sábado, 11 de julho de 2026

Asas da Poesia * 200 *


Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Rotina

O meu ontem 
Ficou no passado
Morto, enterrado...
O meu agora,
Não existe 
Se fez acabado.
Virei vida inútil
Um sujeito vazio e fútil, ‘
“decadenciado”.
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Trova Humorística de
RENATA PACCOLA
São Paulo/SP

Rico cinquentão? Coitado!
Quisera que fosse assim!
Ele anda mais apertado
que pasta dental no fim!
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Causa Mortis
 
Todo mundo que chegava
ao velório do Candinho,
penalizado, falava:
- Morreu como um passarinho.
 
Um bebum que ali se achava,
curioso, entre o burburinho,
a cada passo escutava:
- Morreu como um passarinho.
 
Chega alguém que, comovido,
pergunta-lhe ao pé do ouvido:
- De que a morte foi causada?
 
E o bebum, em tom de prece:
- Também não sei, mas parece
que foi de uma estilingada.
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Aldravia de
MESSODY RAMIRO BENOLIEL
Rio de Janeiro/RJ

dúvidas
estremecem
relacionamentos
quando
permanecem
presentes
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Naufrágio

Neste oceano da vida, tumultuoso,
Lancei, cheio de sonhos, um barquinho.
E ele flutuou e deslizou airoso,
Vencendo os empecilhos do caminho!

Nos momentos difíceis, sem repouso,
Depressa ia ampará-lo o meu carinho
E ansiosa eu via, com secreto gozo,
Meus sonhos desafiando os torvelinhos!

E chegaste! E de pedra era tua alma!
De papel, o barquinho... e tenso e mudo,
Ficaste, quando o mar perdeu a calma!

Contra o recife, o barco soçobrou!
E os sonhos, sem guarida, ao fim de tudo,
Um a um, impiedoso, o mar levou!
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Trova Premiada de
ARTHUR THOMAZ
(Arthur Thomaz da Silva Neto)
Campinas/SP

Quando perto, o trem apita,
batem forte os corações…
Tudo na estação se agita,
provocando as emoções.
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Poema de
LUCIANA CARRERO
Porto Alegre/RS

Bloco Súbito

Eis aqui a cidade
bloco súbito de concreto
plantada na simplicidade
da paisagem - pelo arquiteto

Nela o homem-multidão
tal compacto rio
e o ídolo – destacável cidadão
que a consciência grupal pariu

Indivíduo impotente
na massa comprimido
logra êxito na corrente
que fabrica seu ídolo

Nele se satisfaz
por fim realizado (?)
Nada lhe resta mais
na multidão segregado
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Quadra Popular

Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.
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Soneto de
BERNARDO TRANCOSO
(Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso)
Vitória/ES

A Rosa Branca

Tantas púrpuras rosas no rosal;
Grosas e grosas, tão bonitas rosas;
Entre as rosas vultosas, majestosas,
Brota uma branca rosa, desigual.

Meu olhar só percebe a rosa tal;
Prefere-lhe, entre rosas mais charmosas;
Rosas pra te dizer que, em meio às grosas,
És como a rosa branca, especial.

Tens no andar que alucina novas cores;
É por ter novas cores que alucina;
És preferida, dentre mil amores.

Como a flor no rosal, tão pequenina
Que, perante outras mais formosas flores,
Difere e, o coração, logo ilumina.
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Trova de
HERMOCLYDES S. FRANCO
(Hermoclydes Siqueira Franco)
Niterói/RJ (1929 – 2012) Rio de Janeiro/RJ

Tenho um cão chamado THÉO,
grande amigo, inseparável...
Ao meu lado, está no céu
e eu me sinto invulnerável!
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Poema de
ALDA LARA
Benguela/Angola, 1930 – 1962, Cambambe/Angola

As belas meninas pardas

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...
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Haicai de
ELISSON THOMAZ SVEREDA
Irati/PR

Lembro de meu pai
Debruçado na janela.
Noitinha de outono.
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Sextilha Agalopada de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Foi voando nas asas dos condores
agarrado nas mãos celestiais,
que senti os prazeres infinitos
e a doçura dos beijos das vestais;
musas virgens da sã sabedoria
que enfeitiçam poetas imortais!
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Trova de
JORGE FREGADOLLI
Maringá/PR

Borboleta beijoqueira
dá beijos em cada flor.
Voando solta, fagueira,
vai fecundar seu amor. 
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Glosa de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

É a primavera chegando...
 
 MOTE
As flores estão voltando,
colorindo tudo... Enfim,
é a Primavera chegando,
perfumando meu jardim.
 José Feldman 
(Floresta/PR)
 
 GLOSA
 As flores estão voltando,
denunciam seus odores;
o vento chega mais brando
nos cenários multicores.
 
É a pintora Natureza
colorindo tudo... Enfim,
lindo toque de beleza
que, à mão de Deus, fica assim!
 
Meu astral se eleva quando
vejo toda essa pintura;
é a Primavera chegando,
como é linda enquanto dura!
 
Pena que, com tanto zelo,
falte uma flor para mim;
a rosa do teu cabelo
perfumando meu jardim.
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Aldravia de
REGINA COELI NUNES
Rio de Janeiro/RJ

rosto
sempre
triste
promove
rugas
subalternas
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Soneto de
NATHAN DE CASTRO
(Nathan de Castro Ferreira Júnior)
João Pinheiro/MG, 1954 – 2014, Uberlândia/MG

Soneto de setembro

Com voz de trovoada e olhos de coriscos,
o céu de cara feia afugenta o soneto.
Arrisco-me no verso livre, em branco e preto:
cantigas de setembros, chuvas e rabiscos

Sinais de tempestades, flores, borboletas?
Versos de folhas verdes nas mãos do Poeta?
Quiçá, quem sabe a terra ensinando-me as letras
das cepas dos coqueiros de praias desertas?!

Canções de erva-cidreira, picão e canela,
remédios para curar as paixões de agosto...
Sementes nos canteiros de eterno desgosto?

Verso livre com cheiro de amor - primavera -
abóbora madura (onde estão minhas feras?).
Silêncio, outro soneto, e um sorriso no rosto.
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Trova Premiada de
RITA MOURÃO 
Ribeirão Preto/SP

Seria a paz mais presente
e o porvir menos incerto
se na mão do adolescente
sempre houvesse um livro aberto!
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Poema de
ARNOLDO PIMENTEL FILHO
Rio de Janeiro/RJ

Aquarela

Eu pinto sonhos que nem sempre têm asas
Sonhos vividos
Sonhos esquecidos
Sonhos que poderão viver na minha tela
Na minha triste aquarela
Minha tela pode estar pintada de vazio
Silêncio vazio
Cores incolores que mostram meu rosto
Tela vazia incolor que inspira minhas cores
Eu pinto meus temores na madrugada
Onde a tempestade é a verdadeira tela
Onde a solidão disfarçada
Invade o meu quarto pela janela
Eu pinto a solidão do meu corpo
Pinto as cores da minha voz nua
Pinto meus olhos perdidos no infinito
Minha tela é meu próprio grito
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Triverso de
ROSÂNGELA JACINTO DA SILVA
Curitiba/PR

À beira do mar.
Como se fosse num espelho
o brilho da Lua.
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Setilha sobre o Mar de
JOSENIR LACERDA
Crato/CE

Fim de tarde, “mar” revolto
As ondas beijando a praia
No horizonte luminoso
O sol cansado desmaia
É cena da natureza
Plena de garbo e Beleza
Que um novo dia ensaia
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Trova de
CEZÁRIO BRANDI FILHO
Juiz de Fora/MG

Quanta gente gostaria
de ter a vida da gente,
sem saber que isto seria
trocar tristeza somente. 
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Hino de 
ANGELINA/ SC

1. 
Entre os montes, a verde campina
Foi o berço da Vila Mundéus,
Que mais tarde chamou-se Angelina
E cresceu com as bênçãos de Deus.

A fé na Gruta de Angelina
Este povo ensina a viver melhor,
O homem faz a trajetória, construindo a história
De um Brasil maior.

2. 
Gratidão este canto encerra
Para aquele que a Vila fundou;
O suor derramado na terra
Foi semente que frutificou.

3. 
Estudantes e agricultores
Cumprem juntos a mesma missão;
Uns cultivam dos livros as flores,
Outros tiram riquezas do chão.

4. 
Os minérios são nova mensagem
Que Angelina ao mundo traduz;
O seu rio abastece a Barragem,
Rica fonte de força e de luz.
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Poetrix de
ANA OLIVEIRA
Espinho/Portugal

o lobo mau e a sua esquizofrenia

cortaram ligações
ao tálamo,
na lobotomia.
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Poema dos Estados Unidos de
E. E. CUMMINGS
(Edward Estlin Cummings) 
Cambridge/Massachussets, 1894 – 1962, Madison/New Hampshire

O Primeiro de Todos os Meus Sonhos 

o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar (pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

até o meu segundo sonho começar—
o céu é agreste de folhas; que dançam
e dançando arrebatam (e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera fúria cedo se tornou
silêncio: em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem (bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E então este sonhador chorou: e então
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
—onde tu e eu estamos a florescer
(Tradução de Cecília Rego Pinheiro)
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Trova Humorística de
A. A. DE ASSIS
(Antônio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Melhor idade?… Bobagem…
lorota antiga… falácia…
– Velhice só traz vantagem
para o dono da farmácia!
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Fábula em Versos da França
JEAN DE LA FONTAINE 
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

A Rã e o Boi

Num prado uma rã
Um boi contemplou,
E ser maior que ele
Vaidosa intentou.

A pela enrugada
Inchando alargou,
E às leves irmãs
Assim perguntou:

- Maior que o Boi
Ó Manas, já sou?
- Não és, lhe disseram
E a rã lhes tornou:

- E agora, inda não?
E mais ainda inchou;
Eis logo de todas
Um não escutou.

Inchar-se invejosa
De novo buscou,
Mas dando um estouro
A vida acabou.

Também, se em grandeza
Vencer procurou
O pobre ao potente,
Por força estourou.
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Mensagem na garrafa 194 = O que faz o medo


AUTOR ANÔNIMO

Num país em guerra havia um rei que causava espanto. Sempre que fazia prisioneiros, não os matava: levava-os a uma sala onde havia um grupo de arqueiros de um lado e uma imensa porta de ferro do outro, sobre a qual viam-se gravadas figuras de caveiras cobertas por sangue.

Nesta sala ele os fazia enfileirar-se em círculo e dizia-lhes, então:

- Vocês podem escolher entre morrerem flechados por meus arqueiros ou passarem por aquela porta e por mim serem lá trancados.

Todos escolhiam serem mortos pelos arqueiros.

Ao terminar a guerra, um soldado que por muito tempo servira ao rei dirigiu-se ao soberano:

- Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?

- Diga, soldado.

- O que havia por detrás da assustadora porta?

- Vá e veja você mesmo.

O soldado, então, abre vagarosamente a porta e, à medida que o faz, raios de sol vão adentrando e clareando o ambiente...

E, finalmente, ele descobre surpreso, que... a porta se abria sobre um caminho que conduzia à LIBERDADE!!!

O soldado, admirado, apenas olha seu rei, que diz:

- Eu dava a eles a escolha, mas preferiram morrer a arriscar-se a abrir esta porta.
***
 
Quantas portas deixamos de abrir pelo medo de arriscar?

Quantas vezes perdemos a liberdade e morremos por dentro, apenas por sentirmos medo de abrir a porta de nossos sonhos?

Pense nisso... sem medo de abrir novas portas!!!

Anton Tchekhov (O candelabro)


Trazendo debaixo do braço um objeto envolvido no número 23 das "Novidades da Bolsa", Sasha Smirnov, filho único, assumindo um ar muito grave, entrou no gabinete do dr. Kochelkov.

— Olá, meu caro rapaz — exclamou o médico. — Então, como vamos? Que conta de novo?

Sasha piscou, levou a mão ao peito o declarou com voz comovida:

— Mamãe envia-lhe suas saudações, Ivan Nikolaievitch, e me encarregou de agradecer-lhe... Sou filho único e o senhor me salvou a vida... O senhor me curou de uma doença perigosa e nós não sabemos como provar nossa gratidão.

— Ora, esqueça-se disso, meu rapaz — interrompeu o doutor. Fiz o que outro qualquer teria feito em meu lugar.

— Sou o único filho de mamãe... Nós somos pobres e seguramente não estamos em condições de poder pagar-lhe seus cuidados. Isso nos tortura, doutor, se bem que, por outro lado, supliquemos, minha mãe e eu, seu filho único, que o senhor aceite este candelabro, essa extraordinária obra de arte...

— Para que isso?

— Não. Peço-lhe. Não recuse. Sua recusa nos magoaria... É um belo objeto, em bronze antigo. Ele nos vem do meu falecido pai e nós o guardamos como uma lembrança muito cara... Papai comprava bronzes velhos e os revendia aos amadores. Agora mamãe e eu continuamos seu pequeno negócio...

Sasha desembrulhou o objeto colocou-o sobre a mesa. Era um candelabro, de tamanho médio, em bronze antigo, artisticamente trabalhado. Representava um grupo: sobre um pedestal, erguiam-se duas figuras femininas, com as roupas de Eva, em poses que eu não saberia descrever por falta de audácia e de temperamento necessários. Essas figuras sorriam vaidosamente, com um ar tão desavergonhado que, ao que parece, não fosse uma obrigação sustentar o castiçal, elas teriam pulado fora do pedestal para se entregar a uma bacanal que nem é bom imaginar. Contemplando o presente, o doutor coçou a orelha, tossiu e disse:


— Hum... É de fato um belo objeto. Mas... Como direi? É... muito... muito livre, não é verdade? Bem é decotado... é pior!

— Por que razão?

— A serpente não poderia ter imaginado nada de mais perturbador. Colocar essa alegoria sobre a mesa seria macular todo o apartamento!

— Que estranha concepção da arte o senhor tem, doutor! — disse Sasha, ofendido. — É uma obra de arte, olhe-a bem! Essa beleza e essa elegância enchem a alma de veneração e produzem um nó na garganta... Contemplando essa perfeição, a pessoa esquece o mundo. Veja que movimento! Que finura de expressão!

— Compreendo muito bem tudo isso — disse o doutor. — Mas eu tenho família, as crianças brincam aqui frequentemente, senhoras entram neste gabinete...

— Sem dúvida, se a pessoa se coloca sob o ponto de vista vulgar, essa obra-prima apresenta um outro aspecto. Mas doutor, eleve-se acima do vulgar. Aliás, sua recusa desolaria a mim e a mamãe. Sou filho único... o senhor me salvou a vida... Nós damos ao senhor o que temos de mais caro e... e eu sinto tanto que não tenhamos o outro candelabro que forma o par para lhe oferecer...

— Obrigado, meu rapaz, eu lhe sou infinitamente grato. Meus cumprimentos à senhora sua mãe. Mas pense bem: as crianças brincam aqui... senhoras vêm aqui... Enfim, conservo-o. Fico com ele. Impossível explicar a você as razões de... de...

—Não há nada a explicar... — disse Sasha, alegre. — Coloque o candelabro aqui, perto do vaso. Ah, que pena não tenhamos o par! Até à vista, doutor!

Depois da saída de Sasha, o doutor contemplou durante bastante tempo o candelabro, coçou novamente a orelha e meditou:

— É um objeto bonito, não há dúvida... Pena ter que me desfazer dele. Impossível conservá-lo em casa... A quem poderia oferecê-lo?

Depois de refletir longamente, ele lembrou-se de seu amigo Kripounov, a quem devia favores.

— Ótimo — disse o doutor. — Vou levar-lhe esta obra do demônio... Ele é celibatário e leviano...

Incontinenti, o doutor vestiu-se, tomou o candelabro e dirigiu-se à casa de Kripounov.

— Olha, meu velho amigo! — disse, tendo encontrado o advogado em casa. — Eis-me aqui para agradecer a você os serviços que lhe devo. Você se recusa a aceitar dinheiro. Aceite, então, essa bagatela... Ei-la, meu caro...

O advogado entusiasmou-se com a bagatela.

—Ah! Onde encontrou isso? Aí tem com que fazer um santo perder a santidade! É maravilhoso, encantador! Onde você descobriu isso?

Tendo, desta forma, demonstrado o entusiasmo, ele lançou um olhar inquieto em direção à porta e disse:

— Mas eu não quero isso. Leve isso, meu amigo.

— Por quê?

— Porque... Eu recebo minha mãe aqui... e... e as clientes... e tem a criada. É embaraçoso. Leve isso.

— Não! Não! Não permito que você o recuse! Seria pouco amável da sua parte! Uma obra de arte! Olhe bem... Essa expressão, essa finura... Você me ofende!

— Mas, se elas ao menos tivessem uma folha de parreira...

Mas o doutor gesticulou ainda mais e desapareceu, deixando na casa de Kripounov o presente.

O doutor estava multo satisfeito consigo mesmo. Depois que ele saiu, o advogado examinou o candelabro, apalpou-o e, da mesma forma que o doutor, pensou como poderia livrar-se dele.

— É um lindo objeto. É uma pena ter que me desfazer dele. Mas é muito inconveniente, não há dúvida... O melhor é dar de presente a alguém... Esta noite irei oferecê-lo ao ator Chamekine. O folgazão gosta de objetos deste gênero. E como hoje há um espetáculo em sua honra...

Dito e feito. O candelabro, cuidadosamente embrulhado, foi presenteado a Chamekine, o grande ator. Toda aquela noite seu camarim ficou cheio de rapazes que admiravam o presente. Era um rumor de risos constante. Quando uma atriz perguntava "posso entrar?", Chamekine respondia desesperado: "Não! Não estou vestido". Mas ele estava vestido. Quem não estavam vestidas eram as mulheres do candelabro. Após o espetáculo, Chamekine perguntou ao homem que o maquilava:

— Como ver-me livre desse objeto? Moro numa pensão familiar e... Enfim, o candelabro não é uma fotografia que a gente esconda dentro de uma gaveta...

O homem retrucou:

—Venda-o. Eu conheço justamente uma velha que faz negócios com bronzes antigos... Olhe, procure a loja de Mme. Smirnov... Todo mundo a conhece.

O ator seguiu o conselho do maquilador.

Dois dias mais tarde, o dr. Kchelkov meditava no seu gabinete, quando a porta se abriu e entrou Sasha Smirnov. O moço sorria feliz. Trazia um objeto envolto num jornal.

—Doutor — começou, com a respiração curta —, imagine o nosso prazer... Por felicidade, conseguimos adquirir o candelabro que estava faltando para completar o par... Mamãe está radiante. E eu, seu filho único, também. O senhor me salvou a vida... Pois tome, doutor, tome...

Sasha, tremendo de reconhecimento, colocou o candelabro diante do doutor. Este, abrindo a boca, tentou falar, mas havia perdido a voz.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV foi um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos. Médico por profissão e escritor por vocação, ele revolucionou a literatura ocidental ao focar no cotidiano, eliminando a necessidade de enredos mirabolantes para expor a complexidade da alma humana. Nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade portuária no sul da Rússia, e morreu em 1904 (aos 44 anos), em Badenweiler, na Alemanha. Ele faleceu devido ao agravamento da tuberculose e seus momentos finais ficaram famosos por ele ter bebido uma taça de champanhe antes de partir. Cresceu em Taganrog, mas mudou-se para Moscou para estudar medicina. Teve uma educação familiar rigorosa e foi estimulado a estudar, trabalhar e frequentar a igreja. Com o sucesso literário, comprou uma propriedade rural em Melikhovo (perto de Moscou), onde prestava atendimento médico gratuito aos camponeses. Nos últimos anos de vida, devido à saúde frágil, mudou-se para uma casa em Ialta, na Crimeia (região de clima mais ameno).
Tchekhov formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou em 1884. Ele exerceu a profissão intensamente durante toda a vida, tratando os pobres e combatendo epidemias de cólera. Ele dizia sua famosa frase: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". Em 1890, fez uma célebre jornada até a remota Ilha de Sacalina, uma colônia penal russa, para fazer um censo médico e denunciar as condições desumanas dos presos. Começou a escrever pequenos contos satíricos e humorescos sob pseudônimos (como Antosha Chekhonte) ainda na faculdade para sustentar sua família falida. Aos poucos, seu estilo amadureceu para o Realismo, ganhando profundidade psicológica. Na maturidade, uniu-se ao diretor Konstantin Stanislavski e ao Teatro de Arte de Moscou, onde suas grandes peças revolucionaram a história do teatro mundial. O autor tinha o sonho de morar no campo e, em 1892, mudou-se com parte da família em Melichovo, a 60 km de Moscou. Dentre as visitas que recebia na propriedade, estava Lidia Mizinova, com quem manteve uma relação afetiva e que inspirou suas obras. A partir de 1895, passou a comprar livros para doar à biblioteca de Taganrog, além de financiar a construção de escolas em algumas aldeias. Em 1897, o escritor recebeu o diagnóstico de tuberculose. Na tentativa de se curar, morou em Nice, Paris e, em 1898, em Ialta. Três anos depois, em 1901, casou-se com a atriz Olga Knipper (1868–1959). Devido à carreira, Olga ficava em Moscou, enquanto ele vivia em Ialta. O casal se correspondia com cartas e telegramas. Em 1904, Tchekhov foi fazer um tratamento em Badenweiler (Alemanha). Infelizmente, lá, seu estado se complicou, e o autor faleceu.
Recebeu a maior honraria literária da Rússia [Prêmio Púchkin (1888)], concedida pela Academia de Ciências da Rússia, por sua coletânea de contos No Crepúsculo. Prêmio Griboedov concedido pela Sociedade de Dramaturgos por sua aclamada peça As Três Irmãs. Em 1899, foi eleito Membro Honorário da Academia de Ciências da Rússia (Seção de Belas Letras). Contudo, em 1902, Tchekhov renunciou ao título de acadêmico em solidariedade ao seu amigo Maxim Gorky, cuja nomeação havia sido anulada pelo Czar Nicolau II por motivos políticos. Recebeu a condecoração oficial do império Ordem de São Estanislau (1899), por seus esforços em prol da educação pública e fundação de escolas rurais.
Tchekhov não escrevia romances longos; sua produção consistia em centenas de contos, novelas e peças teatrais. 
Contos e Novelas Célebres: A Estepe (1888); A Ala nº 6 (1892); O Duelo (1891); A Dama do Cachorrinho (1899); A Ilha de Sacalina (1895 - relato social/médico).
Teatro: A Gaivota (1896); Tio Vânia (1897); As Três Irmãs (1901); O Jardim das Cerejeiras (1904)
A relevância de Tchekhov reside na modernização do conto e do drama. Antes dele, as histórias dependiam de grandes clímax e finais moralistas. Tchekhov introduziu o conceito de "ação indireta" e o corte psicológico do cotidiano: suas histórias focam no que acontece nos subtextos, nos silêncios e no tédio da vida real. Ele criou o princípio dramático conhecido como "Arma de Tchekhov" (se você colocar uma arma carregada no primeiro ato, ela precisa disparar no terceiro), defendendo que nenhum elemento em uma história deve ser supérfluo. Influenciou gigantes da literatura mundial como Ernest Hemingway, Raymond Carver, Katherine Mansfield e James Joyce.

Fontes: 
Revista da Semana, 21.07.1945. Publicado originalmente na revista humorística russa Oskolki (revista Fragmentos, edição nº 50), sob o pseudônimo de Antosha Chekhonte, em 1886.
Biografia = Wikipedia; Livrista; Portal da Literatura; Mundo Educação; Brasil Escola; LPM; Revista Cult, Jornal Opção, Plug Literário, etc.

Laé de Souza (Indecisão no Metrô)


Não consigo discernir muito bem o real do irreal. Minhas ideias vão em uma linha e só naquele sentido. Vejo-me em aperto, quando o interlocutor me pergunta: “Que idade você me dá?”. Gelo. Se falar a mais, a pessoa se irrita, se a menos, pensa que é gozação, e se irrita, do mesmo jeito. Não consigo descobrir as idades simplesmente olhando às pessoas. Por conta disso, já me vi em muitas enrascadas e as últimas ocorreram no metrô.

Estava, eu, sentado no banco preferencial dos idosos, gestantes e deficientes, quando se aproximou uma senhora, que a mim pareceu ser idosa. Ao oferecer o lugar, levei um xingo e indagado, aos gritos da mulher, se achava que ela era idosa e merecedora do lugar no banco. Era das provocadoras e insistia em querer resposta, o que me fez descer do vagão e embarcar em outro.

Noutro dia, na dúvida, entre levanto ou não, perguntei à senhora se ela era idosa, pelo que levei um belo tapa no rosto. Envergonhado, desci, novamente.

Uma vez, um senhor, aquele, tinha certeza de que era idoso, próximo ao meu banco, ofereci o meu lugar. Desligado que sou, nem havia percebido que o tal estava na paquera de uma senhora e, para mostrar que estava em forma, falou-me alto e para ser ouvido por todos: “Se liga, cara, quem, aqui, está precisando sentar? Não reconhece um atleta, não? Você está mais precisado”. De novo abandono o trem.

Uma vez, quis fazer gracinha e ser educado com uma senhora, que me pareceu, grávida. “As grávidas têm preferência, sente-se senhora”. Maldito gesto e fala. A mulher, aos gritos, disse que a estava chamando de gorda e insinuando gravidez, para ofendê-la. Mas, quem, meu Deus, não acharia que aquela barriga era de gravidez? Uma senhora do lado, entrou na briga e falou que era realmente por gozação, porque para ela, que estava realmente grávida, eu não havia oferecido o lugar. Lá desço eu, de novo.

Resolvi, para evitar confusão, que não sento mais no trem.

Pensei que tinha se resolvido o dilema, mas qual. Outro dia, em pé, o banco com apenas um senhor sentado, rendeu-me mais problemas. O fulano, com os braços e rosto em feridas, ao que parece, proveniente de uma doença, dirigiu-me desaforos, dizendo que o banco estava vazio e eu me recusava a sentar ao seu lado, por nojo. Tentei argumentar, mas não teve jeito!

Desci do trem.
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O escritor LAÉ DE SOUZA é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua vivo, ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infantojuvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.

Fontes:
Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018.
Biografia = AFPESP, Projetos de Leitura, Jornal da Franca, Prefeitura Municipal de Jequié, etc.