguns nativos da África Ocidental acreditavam que iguanas não tinham audição.
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O caramujo Kâ, a iguana Ngâmbi e o jabuti Kudu viviam juntos em uma aldeia. Certo dia, o jabuti foi caminhar pela floresta e lá encontrou uma grande árvore chamada Evenga.

“Vou ficar sentado debaixo dessa árvore e esperar que alguns frutos caiam”, pensou.

E lá ficou, sozinho, por dois dias.

No terceiro dia, a iguana disse ao caramujo:

— Vou sair à procura de nosso amigo Kudu.

Encontrou-o em um buraco ao lado do tronco da Evenga.

— Meu amigo, você sumiu há dois dias! — disse Kâ.

— Ficarei aqui. Não voltarei à aldeia — respondeu Kudu.

— Bem, pois então vamos ficar juntos no mesmo lugar.

O jabuti se recusou a dividir o espaço; a iguana então escalou uma parte do tronco e lá ficou, poucos centímetros acima de seu amigo.

Dois dias mais tarde, o caramujo, sentindo-se solitário, decidiu:

— Vou atrás de meus amigos.

Ao encontrar Kudu e Ngâmbi no tronco, exclamou:

— Mas que bela árvore para se sentar!

— Sim, fique aqui conosco — convidaram os outros.

— Ficarei ao seu lado, minha amiga Ngâmbi — sugeriu Kâ.

Mas Ngâmbi não queria ninguém perto dela. O caramujo então subiu em um ramo que pendia da copa da árvore até o chão, e assim os três amigos se acomodaram; o jabuti em um buraco no chão, a iguana agarrada ao tronco, um pouco acima, e o caramujo grudado a um ramo já quase na copa.

Ngâmbi, que era parcialmente surda, permaneceu no mesmo lugar, agarrada às fendas da casca da árvore.

Dali dois dias brotaram frutos em grande quantidade, que logo amadureceram. Pequenos passarinhos foram atraídos por eles e disputavam espaço nos galhos com pequenos macacos. Em seguida vieram pássaros e macacos maiores, todos ocupando a copa da árvore e devorando os frutos.

Comiam e brincavam fazendo grande algazarra.

Kudu, temendo que todo aquele barulho pudesse atrair algum predador, chamou a iguana:

— Ngâmbi! Peça para o Kâ falar para esse pessoal aí nos galhos comer em silêncio!

Kudu apenas sussurrou o pedido para sua amiga, pois se gritasse diretamente para o caramujo, faria ainda mais barulho. Reforçou a importância de sua mensagem citando um provérbio: Iwedo a yalakĕndi na moto umbaka (a morte começa com uma pessoa). Ou seja, deviam ficar atentos, pois a imprudência de alguns colocaria a todos em perigo. 

No entanto, Ngâmbi não ouviu e nada respondeu.

— Ngâmbi! — o jabuti chamou novamente. — Fale com Kâ! Peça para comerem sem fazer tanto barulho!

Mais uma vez, não houve resposta. Kudu tentou duas outras vezes, sem sucesso.

— Não vou dizer mais nada — resignou-se.

Um homem da cidade de Njambo caçava na floresta, armado com arco e flecha, um facão e uma arma de fogo. Encontrou a árvore Evenga enquanto caminhava. Atraído pelo barulho, olhou para cima e viu os macacos e pássaros nos galhos.

— Quantos animais em uma só árvore! Nunca vi isso! — exclamou para si mesmo.

Atirou uma flecha e com ela derrubou três macacos. Disparou sua arma e matou sete pássaros. Todos os outros fugiram de medo. O homem então olhou para baixo e viu o jabuti dentro do buraco. Arrancou-o dali e colocou-o em sua bolsa. Ergueu um pouco a cabeça e viu Ngâmbi ao alcance de sua mão.

— Ah! Uma iguana aqui também! — comemorou ele.

E matou-a com seu facão.

Observou os galhos e puxou um dos ramos, derrubando Kâ.

— E mais essa! Um caramujo! — exclamou.

O caçador então tomou seu caminho de volta, levando todas as suas presas. 

Dentro da bolsa, Kudu lamentava seu destino e dizia para seus amigos mortos:

— Eu avisei. Pedi para alertarem aos outros sobre o perigo de tanto barulho. Se vocês, macacos e pássaros, não tivessem feito tanto alarde na copa da árvore, o homem não teria nos encontrado. Tudo começou com vocês.

O homem chegou à sua cidade com suas presas e as dividiu entre seu povo.

Fonte: texto por Robert Hamill Nassau, in Elphinstone Dayrell, George W. Bateman e Robert Hamill Nassau. Contos Folclóricos Africanos vol. 2. (trad. Gabriel Naldi). Edição Bilingue. SESC. Distribuição gratuita.

Professor Garcia (Pantuns) VIII


PANTUN DO FILHO QUE ESTUDA

TROVA TEMA:
Filho… Estuda que eu te ajudo,
capricha, porque é na soma,
do esforço e amor pelo estudo,
que se conquista o diploma.
(Ailto Rodrígues-RJ)

PANTUN:
Capricha, porque é na soma,
das luzes do conhecer...
que se conquista o diploma
da eterna luz do saber.

Das luzes do conhecer...
há um facho que nos conduz,
da eterna luz do saber
a um mundo cheio de luz.

Há um facho que nos conduz,
entre os velhos rituais,
a um mundo cheio de luz
que não se apaga jamais.

Entre os velhos rituais,
há uma luz em quase tudo
que não se apaga jamais.
Filho... Estuda que eu te ajudo!
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PANTUN DOS DEDOS NA FOTO

TROVA TEMA:
Passo os dedos sobre a foto...
Naqueles rostos tão lisos
a mocidade então noto
escondida entre os sorrisos...
(Gilvan Carneiro-RJ)

PANTUN:
Naqueles rostos tão lisos
da antiga fotografia,
escondida entre os sorrisos...
Sorri a melancolia!

Da antiga fotografia,
em meio a tanta lembrança,
sorri a melancolia
no rosto de uma criança!

Em meio a tanta lembrança,
há saudade, há dissabor;
no rosto de uma criança
um riso triste de amor!

Há saudade, há dissabor,
e ao vê-los, logo que noto
um riso triste de amor,
passo os dedos sobre a foto...
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PANTUN DA VOZ DA ESPERANÇA

TROVA TEMA:
No meu Livro da Lembrança,
ainda sem conclusão,
saudade é aquela esperança
que compôs a introdução...
(Vanda Fagundes Queiroz-PR)

PANTUN:
Ainda sem conclusão,
foi alguém sem perceber
que compôs a introdução
do livro do meu viver.

Foi alguém sem perceber
que num impulso infeliz
do livro do meu viver
riscou tudo quanto eu fiz.

Que num impulso infeliz
ou por medo ou por loucura
riscou tudo quanto eu fiz
essa insana criatura.

Ou por medo ou por loucura
eu vou guardar por herança,
essa insana criatura
no meu livro da lembrança.
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PANTUN DO VELHO EGOÍSMO

TROVA TEMA:
Por egoísmo e ganância
a Terra está dividida.
Tanto poder e arrogância,
ante a pobreza sofrida.
(Edy Soares-ES)

PANTUN:
A terra está dividida.
Fome, morte, sonhos vãos;
ante a pobreza sofrida
poderes lavando as mãos.

Fome, morte, sonhos vãos;
miséria batendo às portas,
poderes lavando as mãos
da exclusão das almas mortas.

Miséria batendo às portas,
lamentando a crueldade,
da exclusão das almas mortas
em meio a tanta maldade.

Lamentando a crueldade
é triste essa mendicância
em meio a tanta maldade,
por egoísmo e ganância.
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PANTUN DO TEU CORPO AUSENTE

TROVA TEMA:
Levada por fantasia
de um desejo inconsciente,
eu beijo na cama fria
as formas de um corpo ausente!
(Rita Mourão-SP)

PANTUN:
De um desejo inconsciente,
surge na luz da paixão
as formas de um corpo ausente,
presente nessa ilusão.

Surge na luz da paixão,
Tudo que o sonho permite
presente nessa ilusão,
nesse sonho sem limite.

Tudo que o sonho permite
Eu tento manter a calma,
nesse sonho sem limite
nos limites de minha alma.

Eu tento manter a calma,
na loucura que me guia,
nos limites de minha alma
levada por fantasia.
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PANTUN DO FALSO ARREMEDO

TROVA TEMA:
Nenhum ourives se atreve
a imitar - nem de arremedo
as filigranas de neve
dos galhos nus do arvoredo!
(Madalena Ferreira-RJ)

PANTUN:
A imitar - nem de arremedo...
O que Deus fez e pintou
dos galhos nus do arvoredo
artista nenhum tentou.

O que Deus fez e pintou
com tinta de amor infindo,
artista nenhum tentou
pintar um quadro tão lindo.

Com tinta de amor infindo,
mas sem usar qualquer tinta,
pintar um quadro tão lindo
ninguém tentou ninguém pinta.

Mas sem usar qualquer tinta,
pintar galhos cor de neve,
ninguém tentou ninguém pinta,
nenhum ourives se atreve.

Fonte: Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020. Enviado pelo autor.

Dicas de Escrita ( Como Escrever um Bom Final para uma História) – 1

(Coescrito por Christopher Taylor, PhD)

Toda história que se preze traz eventos (ou séries de eventos) que têm começo, meio e fim. Além disso, para que gere reações positivas no leitor ou espectador, o final em particular tem que ser bastante impactante. Se está escrevendo e quer conseguir esse efeito, leia as dicas deste artigo para aprender a contar o que é relevante.

MÉTODO 1: PENSANDO NO FINAL

1 – Identifique as partes da história. 

Todo enredo tem que ser dividido entre começo (apresentação de personagens, da ambientação e do conflito), meio (a tensão crescente, as complicações e as reações dos personagens ao conflito) e fim (resolução do conflito e consequências).

A história tem que terminar quando o personagem principal cumprir (ou não conseguir cumprir) o seu objetivo.

Por exemplo: se o personagem quer ser rico, pode ser que ele passe por diversas situações inusitadas para comprar um bilhete de loteria. Ele vai vencer? Se sim, termine o enredo no momento em que ele ouve os resultados vencedores da aposta.

2 – Pense em um último evento ou ação para a história. 

O enredo pode trazer vários eventos importantes e interessantes, mas escolha qual deles sintetiza a resolução geral. Pense em uma cena que faça sentido no momento final da história e que ajude a amarrar todas as pontas soltas. Por fim, ela tem que ter importância para os personagens e os leitores em si.

Por exemplo: termine a história com uma cena que apresenta as consequências de uma decisão do personagem principal que resolveu o conflito central.

3 – Determine qual é o conflito central da história. 

A maioria dos enredos traz conflitos entre pessoas, pessoas versus natureza, pessoas versus sociedade ou pessoas versus elas mesmas. Use a cena final para resolver a situação, mesmo que o personagem principal não consiga o que quer. O importante é que ela gere impacto no leitor para tornar todo o enredo memorável.

Faça as seguintes reflexões para decidir que tipo de conflito você vai usar: 

– os personagens da história estão lutando contra a natureza? 
– Uns contra os outros? 
– Contra eles mesmos (uma batalha interna ou emocional)?

Por exemplo: se o personagem principal ficar perdido em uma floresta perigosa, é porque a história se trata de pessoa versus natureza. Nesse caso, ele tem que encontrar algum abrigo que o proteja dos elementos.

MÉTODO 2: EXPLICANDO A JORNADA

1 – Reflita sobre a significância dos eventos da história. 

Determine por que eles são importantes e que lições o leitor tem que extrair deles. Que temas, ideias ou argumentos você quer passar? Não precisa falar desses detalhes diretamente ao leitor, mas mostre-os por meio de eventos, ações e diálogos.

Escreva algo como "O meu avô me ensinou a sempre fazer o que é certo em qualquer situação. Agora que sou policial, entendo por que ele considerava a moral tão importante...".

2 – Faça uma reflexão sobre a relevância da história para o leitor. 

Por que ele tem que se interessar pelo enredo? Se conseguir responder a essa pergunta, revise a história e veja se a sequência das ações que criou para os personagens levaria o público a uma reação parecida com a do protagonista.

Por exemplo: "Por que o leitor tem que se importar com o que acontece a Nina e à vila?". "Porque as mudanças climáticas provocaram um aumento no nível do mar que inundou a região. Ou seja: se não aprendermos com os erros do passado, vamos ter o mesmo destino cruel".

Use a primeira pessoa para apresentar ideias da perspectiva do narrador. Com a perspectiva em primeira pessoa, você vai poder contar a história de maneira mais próxima, já que o leitor vai estar envolvido nos eventos. 

Nesse caso, fale diretamente a ele — seja você o protagonista ou outra pessoa. Ainda assim, lembre-se de acompanhar sempre esse personagem e de usar apenas informações que ele teria.

Por exemplo: "Eu entendi que todo o meu esforço e as horas de ensaio me trouxeram até esse momento, no palco, diante da plateia...".

3 – Use a terceira pessoa para contar a história de longe. 

Você pode usar outro personagem como narrador para mostrar a importância da história. Assim, fica mais fácil injetar a sua interpretação ao enredo, já que há certa distância entre o narrador e os personagens em si.

Por exemplo: "Denise dobrou a carta, deu-lhe um beijo e repousou o papel sobre a mesa, ao lado da pilha de dinheiro. Ela sabia que todos teriam um milhão de dúvidas sobre o que aconteceu, mas também estava certa que a verdade viria à tona algum dia".

4 – Escreva a conclusão da história. 

A forma de escrever a conclusão depende do gênero. No entanto, todos os finais interessantes têm um traço em comum: deixam o leitor com caraminholas na cabeça. Ele tem que terminar a leitura pensando nos temas centrais do enredo e na importância deles.

Se está escrevendo uma redação acadêmica ou pessoal, use o último (ou os dois últimos) parágrafo para concluir o enredo.

Se está escrevendo um romance de ficção científica, conclua o enredo nos dois últimos capítulos.

Não escreva finais batidos, pois o leitor vai ficar decepcionado. 

Por exemplo: evite "Uma luz ofuscante invadiu os meus olhos, então usei as mãos para proteger a visão. Naquele momento, senti-me envolver pelos meus lençóis macios e pelo conforto do travesseiro. Reabri os olhos e percebi que tudo fora apenas um sonho".

5 – Identifique as ligações mais gerais nos eventos da história. 

Pense em como cada evento leva a outro e cria um arco narrativo completo. Encare a história como uma jornada: o personagem começa em a, mas termina em b, em uma situação bastante diferente. Assim, vai ser mais fácil ver que o enredo tem uma forma única e, portanto, merece um final digno.

Fonte: https://pt.wikihow.com/Escrever-um-Bom-Final-para-uma-História

Hinos de Cidades Brasileiras (Blumenau/SC)


Letra por Márcio Volkmann / Edson Luis da Silva

Blumenau, tens o nome do primeiro
Que chegou e desbravou tuas riquezas
Que tanto trilhou os teus caminhos
E sempre preservou tuas belezas.

O progresso mora aqui
Blumenau, és razão de viver
O teu nome tem história.
Blumenau, nunca vou te esquecer
O teu nome tem história
Blumenau, nunca vou te esquecer.

Cidade de nobre arquitetura
Desenhada pelo leito do teu rio
O verde que cobre esta pintura
Faz de ti patrimônio do Brasil.

O progresso mora aqui
Blumenau, és razão de viver
O teu nome tem história.
Blumenau, nunca vou te esquecer
O teu nome tem história
Blumenau, nunca vou te esquecer.

O orgulho faz do peito moradia
Dos que amam esta Terra abençoada.
Cidade jardim da alegria,
No teu povo a beleza está plantada.

O progresso mora aqui
Blumenau, és razão de viver
O teu nome tem história.
Blumenau, nunca vou te esquecer
O teu nome tem história
Blumenau, nunca vou te esquecer.

Aparecido Raimundo de Souza (Entre a Solidão e a Esperança)

HAVIA UM MUNDO paralelo e adjacente, onde as estrelas no firmamento pareciam mais distantes e o vento impetuoso sussurrava histórias tristes pelas ruas e praças vazias. Nesse espaço medonho vivia um amontoado de crianças abandonadas, ou seja, se agrupavam pequenos seres que carregavam o peso da solidão nos ombros frágeis de uma vida totalmente em frangalhos.

Os pequenos miseráveis não tinham endereço fixo. Seus lares não iam além das calçadas frias, dos bancos das praças e dos becos escuros existentes aos redores da cidade. Elas não conheciam o aconchego de um abraço, nem o calor fraterno de uma refeição compartilhada em família. Seus pais, por razões as mais diversas, haviam partido deixando seus destinos entregues ao desamparo de um incerto negro e infame.

Algumas dessas crianças –, a maioria recém-nascida, vivia em caixas de papelão ou lixeiras. Outras mais velhas carregavam em seus olhos tristes a agonia do desespero e, dentro do peito, a febre incurável dos corações despedaçados. Elas vagavam pelas ruas e vielas invisíveis aos adultos apressados. Davam a impressão de fantasmas errantes em busca de uma parcela de afeto por menor que pudesse ser encontrada.

Uma dessas crianças era o Luiz Cláudio. Com apenas oito anos, conhecia a dureza da vida entrelaçada aos descasos do relento. Seus pés descalços pisavam o asfalto quente, outras vezes o aguaceiro dos temporais violentos e enérgicos, enquanto a sua curiosidade observava o vai e vem das pessoas. Luiz Cláudio sonhava com um lar, com uma cama macia, comida e uma mãe que o chamasse de filho.

O guri tinha um amigo, o José Bento, que também vivia como ele, ao Deus dará. Um pouco mais velho que Luiz Cláudio, o piá sabia contar histórias incríveis sobre um mundo fantástico além das estrelas vistas no longínquo céu. Ele dizia que, à noite, quando todos se recolhiam, essas estrelas se transformavam em fadas e dançavam no infinito. Ele acreditava piamente em Deus e orava à sua maneira infantil. A fantasia, como um todo se fazia a sua única companheira.

Entretanto, nem todas as histórias acabavam em mágicas alvissareiras. Havia noites em que o frio gelado cortava a pele e a fome na barriga vazia apertava. Luiz Cláudio, nesses momentos, se encolhia em um canto, abraçando os joelhos, enquanto José Bento encarava o céu em busca de respostas. Por que estava ali? Por qual motivo a sua mãe o largara aos reveses da sorte traiçoeira?

Um dia, algo extraordinário aconteceu. Uma mulher jovem, de cabelos vermelhos e rosto tranquilo se aproximou. Ela envolveu Luiz Claudio e José Bento em abraços apertados dizendo: “Vocês não estão mais sozinhos, meus pequenos. Vou cuidar de vocês.” Essa criatura inesperada, se soube depois, mantinha um abrigo. Um lugar onde crianças como Luiz Cláudio e seu amigo José Bento encontraram refúgio e esperança.

Luiz Cláudio não sabia o que significava um lar, um canto de acolhimento. Tampouco José Bento. Todavia, ambos sentiram de imediato, o calor daquelas palavras. Eles olharam para o céu e se depararam com uma estrela cadente. Fecharam os medos, recolheram os assombros e fizeram um pedido: “que todas as crianças abandonadas encontrassem um lar, um abraço, um aconchego, uma família.”

Assim, entre a solidão abrutalhada e inepta, a perspectiva em sua melhor forma de expressão. Luiz Cláudio e José Bento descobriram que o mundo podia ser mais gentil do que eles imaginavam. Aprenderam que mesmo nas noites mais escuras e longas uma luz ardente e fogosa extasiada e embevecida brilhava guiando as suas melancolias para onde seriam amados e protegidos.

A mensagem que esse texto quer deixar para todos os leitores é que as crianças abandonadas abaixo da linha da pobreza, ao relento das malhas do azar, ou ao acaso das intempéries, encontrem seus caminhos de volta ao brilho da felicidade. Ao menos se deparem com um trilhar robusto, onde a solidão se transforme em luz e a esperança de dias melhores jamais se apague.

Fonte: Texto enviado pelo autor 

terça-feira, 5 de março de 2024

A astúcia do cachorro

 No tempo em que os animais falavam

Conta uma lenda, um cachorro estava no meio da floresta, se banqueteando com restos de ossos, quando, atrás dele, uma onça faminta, de garfinho, faca e guardanapo no pescoço, se preparou para dar o bote. Pressentindo que iria virar almoço, o coitado, mais que depressa, pensou rapidamente numa saída. Assim, sem se virar gritou o mais alto que pode:

— HUMM!... QUE ONÇA DELICIOSA ACABEI DE DEVORAR...

Ouvindo essas palavras, a onça se assustou. Ato contínuo abortou o pulo pretendido, deu meia volta e saiu correndo, só parando alguns quilômetros depois, exausta, à beira de um riacho de águas cristalinas:

— Escapei por pouco, daquele cachorro!...

Entretanto, do alto de um abacateiro, um sem vergonha de um macaco assanhado assistiu a tudo. Dando uma de fofoqueiro, correu a contar sobre o golpe do cachorro:

— Então é isso?

— Sem tirar nem por...

— Pois ele me paga!... Venha atrás de mim e veja o que faço com quem tenta me passar a perna.

Fula da vida e babando de raiva, a onça mais que depressa empreendeu o regresso ao local levando o primata a tiracolo. Como se esperasse pelo retorno da inimiga, o cachorro, sem pensar duas vezes e, vendo a difícil situação em que se achava metido, não perdeu a esportiva e jogou a derradeira carta que lhe restava ao alcance das patas. Ou salvava a pele, ou virava, de uma vez, o prato principal da furiosa ferina, aliás, de presas afiadas, e com o sangue a aflorar a pele pintada. Sem se mexer, e ao menos se virar para o casal que estancou a poucos passos de seu rabo (podia até sentir o hálito quente dos dois), berrou com todas as forças que conseguiu reunir no fundo da garganta:

— CADÊ AQUELE MALDITO MACACO? JÁ FAZ MAIS DE MEIA HORA QUE MANDEI O SAFADO BUSCAR OUTRA ONÇA E ATÉ AGORA, NEM SINAL DO DESGRAÇADO. VOU SAIR À CATA DELE, AGORA!

Ouvindo essas palavras, o macaco que seguia a onça tratou de dar o fora trepando na primeira árvore que avistou pela frente. Na subida esqueceu algumas bananas que trazia para o almoço.

A onça, sem ação, fez o mesmo. Empreendeu meia volta, às carreiras e se embrenhou na mata virgem, deixando o cachorro às voltas com um largo sorriso de satisfação entre os dentes.

MORAL DA HISTÓRIA.
Às vezes vale mais um pensamento rápido que a fome de mil onças.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Versejando 133

 

Monsenhor Orivaldo Robles (Na infância tudo se decide)

Entre as muitas coisas que aprendi em criança, uma, que me marcou de modo indelével, foi a preocupação com o bem-estar alheio, com o respeito devido aos outros. Já tive oportunidade de comentar o conselho que o pai não se cansava de nos repetir: “Não sejais pesados a ninguém”. Embora homem do campo, que não frequentara bancos escolares, havia conquistado, não sei onde nem como, uma sabedoria que universidade nenhuma ensina. Era incapaz de conduta ou gesto que ferisse o direito ou até a simples preferência de alguém. Não que ele assumisse postura subserviente. Possuía clara consciência de seus direitos. Se deles chegava a abrir mão – como, mais de uma vez, pude comprovar, – fazia-o em razão de uma naturalidade que lhe brotava de dentro, de uma generosidade inata; nunca por covardia ou temor. Com tal protótipo sempre ao lado, enquanto nós crescíamos, seria mesmo difícil não nos deixarmos moldar por ele. Há gestos que ainda agora, a três décadas de sua morte, os filhos recusam praticar. Não tanto, creio, por virtude própria, senão mais pelo que ele nos deixou como exemplo. Vimos nele a importância de crer, desde muito cedo, que a grandeza de alguém independe de certos atributos hoje, infelizmente, muito valorizados.

Uma lição que o pai transmitiu com muita serenidade foi que todos nós somos iguais em natureza, mas cada um possui a própria individualidade. Aprendemos que é tolice comparar pessoas, pois, como dizem, “cada um é cada um”. Não me lembro de termos argumentado com ele que fulano tivesse algo e nós não. Ou que outros fizessem coisas que a nós não eram permitidas. Noções do dever e da consequente responsabilidade pessoal foram-nos incutidas de maneira suave, mas firme e diuturna. Mais com o jeito de agir do que com o uso de palavras.

Hoje mantenho hábitos vistos talvez como excêntricos. Se, na pressa, derrubo uma peça de roupa, ou água, leite ou suco, posso até seguir adiante, certo de que a empregada cuida disso. Mas não adianta: tenho que voltar para ajeitar, eu mesmo, as coisas. Quando estaciono o carro, observo se deixei espaço suficiente para o vizinho. Muitas vezes volto para estacionar melhor: vá que ele dirija mal como eu. Evito bater porta com força, falar alto, fazer ruído desnecessário: por que incomodar os outros? Cultivo ainda um monte de esquisitices de que não me consigo livrar. Fazer o quê? Desde criança aprendi que o outro é igual a mim. Não gosto de gente espaçosa, dona do mundo, que não respeita ninguém. Acredito que os outros também não gostem.

Não pretendo passar imagem de “bonzinho”. Nem ser melhor que ninguém. Tenho suficiente idade para não cultivar vaidades tolas. É que tive a felicidade de aprender em casa princípios válidos para qualquer tempo ou lugar.

Vivemos reclamando da violência que toma conta do mundo atual. Temos razão de reclamar. Do jeito que as coisas vão, que mundo as crianças de hoje vão encontrar quando forem adultas? Mas torná-lo menos violento depende de nós. Não há como fugir dessa evidência. Cada um é obrigado a pôr em prática aquilo que dele todos têm direito de esperar.

Começando pelos pais, que precisam convencer-se disto: tanto para o bem quanto para o mal, são eles os modelos para os filhos.

Humberto de Campos (As cruzes)

As senhoras grazinavam, como periquitos em roçado, em torno da mesa do chá, quando Mme. Gama Simpson se curvou, rindo com alarido, sobre a toalha de linho bordada de cegonhas vermelhas, numa escandalosa explosão de alegria. Segurando em uma das mãos a taça de porcelana e na outra, fechadinha como um botão de rosa, uma torradinha cor de ouro, a linda criatura ria despreocupadamente, agitando-se na cadeira, quando, com o movimento do corpo, lhe saltou do colo de neve e rosa, pela janela de seda do decote, a sua custosa cruz de brilhante, fugindo-lhe para o ombro, com o risco de perder-se.

- Cuidado com a cruz, madame! - avisou, atencioso, do outro lado da mesa, o conselheiro Atanásio, que observava, sem perder um movimento do solo, as ondulações do Calvário e os arredores da Jerusalém.

D. Lisete olhou o decote, apanhou a cruz fugitiva, e, aconchegando-a à carne rosada, queixou-se, risonha:

- Também, que ideia esta, de inventar cruzes para o colo da gente!

- Vossa Excelência não sabe, então, o que elas significam, na opinião de Tabarin?

As senhoras mostraram-se curiosas de conhecer a origem daquele costume, e o antigo palaciano começou, medindo as palavras:

- Na Idade Média, quando eram deficientes os meios de comunicação de cidade para cidade, de aldeia para aldeia, de um castelo para outro castelo, os monges, que dominavam nos países barbarizados da Europa tomaram a si a incumbência de marcar os caminhos, cujas direções eram assinaladas por meio de cruzes. Ao deparar, na mata ou na montanha, um destes símbolos da cristandade, o viajante já sabia que não errara o seu roteiro, e que a estrada era, mesmo, por ali...

- Mas... - interrompeu, impaciente, Mme. Souza Batista.

- Espere... - implorou o conselheiro.

E continuou:

- Mais tarde, com o advento das modas femininas, e com o aproveitamento, por parte das mulheres, de todas as conquistas do homem, entenderam elas de utilizar o mesmo símbolo, com a mesma significação.

- A cruz no colo das mulheres quer dizer, então, alguma coisa? - interrompeu, franzindo a testa, Mme. Werther.

- Evidentemente, minha senhora! - tornou o conselheiro.

E explicou:

- Elas estão dizendo, como nas montanhas antigas, que... o caminho é por ali!

Quando o conselheiro terminou a sua narrativa, Mme. Simpson procurou a sua cruz de brilhantes, e tomou um susto. Com os seus modos estabanados, a cruz havia, de novo, abandonado o decote, e fugido para trás…

Fonte> Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. Publicado originalmente em 1925. Disponível em Domínio Público.  

Hinos de Cidades Brasileiras (Araripina/PE)


Nos caminhos do Sertão andou teu povo
E, pairando sobre ti, terra querida,
Pode ver então surgir um mundo novo
Que ganhou, com trabalho, força e vida.

Não se esquece tua luta no passado,
Os teus filhos, com muita sapiência,
Defenderam o teu nome perante o Estado
Conseguindo conquistas a independência.

Salve, salve, salve, Araripina
Nossa história, nossa cultura!
Viva o seu verde, as suas minas.
E o teu povo, sua bravura.

És das flores do sertão a mais bonita,
Oásis do deserto brasileiro.
Tuas praças, teus jardins ninguém imita,
Teus o céu dos mais azuis o ano inteiro.

Há muito mais beleza nos teus vales,
Na cidade e no olhar de tua gente,
Tu enfrentas, com coragem, muitos males
E, por isso, o amor do teu filho é mais ardente.

Salve, salve, salve, Araripina
Nossa história, nossa cultura!
Viva o seu verde, as suas minas.
E o teu povo, sua bravura.

Mais se um dia precisares de defesa,
De justiça, da paz e liberdade.
O filho teu fará tremer a natureza
Levantando a espada, mestra da verdade.

Se há tristeza é porque falta sorriso
Há saudades antes de despedir
A lembrança irá consigo ao infinito,
É um filho que acaba de partir.

Salve, salve, salve, Araripina
Nossa história, nossa cultura!
Viva o seu verde, as suas minas.
E o teu povo, sua bravura.

Mitos Indígenas (Potyra - as lágrimas eternas)

A linda e meiga Potyra amava o jovem e valente chefe da tribo, o guerreiro Itajibá ( braço de pedra ). Ambos encontravam-se frequentemente nas areias brancas do rio, onde permaneciam durante horas admirando a natureza e trocando juras de amor, enquanto aguardavam o casamento. 

Certo dia veio a guerra. A tribo foi atacada por inimigos, partindo Itajibá para a luta. 

Ansiosa, Potyra esperava sua volta, caminhando às margens do rio. 

Muito tempo depois, os guerreiros regressaram, informando à jovem que o chefe guerreiro havia morrido. 

Inconsolável, Potyra voltava todos os dias à praia a chorar sua grande perda. 

Sensibilizado com sua dor, Tupã, o Deus do Bem, transformou suas lágrimas em diamantes. Desta maneira, as águas levavam as preciosas pedrinhas até a sepultura do guerreiro, como prova de seu eterno amor.

Fonte> Adaptação do Texto de Jayhr Gael in O Caminho de Wicca - http://www.caminhodewicca.com.br (desativado). acesso em 13/10/2023.

domingo, 3 de março de 2024