sábado, 23 de novembro de 2024

A. A. de Assis (A Massa da discórdia)


A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis) é de Maringá/PR
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O pastel ali, esfriando, desafiando a imaginação criativa dos seis

Na hora do recreio havia sobre a mesa um prato de pastéis. Seis professores na sala, sete pastéis. Cada boca serviu-se do seu bocado, a refeição ideal para o horário. O copo de chá gelado completava a merenda. Mas o pastel estava provocativamente delicioso, deixando no gogó dos comilões aquele irresistível gostinho de quero mais.

Sobrara no prato um pastel, o sétimo, sobre o qual pousavam gulosos os olhos dos seis candidatos a saboreá-lo. A boa educação, contudo, não permitia que nenhum dos presentes se apossasse do cujo. Melhor se tivesse vindo a conta certa, assim aquela sobra não perturbaria o recreio. O pessoal conversava para distrair, entretanto a tentação era demais. Seis olhares espetando o pastel, de longe. Ah, esses bons modos…

Poderia alguém ter sugerido um sorteio. No papelzinho, no palitinho, no par ou ímpar. Qualquer coisa, desde que se definisse a quem caberia o apetitoso conjunto de carne e massa. Ninguém tinha coragem de fazer a sugestão, com medo de ser chamado de fominha.

E o solitaríssimo pastel ali se oferecendo, cheiroso, fofucho. Poderiam reparti-lo em seis pedaços. Parecia, porém, que todos achavam tal solução deselegante. Além disso, a quem caberia a azeitona? Pois é: tinha uma azeitona no enredo, para atrapalhar. Dividir uma azeitona em seis pedaços seria operação deveras complicada. Falaram de futebol, de política, de tudo. Os olhares continuavam fixos no prato. Cada parceiro na esperança de que os outros cinco saíssem da sala. Ficando sozinho, o premiado comeria o último pastel sem constrangimento algum. Mas quem disse que sairia alguém dali? Havia unanimidade na gula.

Chegaram a desejar que entrasse na sala um sétimo professor, a fim de engolir a massa da discórdia e resolver de vez o impasse. O pastel ali, esfriando, desafiando a imaginação criativa dos seis. Nenhum deles ao menos se atrevia a confessar o que estava pensando. Percebia-se apenas pelo jeitão meio vesgo. Ou era isso que uns acreditavam estar percebendo nos demais.

Tocou a sino, acabou o recreio. Última esperança de que voltasse todo mundo para o trabalho deixando apenas um na sala do lanche. Ninguém quis ser o primeiro a sair. Saíram juntos, os seis.

Minutos depois a moça da cozinha veio recolher a garrafa de chá, os copos e o prato. Pensou lá com seus temperos: “Uai, acho que o pastel não agradou… até deixaram sobra…” E sem mais indagações comeu ali mesmo o desprezado, para desocupar o prato. Alimento aliás muito providencial, visto que ela havia acordado de madrugada e o café da manhã já estava mesmo pedindo reforço.
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 (Crônica publicada no Jornal do Povo)

Fonte: Texto enviado pelo autor 

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

José Feldman (Guirlanda de Versos) * 9 *

 

Sammis Reachers (Temos fome, fome de Esperança)

Uma pintura do inglês George Frederic Watts, atualmente exibida na famosa Tate Galery de Londres, apresenta uma significativa alegoria: uma mulher com os olhos vendados, sentada sobre o globo terrestre, tendo em suas mãos um alaúde. Todas as cordas do instrumento musical estão arrebentadas, menos uma. A mulher aparenta estar atenta à música tirada desta única corda – essa corda é a Esperança.

Vivemos tempos sombrios. A desesperança, seja ela em utopias materialistas ou religiosas campeia, alimentada pelas brasas do ódio que insiste em bradar de sarjetas a tronos, passando por (quase) todas as tribunas. O diagnóstico é triste e a pílula, difícil de engolir: nossa sociedade está doente. Doente da alma, ferida em seu humanismo no que ele tem de mais nobre e fraternal; doente de suas fés religiosas, com o uso distorcido de suas mensagens de paz para fins interesseiros e intolerantes. 

O que vemos por aí é maniqueísmo que se chama: a crença de que o bem puro e o mal puro se digladiam. Mas quem é o mal? O mal é o próximo, o outro, nunca eu. Fácil, não? Mas somos humanos, e pelo entendimento bíblico, seres transidos de fios de mal e bem, acertos e erros – sim, a Bíblia e a maioria das grandes religiões mundiais nos referem como seres em processo, cuja jornada é a própria formação. Livres em nossas circunstâncias, que nos limitam em parte e em parte condicionam, mas são impotentes para aniquilar o que temos de divino. E esse toque “divino”, fino fio que nos mantém de pé, frágil filamento que nos une uns aos outros, que conduz (para nós, através de nós e a partir de nós) uma certa pulsante corrente elétrica, é a Esperança.

É preciso esperançar. Acreditar contra nossas diferenças, resistir contra os flagelos e os flageladores, os verdugos à serviço da exclusão e do maniqueísmo. Suas agendas não são as nossas; sua estreiteza não no diz respeito. Martin Luther King, o grande pastor e líder civil da mais singular expressão, assevera: “Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita”. E conclui: “Se eu ajudar uma pessoa a ter esperança, não terei vivido em vão”.

Aquela única corda da alegoria de Watts, citada no início deste texto, fio solitário, é na verdade uma ponte. Sim, é uma ponte de Esperança, fio a co-ligar e conduzir o homem (indivíduo e sociedade), e cabe a cada um de nós o papel de seus arautos, de pontífices (construtores de pontes) para nosso próximo.
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Sammis é poeta, escritor, antologista e editor. Licenciado em Geografia com especializações em Metodologia do Ensino e Gestão Escolar, atua em redes públicas de ensino de municípios fluminenses. É de São Gonçalo/RJ.

Maurício Cavalheiro (O pintor de auroras)

Não conheço quem o supere nos pincéis. Não conheço quem consiga retratar com delicadeza e precisão todos os pormenores em tela. É impossível plagiar os matizes que utiliza. Ninguém, nem Monet, nem Van Gogh, Taraborelli ou qualquer outro gênio da história da arte, conseguiu se aproximar da perfeição.

De todas as telas sobre amanheceres que pintou, guardei algumas em minha memória.

Ele retrata as auroras com todos os detalhes pertinentes a cada estação. Na primavera, por exemplo, a delicadeza dos pincéis anuncia a última estrela espiando os primeiros fios solares despertarem flores e joaninhas, enquanto o riacho desassossegado escorrega da colina. Abelhas e beija-flores coletam néctar e polinizam. 

No verão, atribui cores mais intensas à aurora para registrar o sol acordando mais cedo e encontrando gatos voltando da noitada. As borboletas brincam sem se assoberbar pela beleza de seus vestuários. Os passarinhos sinfonizam orações e inauguram o voo do amanhecer.

Na aurora outonal, os matizes são gris ao reproduzirem a chuva tamborilando o telhado para desafiar o sol. O hálito fresco da brisa arrepia o arvoredo. Preguiçosamente, as nuvens se deslocam e permitem que o astro rei reassuma o comando. O cachorro brincalhão corre atrás do coelho assustado.

No inverno, o sol nasce devagarinho, tímido, e vai diluindo, aos poucos, o orvalho que aveluda o rendilhado das aranhas. O vento, indomesticável, assobia canções polares. As nuvens são cachecóis que envolvem a montanha.

Da janela do meu quarto, nessa casa sem requintes, mas aconchegante, observei e observo as telas desse grande artista. Da janela do meu quarto, observo as magníficas obras de arte produzidas por... Deus.
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O autor é de Pindamonhangaba / SP

(esta crônica obteve o 1. Lugar no Concurso de Crônicas Adulto Nacional “Foed Castro Chamma”, em 2020, com o tema Aurora)

Fontes: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

José Luiz Boromelo (A mulher sem rosto)

Cinco horas da manhã. Nem precisava de despertador, pois o som característico do calçado de salto alto indicava que a mulher sem rosto descia a rua sem pressa, mostrando confiança. Por muito tempo, o ruído inconfundível do caminhar da vizinha de algumas casas acima martelou em minha cabeça. Nunca a via pessoalmente, nem eventualmente pela cidade. Mas sabia que era ela. E que possuía muitos calçados, pois tinham timbres diferentes e bem definidos. 

“Deve ter bom gosto”, pensava eu. E dinheiro para comprá-los, evidentemente. 

Frequentemente imaginava a figura quase surreal daquela que sem saber, substituiu meu despertador por anos a fio. Seria uma morena de olhos verdes, cabelos longos e bem cuidados, pele naturalmente bronzeada e um sorriso de fazer qualquer homem derreter-se por dentro? Ou a misteriosa de costumes matutinos apareceria como uma loira fatal, olhos azuis como o céu, batom vermelho nos lábios e pose de madame? Usaria um perfume de fragrância marcante, típico das mulheres que detêm o poder em todas as circunstâncias? O tempo se encarregaria de dar a resposta, que muitas vezes não corresponde com nossas expectativas, uma vez que procuramos criar uma imagem que atenda aos devaneios da mente.

Mas ela era real e sua pontualidade impressionava. Nem a agitação natural dos animais de estimação conseguia dissimular sua presença. Tomei conhecimento somente tempos depois que trabalhava numa usina de açúcar a alguns quilômetros da cidade. Decerto exercia funções administrativas, a julgar pela indumentária, obviamente analisada de baixo para cima, única referência possível até o momento. Ocuparia algum cargo no setor de recursos humanos, departamento pessoal, financeiro, gerência ou até mesmo na diretoria? Essa dúvida me levou a algumas tentativas para desvendar o mistério da madrugada, sem sucesso.

Eis que numa bela ocasião a dama da noite materializou-se diante de meus olhos. Fui tomado pela ansiedade ao ouvir aqueles passos ritmados, procurando visualizar antecipadamente o vulto da diva imaginária que povoava meus pensamentos. O que teria a lhe dizer, se me permitisse tal ousadia? Como seria retribuído, uma vez que jamais havia lhe dirigido uma palavra sequer?

 Finalmente, aquela que por muito tempo foi a responsável por determinar o início dos meus dias de trabalho estava bem à minha frente. E para minha surpresa, estendeu-me a mão num cumprimento cordial, elogiando minha disposição em levantar tão cedo. Era uma simpática velhinha de origem nipônica e compleição mirrada, calçando um tamanco característico daquele país oriental. Contratada como cozinheira, fazia do trabalho uma terapia em sua vida. Estava desfeito o mistério da mulher sem rosto. E de todas as que passaram pelas calçadas de minha vida. Sejam elas loiras, morenas ou ruivas, com ou sem o aroma perfumado do imaginário humano. Hoje não ouço mais aqueles passos em minha calçada. A vovó deve ter se aposentado. Que pena!

Estante de Livros (3 livros de Herman Hesse)


As obras de Hermann Hesse são profundas explorações da condição humana, abordando temas como a busca por identidade, a luta entre o dever e o desejo, e a necessidade de autoconhecimento. Hesse combina narrativa rica e filosófica com uma prosa poética, criando histórias que desafiam o leitor a refletir sobre suas próprias experiências e escolhas na vida.

1. Rosshalde
Narra a história de Gustav von Aschenborn, um pintor de renome que vive em uma propriedade chamada Rosshalde, com sua esposa, bela e jovem, e seu filho, Bruno. Apesar de seu sucesso artístico, Gustav sente-se preso em sua vida e em suas relações. O romance é ambientado em um período de crise pessoal e artística para Gustav, que se vê confrontado com a insatisfação em seu casamento e o desejo de liberdade criativa.

A obra explora os conflitos internos de Gustav, que se sente dividido entre suas obrigações familiares e sua necessidade de expressar-se artisticamente. A complexidade de seus relacionamentos, especialmente com sua esposa, se torna um reflexo das tensões entre o mundo exterior e sua vida interior. À medida que a história avança, Gustav toma uma decisão que mudará sua vida — ele abandona Rosshalde e sua família em busca de sua própria identidade e de um significado mais profundo.

"Rosshalde" é uma profunda exploração da busca pela autenticidade e da luta entre a arte e a vida pessoal. Hesse utiliza o personagem de Gustav para refletir sobre a tensão entre o dever e o desejo, a liberdade e a responsabilidade. O ambiente de Rosshalde simboliza tanto a segurança quanto a prisão, enquanto a arte de Gustav representa a busca por expressão e verdade.

A relação entre Gustav e sua esposa é central para a narrativa, ilustrando como as expectativas sociais e as pressões familiares podem sufocar a individualidade. A obra também aborda temas de autoaceitação e a importância de seguir o próprio caminho, mesmo que isso signifique deixar para trás pessoas amadas.

Hesse utiliza uma prosa lírica e rica em simbolismo, criando uma atmosfera que ressoa com a busca interna de Gustav. O romance é uma meditação sobre a condição humana, a criatividade e a necessidade de encontrar um propósito que transcenda as convenções sociais.

2. Siddhartha
É um romance que narra a jornada espiritual de um jovem chamado Siddhartha durante o tempo do Buda. Siddhartha, um filho de um brâmane, é inteligente e ambicioso, mas sente-se insatisfeito com a vida de prazeres e rituais convencionais. Ele decide deixar sua casa e seus privilégios, em busca da iluminação e do verdadeiro significado da vida.

Siddhartha se junta a um grupo de ascetas, praticando a renúncia e a meditação, mas logo percebe que essa caminho não leva à verdadeira realização. Em seguida, ele encontra Gautama, o Buda, mas mesmo assim sente que a iluminação não pode ser ensinada, apenas vivida. Siddhartha continua sua busca, experimentando a vida material e amorosa ao se envolver com Kamala, uma cortesã, e se tornando um homem de negócios.

Após anos de excessos, Siddhartha se sente vazio e decide se retirar para a margem de um rio, onde encontra um barqueiro sábio que o ajuda a compreender a natureza do tempo e da existência. Através desse encontro, Siddhartha alcança a iluminação, reconhecendo a unidade de todas as experiências e a interconexão da vida.

É uma obra rica em filosofias orientais e reflexões sobre a busca espiritual. A jornada de Siddhartha é uma metáfora para a busca de cada indivíduo por significado e compreensão. Hesse utiliza elementos do budismo e do hinduísmo para explorar a ideia de que a verdadeira sabedoria vem da experiência pessoal e da introspecção.

O romance destaca a importância do autoconhecimento e da aceitação das dualidades da vida — prazer e dor, amor e perda. Siddhartha é um personagem que representa a universalidade da busca humana por propósito, e sua jornada é uma reflexão sobre como cada um de nós deve encontrar seu próprio caminho.

A prosa de Hesse é poética e contemplativa, criando uma atmosfera meditativa. O simbolismo do rio, que representa o fluxo da vida e a continuidade da existência, é central para a obra, refletindo a ideia de que cada experiência, por mais desafiadora que seja, contribui para o crescimento e a compreensão.

3. O Jogo das Contas de Vidro
Esta é uma obra futurista que se passa em uma sociedade utópica chamada Castália, dedicada ao desenvolvimento da cultura e do intelecto. A história gira em torno de Joseph Knecht, um talentoso jogador das contas de vidro, uma prática que combina música, matemática e filosofia em uma forma de arte elevada. Knecht é escolhido para se tornar um mestre do jogo, mas à medida que avança em sua carreira, começa a questionar o papel da arte e do intelecto na vida humana.

Ao longo da narrativa, Knecht reflete sobre suas experiências e sua relação com a sociedade, incluindo seus amigos e mentores. A obra é dividida em três partes, cada uma explorando diferentes aspectos da vida de Knecht e sua busca por significado. Ele acaba se afastando do sistema rígido de Castália, buscando uma conexão mais profunda com a vida fora da academia.

A história culmina em sua decisão de deixar Castália e se tornar um simples educador, reconhecendo que a verdadeira sabedoria vai além do conhecimento acadêmico. Knecht entende que a vida deve ser vivida plenamente, e não apenas contemplada.

"O Jogo das Contas de Vidro" é uma reflexão profunda sobre o papel da arte, da educação e da espiritualidade na vida moderna. Hesse critica a elitização do conhecimento e a desconexão entre o intelecto e a experiência vivida. A obra é uma meditação sobre a busca pela autenticidade e a necessidade de integração entre o intelecto e a vida prática.

O jogo em si, com sua complexidade e beleza, simboliza a busca pela harmonia e pela compreensão profunda da existência. Através de Knecht, Hesse explora a tensão entre o idealismo e a realidade, questionando se é possível encontrar um equilíbrio entre o intelecto e a vida emocional.

A prosa de Hesse é rica em simbolismo e filosofia, desafiando o leitor a refletir sobre suas próprias crenças e valores. A obra é considerada uma das mais ambiciosas de Hesse, abordando questões existenciais e espirituais que continuam a ressoar com leitores contemporâneos.

Fontes: José Feldman (org.). Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por JFeldman a partir de fotografia da estante de livros

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

José Feldman (O Natal de Seu Miguel)

Era véspera de Natal e a cidade estava envolta em uma atmosfera mágica. As luzes piscavam nas janelas, as ruas estavam decoradas com guirlandas e as pessoas se apressavam para comprar os últimos presentes. No entanto, na pequena casa de Seu Miguel, a única coisa que iluminava o ambiente era a presença de sua fiel companheira, a cachorra Lili.

Seu Miguel era um homem idoso, com cabelos brancos e mãos calejadas pelo trabalho de uma vida inteira. Ele havia se casado, cerca de  25 anos depois o amor que um dia o aquecera se afastara sendo uma lembrança distante daqueles momentos. Seus irmãos, que moravam em outro estado, não o visitavam desde que ele se casou. A solidão tornara-se sua única companheira, e a casa, antes cheia de risadas e alegria, agora ecoava o silêncio de sua tristeza.

Lili, uma simpática vira-lata, estava sempre ao seu lado. Com seus olhos brilhantes e o jeito carinhoso de se aconchegar a ele, ela trazia um pouco de luz aos dias sombrios de Seu Miguel. Ele costumava dizer que ela era o único presente que realmente importava. Ao olhar para ela, ele sentia um amor incondicional que aquecia seu coração.

O quarto de Seu Miguel era acolhedor, mas carregava a marca do tempo e da solidão. As paredes eram de um tom suave de azul desbotado, com algumas manchas de desgaste que contavam histórias de muitos anos. Um quadro antigo, com uma paisagem de verão, pendia um pouco torto acima da cama, lembrando dias mais alegres.

A cama de casal, coberta por um edredom de retalhos. Ao lado da cama, uma pequena mesa de cabeceira sustentava um abajur de luz amarelada, que iluminava suavemente o ambiente ao entardecer. Sobre a mesa, havia um livro aberto, suas páginas amareladas pela passagem do tempo, e uma xícara de chá fria, esquecida em um canto.

O chão era de madeira, com algumas tábuas rangendo sob o peso dos passos, e um tapete desgastado cobria parte do espaço, dando um toque de calor ao ambiente. Perto da janela, uma cortina balançava suavemente com a brisa, permitindo que os as gotas de chuva que caíam lá fora fossem visíveis.

Em um canto do quarto, uma prateleira abrigava souvenirs e fotografias emolduradas, capturando momentos de felicidade que agora pareciam distantes. Havia um porta-retratos com uma imagem de Seu Miguel e sua ex-esposa, sorrindo em uma praia.

No chão, ao lado da cama, estava a caminha de Lili, um acolchoado simples, mas confortável, onde a cachorra costumava descansar. O ambiente, embora nostálgico e um tanto triste, tinha um toque de amor e lembranças que preenchiam o ar com uma sensação de lar.

Na véspera de Natal, enquanto a chuva começava a cair lá fora, Seu Miguel sentou-se na poltrona ao lado da lareira. Ele olhou para o pinheiro que havia montado, uma árvore simples, já sem enfeites para alegrar o ambiente, mas, naquele momento, ela parecia mais uma lembrança dolorosa do que um símbolo de celebração.

Ele fechou os olhos e fez um desejo silencioso. Queria sentir o abraço da família novamente, ouvir as risadas que preenchiam a casa, e quem sabe até mesmo ouvir os filhos e netos de seus irmãos correndo pelo lugar. A saudade o apertava como um nó no peito, e ele não conseguia evitar que as lágrimas escorressem pelo seu rosto.

Lili, percebendo seu desânimo, levantou-se e se aproximou. Ela encostou a cabeça em seu colo, como se dissesse: "Eu estou aqui, não se preocupe." 

Seu Miguel sorriu, acariciando o pelo macio da cachorra. Ela era a única que o compreendia, a única que não o abandonara.

A noite avançava e, enquanto a neve cobria a cidade, Seu Miguel decidiu preparar um pequeno jantar. Ele fez um prato simples, mas saboroso, e dividiu um pouco com Lili, que se deliciou com cada pedaço. Durante a refeição, ele contou histórias para a cachorra, compartilhando memórias de tempos mais felizes. Lili parecia atenta, como se entendesse cada palavra.

Após o jantar, ele pegou um cobertor e se acomodou na poltrona, enquanto a lareira crepitava suavemente. A melodia suave de canções de Natal vinha das casas vizinhas, e, por um momento, ele se deixou levar pela nostalgia. As músicas o transportaram para um tempo em que a vida era mais cheia e as preocupações pareciam distantes.

Mas a realidade logo o trouxe de volta. Ele olhou para a árvore e, em meio à tristeza, sentiu uma onda de gratidão por Lili. Ela era sua luz nos dias escuros, seu motivo para levantar da cama todas as manhãs. Apesar da solidão, ele ainda tinha alguém que o amava.

Enquanto a chuva caía suavemente lá fora, a música de Natal envolvia a casa de Seu Miguel em um manto de nostalgia e esperança. Ele fechou os olhos por um momento, permitindo que o cansaço o levasse, quando um toque suave na porta interrompeu seu pensamento. 

Seu coração disparou. Quem poderia ser? Nunca ninguém o visitava. 

Ele hesitou, mas Lili, sempre curiosa, correu até a porta, latindo.

Ao abrir, Seu Miguel se deparou com seus irmãos, acompanhados de suas famílias. Eles estavam com sorrisos largos e braços abertos, prontos para abraçá-lo. A surpresa tomou conta dele, e a tristeza que há tanto tempo o acompanhava começou a se dissipar.

— Feliz Natal, Miguel! — gritaram.

Ele mal podia acreditar. O abraço apertado de seus irmãos, os risos das crianças e a alegria contagiante daquela noite o envolveram como um cobertor quente. Lili, animada, pulava ao redor, recebendo carinhos e afagos.

Naquela noite, a casa de Seu Miguel se encheu de amor e risadas. As memórias dolorosas foram substituídas por novas, e a solidão deu lugar à alegria.

Mas, de repente, a cena começou a desvanecer. As vozes dos familiares se tornaram ecos distantes, e a luz da árvore, que antes brilhava intensamente, começou a se apagar. Seu Miguel tentou chamar seus irmãos, mas suas palavras não saíam. Ele se viu sozinho novamente, perdido na escuridão.

Quando finalmente despertou, a realidade o atingiu como um balde de água fria. A sala estava silenciosa, e a única luz vinha da lareira, que agora crepitava suavemente. Lili, sua fiel companheira, estava deitada ao seu lado, olhando para ele com olhos cheios de preocupação.

A tristeza tomou conta de seu coração. Ele olhou ao redor e percebeu que estava novamente sozinho, sem os abraços calorosos de sua família. Um nó se formou em sua garganta, e as lágrimas começaram a escorregar por seu rosto.

Os olhos, grandes e expressivos de Lili, se iluminaram ao ver que o velho estava acordado. Com um leve abanar de rabo, ela se levantou de seu canto e se aproximou, suas patas macias fazendo pouco barulho no chão.

Lili cheirou o ar ao redor de Seu Miguel, como se buscasse entender suas emoções. Ao notar as lágrimas em seu rosto, ela pousou a cabeça suavemente em seu colo, olhando-o com um olhar preocupado. Seu coração canino parecia sentir a tristeza dele, e ela se aconchegou ainda mais perto, buscando confortá-lo.

Lili lambeu a mão dele, como se dissesse: "Estou aqui, não precisa ficar triste." Sua presença calorosa e carinhosa trouxe um alívio instantâneo ao coração de Seu Miguel. Ela se aninhou nele, oferecendo seu amor incondicional, e ficou atenta, como se estivesse pronta para proteger seu amigo de qualquer dor.

Com um suspiro profundo, ele envolveu os braços em torno de Lili, apertando-a contra seu peito. Naquele momento, ele fez uma promessa a ela:

— Nunca vou te abandonar, Lili. Você é minha única amiga, minha luz em meio à escuridão. Não importa o que aconteça, sempre estarei aqui para você, assim como você sempre esteve para mim.

Ele sentiu a presença calorosa da cachorra, e um conforto profundo começou a preencher o vazio da solidão. Ali, no silêncio da pequena casa, Seu Miguel percebeu que, mesmo sem a família por perto, ele ainda tinha um amor sincero e verdadeiro.

E assim, enquanto a chuva continuava a cair lá fora, ele e Lili se aconchegaram juntos, prontos para enfrentar o Natal e todos os dias que ainda estavam por vir. 

Seu Miguel sentiu uma onda de gratidão. A maneira como Lili reagiu, com sua lealdade e compaixão, fez com que ele se sentisse menos sozinho. Ela era uma luz em sua vida, sempre disposta a estar ao seu lado. E naquele momento, ele soube que, independentemente da solidão que o cercava, ele nunca estaria verdadeiramente só, enquanto tivesse Lili.

E assim, enquanto as estrelas brilhavam no céu, ele fez um novo desejo. Enquanto tivesse sua fiel companheira, seus dias seriam sempre iluminados, não apenas naquela noite, mas em todos os dias que viriam. Afinal, a verdadeira magia do Natal reside nas conexões que cultivamos e no amor que compartilhamos, mesmo quando a vida nos parece solitária.
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Nota do blog:
Infelizmente esta é uma realidade cada vez mais constante nos dias de hoje, principalmente em pessoas idosas que não tem filhos.

O Natal é uma época de celebração, amor e união, mas para muitos idosos, essa época do ano pode ser repleta de solidão e tristeza. Infelizmente, muitos deles se encontram abandonados por seus familiares, sentindo-se esquecidos e desamparados.

Se você conhece algum idoso que está sozinho, uma simples visita pode fazer toda a diferença. Ouvir suas histórias e compartilhar momentos pode trazer alegria a seus corações.

Oferecer seu tempo para atividades ou até mesmo um café da tarde pode iluminar o dia de alguém.

Muitas vezes, a falta de apoio é resultado de desinformação e preconceitos. Vamos mudar essa narrativa!

É fundamental que, como sociedade, estejamos atentos a essa realidade. Os idosos merecem carinho, respeito e atenção, especialmente em momentos que deveriam ser de alegria. O abandono pode afetar profundamente a saúde emocional e física dessas pessoas, tornando o Natal uma lembrança dolorosa em vez de uma celebração.

Fontes: 
José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Daniel Maurício (Poética) 79

 
 

José Feldman (Um terminal rodoviário muito louco)

Era uma manhã ensolarada quando um grupo de estranhos se reuniu no terminal rodoviário da pequena cidade de Pensamento, interior do Paraná. O terminal, com seu cheiro de café requentado e a música de um artista local tocando no fundo, estava prestes a se transformar em um palco para uma série de eventos engraçados.

Primeiro, Dona Edna, uma senhora de cabelos grisalhos e óculos enormes, que sempre se sentava da mesma forma: com um mapa amassado na mão e uma expressão de quem estava prestes a conquistar o mundo. Ela estava em busca de sua neta, que supostamente iria chegar em um ônibus vindo da capital.

Ao lado dela, estava Tiago, um jovem estudante que, com seu fone de ouvido e olhar perdido, parecia estar no mundo da lua. Ele estava tão concentrado na música que não percebeu que seu ônibus tinha mudado de plataforma. Quando finalmente se deu conta, já era tarde demais.

Na outra extremidade do terminal, um homem de terno e gravata, que se apresentava como Dr. Fernando, estava tentando fazer uma ligação importante. Ele falava alto demais (quase aos berros), e sua conversa sobre "negócios internacionais" estava atraindo a atenção de todos ao redor. Mas era impossível não notar que, a cada palavra, ele gesticulava de tal forma que parecia estar tentando voar.

Enquanto isso, o ônibus de Dona Edna chegou, mas, para sua surpresa, não havia sinal de sua neta. Desesperada, ela começou a questionar todos ao redor, incluindo Tiago, que tentava se concentrar em sua música. 

“Você viu uma garota de cabelo cacheado, mais ou menos assim?” ela perguntava, fazendo gestos exagerados. 

Tiago, sem perceber, respondeu: “Desculpe, senhora, estou procurando por um ônibus.”

Nesse momento, Dona Edna decidiu que ele deveria ser um "detetive" e começou a dar instruções absurdas sobre como encontrar sua neta. 

Tiago, confuso, apenas concordou e saiu em busca de informações que não existiam.

Enquanto isso, o Dr. Fernando, tentando se fazer notar, decidiu que era hora de fazer uma apresentação. Ele subiu em uma das cadeiras e começou a falar sobre sua "brilhante carreira" e como estava prestes a fechar um grande negócio. 

O terminal, que estava calmo, agora estava uma balbúrdia. As pessoas aplaudiam de forma sarcástica, e Tiago, ao ouvir o barulho, se aproximou, perguntando se havia um show.

“É claro! Você não sabia? É o show do Dr. Fernando, o empresário que voa alto!” alguém gritou, e todos começaram a rir.

Finalmente, a neta de Dona Edna apareceu correndo, com uma mochila gigante e um sorriso no rosto. 

Ela avistou a avó e, enquanto corria, esbarrou em Tiago, que estava tão perdido em seus pensamentos que quase caiu. 

“Desculpe!” ela exclamou, mas Tiago, em vez de se irritar, respondeu: “Não se preocupe, eu sou apenas um detetive à procura de uma missão.”

Dona Edna, ao ver sua neta, deu um grito de alegria e começou a dançar como se tivesse ganhado na loteria. 

“Minha neta! Finalmente! Agora podemos ir embora!” Ela abraçou a menina, que estava um pouco confusa, mas feliz.

Enquanto isso, Dr. Fernando, percebendo que sua apresentação não estava indo como planejado, decidiu descer da cadeira. Ele tropeçou, e em um momento digno de um filme de comédia, caiu de cara no chão. Todos riram, e até mesmo o homem mais sério do terminal não conseguiu conter o riso.

Tiago, agora em um espírito de camaradagem, se aproximou de Dr. Fernando e disse: 

“Se você precisar de um detetive para seus negócios, eu posso ajudar!” 

O empresário riu e, fora de si, convidou todos para um café na lanchonete do terminal.

Dona Edna, sua neta, Tiago e até mesmo Dr. Fernando acabaram se sentando juntos, compartilhando histórias e risadas. 

O terminal rodoviário, que parecia um lugar comum, havia se transformado em um espaço de amizade e absurdos, onde pessoas de diferentes lugares se uniram através de uma série de imprevistos e risadas.

E assim, entre uma xícara de café e outro, o terminal se tornou um lugar de memórias, onde cada um saiu com uma história para contar — e uma nova amizade para cultivar. Afinal, às vezes, as melhores aventuras começam nos lugares mais inesperados.

Fontes: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Dicas de Escrita (Como escrever um conto/ Que vocabulário usar)


Dicas para escritores sobre como escrever um conto

Planejamento 

1. Defina o gênero: Fantasia, Ficção Científica, Terror, Romance, etc. 

2. Crie um enredo básico: Início, meio e fim. 

3. Desenvolva personagens: Nome, idade, personalidade, objetivos. 

4. Estabeleça o cenário: Local, época, clima. 

Escrevendo 

1. Comece com um gancho: Capte a atenção do leitor. 

2. Desenvolva a trama: Introduza conflitos, reviravoltas e tensão. 

3. Use diálogos: Revele personalidades, relacionamentos e informações. 

4. Descreva cenários e atmosferas: Use os sentidos. 

Técnicas 

1. Mostrar, não contar: Use ações e diálogos em vez de narrativa. 

2. Use a perspectiva certa: Primeira pessoa, terceira pessoa limitada ou onisciente. 

3. Crie suspense: Use cliffhangers*, mistérios e incertezas. 

4. Edite e revise: Verifique erros, clareza e coerência. 

Dicas adicionais 

1. Leia muito: Estude contos de ficção de outros autores. 

2. Pratique: Escreva regularmente. 

3. Seja criativo: Não tenha medo de experimentar. 

4. Busque feedback: Compartilhe seu trabalho com outros. 

Estrutura básica de um conto 

1. Introdução (10%): Apresente personagens, cenário e situação. 

2. Desenvolvimento (80%): Desenvolva a trama e conflitos. 

3. Conclusão (10%): Resolva o conflito e finalize a história. 

Lembre-se de que a prática leva à perfeição. Não tenha medo de errar e continue escrevendo!
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* Cliffhangers = é um recurso de roteiro utilizado em ficção, que se caracteriza pela exposição do personagem a uma situação limite, precária, tal como um dilema ou o confronto com uma revelação surpreendente.
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VOCABULÁRIO NO TEXTO

O vocabulário de fácil entendimento em um conto ou crônica é crucial por várias razões: 

1. Acessibilidade: 
Permite que leitores de diferentes níveis de educação e idade compreendam a história. 

2. Imersão: 
Vocabulário simples facilita a imersão do leitor na narrativa, evitando interrupções para buscar significados. 

3. Clareza: 
Palavras claras e concisas transmitem ideias e emoções com precisão, evitando mal-entendidos. 

4. Ritmo: 
Vocabulário simples ajuda a manter o ritmo da história, mantendo o leitor engajado. 

5. Conexão emocional: 
Linguagem acessível facilita a conexão emocional do leitor com personagens e eventos. 

6. Universalidade: 
Permite que a história seja compartilhada com um público mais amplo. 

Para alcançar um vocabulário de fácil entendimento: 

1. Use palavras comuns e cotidianas. 

2. Evite jargões técnicos ou termos especializados. 

3. Defina termos complexos quando necessário. 

4. Varie a estrutura das frases para manter o interesse. 

5. Leia em voz alta para testar a clareza. 

Lembre-se, 
o objetivo é contar uma história envolvente, não demonstrar erudição linguística. 

Fontes: British Order of Freelance Writers.
Imagem criada por JFeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Elvira Drummond (Fortaleza/CE)





Célio Simões (“Pensando com meus botões”)

Você já deve ter ouvido diversas frases envolvendo esta expressão, como por exemplo, quando está conjeturando alguma ação ou providência para evitar, remediar, solucionar ou encaminhar determinado assunto ou situação familiar preocupante. Como disse o artista popular, “de repente, eu estava aqui, refletindo, pensando com meus botões, quando reparei que estava só de bermuda e camiseta, sem nenhum botão". O que foi que aconteceu? Parei de pensar... 

Na prática não é bem assim, pois ninguém fica obliterado mentalmente, por falta de botões em sua indumentária. O festejado cantor e compositor Gilberto Gil tangenciou o tema na música “Cérebro Eletrônico”, cuja letra dá claro indício da associação de ideias que instintivamente é feita por quem pensa ou vê outrem pensando: “O cérebro eletrônico faz tudo/Faz quase tudo/Faz quase tudo/ Mas ele é mudo // O cérebro eletrônico comanda/Manda e desmanda/Ele é quem manda/Mas ele não anda // Só eu posso pensar/Se Deus existe/Só eu posso chorar/Quando estou triste/Só eu cá com meus botões/De carne e osso/ Eu falo e ouço. Hum...”

Sem eiva de dúvidas, "PENSAR COM MEUS BOTÕES", no Brasil e em Portugal, significa um momento de introspecção, o ato de pensar consigo próprio, que envolve sentimentos da própria mente de quem pensa. Logicamente, os botões não pensam nem possuem a faculdade de aconselhar alguém, sendo essa figura de linguagem representativa do estado d’alma de cada qual, em determinado momento imerso em seus mais recônditos pensamentos. No dizer do genial ficcionista e escritor paraense Ildefonso Guimarães, saudoso membro da Academia Paraense de Letras, isso ocorre quando o indivíduo está entregue às suas próprias “cavaqueações”. 

Sabemos assim que a expressão "PENSANDO COM MEUS BOTÕES" significa refletir, pensar sozinho. Ou seja, indica que você está raciocinando ou, o que não é raro ser constatado, falando consigo próprio até em locais públicos, se bem que atualmente a cena pode ser vista com frequência de vez que uns e outros andam falando em qualquer lugar, não propriamente consigo, mas com terceiros através dos inseparáveis celulares, escondido nas vestes para escapar das abordagens dos “amigos do alheio”. Mas afinal, de onde surgiu essa expressão? No território livre da Internet, encontramos algumas possíveis explicações, embora nem todas façam muito sentido. 

Uma delas alude que "pensar com meus botões" significa que é a própria pessoa olhando para dentro de si, para finalmente escolher a solução que lhe parece acertada para determinado caso. Outra diz que "pensando com meus botões" originou-se do fato de que os botões servem para fechar e esconder a intimidade das pessoas, ou seja, o seu íntimo. Então, pensar com os botões seria pensar sozinho, sem expor ou compartilhar seus pensamentos com ninguém, sem submeter ao escrutínio alheio sua privacidade. 

Por fim, uma explicação mais histórica diz que, antigamente, as roupas eram recheadas de botões. Desde que Catarina de Médici, nobre italiana que se tornou rainha consorte em França de 1547 até 1559, como esposa do rei Henrique II inventou a calcinha, o Século XVIII encontrou as mulheres usando suas peças íntimas ainda de algodão, fechadas lateralmente com muitos botões, sendo que em lugares remotos eles eram fabricado de ossos de animais, que graças ao tirocínio das modistas, evoluíram até os dias atuais para o sensual fio dental, agora encontrado em qualquer lugar onde exista um comércio de roupa feminina. Daí presumir-se que antigamente, estando elas sozinhas em seus aposentos, abrindo ou fechando os botões de seu vestuário mais íntimo, aproveitavam aquele momento para pensar, entregando-se às suas mais profundas, secretas e preciosas reflexões sobre suas vidas.

Fonte: Texto enviado pelo autor 

Jaqueline Machado (“Cachorro velho”, de Teresa Cárdenas)

Cachorro velho aproximou do rosto a borda da cuia e cheirou. O aroma do café adoçado com mel lhe entrou em cheio, confortando-o.

Talvez essa fosse a única sensação de prazer de um senhor negro e velho, filho de uma escrava vinda da África. Ele nasceu e cresceu dentro do cercado de uma fazenda de engenho. Nunca ultrapassou as porteiras daquele lugar onde, desde criança, sobreviveu sob a égide dos patrões brancos e do terrível sistema escravista que sugaram suas forças.

O ancião não teve infância, não pode desfrutar dos belos sonhos na juventude. E perdeu seu único e breve amor. 

Toda a história que nasceu para viver, ficou reprimida nas vigas estreitas e estremecidas de suas entranhas.

Seu coração não reconhecia a felicidade. Tanta era sua agonia que, ao sentir prazer por qualquer coisa que se assemelhasse à alegria, ele de imediato repelia o sentimento. Pois não entendia o que era. Estava embrutecido demais para entender sobre bem-estar e amor.

Sua vida era tão sem vida que ele gostava de se imaginar morto...

O café que o confortava era feito por Beira, companheira do barracão onde dormia.

O escravo era tão menosprezado, que não tinha nome. Todos o conheciam por “Cachorro Velho”.

É! Histórias iguais a esta, descrita no emocionante conto, Cachorro Velho, da escritora cubana Teresa Cárdenas, eram muito recorrentes. E ainda são, só que hoje, em formatos diferentes.

Dizem que a escravidão acabou. Então, por que ainda necessitamos de um dia como o 20 de novembro para repensarmos essas tristes histórias?

Sim! O racismo permanece atuante. E fere, oprime e mata.

Muitos dizem que o preconceito não existe. Que tudo isso que ouvimos por aí é “mimimi”... Mas no fundo, todos sabemos que isso não é bem assim...

O racismo é uma grave anomalia da sociedade. Pra mim, trata-se de algo incompreensível, bestial. É impossível entender como a simples diferença de cor de pele pode causar qualquer tipo de rejeição entre os irmãos de uma mesma Terra.

Pelo menos aqui no Brasil, a maioria dos habitantes é descendente de negros. E tem sangue afro correndo em suas veias.

A negritude não perde em humanidade, beleza e cultura, para nenhuma outra raça. Por isso, deixo aqui registrada minha profunda admiração pela cultura do povo negro. E minha nota de repúdio por quem traz no olhar, nas palavras e nas atitudes, a chama venenosa do racismo, e da ingratidão para com este povo que ajudou a construir a nossa linda nação.
 
Fonte: Texto enviado pela autora.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Silmar Bohrer (Gôndola de Versos) 02

 

José Feldman (Um Dia de Compras Inesquecível)

Era uma sexta-feira quando Carlos decidiu que era hora de reabastecer a despensa. Como um homem que sempre se orgulhou de sua habilidade em fazer compras, ele vestiu sua melhor camiseta e calçou os tênis mais confortáveis, preparado para enfrentar a selva do supermercado.

Ao entrar no local, Carlos foi imediatamente confrontado pela primeira armadilha: o carrinho. Ele sempre achou que os carrinhos tinham vida própria, e hoje parecia que um deles tinha decidido que não queria ser empurrado. 

Cada vez que Carlos tentava seguir em linha reta, o carrinho se desviava, como se quisesse explorar os corredores de produtos que ele não precisava.

“Ah, não, não, não! Não me faça passar vergonha novamente!” Carlos sussurrou para o carrinho, atraindo olhares curiosos de outros clientes. Mas ele decidiu ignorar, afinal, quem nunca teve uma conversa um tanto estranha com um objeto inanimado?

Após uma luta épica com o carrinho, Carlos finalmente conseguiu alcançar a seção de frutas. Ele sempre se considerou um expert em escolher abacates, mas naquele dia, parecia que os abacates estavam em um concurso de "quem é o mais maduro". Ele pegou um, apertou, e o fruto se despedaçou em sua mão, deixando um rastro de pasta verde em seus dedos.

“Maravilha! Agora sou o novo chef de cozinha, especialista em guacamole!” Carlos exclamou, rindo de si mesmo.

Seguindo para a seção de laticínios, Carlos avistou um grande cartaz: "Promoção de iogurtes! Leve 10 e pague 5!" 

Ele pensou que essa era uma oferta que não poderia recusar. Então, em um momento de impulso, pegou dez potes de iogurte, suficientes para alimentar um pequeno exército. Ao tentar equilibrar os iogurtes no carrinho, ele percebeu que havia subestimado sua própria noção de equilíbrio. Um pote escorregou e, em câmera lenta, caiu no chão, explodindo em um banho de iogurte de morango.

"Parabéns, você acaba de se tornar o Picasso do iogurte!" gritou um jovem que passava, enquanto Carlos se encolhia de vergonha. 

Ele se virou para limpar a bagunça com a mão, mas acabou espalhando ainda mais o iogurte com seus tênis, que agora pareciam ter se tornado uma obra-prima de arte moderna.

Determinado a não deixar que isso arruinasse seu dia, Carlos seguiu para a seção de congelados. 

Ao abrir o freezer, ele encontrou uma pilha de pizzas congeladas. Ele ficou tão animado que decidiu fazer uma pequena festa em casa. 

Enquanto examinava as opções, uma pizza de pepperoni escapuliu de suas mãos e foi parar em um carrinho ao lado, pertencente a um senhor idoso que olhava para Carlos com uma expressão de confusão.

“Desculpe, senhor! Parece que sua pizza está tendo uma vida própria!” 

Carlos riu, mas o senhor não pareceu achar graça. Ele pegou a pizza e a colocou de volta no freezer, como se estivesse lidando com uma criança travessa.

Finalmente, Carlos chegou ao caixa. Ele estava exausto, mas cheio de itens que provavelmente não precisaria. 

Enquanto o caixa registrava suas compras, ele percebeu que havia esquecido de pegar o item mais importante: papel higiênico. 

Ele olhou para a fila atrás dele e decidiu que não poderia voltar. O caixa, percebendo seu dilema, fez uma piada: “Parece que você vai ter um dia longo pela frente!”

Carlos riu, mas no fundo, sabia que estava em apuros. Ao sair do supermercado, com o carrinho cheio e a dignidade quase intacta, ele avistou um amigo que não via há tempos. 

“Carlos! O que você está fazendo aqui?”

“Ah, você sabe, apenas dominando a arte da compra de supermercado,” respondeu Carlos, com um sorriso nervoso.

O amigo olhou para o carrinho, depois para Carlos, e disse: “Parece mais uma batalha perdida!”

Carlos suspirou, mas então deu uma risada forçada. 

Ele se despediu do amigo e saiu do supermercado, pensando que, apesar de todos os imprevistos, tinha conseguido superar a batalha do supermercado. 

Fontes: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Janete Francisco Sales Yoshinaga (São Paulo/SP)