Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Milton S. Souza (Um Estranho Pescador)


Ele apareceu nas areias daquela pequena praia assim como aparecem e desaparecem tantos veranistas em todos os verões. Quase ninguém notou aquele homem alto que ocupou uma casinha abandonada há muito tempo na área da Marinha. O Luís só foi notado e só virou “Luís” quando todos os veranistas foram embora junto com o verão e os pescadores, verdadeiros donos da praia, recolocaram as suas grandes redes no mar para continuar sobrevivendo. Luís estava lá, olhar perdido no horizonte, barba grande, um toco de cigarro amassado no meio dos dedos, distante de tudo. Não conhecia ninguém. E ninguém lhe conhecia.
Certo dia, o mar estava muito violento quando os pescadores tentaram entrar nele para amarrar a corda que levava a rede numa âncora colocada a cerca de 100 metros dentro das águas, marcada por uma boia. Três ou quatro tentaram entrar nadando, mas todos desistiram. O Luís não resistiu. Desceu o cômoro, foi até o grupo de homens que não conhecia e se ofereceu para entrar nadando no mar para amarrar a corda. Mesmo desconfiados, os rudes pescadores aceitaram a oferta. E Luís nadou como um peixe no meio daquelas ameaçadoras ondas. Depois de deixar a corda amarrada  na âncora, nadou de volta e foi recebido com palmas e gritos na beira da praia. A partir daquele dia, passou a fazer parte da turma, ajudando a colocar e retirar a rede, de manhã bem cedo a no final de cada tarde.
Ninguém perguntou nada, além do seu nome. Mas, aos poucos, depois de se entrosar com o grupinho, e nos dias em que tomava umas pingas além da conta, o Luís foi se abrindo. E contou a sua história: engenheiro agrônomo, solteiro, filho de um famoso médico de Fortaleza. Quando mais jovem, uma sede de aventuras levou os seus olhos da cor do mar até a Serra Pelada. Lá, ele gastou vários anos de vida juntando ouro. Queria voltar rico e provar para a família que podia dar um rumo para a sua vida sem precisar sobreviver na sombra do pai. Perdeu o rumo, quando alguém tentou assaltar o casebre onde dormia, depois de um dia de muito trabalho no garimpo. A mesma picareta que usava para cavar a pedra na busca de ouro, serviu de arma para matar o ladrão. E os seus sonhos de riqueza morreram junto com o desconhecido inimigo. Precisou gastar todo o ouro que já havia conseguido para não ser preso pela polícia, comprando esconderijos e pagando por uma fuga e a volta para o Nordeste. A família não perdoou a sua falha. E ele resolveu morar sozinho na beira do mar, numa praia bem distante, sem ninguém por perto para ameaçar a sua liberdade. Sua habilidade como nadador e sua educação acima da média, foram passaportes para ser aceito no grupo. Morreu o Luís engenheiro agrônomo e nasceu o Luís Pescador.
Hoje o Luís sobrevive dos peixes que ganha quando ajuda os pescadores e das gorjetas que recebe quando alguém precisa levar uma corda ou buscar uma rede nas profundezas do mar. Quando bate a saudade da vida antiga, dos pais ricos e das mordomias que desfrutava, afoga as mágoas nos tragos e caminha alegre, cantando músicas pelas ruas do vilarejo. Nas outras horas, é apenas o Luís caladão, que fala pouco, mas ajuda muito, e que não troca os seus novos amigos pescadores nem por todo o ouro que deixou para trás no sonho dourado da Serra Pelada.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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