quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Marcelo Augusto Paiva (Aurora para que vos quero)


Quando à noite me debruço em alguma das janelas de minha morada, contemplo o infinito céu escuro crivado de estrelas cintilantes, as quais, com a serenidade do passar das horas, convidam a Aurora para participar do preâmbulo matinal que se aproxima. Ela se faz presente diante de mim, não apenas aos olhos, mas em minha alma - meus pensamentos - e me faz refletir sobre os sonhos e anseios que tive, realizados ou não. Uma fonte inesgotável de vida, que segue seu caminho pelos pontos de luz estelar ou pela escuridão que deles se avizinha.

Enquanto a contemplo, a Aurora anuncia um novo ciclo que se inicia a partir dela, renova as energias vitais e espirituais para seguir adiante com os desejos e projetos para os dias vindouros, ainda que ela não me acompanhe em toda essa jornada.

Majestosa - e divina - sempre surge com suas cores em vários lugares, cada qual a seu tempo e em circunstâncias exclusivas, comove os apaixonados ou assusta os desinformados, mas nunca deixa de trazer a lume o anúncio de que um novo dia brilhará para nós.

A Aurora faz crer que cada manhã nos renova e faz limpar nossas almas das coisas e dos fatos passados, necrosados pelo destempero das divergências ou das decepções pessoais. Ela nos faz limpar as más lembranças e crer que o brilho do sol que anuncia será o início de novos e melhores dias.

O sereno que a acompanha também me faz pensar em quão frágeis somos perante ela e seu infinito potencial renovador dos dias e da vida que dela seguem.

Às vezes a sinto tocar meus ossos, como se testasse minha resistência ao clima quase congelante, no aguardo do luminoso calor do astro-rei, o sol.

Ao amanhecer, contemplo o azul celestial do céu, iluminado e aquecido pelos raios de luz solar, que a dispensou para se firmar ao longo do dia. E a vida – minha e das outras pessoas - continua. Até ser renovada por nova contemplação da serena, divina e majestosa Aurora...
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* O autor é de Votorantim/SP

(esta crônica obteve o Menção Honrosa no Concurso de Crônicas Adulto Nacional “Foed Castro Chamma”, em 2020, com o tema Aurora)

Fontes: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. 
Livro enviado por Luiza Fillus.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Durval Mendonça (Rio de Janeiro/RJ, 1906 - 2001)



Silmar Bohrer (Croniquinha) 124


Que bom se a gente pudesse alçar voos em busca daquelas nuvens e do infinito a que chamamos céu, ou céus  -  são tantos na vastidão do universo! E as camândulas (
rosário de contas grossas) de estrelas?  Quisera achegar-me bem perto das amadinhas Três Marias, aquelas das noites estreladas, com quem converso em momentos de silêncio, de inspiração e alumbramento .  

Mas esquecemos dos recônditos do ser, da intimidade da vida  -  ali é que encontramos a seiva, o doce , o mel para nossos dias. Observamos tanto o exterior, mas é no âmago dos pensares e sentimentos que a vida tem mais sentido em todos os sentidos.

E a gente bem pode parodiar o pensador alemão Wolfgang Goethe, dizendo ele "Mais alto devemos olhar, mais alto devemos subir".

Também nós podemos dizer - mais longe nos aprofundar, bisbilhotar, meditar, olhando para o céu interior, onde temos tanta coisa escondida a ser explorada pelos EUS interiores.  Porque relíquias verdadeiras, riquezas perenes, estão incrustadas no âmago de cada um. Saibamos farejá-las, buscá-las, encontrá-las.  

São tantas pepitas de vida dentro da vida.

Fonte: Texto enviado pelo autor.

Célio Simões* (O nosso português de cada dia) “Novo em folha”

Apesar de muito usada, nem todo mundo conhece a origem da expressão “novo em folha”, quase sempre relacionada a livros. A língua portuguesa é muito rica e expressões passam de geração para geração, sem que se saiba como surgiram. Muitas permanecem imutáveis ao longo dos anos, porém outras sofrem influências e acabam se adaptando aos novos tempos. Mas não há dúvida de que elas enriquecem e dão peculiaridade ao nosso idioma.

Algumas delas têm origem no nosso próprio país, são antigas, remontam ao tempo do império, enquanto outras tem conotação estrangeira, religiosa,  mitológica, mística ou histórica. “Novo em folha”, como dito antes, foi inspirada na utilização do papel, particularmente dos livros, tendo em mente as folhas de papel brancas, limpas e sem amassados de livros recém-impressos, novinhos, sem dobras e sem riscos. Mas atualmente a frase pode estar relacionada a outros objetos e também a pessoas.

Quando nos referimos a algo que nunca foi usado ou que está em ótimo estado é trivial falarmos que o objeto está “novo em folha”. Ou quando uma pessoa, após enfrentar uma enfermidade se vê totalmente curada, os familiares dizem que ela está “nova em folha” ou “pronta para outra”. É fácil perceber que usamos o adjetivo "novo" para nos referir tanto a objetos como a pessoas.

Mas e a “folha”? O que a “folha” tem a ver com um carro novo, um sapato recém-comprado ou a alguém que acabou de sair de um hospital? Isso acontece justamente porque a expressão vem das folhas de papel limpinhas e sem máculas, tipo os livros novos quando acabam de ser impressos e não de nenhuma árvore.

Há quem use o termo para dizer que comprou um carro “novo em folha”, para distinguir da aquisição de um seminovo. Mas não é só com o carro zero bala que surge sua utilização, cabe também para um sapato novo, uma roupa nova ou qualquer outro objeto, desde que adquiridos recentemente e em estado impecável.  

Quem nunca ouviu: - Comprei uma televisão de 50 polegadas “nova em folha”. Ou, com o mesmo sentido: - Ganhei um computador usado, e depois de uma repaginada, ficou “novo em folha”. As fofoqueiras diriam: - Vocês viram a fulana depois da plástica no rosto? Rejuvenesceu, está “novinha em folha...”.

Mas há situações incomuns em que essa expressão é incluída no diálogo para enfatizar o que se pensa sobre algo ou alguma coisa. Como o sujeito que procurou a oficina, levando seu antigo relógio de pêndulo para mais uma vez ser recuperado. Antes de sair, disse ele ao relojoeiro, com o intuito de enfatizar a importância que o objeto tinha para ele:

- Mas, por favor, tenha muito cuidado com ele, me devolva funcionando, “novo em folha”. É que esse relógio pertenceu ao meu avô e dessa marca não se fabrica mais...

Ao que o outro ironicamente respondeu:

- Graças a Deus...

A música popular brasileira não deixou passar a oportunidade de utilizar a expressão e foi isso que fez o “Trio Xamego”, na composição intitulada “Novinho em Folha”, cujos versos ratificam o sentido com que ela é usada: 

Aqui estou eu, novinho em folha 
De chapéu de couro, alparcata, culote e gibão 
Pra cantar as modas de cabra da peste 
Que vem do nordeste do meu torrão 
Pra cantar tudo que vem lá da serra 
Da minha terra no meu sertão. 

Eu não tenho reinado 
não tenho coroa 
Mas dentro da arte, modéstia à parte 
Eu levo a vida tão boa 
Trago a zabumba numa sacola 
Mas não peço esmola a nenhum cidadão 
Novinho em folha estou por aqui 
E ninguém vai impedir de eu cantar meu baião!”

Portanto, para tudo que o que está “estalando de novo”, usamos a expressão “novo ou novinho em folha” como um adjetivo, isto é, uma palavra que se junta ao substantivo para modificar o seu significado, acrescentando-lhe qualidade, natureza, modo de ser ou o próprio estado em que a pessoa se encontra. Rodrigo Santos (O Pensador) cunhou uma frase para expressar uma sensação conhecida de todos nós: “Durmo com a expectativa de acordar novo em folha e acordo como se tivesse sido atropelado por um caminhão!”. Quem nunca se sentiu assim?...
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Estas expressões idiomáticas são publicadas na Terça da Cultura Popular em sites do Pará.
Nas palavras de Célio Simões “A TERÇA DA CULTURA POPULAR começou por acaso. Publiquei num dos sites em que escrevo, um texto explicando a origem de certas expressões idiomáticas, que usamos quase sem perceber nos diálogos do cotidiano. Cito, como exemplo, algumas já divulgadas: Chato de galocha, Mão de vaca, Casa da mãe Joana, Santinha de pau oco, Chegar de mãos abanando, Sem eira nem beira, Dor de cotovelo, etc. Outras virão, na medida do possível. Atualmente tais textos são divulgados por vários sites e blogs de Belém (1), Santarém (1), Óbidos (2), Manaus (1)”
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(*) O autor é advogado, escritor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Artística e Literária de Óbidos, da Confraria Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

domingo, 1 de dezembro de 2024

José Feldman (O Ônibus da Confusão)

Nota do autor: Há cerca de 50 anos trabalhei no transporte de passageiros de ônibus urbano, na cidade de Belo Horizonte/MG, verificando quantas pessoas subiam e desciam no ônibus, para calcular a distância apropriada entre os pontos, daí caiu um temporal, as ruas alagaram, o motorista se perdeu ao desviar, saiu discussão, teve gente histérica, foi uma confusão generalizada, daí a ideia deste conto.

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Era uma tarde chuvosa na cidade, e o ônibus lotado seguia sua rotina habitual. As gotas de chuva tamborilavam no teto, fazendo uma sinfonia que misturava-se ao barulho das conversas e risadas dos passageiros. No entanto, o clima descontraído logo foi interrompido por um forte estrondo.

— O que foi isso? — gritou Dona Maria, uma senhora de cabelo grisalho, segurando a bolsa com firmeza.

— Deve ser só o trovão, Dona Maria! — respondeu João, um jovem de camiseta vermelha, tentando manter o bom humor.

Mas o motorista, preocupado com a enxurrada que começava a invadir as ruas, decidiu desviar o trajeto. Ele virou à esquerda, depois à direita, mas logo percebeu que estava perdido.

— Pessoal, estamos enfrentando um pequeno desvio! — anunciou ele pelo microfone, mas a voz dele mal conseguiu se sobrepor ao barulho dos passageiros.

— Pequeno desvio? Estou a caminho de uma reunião importante! — protestou o Sr. Almeida, um executivo apressado que estava ao telefone. Ele olhou pela janela e viu a água subindo. — Isso não é um desvio, é uma aventura!

— Eu conheço um atalho! — gritou Tânia, uma estudante com uma mochila cheia de livros. — É só seguir pela Rua das Flores!

— Rua das Flores? Você está louca? — respondeu Carlos, um senhor com um chapéu de palha. — Essa rua está sempre alagada! Vamos pela Avenida Central!

— Avenida Central? — interrompeu Mariana, uma jovem com um guarda-chuva quebrado. — A última vez que passei por lá, estava um caos! Precisamos de um plano!

Os passageiros começaram a discutir entre si, cada um defendendo sua própria ideia de qual caminho seguir.

— Pessoal, calma! Eu tenho um mapa! — anunciou Pedro, um rapaz que estava na parte de trás do ônibus. Ele estava tão empolgado que quase levantou do banco. — Aqui diz que podemos pegar a Rua da Alegria!

— Rua da Alegria? — riu Dona Maria. — Com esse temporal, só se for alegria de ver o barco que vamos precisar para atravessar!

— Olha, eu não sei de vocês, mas eu vou descer. Não estou a fim de ser levado por um tsunami! — disse a Sra. Glória, uma mulher mais velha, já se levantando.

— Não, não! Fica todo mundo aqui! — gritou o motorista, tentando manter a ordem. — Precisamos decidir juntos!

— Eu sempre confiei no GPS! — disse o jovem com um celular na mão. — Vamos ver pra onde ele nos leva!

— GPS? E se ele estiver errado? — retrucou Carlos. — Eu confio mais no meu instinto!

A discussão continuava, e o ônibus parecia um verdadeiro tribunal. Cada um defendia sua ideia com fervor, e logo o motorista se viu sem saber a quem ouvir.

— Olha, uma solução pode ser perguntar ao pessoal da rua! — sugeriu Tânia, apontando para um grupo de pessoas que se abrigava em uma marquise.

— Boa ideia! — exclamou o motorista, aliviado. — Vou parar!

Ele estacionou o ônibus em um lugar seguro, e todos os passageiros se aglomeraram na porta.

— O que está acontecendo? — perguntou um dos homens na marquise, enxugando a chuva do rosto.

— Estamos perdidos! Qual é o melhor caminho para a Avenida Central? — perguntou o motorista.

O homem olhou para o céu, pensou por um momento e respondeu:

— Amigo, se eu fosse você, fugiria para o mais perto possível da praia. Aqui não vai ter Avenida Central, só um mar de água!

Os passageiros se entreolharam, um misto de risadas nervosas e uma leve sensação de desespero.

— Eu não vou pra praia! — gritou a Sra. Glória, já com a mão na cintura. — Isso é loucura!

— Então que tal seguir pela Rua do Sol? — sugeriu a jovem Mariana, que parecia ter uma ideia mais otimista. — Pode ser que lá a água não esteja tão alta.

— Rua do Sol? É a única que ainda não ouvi! — disse Pedro, com um sorriso.

— Vamos nessa! — decidiu o motorista, voltando para o volante. — Rua do Sol, aqui vamos nós!

O ônibus seguiu pela nova rota, e a tensão começou a se dissipar. Os passageiros voltaram a conversar, agora em um tom mais leve.

— Vocês acham que vamos chegar a tempo? — perguntou João, olhando pela janela.

— Chegar a tempo do quê? — riu Tânia. — Se não nos afogar primeiro!

— Olha, se tudo der certo, ainda podemos fazer uma festa na praia! — brincou Carlos, arrancando risadas.

— Festa? Com essa chuva? — ironizou a Sra. Glória. — O que vai ter na festa? Natação?

A conversa fluiu e, de repente, o ônibus parecia mais um salão de festas do que um transporte público sufocado. Momentos depois, eles chegaram à Rua do Sol, que estava inundada, mas a água não era tão alta.

— Ufa, estamos a salvo! — exclamou Dona Maria, aliviada. — Agora só falta saber como voltamos pra casa!

— Ah, isso é fácil! — disse Pedro, puxando seu mapa. — Vamos descobrir juntos!

E assim, entre risadas e histórias, o ônibus lotado virou um ponto de encontro, onde a amizade e a camaradagem floresceram mesmo diante da tempestade. Aquele dia, que começou com um temporal, acabou em uma verdadeira aventura, unindo pessoas diferentes por um único objetivo: encontrar o caminho de volta para casa.
 
Fontes: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul,
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sábado, 30 de novembro de 2024

José Feldman (Previsões e ilusões)


Texto construído tendo por base a trova de Arthur Thomaz (Campinas/SP)

O profeta idealiza
o futuro, em previsões…
E o poeta o finaliza
colorindo-o de ilusões… 

O profeta idealiza o futuro, erguendo-se como uma figura solene em meio ao tumulto do presente. Em uma pequena aldeia, ele caminhava pelas ruas de paralelepípedos, suas vestes longas esvoaçando ao vento. Os aldeões paravam para ouvi-lo, atraídos por suas palavras que pareciam trazer uma luz nas trevas da incerteza. Suas previsões eram como faróis em noites tempestuosas, guiando-os através das tormentas da vida.

“Um dia”, ele proclamava com a voz firme, “as colheitas serão fartas, e a paz reinará entre nós. A era da prosperidade está por vir, bastando que nos unamos em fé e determinação.” 

As palavras do profeta, repletas de esperança e otimismo, ecoavam por toda a aldeia, e, por um momento, acendiam a chama da expectativa nos corações dos ouvintes. Ele era um visionário, um sonhador que via além do horizonte, onde a realidade se confundia com a fantasia.

Mas, em meio a essa atmosfera de esperança, existia outro personagem, um poeta que observava tudo com um olhar perspicaz. Ele estava sempre à sombra das árvores, com um caderno em mãos, onde registrava não apenas as previsões do profeta, mas também as nuances da vida que se desenrolavam ao seu redor. O poeta via a beleza nas pequenas coisas, mas também sentia o peso das dores e desilusões que permeavam a existência dos aldeões.

Enquanto o profeta falava de um futuro glorioso, o poeta ouvia e refletia. Ele sabia que as previsões eram apenas isso: previsões. Não se tratava apenas de um futuro idealizado; era necessário colorir essas palavras com a realidade das emoções humanas. A esperança, sem questionamentos, poderia ser uma armadilha, e ele desejava que as pessoas não se deixassem levar apenas pelas promessas.

Certa manhã, após uma longa noite de reflexão, o poeta decidiu que era hora de compartilhar sua visão. Ele subiu a uma pequena colina, onde o profeta costumava pregar, e começou a recitar seus versos. 

“O futuro, caro povo, não é apenas o que se sonha, mas também o que se vive. As ilusões podem ser lindas, mas são as verdades que nos moldam.” 

Suas palavras dançavam no ar, misturando-se ao vento que passava.

Os aldeões, inicialmente confusos, começaram a ouvir com atenção. O poeta falava sobre a fragilidade da esperança e a beleza das cicatrizes que cada um carrega em sua alma. 

“Em cada sorriso escondido, há uma lágrima que não foi enxugada. Em cada sonho realizado, uma renúncia ficou para trás.” 

Ele coloria o futuro não apenas com a paleta da esperança, mas também com as sombras da realidade.

O profeta, que até então ouvira em silêncio, sentiu-se incomodado. Ele acreditava que seu papel era inspirar e elevar os espíritos, enquanto o poeta parecia querer puxar as pessoas de volta para o chão. 

“Mas o que é a vida sem sonhos?”, questionou o profeta. “Como podemos viver sem acreditar em um futuro melhor?”

O poeta olhou nos olhos do profeta e respondeu: 

“Os sonhos são essenciais, mas não devem nos cegar. O futuro é construído sobre as bases do presente. Precisamos reconhecer nossas dores, nossas falhas, para que possamos realmente transformar o que está por vir.” 

Havia uma tensão no ar, uma batalha de ideias entre o idealismo do profeta e o pragmatismo do poeta.

Os aldeões, fascinados pela troca, começaram a refletir sobre suas próprias vidas. Era verdade que o profeta trazia esperança, mas também era verdade que o poeta oferecia uma visão mais completa. As ilusões que o poeta coloria não eram meras escapadas; eram uma forma de abraçar a complexidade da vida.

Com o passar dos dias, a aldeia começou a mudar. As pessoas começaram a falar mais, a compartilhar suas histórias, seus medos e suas esperanças. O profeta e o poeta, ao invés de se oporem, começaram a trabalhar juntos. 

O profeta falava sobre o futuro e a importância de sonhar, enquanto o poeta trazia as verdades do presente, colorindo os sonhos com a realidade das experiências vividas.

Juntos, eles formaram uma aliança poderosa. O profeta idealizava, mas agora com a consciência das lutas que os aldeões enfrentavam. E o poeta finalizava, não apenas com ilusões, mas com a rica tapeçaria de emoções que compunham a vida de cada um. As previsões do profeta agora estavam entrelaçadas com as verdades do poeta, criando uma narrativa mais profunda e rica.

A aldeia floresceu, não apenas em termos de prosperidade material, mas em conexões humanas. As pessoas aprenderam a sonhar, a esperar pelo futuro, mas também a viver intensamente o presente. O futuro não era apenas um destino a ser alcançado, mas uma jornada a ser apreciada, cheia de cores, sombras e nuances.

E assim, sob a luz do sol poente, o profeta e o poeta caminhavam lado a lado, reconhecendo que, juntos, poderiam iluminar não apenas o horizonte, mas também os corações da aldeia. O futuro, agora, não era apenas uma promessa, mas uma tela em branco, onde cada um poderia pintar sua própria história, entrelaçando sonhos e realidades em uma dança harmoniosa.

Fontes: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Silmar Bohrer (Gôndola de Versos) 03

 

José Feldman (Bolinha e a luz que mudou tudo)

Nota do autor: Os nomes são fictícios, mas a história é real.
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Poema Para Gwyddion 
(1998  – 2001)

Nos sonhos, ainda te vejo,
teu ronronar a me embalar.
A saudade é um desejo,
que não consigo evitar.

Gwyddion, gatinho que seduz,
deixou um eco profundo.
Teu amor era pura luz,
encantava nosso mundo.

Em uma manhã cinzenta, enquanto a cidade despertava com o barulho dos carros e o cheiro do café fresco, Lucas caminhava rumo ao trabalho. Ele sempre passava pelo mesmo caminho, mas naquele dia algo o chamou a atenção. No canto da rua, um pequeno filhotinho de gato, sujo e magro, uma bolinha de pelo, olhava para ele com olhos grandes e desesperados. O coração de Lucas se apertou. Sem pensar duas vezes, ele se agachou e estendeu a mão. O filhote, em um ato de desespero e esperança, subiu na perna dele, buscando calor e segurança.

Lucas, que tinha outros gatos de estimação, sentiu uma onda de compaixão. Ele não podia deixar aquele pequeno ser à mercê do mundo, então, com muito cuidado, pegou o gatinho nos braços e o levou para casa, colocando-o em uma caixinha aconchegante, protegendo-o. No lar, sua esposa, olhou surpresa para o recém-chegado. 

— Olha o que eu trouxe! — disse Lucas, com um sorriso nervoso.

Ela, ao ver o estado do filhote, o acolheu com amor.

As opiniões de amigos e familiares ecoavam em sua mente: "Ele não tem salvação". Mas o casal acreditou que, com amor e cuidado, eles poderiam mudar a sorte daquele gatinho. E foi assim que Bolinha, como o casal decidiu chamá-lo, entrou em suas vidas.

Nas semanas seguintes, a transformação de Bolinha foi mágica. Comida, carinho e um lar quentinho fizeram maravilhas. O pequeno filhote, que antes era apenas uma sombra de um gato, tornou-se um animal bonito e peludinho. Ele se tornou a sombra constante do casal, sempre ao redor, pronto para brincar ou simplesmente fazer companhia.

O relacionamento de Bolinha com os outros gatos da casa era um verdadeiro espetáculo de afeto e travessuras. Desde o primeiro momento em que ele entrou no lar, mostrou-se um gato sociável e curioso, rapidamente se integrando ao grupo já estabelecido.

Mesmo sendo o mais novo, rapidamente assumiu uma posição de destaque entre os outros sete gatos. Ele tinha um jeito natural de interagir. Os gatos mais velhos, que inicialmente poderiam ter visto a chegada de um novo membro como uma perturbação, logo se renderam ao charme e à energia do novo membro. Ele se aproximava deles com um jeito brincalhão, e em questão de dias, todos estavam se envolvendo em jogos e brincadeiras.

Bolinha tinha uma personalidade travessa. Ele adorava explorar e se meter em encrenca. Uma vez, enquanto brincava no andar de cima do sobrado onde moravam, ele caiu do balcão e bateu a boca em um cano. A mulher, que estava na sala, ouviu um barulho e correu para ver. Ao abrir a porta, encontrou ele arranhando a madeira da porta, tentando entrar.

— O que você aprontou dessa vez? — ela riu ao vê-lo. Era impossível não se apaixonar por aquele ser tão arteiro.

Ele dormia carinhosamente entre os dois, e nas noites frias, quando queria o calor do cobertor, ele fazia questão de colocar a patinha gelada no rosto dela, despertando-a com um leve toque. Ele era o relações públicas da casa, sempre acolhendo novos amigos. Quando o casal trouxera duas gatinhas siamesas, foi Bolinha quem as recebeu com um charme irresistível, fazendo amizade rapidamente para que se sentissem em casa.

Suas travessuras não tinham fim. Ele aprendeu a abrir a tampa da panela que ficava sobre a mesa, sempre em busca de um pedaço de carne suculenta. E quando ele ia no quintal onde havia uma cachorra pastora belga branca, ele corria em volta dela e junto com Mocinho, um persa azul britânico, que era o líder, deixavam a cachorra tonta. 

O casal ria das artimanhas do pequeno, que parecia ter um talento especial para se meter em confusões.

Mas a vida, como sempre, tem seus altos e baixos. Quando o casal decidiu se mudar para outra cidade, a mulher teve que voltar para resolver algumas pendências. Bolinha ficou em casa com os outros gatos, mas a saudade dela começou a pesar em seu coração. Ele andava pela casa, miando e procurando pela sua amada dona. A espera se prolongou por semanas, e o pequeno gato, que antes trazia tanta alegria, começou a definhar.

Infelizmente, em uma noite silenciosa, Bolinha não resistiu. Ele foi encontrado por Lucas, que voltou para casa cansado, apenas para descobrir que seu querido gatinho não estava mais ali. O luto tomou conta do lar. A dona, ao saber da notícia, correu de volta, mas já era tarde. A tristeza era imensa, e mesmo cercados por outros sete gatos, Bolinha deixara um vazio profundo.

Ele sempre fora o bálsamo para os dias cansativos do casal, a luz que iluminava seu lar. As risadas que proporcionava com suas travessuras ecoavam ainda na memória do casal. Embora a vida continuasse, Bolinha nunca foi esquecido. Lucas, muitas vezes, se pegava lembrando das travessuras do pequeno, e as lágrimas escorriam pelo seu rosto, misturando-se com risos saudosos.

A vida de Bolinha, embora breve, foi repleta de amor e alegria. Com pouco mais de três anos, ele deixou uma marca indelével na vida do casal, e em cada canto da casa, ainda se sentia sua presença. Ele não era apenas um gato; ele era um pedaço do coração do casal, e sua memória viveria para sempre.

Fonte: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem:  arte por Jfeldman: “Gwyddion”

Elias Pescador* (Nas asas da alva)


Linda aurora!... Hoje, logo ao amanhecer, olhei para o céu e vi o pincelar da mão divina ilustrando uma belíssima aquarela na tela da existência... Desenhos, imagens, figuras, qual fotos, ora esparsas, ora contínuas, mas ternas, suaves, como a querer demonstrar a suavidade e a docilidade do carinho; e o vento continuava acariciando o espaço com suas nuvens brancas, e o sol a completar a sutileza da obra de arte desta natureza sublime tocava os flocos de algodão a iluminar tudo, sem dourá-los, apenas para torná-los de um branco puro reluzente.

Era só aprisionar o silêncio e prestar atenção para ouvir a penetrante melodiosa sinfonia. Mas que cidade insensível!... Onde estarão os pássaros para aproveitar este momento mágico e bailar, bailar?... Mas... a maldade do homem conseguiu tirar estes personagens da cena do encantamento.

Crio eu, então, as devidas asas e vou... Voo a atender o chamado inaudito do espírito... Desintegro a me espargir feito criança, a brincar naqueles doces espasmos de carícias... Agora sim, entrego me a bailar... Envolvo-me nesta clara e límpida sedução, brindo à Alva, e integrando as minhas asas às suas asas de amor eu me recuso a despertar, pois "mais perto de Ti eu quero estar!...
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* O autor é de São Paulo/SP

(esta crônica obteve o 6. Lugar no Concurso de Crônicas Adulto Nacional “Foed Castro Chamma”, em 2020, com o tema Aurora)

Fontes: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. 
Livro enviado por Luiza Fillus.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Messody Benoliel (Rio de Janeiro/RJ)



Estante de Livros (“Coração trovador”, de Giuseppe Paolo Dell’Orso)


Dell’Orso apresenta uma série de poemas que se destacam pela sua profundidade emocional e pela beleza lírica. É uma obra que celebra a poesia e a amizade, mostrando como as tradições literárias podem ser transformadas e renovadas.

TEMÁTICA E ESTRUTURA 

A obra é uma coletânea de poemas que revive o espírito dos trovadores medievais, mas com um toque contemporâneo. Dell’Orso utiliza a forma clássica de versos para expressar sentimentos universais, como amor, saudade e a busca por identidade. Seus poemas muitas vezes fazem alusões a paisagens, sentimentos e experiências vividas tanto na Itália quanto no Brasil, criando um diálogo entre as duas culturas. 

ESTILO POÉTICO 

O estilo é marcado por uma musicalidade delicada e por imagens vívidas. Ele incorpora elementos da natureza e da vida cotidiana, utilizando metáforas que evocam as tradições literárias de ambos os países. Os poemas refletem uma profunda sensibilidade e um olhar atento para as nuances da vida. 

IMPACTO E RECEPÇÃO 

O livro foi bem recebido tanto no Brasil quanto na Itália, sendo elogiado por críticos literários por sua capacidade de fundir tradições e por sua linguagem poética. "Coração Trovador" não apenas resgata uma forma literária histórica, mas também a reinventa, tornando-a acessível e relevante para o público contemporâneo. O engajamento de Dell’Orso com a cultura brasileira foi especialmente destacado, solidificando sua posição como um importante mediador entre as culturas italiana e brasileira. 

Aqui estão alguns dos poemas mais conhecidos da obra: 

"Versos de Outono" 
Este poema evoca a transitoriedade da vida, utilizando imagens da natureza para refletir sobre a passagem do tempo e a saudade. A conexão entre os ciclos naturais e os sentimentos humanos é central nesta composição. 

"Canto da Terra" 
Uma ode à beleza das paisagens brasileiras e italianas, este poema celebra a diversidade natural e a relação íntima que os seres humanos têm com a terra. A musicalidade dos versos cria um ritmo envolvente, típico da tradição trovadoresca. 

"Amor de Trovador" 
Neste poema, Dell’Orso explora o amor romântico, utilizando metáforas inspiradas nos trovadores medievais. A linguagem é rica e evocativa, capturando a intensidade dos sentimentos apaixonados. 

"Saudade de Casa" 
Uma reflexão sobre a nostalgia e a busca por pertencimento. Ele utiliza imagens de sua terra natal na Itália e de sua nova vida no Brasil, mostrando como as memórias moldam nossa identidade. 

"Luz do Amanhã" 
Este poema aborda a esperança e a renovação, utilizando a metáfora da luz que surge após a escuridão. É um chamado à resiliência e à busca por novos começos, resonando com a experiência humana universal. 

"Caminhos Cruzados" 
Uma celebração das amizades e das conexões feitas ao longo da vida. Dell’Orso reflete sobre como as relações moldam nossa trajetória, utilizando uma linguagem calorosa e acolhedora. 

Esses poemas exemplificam a habilidade em unir tradição e modernidade, criando uma obra rica em emoção e significado. "Coração Trovador" não apenas resgata a essência da poesia trovadoresca, mas também a adapta ao contexto contemporâneo, tornando-a acessível e relevante para os leitores de hoje. 

Fonte: José Feldman (org.). Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.

Giuseppe Paolo Dell’Orso, por ele mesmo


Chamo-me Giuseppe Paolo Dell’Orso, nasci em 15 de junho de 1927 em uma pequena cidade chamada Pieve di Soligo, localizada no interior da Itália. Desde jovem, demonstrei um profundo amor pela literatura, influenciado por meu avô, que era um poeta local. Minha infância em meio às montanhas e campos da região moldou minha sensibilidade artística, inspirando as primeiras composições poéticas. 

Após concluir o ensino médio, decidi me mudar para Roma para estudar Literatura Italiana na renomada Universidade La Sapienza. Durante meus anos universitários, me destaquei como um aluno excepcional, recebendo diversos prêmios acadêmicos, dentre os quais se destacam: 

- Prêmio de Excelência Acadêmica (1956) – Reconhecimento por minhas pesquisas inovadoras sobre a poesia moderna. 

- Bolsa de Estudos Michelangelo (1957) – Concedida a alunos com alto desempenho acadêmico, permitindo-me que realizasse um intercâmbio na Universidade de Paris. 

- Prêmio de Melhor Trabalho de Conclusão de Curso (1958) – Por minha tese sobre a influência do Renascimento na poesia contemporânea. 

Após obter meu diploma, busquei novos horizontes e me mudei para a Inglaterra, onde fui aceito no programa de pós-graduação em Literatura Comparada na Universidade de Harvard. Minha pesquisa focou na relação entre a poesia renascentista italiana e a literatura contemporânea, o que me rendeu um doutorado com honras e o prêmio Harvard Literary Fellowship, um reconhecimento pela contribuição significativa ao campo da literatura. 

Em 2001, recebi uma proposta irrecusável: lecionar Literatura Italiana em uma universidade no Brasil, no estado do Paraná. Fascinado pela cultura brasileira e pela rica diversidade literária do país, aceitei o desafio e rapidamente me adaptei à nova realidade. 

No Brasil, me envolvi profundamente com a comunidade literária, fazendo amizade com muitos escritores locais. Organizei encontros literários e oficinas de poesia, promovendo um intercâmbio cultural que unia vozes italianas e brasileiras. 

Além da carreira acadêmica e literária, sou um defensor ativo de causas sociais. Contribui para várias entidades filantrópicas tanto no Brasil quanto na Itália, focando em projetos que promovem a educação e a inclusão social. Meu envolvimento em iniciativas culturais ajudou a criar bibliotecas comunitárias e programas de alfabetização em áreas carentes. 

Apesar de aposentado, continuo a lecionar e criar. Minha jornada, que começou em uma pequena cidade italiana, me levou a se tornar um elo entre duas culturas, inspirando muitos jovens escritores e amantes da poesia. Através de minha obra e de ações, perpetuo a ideia de que a literatura é uma ponte que conecta pessoas, independentemente de fronteiras. 

A amizade que tive com o magnífico poeta José Feldman é uma história de conexão cultural e literária que começou em 2005. Desde o início de minha jornada no país, fui acolhido por Feldman, um gestor cultural reconhecido em todo território brasileiro e no exterior, que se destacou por seu trabalho em promover a literatura nacional e internacional. Conheci sua dedicação pela trova e pela literatura em geral na Biblioteca de Parma, onde há diversas trovas e poemas de sua autoria em revistas da região. Nos conhecemos em um evento literário em Curitiba, onde eu estava estava apresentando minhas obras e minha visão sobre a interseção entre a literatura italiana e brasileira. Feldman, impressionado com a sensibilidade e a musicalidade dos poemas, se aproximou para discutir as possibilidades de colaboração e intercâmbio cultural. A amizade rapidamente se fortaleceu, baseada em uma profunda admiração pelo trabalho um do outro. Fiquei impressionado com o empenho de Feldman em promover a literatura e a cultura, não apenas no Paraná, mas também em um contexto mais amplo, por pura paixão. Mais ainda pelo seu conhecimento ímpar dos poetas de países europeus, africanos e americanos, com quem muitos deles possui contato. José Feldman, além de ser um poeta e escritor talentoso, é um fervoroso defensor da literatura mundial, organizando concursos e oficinas que conectam escritores de diferentes origens. 

Juntos, iniciamos diversos projetos que visavam fomentar a literatura e a troca cultural entre Brasil e Itália. A parceria resultou em oficinas de poesia, leituras públicas e intercâmbios de escritores, permitindo que vozes diversas fossem ouvidas e celebradas. Feldman, como um grande incentivador, sempre me apoiou na divulgação de minhas obras, ajudando a criar um espaço onde a poesia pudesse florescer, com seu blog que existe desde 2007. 

A influência de Feldman na minha carreira literária é inegável. Através de suas iniciativas, não só ajudou a promover minhas obras, mas também contribuiu para a criação de uma comunidade literária vibrante, ao mesmo tempo que eu trazia uma nova perspectiva à cena literária, enriquecendo o diálogo cultural com nossas experiências e visões. 

A nossa amizade é um exemplo de como a literatura pode unir pessoas de diferentes culturas e origens. Juntos, promovemos a poesia e a literatura, mostrando que a arte é uma ponte que conecta corações e mentes, independentemente das fronteiras. A admiração mútua e a colaboração entre nós é um testemunho do poder transformador da amizade na literatura.

Sou autor de diversos livros, tanto em italiano quanto em português, com destaque para a poesia. Meus poemas refletem a fusão entre a tradição literária italiana e as influências culturais brasileiras. 

As publicações são: 

- "Sussurros da Terra": uma coletânea de poesias que explora a beleza natural do Brasil e suas semelhanças com a paisagem italiana. 

- "Coração Trovador": um livro que reúne poemas inspirados na tradição trovadoresca, adaptados ao contexto contemporâneo. 

- "Versos entre Culturas": uma obra que aborda o diálogo entre as literaturas italiana e brasileira. 

– "Fragmentos do Eu": esta coletânea de poemas reflete sobre a busca pela identidade em um mundo multicultural. Utiliza imagens e metáforas para capturar a complexidade das experiências pessoais, abordando como as raízes familiares e as influências culturais moldam quem somos. 

– "Cantos da Terra": neste livro, exploro a conexão entre o ser humano e a natureza, traçando paralelos entre as paisagens italianas e brasileiras. A obra destaca a importância da preservação ambiental e celebra a beleza dos diferentes ecossistemas, refletindo sobre como eles impactam a vida e a cultura. 

– "Ecos de Outras Vozes": uma coletânea que reúne poemas inspirados por poetas de diversas culturas. Homenageio influências literárias de diferentes partes do mundo, mostrando como a poesia pode ser um meio de diálogo entre tradições diversas. 

– "Entre Fronteiras": este livro aborda a experiência de viver entre culturas e os desafios e alegrias que isso traz. Compartilho relatos poéticos sobre minhas vivências no Brasil e na Itália, enfatizando as interações e os aprendizados que surgem dessas experiências. 

– "Sussurros do Coração": uma obra mais introspectiva, onde reflito sobre emoções universais, como amor, perda e esperança. Os poemas abordam a conexão humana, independentemente das diferenças culturais, destacando a empatia como um valor essencial. 

Fonte: Texto enviado pelo autor 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Edy Soares (Fragata da Poesia) 66

 

José Feldman (A Biblioteca dos Portais)

No coração da cidade de Elidória, cercada por ruas de paralelepípedos e edifícios antigos, havia uma biblioteca que poucos conheciam. Chamava-se "A Biblioteca dos Portais". Seu exterior era modesto, com uma fachada de tijolos desgastados e janelas empoeiradas, mas aqueles que se aventuravam a entrar descobriam um mundo de maravilhas.

A biblioteca era enorme e labiríntica, com estantes que se estendiam até o teto e escadas que pareciam se mover sozinhas. Mas o que a tornava realmente especial eram as portas. Cada uma delas, de madeira antiga e ornamentos intricados, levava a um mundo completamente diferente.

A Biblioteca possui uma magia própria que a torna única e misteriosa. Sua escolha de visitantes não se baseia em critérios comuns, mas sim em uma conexão íntima entre o coração da pessoa e o espírito da biblioteca. Aqui estão algumas maneiras de como essa seleção ocorre:

Intenção Pura
A biblioteca é sensível às intenções dos visitantes. Aqueles que entram com um desejo genuíno de explorar, aprender ou encontrar respostas são atraídos para dentro. A curiosidade e a abertura de espírito são fundamentais para serem escolhidos.

Sinais e Coincidências
Muitas vezes, os futuros visitantes encontram sinais antes de chegarem à biblioteca. Pode ser um livro esquecido em um banco, uma conversa sobre a biblioteca que escutam ao passar, ou mesmo um sonho recorrente. Esses sinais são como convites sutis que a biblioteca envia para aqueles que estão prontos.

Experiências de Vida
A biblioteca também parece reconhecer a jornada de vida de cada um. Pessoas que passaram por desafios significativos, ou que buscam inspiração após uma perda ou mudança, frequentemente sentem uma atração inexplicável pelo local. A biblioteca se conecta com essas experiências, oferecendo mundos que refletem suas necessidades e anseios.

Escolhas do Coração
Quando um visitante entra, a biblioteca parece avaliar o que está em seu coração. Se alguém está lutando com medos, pode ser levado a um mundo como o das Sombras, onde aprenderá a enfrentar suas inseguranças. Se busca criatividade, pode ser atraído para o Reino dos Sonhos. Essa escolha é feita de maneira quase intuitiva, guiada por uma sabedoria antiga.

O Tempo e o Destino
Por fim, o tempo desempenha um papel crucial. A biblioteca é atemporal, e às vezes, os visitantes chegam em momentos específicos de suas vidas, quando estão mais receptivos a mudanças e descobertas. Essa sincronia entre o momento certo e a pessoa certa é o que torna cada visita especial.

A Biblioteca dos Portais não apenas escolhe seus visitantes; ela os reconhece. Cada pessoa que atravessa suas portas é vista e compreendida, e a magia do lugar oferece experiências que ressoam profundamente com suas almas. Assim, cada visita se torna uma jornada transformadora, onde a biblioteca se revela não apenas como um espaço físico, mas como um guia espiritual na busca pelo autoconhecimento e pela aventura.

A primeira porta que Marla, uma jovem curiosa, decidiu abrir era forrada com um veludo azul profundo. Ao atravessá-la, ela se encontrou no Reino dos Sonhos, onde as nuvens eram feitas de algodão-doce e os rios corriam com néctar. Os habitantes eram criaturas etéreas, feitas de luz e sombra, que podiam transformar pensamentos em realidade.

Ela passou dias explorando esse lugar mágico, aprendendo a moldar seus próprios sonhos. Fez amizade com um pequeno dragão de cristais chamado Lúcio, que a ensinou a voar. Quando decidiu voltar, Lúcio lhe deu uma pena brilhante como lembrança, dizendo que ela poderia usar para lembrar-se sempre de que seus sonhos eram possíveis.

A próxima porta que Marla encontrou era coberta por musgo verde e tinha um som suave como o sussurrar do vento. Ao abri-la, ela entrou na Floresta dos Ecos, onde cada palavra proferida se tornava um eco que dançava entre as árvores. As árvores eram altas e antigas, e as folhas pareciam cantar em harmonia.

Ali, ela conheceu uma sábia coruja chamada Eldrin, que a ensinou sobre o poder das palavras. Também aprendeu que as histórias contadas na floresta se transformavam em vida, e que cada eco era uma memória que moldava o futuro. Ao sair, Eldrin a presenteou com um livro em branco, prometendo que cada história que ela escrevesse teria o poder de ressoar na floresta para sempre.

A terceira porta era feita de um metal brilhante, quente ao toque. Ao cruzá-la, Marla se viu no Deserto da Ilusão, um lugar onde as miragens eram tão reais que poderiam enganar até os mais sábios. As dunas brilhavam sob o sol escaldante, e figuras dançavam à distância, sempre fora de alcance.

Lá, conheceu Zara, uma viajante que havia perdido seu caminho. Juntas, elas enfrentaram as ilusões, aprendendo a distinguir o que era real do que era apenas uma miragem. Zara revelou que o deserto testava a coragem e a determinação de quem passava por ele. Quando finalmente conseguiram encontrar a saída, Zara deu a Marla um espelho, dizendo que ele a ajudaria a ver além das aparências.

A última porta que Marla encontrou era feita de madeira escura e emanava um frio intenso. Ao abri-la, ela se viu no Mundo das Sombras, onde as luzes eram escassas e as criaturas pareciam se esconder nas trevas. Contudo, havia uma beleza estranha nesse lugar, com constelações brilhando em um céu noturno.

Ela conheceu um ser chamado Noctis, que guardava os segredos das sombras. Ele a ensinou que as sombras não eram para ter medo, mas sim para serem compreendidas. Com sua ajuda, Marla aprendeu a dançar com as sombras, a transformar o medo em arte. Quando decidiu voltar, Noctis deu a ela uma pequena lanterna, dizendo que ela nunca deveria esquecer a luz que existe mesmo nas trevas.

Após suas aventuras, Marla retornou à biblioteca, onde as portas agora pareciam mais brilhantes do que antes. Com cada objeto que trazia de seus mundos — a pena, o livro, o espelho e a lanterna — ela percebeu que não só tinha explorado novos lugares, mas também descoberto partes de si mesma.

Ao sair da biblioteca, ela não era mais a mesma. Tinha histórias para contar, experiências para compartilhar e, acima de tudo, um novo entendimento sobre a vida e suas possibilidades. A cada visitante que passava pela porta, ela se tornava uma contadora de histórias, levando um pouco da magia da biblioteca para o mundo real, inspirando outros a explorarem suas próprias portas e a descobrirem os mundos que habitam dentro de si.

Existem várias histórias sobre pessoas que tentaram entrar na Biblioteca dos Portais, mas não conseguiram. Essas experiências muitas vezes se tornam lendas na cidade de Elidória, servindo como avisos e reflexões sobre a natureza da biblioteca e a importância da intenção.

Um homem chamado Artur, conhecido por sua visão pragmática e ceticismo em relação a tudo que era mágico, decidiu que queria provar que a biblioteca era apenas uma fábula. Ao chegar à porta, ele empurrou-a com firmeza, mas, para sua surpresa, a porta não se abriu. Ele tentou novamente, mais insistentemente, mas nada aconteceu. A biblioteca, percebendo sua falta de crença e abertura, decidiu que ele não estava pronto. Artur saiu frustrado, mas a experiência o levou a refletir sobre suas crenças, e, eventualmente, ele se tornou uma pessoa mais receptiva ao mistério da vida.

Um grupo de amigos, animados e ansiosos para explorar, chegou à biblioteca em um dia ensolarado. Eles estavam tão distraídos com suas conversas e risadas que não notaram a aura mágica ao redor do lugar. Quando tentaram abrir a porta, ela parecia selada. Confusos, tentaram várias vezes, mas a porta não se abriu. A biblioteca, percebendo que suas intenções não eram genuínas e que estavam mais interessados na diversão do que na descoberta, decidiu não deixá-los entrar. Deveriam dar importância à calma e a atenção ao momento presente.

Uma mulher chamada Eliana, em busca de respostas para uma tragédia pessoal, chegou à biblioteca com o coração pesado e a mente confusa. Ela queria desesperadamente escapar da dor, mas sua ansiedade e desespero eram tão intensos que a biblioteca não a reconheceu como uma visitante pronta. Ao invés de abrir a porta, uma voz suave ecoou em sua mente, aconselhando-a a encontrar paz dentro de si antes de buscar fora. Ela saiu, não sem dor, mas determinada a trabalhar em seu interior.

Um jovem chamado Leo, cheio de curiosidade, decidiu que queria explorar todos os mundos da biblioteca em uma única visita. Ele se aproximou da porta, mal conseguindo esperar para entrar. Sua impaciência era palpável, e quando tentou abrir a porta, ela permaneceu firmemente fechada. A biblioteca, percebendo sua falta de respeito pelo processo e pela jornada, decidiu que Leo não estava pronto para a profundidade da experiência que oferecia. Grandes descobertas requerem paciência e respeito.

Essas histórias ilustram que a Biblioteca dos Portais não é apenas um lugar físico, mas um espaço que exige introspecção e sinceridade. As portas podem ser fechadas, mas cada tentativa frustrada serve como um aprendizado, preparando os visitantes para a verdadeira magia que aguarda aqueles que entram com o coração aberto e a mente receptiva. Cada história de negação se transforma em uma lição valiosa, guiando as pessoas em suas jornadas pessoais até que estejam prontas para cruzar o limiar da descoberta.

E assim, a Biblioteca dos Portais continuava a ser um lugar onde a imaginação não conhece limites, e onde cada porta abre um novo capítulo na história de quem se atreve a cruzá-la.

Fonte: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Ari Santos Campos (Balneário Camboriú/SC)



Célio Simões* (“A bico de pena”)

No ano 4.000 a.C., o homem já sulcava superfícies rochosas com utensílios de osso ou bronze. No ano 3.000 a.C. egípcios e chineses escreviam com  finíssimos pincéis e canetas feitas de junco. Em 1.300 a.C. romanos, asiáticos e anglo-saxões encontraram formas de escrever na cera, usando estiletes de metal. A pena de ganso e de outras aves (corvo, águia, coruja, ganso e peru) foi o instrumento de escrita mais usado no ocidente desde o século VI até o início do século XIX. A mais comum e fácil de conseguir era a de ganso, animal doméstico. O uso das penas de aves na escrita exigia muito tempo para prepará-las, precisavam ser constantemente apontadas e tinham curta durabilidade. No final do século XVIII finalmente apareceram as penas de metal, que se popularizaram depois de 1850, quando ficaram mais resistentes com a utilização de metais como irídio e ródio.

Desde o século XVII houve várias tentativas de produzir uma caneta que tivesse reservatório de tinta. Embora em 1819 John Scheffer tenha produzido sua primeira caneta tinteiro, e em 1832 John Jacob Parker tenha lançado a primeira caneta auto-recarregável, só em 1884 Lewis Waterman patenteou sua caneta "Ideal", ao produzir um modelo que não vazava. Os sucessivos avanços técnicos encontraram novos materiais e soluções cada vez mais práticas e limpas para encher o reservatório de tinta sendo que,  até a década de 1960, as canetas tinteiro eram instrumentos de uso cotidiano, por profissionais e estudantes, embora seu uso na escola fosse restrito aos alunos de famílias mais abastadas. 

Marcas famosas pontificaram no mercado, como as canetas Sheaffer, Johann Faber, Compactor, Goldem e a cobiçada Parker nas versões 45, 61 e 75, sendo que nenhuma delas foi tão desejada como a Parker 51, considerada verdadeira joia, hoje comparada, guardadas as proporções, à extraordinária e caríssima Montblanc, que dá status social e econômico aos seus donos. Porém, durante a década de 1960, a estudantada carente consagrou as canetas tinteiro Skater, que esteticamente se destacavam por seus coloridos rajados em marrom, azul e verde, afora o preço acessível. Seu caráter utilitário era às vezes desvirtuado pelos jovens estudantes, que empunhando suas canetas, travavam entre si embates com esguichos de tinta na hora do recreio, emporcalhando os uniformes de seus “adversários”, o que lhes rendia a esperada e merecida reprimenda de pais e mestres. 

Em 1938 o jornalista húngaro László Biró, junto com seu irmão György, criou uma caneta recarregável com ponta em forma de esfera móvel que ao girar distribuía tinta de modo uniforme no papel. Biró a patenteou e começou a fabricar esferográfica na Argentina, onde se fixou a partir de 1940. Em 1945 as primeiras esferográficas foram vendidas com muito sucesso no mercado americano, mas como não funcionavam bem logo caíram em desuso. Em 1949 o barão francês Marcel Bich introduziu a esferográfica "Bic" na Europa e em 1958 ele entrou no mercado americano comprando a empresa Waterman Pen Company. Em 1959, com ampla campanha publicitária na TV, a caneta esferográfica Bic foi vendida nos Estados Unidos por apenas 29 centavos de dólar. A Bic chegou ao Brasil em 1961 e seu baixo custo substituiu as de penas metálicas que ainda eram usadas nas escolas. E veio para ficar, pois revolucionou os hábitos de escrita de milhões de pessoas em todo o mundo.

Já o chamado desenho A BICO DE PENA utiliza penas metálicas especiais para criar quadros, cartuns e histórias em quadrinhos. A técnica remonta à Idade Média, quando os monges e escribas copiavam manuscritos à mão. Foi muito utilizada para desenhos no ocidente europeu do século VI até ao século XVIII e até hoje inspira seguidores, como o artista plástico, pesquisador e escritor paraense Sebastião Godinho, membro da Academia Paraense de Letras, que se dedica à produção de belos quadros, retratando monumentos e prédios históricos de Belém, usando essa refinada técnica. 

Na MPB, José Fortuna - cantor, compositor, autor teatral, ator brasileiro e autor de sucessos como a guarânia "Índia", que aparece no disco de "Meu Primeiro Amor" (também de sua versão) gravados originalmente no ano de 1952 - compôs a música que denominou de “BICO DE PENA”, cuja repercussão deve-se ao fato de ser interpretada por Tonico e Tinoco, dupla caipira formada pelos irmãos João Salvador Perez e José Salvador Perez, considerada uma das mais importantes da história da música brasileira, que na primeira estrofe da  extensa letra aborda o tema: 

Com pena peguei na pena
Para com pena escrevê
Alembrando de Ritinha
Que comigo eu vi crescê!
Foi escrevendo estes versos
Comparando meu vivê
Com este bico de pena
Que escreveu o meu padecê...

Atualmente, o computador e os softwares de desenho substituíram o papel, o lápis e a tinta na produção de cartuns e nas histórias em quadrinhos, mas ainda há artistas que preferem a leveza e a sensibilidade do traço manual, minucioso, detalhista e preciso, com que encantam o público mercê do seu grande talento e de sua insuperável arte. (fonte: web)
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(*) O autor é advogado, escritor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Artística e Literária de Óbidos, da Confraria Brasileira de Escritores, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós. 

Fonte: Texto enviado pelo autor