O peregrino sobre o mar de brumas(Casper David Friedrich)

Ao ingressar para a vida cotidiana daquela urbe, descobriu logo, junto à praça de uma pequena igreja, o lugar ideal para o seu destino de homem pobre, que necessitava da caridade pública para sobreviver.
No local escolhido, todos os dias, empunhando o tosco instrumento, ele dava para os transeuntes seu concerto musical, executando as mais variadas melodias.
Não pedia nada a ninguém, mas o seu boné azul desbotado, colocado sobre o lajedo da calçada de boca para cima, solicitava por ele um auxílio monetário às pessoas caridosas que pelo local passavam.
No início, quando era novidade no bairro, muita gente interrompia o trajeto para aplaudi-lo, porque na realidade ele manejava aquela flauta de bambu com a habilidade de um exímio artista. Depois, com o passar dos dias, os ouvintes foram diminuindo, e também escasseando os níqueis que caíam em seu surrado boné.
Quando o sol descia no horizonte, o flautista partia para o repouso noturno, levando o parco produto da féria do dia.
Nunca soubemos como e onde se alimentava, nem em que lugar o pobre homem se abrigava da noite densa. Mas pela manhã, quando o sol, com sua luz dourada, abria as portas do dia, lá estava ele reaparecendo para a continuação das suas atividades.
Sempre recolhido em sua introspecção, não conversava; apenas com leve aceno de mão agradecia sempre aos que lhe auxiliavam com a pequena contribuição monetária.
Descobriu-se afinal, que o pobre flautista era mudo. Não podia falar, mas a sua voz era ouvida nos acordes da melodiosa flauta que magistralmente tocava.
Durante um ano inteiro o «homem da flauta», como era chamado, alegrou o bairro com a sua música maravilhosa, mas com o tempo o seu público foi se dispersando definitivamente.
Certo dia, o mágico da flauta desapareceu. Muita gente perguntou por ele. Para onde teria ido e porque teria partido, ninguém conseguiu explicar.
Chegou de algum lugar e para algum lugar partiu, como um simples forasteiro, um peregrino, uma ave que constantemente fugisse sem rumo, em busca de calor humano, talvez...
Partiu, deixando no seu rastro de artista e de sofredor, uma lembrança qualquer. Motivos insuperáveis podem guiar as ações dos homens.
Que mistério envolveria aquele personagem estranho? Quem poderia adivinhar o que vai perdido no coração de um homem solitário? Que turbilhão de sombras se entrechocam na alma dos desamparados, dos desesperados que se encontram ilhados na miséria e no desconsolo? Dos que perdem suas últimas esperanças no descaso dos que passam indiferentes à sua dor?...
Que convulsão de tristezas pode ocultar-se por trás da máscara da face? Que destinos enigmáticos e desencontrados guiariam os homens na senda da sua sorte e das suas paixões?...
Fontes
http://www.movimentodasartes.com.br
Pintura = http://vislumbre.files.wordpress.com
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