Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Contos e Lendas do Mundo (Nação Algonquina: O Choro que Derrotou um Deus)

Para as tribos algonquinas, Glooscap era um deus poderoso e sagaz. Não tinha medo de ninguém, e acreditava que não havia nada nem ninguém que não conseguisse conquistar.

Glooscap estivera longe do seu povo durante muito tempo. Enfrentara inimigos e derrotara-os com a sua bravura, a sua astúcia e a sua perspicácia. Quando regressou a uma das suas tribos, Glooscap gabou-se da sua grandeza.

- Não há ninguém que não me receie ou que não me obedeça.

- Estais assim tão seguro disso, senhor? - perguntou uma mulher. Conheço alguém que não vos obedecerá.

Surpreso com a novidade, mas excitado com o desafio, Glooscap pediu para saber o nome deste ser.

- Chama-se Wasis - disse a mulher.

- E não tem medo de mim? - perguntou Glooscap.

- Não - disse a mulher. - Ele faz sempre aquilo que quer. Ele não vos obedecerá, senhor.

- Então esse Wasis tem de ser muito poderoso - disse Glooscap.

- À sua maneira - concordou a mulher.

- É tão alto como os Kewawkqu? - indagou Glooscap. Os Kewawkqu eram uma raça de gigantes e feiticeiros.

- Não - disse a mulher. - É mais pequeno do que um diabrete.

- A sua magia é maior do que a dos Medecolin? - perguntou Glooscap. Os Medecolin eram feiticeiros perspicazes.

- Não - disse a mulher. - Ele não sabe nada de magia.

- É tão mau como Pamola? - indagou Glooscap. Pamola era um espírito maligno da Noite.

- Não - disse a mulher. - Wasis não é nada dessas coisas. Não é gigante. Não é feiticeiro e não há nada de maligno nele.

- No entanto, ele não me receia e não me obedecerá! - vociferou Glooscap, que estava desconcertado com a ideia do poderoso Wasis. Levas-me até ele?

- Se quiserdes, senhor - disse a mulher. - Wasis vive perto. Venha.

Com aquilo, ela conduziu Glooscap até uma tenda vulgar. A tenda, em forma de abóbada, tinha uma estrutura de madeira e estava coberta de pedaços de casca de vidoeiro.

- Wasis vive aqui na vila? - perguntou Glooscap. Por que razão é que nunca ouvira falar dele? E porque é que alguém tão poderoso como ele não vivia numa tenda mais imponente, com peles de animais em vez de casca de vidoeiro como cobertura?

- Sim - disse a mulher. - É esta a tenda dele.

Entraram na tenda e o deus olhou em redor. Parecia-lhe familiar.

- Esta não é a tua tenda? - perguntou.

A mulher fez um sinal afirmativo com a cabeça.

- Sim, senhor, mas agora é também a tenda de Wasis.

- Onde é que ele está então? - indagou Glooscap.

A mulher apontou para um bebê que estava sentado em cima de um tapete, a chupar um pedaço de açúcar de bordo.

- Aquele é Wasis - disse ela.

- Mas ele não passa de um bebê! - disse Glooscap, e soltou uma sonora gargalhada.

- Nem mais nem menos, senhor - concordou a mulher. - É meu filho. 

Ela sabia que Glooscap andava sempre em viagem, embrenhado nas suas aventuras, e nunca tivera de tratar de um filho durante toda a sua vida. Ele não conhecia a diferença entre as crianças e os outros seres humanos!

Glooscap resolveu usar o seu amuleto para fazer com que Wasis lhe obedecesse. Sorriu para o bebê.

- Vem cá - disse.

Wasis sorriu-lhe, mas não se mexeu. Ficou sentado no centro do tapete, a balbuciar.

Glooscap pôs então as mãos na boca e imitou o pio de uma ave. Era uma melodia bonita, e a mãe de Wasis estava encantada com ela. Mas não era a ela que a melodia se destinava. Destinava-se a atrair a atenção de Wasis, mas ele não estava minimamente interessado. Demonstrava muito mais interesse no bocado de açúcar de bordo que estava a chupar.

 Furioso por alguém se atrever a ignorá-lo, a ele, um deus poderoso, Glooscap ficou fora de si.

- Vem cá imediatamente! - berrou ele a Wasis, mas não surtiu qualquer efeito.

Incomodado por este estranho que entrara em sua casa e estava agora a gritar e esbravejar, Wasis recusou-se a obedecer ao deus. E desatou a chorar. Quanto mais aumentava a fúria de Glooscap, mais alto Wasis berrava... e continuava sem sair do seu lugar no tapete.

Finalmente, Glooscap passou para a magia. Começou a cantar uma canção tão poderosa que seria suficiente para ressuscitar os mortos. Há quem diga que era uma canção tão imbuída de magia que afugentou os espíritos malignos para as profundezas da Mãe Terra.

Wasis parou de chorar, a melodia pareceu acalmá-lo. Mas não tardou a ficar aborrecido - soltou um sonoro bocejo e as pestanas começaram a fechar-se.

Totalmente derrotado, Glooscap escapuliu-se da tenda, a tremer de raiva. A mulher pegou em Wasis ao colo e apertou-o contra si. Saiu da tenda e ficou a observar o deus enraivecido a atravessar com passo pesado o acampamento. Não haveria mais gabarolices da parte dele nesse dia!

O bebê sentiu o cheiro familiar da sua mãe e sentiu o calor dela contra o seu corpo. Sorriu, olhando-a com ar afável. Já não chorava.

- Penso que Glooscap aprendeu uma importante lição hoje, Wasis - disse ela.

- Gu! - fez Wasis, e voltaram para dentro da tenda.

E foi assim que o maior dos deuses foi derrotado pela mais pequena das crianças, e é por isso que sempre que um bebê diz «Gu!» nos lembramos do dia em que Wasis pôs Glooscap no seu lugar.

Fonte:

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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