Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 29 de julho de 2018

Contos e Lendas do Mundo (Inuit: Pássaro negro, Céu resplandecente)

Hoje, a terra dos esquimós canadianos (Inuit) tem luz do dia durante metade do ano e noite durante a outra metade. Porém, segundo um mito esquimó, não foi sempre assim. Era um lugar de noite eterna.

Outrora, na bruma do tempo, a terra dos esquimós era um lugar de completa escuridão. Era um local ermo de desertos gelados, onde o frio cortante trespassava as peles usadas pelos esquimós e cravava os seus dentes até ao tutano. Mas pior do que o frio era a interminável noite. Meia-noite ou meio-dia, o céu era negro como os vultos das focas a nadar por baixo do gelo.

Nesta escuridão, nasciam crianças, construíam-se iglus e caçavam-se animais. O tempo parecia não ter significado, porque não havia dias para contar. O povo deste deserto terrível tinha apenas as suas lamparinas de óleo de foca para iluminar a escuridão.

Para passar o tempo, os esquimós passavam a maior parte das suas vidas dentro dos iglus a contar histórias uns aos outros, mas um dos mais populares contadores de histórias não era um humano. Era um corvo.

Ao contrário dos esquimós, este pássaro viajara por toda a parte. Numa hora, as suas asas podiam levá-lo a uma distância que um homem ou uma mulher só conseguiam cobrir ao fim de um dia de caminhada sobre o gelo traiçoeiro sem a luz do Sol para os guiar. No entanto, as horas e os dias não significavam nada para os esquimós canadianos.

O Corvo falava-lhes de todas as outras terras que vira e de uma coisa chamada Luz do Dia.

–  O que é essa Luz do Dia de que falas? - indagou um jovem caçador. - Não compreendo.

–  E mais brilhante do que o relâmpago que ilumina o céu numa trovoada - disse o Corvo. - Porém, ao contrário do relâmpago, não desaparece num piscar de olhos.

–  Queres dizer que o céu fica brilhante? - perguntou o jovem caçador.

–  Sim - disse o Corvo. - Em vez do céu ser escuro como as pupilas dos teus olhos, é claro como o branco que as rodeia.

 –  Como é que isso é possível? - perguntou uma velhota. - Já vivi mais do que qualquer um que está sentado neste círculo, e nunca vi essa coisa a que chamas Luz do Dia.

 –  Nunca nenhum de nós viu algo com nitidez! - gritou o jovem caçador. - Vivemos num mundo de sombras... num mundo iluminado pelo brilho amarelado das nossas lamparinas de óleo de foca. Sem isso, seríamos completamente cegos.

 –  Então traz-nos um pouco dessa Luz do Dia, Corvo, para nos ajudar nas nossas vidas diárias - suplicou a velhota. - Não para provar a verdade do que dizes, pois não duvidamos da tua palavra, mas para nos ajudar.

 O Corvo estava sempre ansioso por ajudar os esquimós. Não tinha nenhum motivo para visitar a terra deles, mas eles eram seus amigos e era por isso que voltava sempre para eles.

 –  Sim - acrescentou o jovem caçador. - Importas-te de ir até ao mundo da Luz do Dia e de nos trazer um pouco dela?

 –  Vou tentar - disse o Corvo.

 Na manhã seguinte - embora ninguém pudesse afirmar que era manhã, pois o céu ainda estava negro - o Corvo partiu para a sua viagem. Uma multidão de pessoas juntara-se na escuridão para o ver partir.

 –  Boa sorte! - gritaram, mas no momento em que ele voou para o céu, deixaram de ver o seu amigo, pois as suas penas eram tão negras como o ar que o rodeava.

 Voou até avistar uma luz bruxuleante no horizonte. Chegara finalmente à terra da Luz do Dia e então - e só então - pousou, completamente esgotado, para dormir.

 Quando o Corvo acordou, pensou na missão que tinha pela frente. Os esquimós eram boas pessoas. Como a comida era escassa na sua terra, partilhavam sempre com prazer o pouco que tinham entre si. O Corvo sabia que nem todas as pessoas se comportavam assim, e que aqueles que possuíam a Luz do Dia não estariam dispostos a dar-lhe um pouco dela, por mais pequeno que fosse esse pouco. Teria de a roubar.

 O Corvo voou até uma aldeia e procurou a casa do chefe, porque sabia que a pessoa mais importante da aldeia estaria encarregue da Luz do Dia. Pousou no peitoril da janela e viu uma criança a engatinhar em cima de um tapete de pele de urso, sob a vigilância do seu amado avô, o chefe.

 O Corvo viu pela expressão do chefe que adorava o seu neto e que faria tudo por ele. O rapaz poderia pedir qualquer coisa que o avô, para o fazer feliz, lha daria - o Corvo não tinha qualquer dúvida a esse respeito.

 Uns dizem que o Corvo se transformou num grão de poeira e entrou na orelha do rapazinho. Outros dizem que o Corvo falou com o rapaz quando o chefe saiu de casa para ajudar a filha a transportar um balde de água. Fosse como fosse, o Corvo suspirou para o rapaz:

 –  Pede ao teu avô um bocado de Luz do Dia... um bocadinho chegará, com um fio para a segurar.

 O rapaz, excitado, gritou:

 –  Vovô! Vovô! Deixe-me brincar com um bocadinho de Luz do Dia. Mas a Luz do Dia era demasiado preciosa para se poder brincar com ela, por isso o chefe tentou distrair o neto.

 –  Agora não, criança - disse ele. - Deixa-me contar-te a história de Nanook, o urso branco.

Pegou num pequeno urso feito de dente de morsa e pô-lo num tapete ao lado do rapaz. Depois, começou a contar ao neto a sua história favorita - o conto esquimó de como um urso-polar salvou a vida de um homem aquecendo-o com o seu corpo e pescando peixe para ele comer, e de como ele ensinou ao homem que os ursos e os homens eram irmãos.

Porém, pela primeira vez, a história perdeu a sua magia. O rapaz só pensava na Luz do Dia. Era só um bocadinho de Luz do Dia que ele queria para brincar e, depois de começar a chorar, foi um bocadinho de Luz do Dia que lhe foi dado - com um fio para a segurar.

–  Obrigado, vovô! - O rapaz sorriu, segurando a brilhante orbe.

Antes que alguém soubesse o que estava a acontecer, o Corvo bateu as asas desde o sítio onde estivera escondido e agarrou no fio.

Fugiu então pela porta que fora aberta pelo pai do rapaz, que regressava de uma caçada.

O Corvo voou em direção ao céu, esquivando-se a uma torrente de setas disparadas contra ele pelo chefe e os seus aldeões. Com ele, levava o bocado de Luz do Dia, brilhante como uma bola cor de laranja. Continuou a voar, sem nunca se atrever a parar, enquanto levava a Luz do Dia aos seus amigos, os esquimós.

Era apenas um bocadinho, naturalmente, porque o Corvo não teria conseguido transportar algo muito maior, mas era suficientemente grande para fornecer luz e calor aos seus amigos durante meio ano. Pela primeira vez, tinham luz natural. A velhota, o jovem caçador e todos os outros esquimós ficaram muito gratos por aquilo que o Corvo fizera, arriscando a vida para lhes trazer a Luz do Dia.

–  Obrigado - disseram. - Nunca esqueceremos o que fizeste por nós. As tuas façanhas serão contadas em histórias pelos nossos filhos e netos. O teu nome perdurará entre o nosso povo para sempre.

Numa terra onde a caça é ainda difícil e a comida é ainda escassa, os esquimós canadianos nunca matam corvos. São amigos dos pássaros, e agora sabeis porquê.

Fonte:

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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