Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Nilto Maciel (A Beata de Palma)


Quando o trem parou na estação, o sol acabava de se esconder. Uma dezena de meninos sujos me cercou. Disputavam entre si o direito de carregar minha maleta, o jornal e até o cigarro que eu fumava. Desfiz-me deste, distribuí para cada deles uma folha do jornal e entreguei a carga mais pesada a um rapaz musculoso.

Ao chegarmos à porta da pensão, acenderam-se as luzes da rua. Um poste aqui, outro acolá. Entre um e outro, notei mais tarde, parecia não haver luz nenhuma. Nem nossas sombras se projetavam ao chão.

Arrependi-me cedo de ter despedido o carregador. Vistoriei o quarto, tomei um banho e saí. Por pouco não me perdi naquele labirinto de ruelas, becos sem saída, florestas de árvores nas praças, coretos, igrejas, capelas. Sim, além da majestosa igreja matriz, outras dez se espalhavam pela cidade. Apesar disso, diziam os jornais, nem na capital se cometiam mais crimes per capita: estranhos casos de suicídio, roubos, homicídios e até estupros horrorosos. Tantas igrejas e tantos pecados, lamentavam.

Eis a razão de minha viagem.

Não, minto. Levou-me àquela aventura a história da existência de uma beata em Palma. Talvez eu conseguisse fazer a melhor reportagem do mês ou mesmo do ano e melhorar minha situação no jornal.

Chamava-se Maria Efigênia e até do nome dela me agradei. Devia contar uns trinta e poucos anos de idade. Na verdade, devia ter sido de uma beleza exuberante nos seus verdes anos, como diziam, porque ainda parecia bela, apesar da vida que levava.

Fazia uns dez anos que Efigênia se havia feito beata, dia e noite a rezar, a cuidar das igrejas, dedicada a todos os santos.

Nas ruas, a molecada se divertia quando ela passava, coberta de véus, abraçada aos missais, amarrada de terços e rosários, vestida da cabeça aos pés, silenciosa, solitária, perdida em si mesma. Divertiam-se os moleques e depois, coitados!, apanhavam como nunca. Porque os pais sabiam com quem mexiam seus filhos: Maria Efigênia era filha da mais importante família de Palma.

Além da meninada, só havia outra classe de gente que ousava dirigir-se à beata: os bêbados. Para cada igreja havia cinco bares na cidade. E a frequência destes talvez fosse maior do que a das casas de pasto espiritual.

Se os pequenos moleques causavam irritação, os frequentadores dos bares chegavam ao exagero de dirigir à beata indecorosas piadas. Ela, porém, seguia seu caminho altaneira, imune às porcarias daqueles perdidos.

Junto aos católicos não consegui nada. Ninguém quis me dar atenção. O padre fez-me um sermão, falou de escândalo. E fui bater nos bares.

No primeiro dia não encontrei um só bêbado capaz de articular meia palavra. E para mim aquilo não bastava. A reportagem da beata eu queria de mil palavras.

– Aquele conhece tudo aqui – disse-me o dono do bar, apontando para um sujeito cabeludo, que cochilava no batente. – É poeta, sabe tudo quanto é verso de cor – informou-me ainda.

– Se me contar tudo em prosa, dou-me por satisfeito – brinquei.

O homem olhou-me assustado e bebeu uma golada de cachaça.

Cheguei cedo no dia seguinte ao bar. E o poeta já havia se servido do quinto copo.

Não sei se ele me contou uma de suas histórias decoradas ou se improvisou a da beata. Não tenho dúvida, porém, de que tudo nele era rimado e metrificado.

Um dia apareceu na cidade um bonito rapaz, um estrangeiro.

E como Maria Efigênia fosse quase uma menina ainda e o tivesse conhecido, por ele apaixonou-se. Meses depois o rapaz foi expulso de Palma. Acusado de dois pecados graves: o de não ser católico e o de seduzir a formosa donzela Efigênia.

Ao saber da expulsão do namorado, a mocinha chorou muito, tornou-se triste, calada, solitária. E como fosse católica e meia, a exemplo de sua família e da maioria dos habitantes da cidade, trocou as brincadeiras por rezas, as amigas pelos santos, sua casa pelas igrejas. Sobretudo pela matriz.

Nesse trecho, o poeta calou-se, bebeu mais e riu.

– Não quer saber mais nada?

Para mim a história tinha chegado ao fim. Mas aquela pergunta me deixou intrigado.

– Conte mais então.

– Pergunte por que a beata frequentava mais a matriz.

Só havia uma explicação: a matriz é a igreja principal, a maior, a mais bonita.

O poeta chamou-me para um canto e concluiu:

– A coitada da donzela
  cria que o amado dela
  fosse o Cristo do altar:
  quando se punha a rezar,
  conversava hora por hora
  co’o namorado de fora.

A reportagem não me rendeu nada e até perdi uns trocados a caminho da estação – os mesmos meninos sujos me pediram para levar a maleta. Talvez fossem aqueles que apanhavam dos pais por só terem uma diversão – a beata.

Fonte:
Nilto Maciel. Babel (contos). Brasília/DF: Editora Códice, 1997.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to