sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (A transição de mim para... mim)

Às vezes, quando fecho os olhos para dormir, sem que espere, vêm-me imagens. 

Não é tela de cinemascope com direito a fundo musical. São figuras que o interior dos meus olhos passam a ver como se as trouxessem lá de dentro. 

Frutos do silêncio? Talvez.

Umas trazem a repetição do que vivenciei. O ontem, o anteontem, o “tresantontem” a se perder no tempo como reflexo de mim mesmo.

Outras vêm com figuras fabulosas com cores indefinidas, em situações diversas de um mundo que não é o meu. 

São produto do desconhecido, do inimaginado.

Ali eu vivo o estranho. 

Um momento jamais sonhado a produzir angústia. E maneiras para que dele tente me livrar, porque a reação é espontânea.

Às vezes o sono as absorve. Em outras, rumino-as enquanto ele não vem. Mas pressinto que sim. O sono salvador ao chegar, faz o mocinho ao salvar a donzela –– pondo em fuga os bandidos.

Nesses passeios fora de mim, absorvo-me e, com passos vagos vejo lugares inóspitos, gente entristecida, ambiente degradado e céu nebuloso. Outras situações se compõem em meus olhos com figuras nostálgicas. Essas possuem a minha aparência. Elas não são altas de modo que se sobressaiam frente às demais, nem tão baixas a chamarem a atenção. 

Parecem-se comigo. Então reflito: –– São outros eus que se põem a vagar as mesmas ruas em que caminho. Os que vejo têm aparência preocupada, olhos fixos, passos largos, precisos, rápidos. Decididos! O corpo se manifesta sensível ao sol quente, ao vento em demasia, à poeira solta a causar incômodo. 

Tal qual me apresento no dia a dia.

As figuras se transmutam em corpos, pouco cá, pouco lá de beleza, sem que sirvam de referência a qualquer análise mais profunda.

O que me põe a pensar é sobre o porquê de elas aparecerem na fase do pré-sono. 

Por fim, a resposta: essa sensação que se dá na sonolência, é a tal ‘ponte dourada’ entre a vigília e o sono profundo, momento em que a lógica relaxa, e a mente, como um parque de diversões, nos leva a dar vida ao subconsciente.
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Renato Benvindo Frata é de Paranavaí/PR, advogado, escritor e trovador.

(Texto enviado pelo autor. )

Estante de Livros (“O homem do furo na mão”, de Ignácio de Loyola Brandão)

O livro O Homem do Furo na Mão e Outras Histórias publicado originalmente na década de 1970 (e posteriormente consagrado em reedições voltadas ao público jovem pela Editora Ática, é uma das obras mais instigantes do escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão. Composto por 11 narrativas curtas, o livro utiliza o absurdo, a ficção científica social e o realismo fantástico para romper com a aparente "normalidade" do cotidiano. Através de situações insólitas, o autor expõe o automatismo da vida moderna, a intolerância urbana e a repressão velada (ou explícita) da sociedade civilizada.

1. ENREDO DO CONTO PRINCIPAL: O HOMEM DO FURO NA MÃO

A narrativa que dá título ao livro serve como a espinha dorsal de toda a crítica estética do autor. Nela, acompanhamos um homem de rotina rigidamente burocrática e um casamento de aparências. Em um dia comum, a caminho do trabalho, ele sente uma coceira na mão direita. Pouco tempo depois, percebe o surgimento de uma pequena mancha avermelhada que evolui para uma depressão e, por fim, transforma-se em um buraco perfeito de dois centímetros de diâmetro que atravessa a sua carne.

Diferente do que se esperaria, o homem não se desespera: ele passa a brincar com o furo, a ver poesia naquela diferença e a se sentir autônomo, como se houvesse "sarado" da doença da monotonia. No entanto, a sociedade não tolera a divergência:

No lar: A esposa e a empregada sentem repulsa física, choram e exigem que ele esconda a "falha". Incapaz de lidar com aquilo, a esposa o abandona.

No trabalho: O chefe o demite friamente sob a justificativa moral de um "decreto inexistente", alegando que sua presença desestabiliza a corporação.

No espaço público: O homem passa a ser caçado. Fiscais, policiais e cidadãos comuns o agridem e o expulsam de ônibus, cinemas e praças pelo simples fato de sua anomalia incomodar o padrão visual e comportamental exigido.
 
O Desfecho: 
Perseguido e destituído de sua antiga vida social, o protagonista vaga até encontrar abrigo embaixo de um viaduto. Lá, em meio aos mendigos e marginalizados pela cidade grande, ele é acolhido. Ao estenderem as mãos para ele, o homem percebe a grande revelação: todos os invisíveis sociais daquele lugar também possuem um furo na mão.

2. TEMÁTICAS CENTRAIS DA COLETÂNEA 

A Intolerância ao Diferente e a Crise de Identidade
O "furo" funciona como uma metáfora aberta para a idiossincrasia (a singularidade) do ser humano. Pode representar uma escolha estética, uma orientação, uma ideologia ou uma deficiência. O livro demonstra que a sociedade contemporânea constrói cidadãos padronizados em massa; quem ousa manter ou aceitar a sua própria diferença é sistematicamente expulso do jogo social, perdendo o emprego, o status e as relações afetivas.

Crítica ao Automatismo e à Burocracia Moderna
O autor retrata cidades engrenadas no trabalho mecânico, na burocracia desumana e na obediência cega a normas não escritas. O personagem só descobre quem ele realmente é — alcançando a liberdade criativa de soprar pelo buraco, olhar o mundo de outro ângulo ou brincar com o tempo — quando é quebrado o ciclo vicioso de acordar, bater o ponto e voltar para casa.

O Absurdo como Espelho Político-Social
Escrito sob a atmosfera pesada do período da ditadura militar no Brasil (embora de forma alegórica), o livro reflete a vigilância e o controle sobre os corpos e as mentes. O "decreto inexistente" usado pelo chefe para demitir o funcionário é uma representação brilhante do autoritarismo institucionalizado, onde as regras são inventadas e moldadas apenas para punir quem se destaca da massa.

3. PRINCIPAIS ASPECTOS DE ESTILO E LINGUAGEM

Realismo Animista / Fantástico: A técnica de inserir um elemento impossível (um buraco indolor que atravessa a mão) dentro de um cenário extremamente hiper-realista e banal (o ponto de ônibus, a mesa de escritório cheia de papéis, o café da manhã).

Estrutura de "Via Crucis": Os contos (particularmente o principal) operam em uma gradação de perdas e rejeições que o personagem sofre à medida que caminha pelos espaços. Ele perde sucessivamente a família, o emprego, o direito de ir e vir e, finalmente, a dignidade civil.

Prosa Ágil e Jornalística: Marcado pela formação profissional de Loyola Brandão, o texto utiliza frases diretas, diálogos secos e descrições visuais precisas que conferem verossimilhança à narrativa, tornando o absurdo digerível e impactante para o leitor.

4. CONCLUSÃO

"O Homem do Furo na Mão" é uma obra de extraordinária atualidade sociológica. Ignácio de Loyola Brandão não propõe respostas fáceis ou lições de moral açucaradas; em vez disso, ele constrói uma fábula amarga sobre a solidão urbana e o preço da autenticidade. O final, embora trágico por consolidar a marginalização do protagonista, carrega uma fagulha de humanidade: a verdadeira empatia só é encontrada entre aqueles que já foram igualmente mutilados pela engrenagem excludente do mundo moderno.

5. RESUMO

Reúne narrativas curtas baseadas no absurdo, no insólito e na quebra da lógica cotidiana. O sumário do livro, que transita entre contos e reflexões metalinguísticas sobre o fazer literário, apresenta os seguintes resumos das histórias:

1. O Homem do Furo na Mão
Um burocrata preso a uma rotina cinzenta e a um casamento de aparências desenvolve, de forma inexplicável e indolor, um furo perfeito que atravessa a palma de sua mão. Enquanto ele redescobre a própria liberdade brincando com a sua nova singularidade, a sociedade reage com profunda aversão. A esposa o abandona, o chefe o demite usando um decreto falso e ele é escorraçado de todos os espaços públicos. O homem acaba encontrando acolhimento sob um viaduto, onde percebe que todos os marginalizados e invisíveis da cidade grande também têm furos nas mãos.

2. O Homem que Devia Entregar a Carta
Nesta alegoria sobre a angústia da responsabilidade e as cobranças burocráticas, um homem recebe a missão aparentemente simples de entregar uma correspondência. No entanto, o trajeto é tomado por obstáculos kafkianos, desvios absurdos, exigências burocráticas descabidas e um sentimento claustrofóbico de urgência que consome a sua sanidade, transformando o ato cotidiano de entregar uma carta em um labirinto existencial.

3. Os Homens que Não Receberam Visitas
Em uma atmosfera pesada e repressiva, esta história retrata a rotina de indivíduos confinados — que podem ser interpretados como prisioneiros de um regime autoritário ou cidadãos presos ao isolamento moderno. Eles passam o tempo na expectativa torturante de um contato com o mundo exterior. A ausência crônica de visitas revela a solidão profunda, o esquecimento institucional e o apagamento da identidade daqueles que foram colocados à margem da sociedade.

4. O Homem que Resolveu Contar Apenas Mentiras
Cansado da hipocrisia das convenções sociais — em que as pessoas usam meias-verdades para manter as aparências —, o protagonista toma a decisão radical de recorrer unicamente à mentira explícita em seu dia a dia. De forma irônica, à medida que ele inventa os cenários mais absurdos e descarados, a sociedade passa a aceitá-lo melhor e a validar suas mentiras, expondo como o mundo civilizado prefere o conforto da ilusão à crueza dos fatos reais.

5. O Homem que Entrou no Cano
Abordando o surrealismo físico mesclado à rotina urbana, um homem se vê, de maneira literal ou metafórica, deslizando para dentro de uma tubulação ou de uma engrenagem que o engole. A narrativa constrói uma metáfora poderosa sobre o sufocamento do cidadão comum pelas estruturas rígidas e inescapáveis da modernidade (como o trânsito, o trabalho mecânico e as regras sociais), em que o indivíduo perde o controle sobre os seus próprios movimentos.

6. O Homem que Punha a Mão Para Fora
O conto explora uma quebra drástica de protocolo em um ambiente rigorosamente controlado, onde estender um membro ou realizar uma ação simples que fuja da norma preestabelecida gera um verdadeiro colapso institucional. O ato inofensivo do personagem de colocar a mão para fora expõe a fragilidade e o autoritarismo de sistemas que dependem da obediência cega e da uniformidade absoluta para continuar existindo.

7. O Homem que Se Endereçou
Nesta contundente crítica à coisificação do ser humano nas metrópoles, o protagonista abdica de sua própria autonomia e decide se tratar como uma mercadoria ou uma encomenda postal. Ele escreve um endereço em si mesmo e se posta no sistema de entregas. A história ironiza como o capitalismo e a burocracia urbana reduzem o indivíduo a um mero código de barras, um objeto a ser despachado e processado sem qualquer traço de humanidade.

8. A Descoberta da Escrita
Afastando-se momentaneamente das metáforas urbanas pesadas, este texto funciona como uma narrativa de iluminação e encantamento. Trata-se da jornada de percepção de um indivíduo (ou de uma criança) diante do poder revolucionário das palavras e dos símbolos gráficos. É o momento em que os riscos no papel deixam de ser borrões e passam a codificar o mundo, abrindo as portas da imaginação, da memória e da liberdade individual contra a ignorância.

9. O Homem que Procurava a Máquina
Em um cenário que evoca a ficção científica social e a distopia, o protagonista vaga de maneira obsessiva por uma paisagem industrializada em busca de uma máquina específica ou de um aparelho que dê sentido à sua função ou engrenagem social. A busca desesperada e infrutífera reflete a dependência tecnológica crônica da humanidade, onde o homem moderno perde a capacidade de agir de forma independente e passa a definir sua própria utilidade com base nas ferramentas técnicas.

10. Pega Ele, Silêncio
Com um ritmo ágil e tenso que lembra as perseguições policiais e o clima de vigilância pesada, este conto personifica o "Silêncio" como uma força opressiva e perseguidora. O ato de calar ou o medo de falar o que não deve transforma o ambiente em um cenário de paranoia generalizada, fazendo eco direto ao clima de censura, denuncismo e mordaça ideológica característicos de períodos sob ditaduras militares.

11. O Presidente da China
Brincando com o imaginário popular, os boatos urbanos e o absurdo geopolítico, a história narra os desdobramentos cômicos e surreais que acontecem quando uma figura mítica ou uma autoridade distante — como o governante de um país longínquo — interfere direta ou indiretamente no imaginário, na rotina e nas paranoia cotidianas de cidadãos comuns de uma cidade brasileira, mostrando o impacto do boato e do medo do desconhecido na mente coletiva.

6. NOTA

O livro traz ainda o texto de encerramento "De onde nascem as histórias", uma crônica metalinguística em que Ignácio de Loyola Brandão dialoga diretamente com o leitor sobre o seu processo de criação literária, revelando como o absurdo de seus contos é extraído diretamente das contradições e bizarrias observadas nas calçadas da vida real.)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Maurício Friedrich (Colheita de Trovas)

 

A alva bruma que enverdece
os campos das pradarias
me faz dizer velha prece,
no entardecer dos meus dias!

Almejem sempre a vitória,
em todos empreendimentos,
que ficarão na memória,
pelos seus merecimentos.

A lua no céu passeia
num chão coberto de estrela,
deixa o sol, que tanto anseia
louco de amor, para vê-la.

Amar-te, pra mim, foi vício,
doença que não tem cura;
e este foi grande suplício
que me levou à loucura.

Amor é doce tormento!
Amor é vício sem cura!
É o amor um linimento
entre a razão e a loucura!

Amor, palavra tão doce
que nos enche de prazer;
é, às vezes, como se fosse
dor, a nos fazer sofrer!

A nora desesperada,
ao ver a sogra na porta.
lendo a receita trocada,
pôs formicida na torta.

Ansioso, meu coração,
vive, sempre, nesta espera:
de uma nova floração
da dourada primavera.

Ao chegar o meu outono,
sensato, hoje sou bombeiro:
quando jovem, perdi sono
por querer fazer braseiro!

Ao idoso, honra e venera,
a sua sabedoria;
na velhice, que te espera,
terás tu, a primazia...

Ao Novo Tempo a vitória,
neste concurso de paz:
pois, já bem merece a glória
quem pela trova assim faz.

Ao ter fé em Nosso Senhor,
levo a vida em linha reta,
pois, com fé, esperança e amor,
minha vida se completa.

Ao ver a Lua Bailando,
com tanto brilho e esplendor,
eu já me ponho rezando:
- Obrigado, meu Senhor!

Aposentou-se o freguês…
e a pobre esposa reclama
que, banho, é só um por mês,
mas, sem tirar o pijama!

Árido, feito um deserto,
meu coração sofredor
anseia, disto estou certo,
ser fértil com teu amor!

As flores todas são belas,
mesmo as que nascem em abrolhos,
mas, as mais lindas, dentre elas,
são as que vêm nossos olhos.

As folhas mortas que, ao vento,
bailam e caem ao chão,
me evocam, por um momento,
os ventos de uma paixão!

As marcas do teu batom
deixadas no meu cristal,
têm sabor e têm o tom
de um grande amor, no final...

As marcas que a tua ausência,
deixou em meu coração,
são as marcas da pungência
da nossa separação.

As trovas de um trovador
são belas, ricas em rimas
pois são feitas com amor,
verdadeiras obras primas!

A trova que é dita ao vento
tal qual o vento é fugaz;
existe, por um momento...
...e o próprio vento a desfaz!

A vida, às vezes, malvada,
traiçoeira, inconsequente;
nos tira a pessoa amada
e não tem pena da gente.

Bailando sempre a procura
do néctar de belas flores,
o beija-flor, com ternura
não se importa com as cores.

Beber da fonte hipocrátlca
para o médico é um dever,
é a fórmula democrática
da medicina exercer!

Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.

Bela musa, encantadora!
Igual eu nunca vi;
meiga e doce inspiradora;
foste tu que eu escolhi!

Carrego, dentro do peito,
a cicatriz de uma dor
que jamais me dá o direito,
de reaver teu amor!

Casamento - ação esperta!
Isto já está definido,
onde uma parte está certa
e a outra é sempre o marido!

Combater, do fumo o vício
para o médico é um mister:
exaltar seu malefício
como a ética requer!

Combater com veemência
o triste vício do fumo,
sem dó e sem clemência,
pra saúde andar no rumo!

Com grande amor e trabalho,
carinho e dedicação,
do meu amor eu me valho,
pra fisgar teu coração!

Como é bonito o Direito,
quando se julga uma ação
e, ao exercê-lo, perfeito,
sempre o que impera é a razão.

Como pode uma criança,
ser vítima de agressão,
se tem, cheio de esperança,
o inocente coração?

Como são belas as serras
do Estado do Paraná!
Que têm cobertas as terras
das cores do manacá!

Completa felicidade
é, por certo, uma utopia;
pois quem já sentiu saudade,
já sofreu melancolia.

Compondo versos eu sonho,
que trovador, inda, serei
e, nos versos, que componho
no teu nome já pensei!

Contigo sinto que a vida
tem sentido e fulgor,
pois teus carinhos, querida,
dão esteio ao meu amor!

Cuida, ao contar um segredo,
em quem tu vais confiar:
é a liberdade, bem cedo,
que, ao certo, vais entregar...

Dando fim às duras penas,
nossa princesa c'oa mão,
com dois artigos, apenas,
aboliu a escravidão...

Daquele beijo roubado,
em pausa de tua festa,
sinto o gosto adocicado,
o bom sabor que me resta.

Das felizes madrugadas,
sozinho, curto a saudade...
– Que alegria, nas noitadas,
dos tempos da mocidade!

Das folhas, vendo o cair,
pressinto o chegar do inverno
e o coração, a invadir,
saudade... do lar paterno,

De areia, fiz um castelo,
nas dunas, em vastidão,
e o vento, sem ter rasteio,
soprou...pôs tudo no chão.

Decidido e corajoso,
à tua porta eu bati,
foi o susto mais gostoso
que eu já pude dar em ti.

Dentre as coisas que cultivo,
para evitar vida obscura,
o saber é o incentivo
que aumenta minha cultura.

Dentre tantas namoradas,
que já tive em minha vida
e de todas as jornadas,
foste tu a escolhida!

Descrente, sou eu, de tudo...
muito mais sou de sereia
mas, é no verão, contudo,
que vejo tanta na areia!

Desde o dia em que partiste,
triste está meu coração:
este pobre não resiste
a dor da separação.

Desta vida, na escalada,
cada degrau tem a altura,
muito bem delimitada
no tamanho da cultura.

Distante de ti, amor,
noites insones, eu passo
fazendo a Deus um clamor:
pra ver-te, um dia, em meu braço!

Do amor, divino expressar,
a encantadora seresta
faz da janela um altar,
de apaixonados, em festa.

Do pai seguiu a carreira,
com amor, dedicação:
Tinha a semente certeira
plantada em seu coração!

Do sol em raios envolta
vi-te passar tão ditosa,
com puros gestos, tão solta,
tendo a beleza da rosa.

Dos corações, sempre em festa,
o amor, divino expressar...
faz com que cada seresta
torne a janela um altar!

Dos teus carinhos, distante,
na insônia de cada noite,
fico a pensar, num instante,
esta distância é um açoite.

É indizível a tristeza,
dum sabiá na gaiola;
cabisbaixo e sem beleza
nem à amada, cantarola!

É nobre de coração,
o médico pediatra:
dá amor, carinho e afeição,
à toda criança que trata!

É tão atroz a distância
a nos separar, amor,
que só a saudade, em constância
ameniza a minha dor.

É tão linda esta menina!
Linda? Parece boneca...
Mas, se namora na esquina,
logo vira uma sapeca.

É uma escultura, bem-feita,
de uma costela qualquer:
criada por Deus, perfeita,
que lhe deu nome...: mulher!

É verdadeira a amizade,
quando nunca se destrói,
com tempo vira irmandade
e faz do amigo um herói!

Hoje sou um moribundo
nas cinzas do teu amor
e não vejo, neste mundo,
remédio para esta dor!

Insone, em noites frias
e em permanente vigília
de mamãe com as ave-marias
recomendava a família.

Irradiantes de alegria!
façamos trovas de amor,
para louvar, no seu dia,
o poeta Trovador!

Já inventaram um remédio,
de um certo tom azulado,
que tira moço do tédio
e deixa velho… assanhado!

Já no ocaso desta vida,
com tanta conta a ajustar,
peço a Deus, seja abatida
a despesa.. por te amar!

Lembranças da mocidade
são um espelho em que a gente
só vê, com tanta saudade,
o passado... no presente!

Lembro de ti, com saudade,
nos tempos que longe vão;
tu eras felicidade,
dentro do meu coração!

Lindos traços, no teu rosto,
que harmonizam a beleza,
me fazem exclamar com gosto:
-Tu és, sim, minha princesa!

Meu amor da mocidade
foi efêmera ilusão:
dele só resta a saudade,
nas cinzas de uma paixão.

Meu coração é um deserto
por falta do teu amor,
se me ofertares, por certo,
virará, um jardim de flor!

Minha herança não tem ouro,
um conselho é o meu legado:
– Meu filho, mais que um tesouro,
vale um homem muito honrado!

Minha paixão foi loucura
por amar-te tanto assim;
hoje estou nesta tortura:
- Por que tu foges de mim?

Pobre é a nação sem cultura,
sem heróis e sem memória,
cujo povo não procura
resgatar a sua história!

Poesia, versos de amor
nascidos no coração;
versos em que o rimador
exprime a sua paixão.

Poeta! Sou trovador!
Que todos possam saber:
faço trovas por amor,
faço trovas por prazer.

Regressaste!.... Que alegria!
E a saudade se desfez!
Hoje minha alma irradia
felicidade outra vez!

Restou tão grande a distância,
que nos separa no amor,
que já não dou importância,
se minha vida se for.

Saibam todos que o trabalho,
ao bom homem enobrece,
mas, quem não pega no malho,
seu espírito empobrece!

Salve, ó verão de mil cores,
ao despertar o manacá
que cobre, todas, de flores
as serras do Paraná!

São Francisco, nas veredas,
feito um pobre vagabundo,
despido de suas sedas,
encheu, de amor, este mundo!

Saudade... dor da lembrança
de alguém que distante está;
é o sentir de uma esperança
de que esse alguém voltará!

Saudade é uma dor silente
que nos ataca e vem mansinha;
entra no coração da gente,
toma posse e ali se aninha!

Saudade, saudade e meia,
é o que sinto de você;
meu coração serpenteia,
- só você é que não vê!

Saudade! Triste amargor!
Dolorosa e tão pungente,
a nos causar tanta dor;
só a entende quem a sente!

Se encontro, ao voltar pra casa,
as tuas mãos carinhosas,
o meu amor já se abrasa,
com teu perfume de rosas.

Segue, meu filho, na estrada,
os trilhos da retidão:
sê firme em cada pisada
que as honras te seguirão!

Sigo, na vida, o caminho
penoso, porém, correto,
que aprendi, desde meu ninho,
com meu pai severo e reto.

Sim, nas cores do arrebol,
Deus, o mais perfeito esteta,
sob a luz do pôr do sol,
dá inspiração ao poeta..

Singrando mares incertos,
marujo, audaz, varonil
achou montes, recobertos
com flores: Eis o Brasil.

Sinta o perfume das flores
nas serras do Paraná,
tem árvores de mil cores:
– primaveras ou manacá.

Teu charme, encanto e beleza
dão aos poetas um tema,
ó encantada Fortaleza,
linda Terra de Iracema!

Teu conselho, pai querido,
de retidão e de amor,
faz-me, hoje, já envelhecido,
mais entender seu valor!

Teve um infarto, na cama,
a noiva, que é tão frajola,
ao ver que, em vez do pijama,
o noivo pôs camisola!

Tico-Tico seresteiro
que vives, sempre, a cantar,
põe teu ninho em meu terreiro;
vem comigo avizinhar!

Vai, meu filho! Não tropeces
nas pedras do teu caminho:
a Deus, faze tuas preces
e não seguirás sozinho!

Vejo uma gota de orvalho
pairando sobre uma rosa:
de Deus, é mais um trabalho
para tomá-la formosa.

Vendo-a sentada no ninho
ditosa mamãe beija-flor,
vejo que há muito carinho
neste seu gesto de amor.

Vi beleza… colhi flores
nesta vida, em seus caminhos,
mas às vezes senti dores
causados por seus espinhos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Maurício Friedrich (1945 – 2020)
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH foi um destacado médico, advogado e um dos nomes mais relevantes do movimento trovadoresco contemporâneo no Sul do Brasil. Assim como outros grandes trovadores radicados no Paraná, ele uniu a dedicação à ciência e à saúde com a sensibilidade da poesia da trova. Nasceu em Porto União/SC, em 1945, filho da trovadora e professora Araceli Rodrigues Friedrich. Faleceu em Curitiba/Prem 2020, aos 74 anos de idade. Embora tenha nascido em Santa Catarina e estudado no Rio de Janeiro, ele estabeleceu sua residência e sua vida familiar definitiva em Curitiba. Formou-se em 1972 pela Faculdade de Medicina de Campos (Rio de Janeiro). Especializou-se em Cardiologia e Medicina do Trabalho. Atuou na clínica privada, trabalhou na Secretaria Estadual de Saúde, na Fundação Copel e chefiou por cinco anos a Divisão Hospitalar do Instituto de Previdência do Estado (IPE). Paralelamente, também concluiu a graduação e formou-se em Direito. 
Sua paixão pela trova foi herdada de sua mãe. Ao longo dos anos, Friedrich tornou-se uma das lideranças institucionais mais respeitadas no meio literário da trova, atuando em nível nacional e estadual. Ocupou Cadeira da Academia Paranaense da Poesia, Presidente da UBT Estadual do Paraná e da Seção Curitiba. Participava ativamente de concursos de trovas em todo o país e teve composições premiadas e classificadas em diversos Jogos Florais. Suas publicações literárias focavam-se prioritariamente em coletâneas coletivas, antologias poéticas e revistas culturais de trovas, registrando sua herança lírica no Paraná.
A importância de Maurício Friedrich para a literatura reside em sua forte liderança e articulação institucional do movimento trovadoresco. Em uma época de transição e renovação das letras, Friedrich trabalhou ativamente na administração da UBT (tanto municipal, quanto estadual) para manter viva a tradição da trova. Ao organizar eventos, gerir as seções literárias do Paraná e produzir poesias que traduziam sentimentos universais com simplicidade, ele garantiu o fortalecimento e a união da comunidade de trovadores do Sul do Brasil. 

Fontes:
Luiz Hélio Friedrich. Maurício Norberto Friedrich. Família Friedrich em Trovas. Curitiba/PR: Centro de Letras do Paraná, 2018.
Sites Consultados = Singrando Horizontes (dados enviados pelo trovador), Conselho Regional de Medicina do PR, etc.

Nilto Maciel (Amapa)


Liana Bennato sorriu e fez mais uma pergunta. Se Amapa conhecia o Amapá. O grande astro também sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo.

O homem e a mulher não despregavam os olhos da televisão, enquanto as crianças brincavam, sentadas a um canto da sala.

— Não façam barulho.

Amapa não parava de sorrir e brilhar, e a bela repórter enrodilhava-se toda diante dele. O grande público certamente delirava à frente dos televisores. Como o homem e a mulher que ralhavam com as crianças em brincadeira.

— E a origem de seu nome?

— Eu já havia escolhido meu nome artístico, quando uns amigos criaram Amapa. Segundo eles, muito mais comercial.

Liana Bennato repetiu para os telespectadores o vasto nome de batismo do artista: André-Maria Ampére Parente.

— Alguma homenagem, Amapa?

— Acredito que à eletricidade. Meu pai era eletricista.

— Você se refere à palavra ampère, não é? E de onde vem André-Maria?

O homem e a mulher sacudiram-se no sofá e chamavam a atenção das crianças para a entrevista.

— André e Maria, vejam, vejam!!!

— Que coisa mais linda! — derretia-se a mulher.

A loira repórter também brilhava diante das luzes: qual teria sido então o nome artístico dado a si mesmo por Amapa?

— A. Parente.

— Não, não ia ficar bem — considerou o homem.

— Eu preferia Amperente — luziu a mulher.

Nem assim os dois pequenos desviaram a atenção de suas bugigangas.

— Amapa, fale-nos de seus planos para este ano.

O grande astro falou primeiro do disco a ser gravado nos Estados Unidos e, em seguida, passou à turnê pela Europa.

O homem e a mulher continuavam ligados à tevê, olhos arregalados, ouvidos abertos, respiração presa. Amapa cativava ambos os sexos, agradava a gregos e troianos, compunha, cantava, dançava. Um poeta inimitável.

— Compre o disco novo do Amapa — ordenava a mulher.

— Já comprei — adiantava-se o homem.

Ora, então ia deixar de ter à mão aquela voz maravilhosa? Há mais de dez anos acompanhavam o sucesso de Amapa. Desde o primeiro LP.

— Você se lembra, meu bem?

— Claro que me lembro.

Havia até um cantor muito parecido com ele.

— Quem era, hem?

— Não me lembro agora.

As crianças não ligavam para a televisão, nem para o homem e a mulher extasiados diante dela. Preferiam brincar. E tudo lhes servia de brinquedo. Tudo o que não interessava mais ao homem e à mulher.

— Me dá isso, pai.

E a velha lista telefônica virava aeroporto. Os aviões nem sempre tinham asas e só faltavam se espatifar na hora do pouso.

— Não façam barulho, filhinhos.

No televisor, Amapa cantava trechos de uma das músicas do novo disco. A repórter delirava. O homem e a mulher deram-se as mãos.

  — Amapa, sempre Amapa.

Os pequenos esfregaram um objeto no chão da sala. Uma velha capa de disco. Ora, aquilo irritava. Parassem já com a esfregação.

— Amapa, conte-nos aquela história da festa – pediu Liana.

O astro sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo. Acreditava no destino. Desde menino sonhava com o sucesso. Um dia, descobriu que se parecia naturalmente com certo cantor de nome L. Veríssimo, então no auge da fama. E resolveu aproveitar-se daquilo, apesar de ser muito mais novo do que o cantor.

— A festa não tinha nada a ver com a música. Era o casamento da filha de um político importante, que, aliás, já morreu. E eu simplesmente fui à recepção, como se fosse L. Veríssimo.

— E ninguém desconfiou de nada?

— Não sei. Só sei que olhavam muito para mim. O resto você sabe.

O homem e a mulher gargalhavam, batiam palmas, faziam o maior barulho, enquanto as crianças rasgavam livros e capas de discos antigos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Nilto Maciel (1945 - 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As insolentes patas do cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Estante de Livros (“Rosinha, minha canoa”, de José Mauro de Vasconcelos)

"Rosinha, minha canoa", publicado em 1962, é uma das obras mais poéticas e singulares de José Mauro de Vasconcelos (autor do célebre Meu Pé de Laranja Lima). O livro narra a jornada de Zé Orocó, um caboclo ribeirinho que vive no interior de Goiás, às margens do rio Araguaia. O cerne da narrativa é a amizade profunda, mística e comovente entre Zé Orocó e Rosinha, sua canoa de madeira, com quem ele conversa e compartilha segredos, dores e a sabedoria da natureza.

1. ESTRUTURA E ENREDO: A VIAGEM PELO ARAGUAIA

O enredo se constrói como uma narrativa de viagem (itinerante) física e espiritual ao longo das águas e das florestas da região do Araguaia.

A Relação Animista: 
Zé Orocó não vê Rosinha como um objeto, mas como um ser vivo dotado de alma, sentimentos e voz. Ela o aconselha, adverte sobre os perigos do rio e chora quando ele sofre. Essa capacidade de falar com a canoa (e com os animais) isola Zé Orocó da sociedade dos homens "brancos" e civilizados, que o consideram louco.

O Choque Cultural: 
A calmaria poética da vida de Zé Orocó e Rosinha é constantemente confrontada com o avanço do "progresso" e da incompreensão urbana. O ápice do conflito ocorre quando o protagonista é internado à força em um hospital psiquiátrico na capital, sendo arrancado de seu ecossistema e de sua companheira.

2. PRINCIPAIS PERSONAGENS E ENTIDADES

– Zé Orocó = Protagonista. Encarna o homem puro integrado à natureza. Sua sensibilidade é confundida com loucura pela sociedade ocidentalizada. 
– Rosinha = A Canoa. Simboliza a conexão com o sagrado, a liberdade e a extensão do próprio ser de Zé Orocó. É o porto seguro dele. 
– O Rio Araguaia = Espaço / Entidade. Funciona como o fluxo da própria vida; um Deus provedor, mas que também exige respeito e cobra suas dívidas. 
Os Médicos / A Cidade = Antagonistas. Representam a racionalidade fria, o preconceito e a tentativa de enquadrar o lirismo e o misticismo em diagnósticos clínicos. 

3. TEMÁTICAS CENTRAIS 

O Animismo e a Comunhão com a Natureza
José Mauro de Vasconcelos utiliza o animismo (atribuição de alma a elementos não humanos) para criticar o materialismo moderno. Para Zé Orocó, as árvores, as aves, as águas e Rosinha são sua verdadeira comunidade. O autor resgata uma visão de mundo muito próxima à cosmologia indígena, onde o homem não domina a natureza, mas faz parte dela em um pacto de respeito mútuo.

A Linha Tênue entre Loucura e Poesia
A "loucura" de Zé Orocó é, na verdade, um excesso de lirismo. O livro questiona os critérios da sociedade moderna para definir a sanidade: quem é verdadeiramente louco? O homem que conversa com sua canoa e respeita os ciclos da floresta, ou os homens "sadios" da cidade que destroem a natureza, buscam o lucro desenfreado e aprisionam a poesia? A internação de Zé Orocó é uma metáfora do sufocamento da beleza pela burocracia humana.

A Viagem como Metáfora Existencial
Navegar o rio Araguaia com Rosinha é a busca de Zé Orocó por sua própria identidade e paz de espírito. As águas calmas e as correntezas perigosas representam os altos e baixos da existência. A canoa é o instrumento que permite ao protagonista flutuar sobre as dificuldades do mundo.

4. ESTILO LITERÁRIO E LINGUAGEM

O estilo de José Mauro de Vasconcelos em "Rosinha, minha canoa" é marcado pelo realismo mágico e por uma prosa altamente sentimental e fluida, quase musical. O autor utiliza uma linguagem simples, pontuada por termos regionais e descrições sensoriais exuberantes da fauna e da flora do Brasil central. É uma literatura que apela diretamente à empatia e à emoção do leitor.

5. CONCLUSÃO: O LEGADO DE ROSINHA

"Rosinha, minha canoa" é um manifesto ecológico e humanista precoce. O desfecho, embora marcado pela melancolia da perda e da incompreensão humana, reitera a imortalidade dos laços afetivos que criamos com o mundo ao nosso redor. O livro permanece como um convite para que o leitor resgate a capacidade infantil e poética de "escutar" as vozes silenciosas da natureza.

6. RESUMO

"Rosinha, minha canoa" reconstrói de forma cronológica a trajetória de Zé Orocó, dividida entre o lirismo de sua vida no rio e o impacto doloroso de seu confronto com o mundo urbano.

O Cenário e o Pacto de Amizade (O Início)
A narrativa se passa na exuberante e isolada região do rio Araguaia, em Goiás. O protagonista é Zé Orocó, um homem simples, de alma pura e profunda sensibilidade, que vive em total harmonia com o ecossistema ribeirinho. Ele constrói uma canoa de madeira a quem dá o nome de Rosinha.

Diferente das outras pessoas, Zé Orocó possui o dom (ou a condição) de se comunicar com elementos da natureza. Ele e Rosinha desenvolvem uma relação animista: a canoa ganha voz, personifica sentimentos, aconselha o companheiro sobre os perigos das correntezas, avisa quando o tempo vai mudar e divide com ele piadas, cantorias e melancolias. Para Zé Orocó, Rosinha é sua confidente, sua esposa espiritual e a extensão de sua própria existência. Ele também conversa com os bichos da floresta e respeita rigorosamente as leis do rio.

A Jornada Fluvial e o Choque com a Civilização
O miolo do livro funciona como um diário de viagem. Zé Orocó e Rosinha navegam pelas águas do Araguaia, encontrando diferentes personagens: garimpeiros, pescadores, viajantes e populações indígenas. Nessas interações, fica evidente o contraste entre a visão de mundo poética do protagonista e o pragmatismo das pessoas que ele encontra.

Para a maioria dos homens da região, Zé Orocó é apenas um "lelé", um louco inofensivo que fala sozinho dentro de um pedaço de madeira. No entanto, sua loucura não faz mal a ninguém; pelo contrário, ele transborda bondade. O problema surge quando essa "excentricidade" chega aos ouvidos das autoridades da cidade e de pessoas que não conseguem tolerar o desvio dos padrões sociais de normalidade.

O Aprisionamento da Poesia: A Internação na Cidade
O ponto de virada trágico da obra ocorre quando Zé Orocó é forçado a deixar o seu habitat. Preocupados ou incomodados com seu estado mental, os homens da "civilização" decidem intervir. Zé Orocó é capturado e levado para um hospital psiquiátrico na capital.

Essa mudança é devastadora. Arrancado do Araguaia e separado de Rosinha, Zé Orocó murcha. Na clínica, cercado por paredes brancas, camisas de força e diagnósticos médicos frios, ele experimenta a verdadeira solidão. Os médicos tentam curar sua "loucura", mas o que estão fazendo, na verdade, é tentar extirpar a sua capacidade de poetizar a vida. No hospício, Rosinha silencia em sua mente, pois o ambiente urbano e racional quebra a conexão mística que ele mantinha com o absoluto da natureza.

A Volta para Casa e o Destino de Rosinha (O Desfecho)
Após um período de grande sofrimento e incompreensão, Zé Orocó consegue o direito de retornar ao seu amado rio Araguaia. Ele volta mudado, carregando as cicatrizes do trauma urbano, mas ansioso pelo reencontro com sua companheira de madeira.

Ao reencontrar Rosinha, a conexão se restabelece, mas o mundo já não é o mesmo. A canoa, que também sofreu com a ausência e com o abandono na margem do rio, reflete a melancolia de Zé Orocó. Em uma das cenas mais pungentes do desfecho, o destino de Rosinha é selado pela fatalidade do tempo ou pelo sacrifício da própria jornada. A separação física ou a destruição da canoa marca o fim de uma era de pureza total. Zé Orocó compreende que, embora a sociedade possa destruir as formas físicas da beleza e aprisionar os corpos, a verdadeira essência de sua amizade com Rosinha e sua fusão com o Araguaia são eternas e indestrutíveis.