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quinta-feira, 31 de março de 2022

Sammis Reachers (Nildo, a lição de Jaú e o balde de cal)

Amigos, o Nildo, anos depois, já como motorista da empresa Pendotiba, certa vez foi obrigado a pegar um veículo 'normal' (grande) na garagem, para fazer linha, lá pelas 07h00 da matina. Acontece que Nildo, desde que iniciara ao volante, trabalhara sempre em micro-ônibus, pelo que estava desacostumado de rodar em ônibus grandes. Mas, vida que segue.

Indo nosso querido Nildo em direção ao ponto final, para começar a fazer linha, na altura da rotatória do bairro Baldeador, nosso amigo, desacostumado com carroções, raspou o pneu no meio-fio.

Naquela época os pneus dos veículos da Pendotiba, assim como de algumas outras empresas, eram pintados com algo em torno de cinco ou seis bolinhas brancas na lateral:    para cada bolinha  daquela que    aparecesse raspada, o motorista era obrigado a pagar uma quantia em dinheiro!

Sentindo a raspada, Nildo parou o veículo e desceu para avaliar o 'prejuízo'. A raspada fora à vera: quatro bolinhas haviam desaparecido! E ele ainda nem começara a fazer linha, a apanhar passageiros...

Mas, ali próximo havia um galpão da CLIN, a companhia de limpeza e conservação urbana de Niterói. Por uma incrível sorte, Nildo observou um funcionário da CLIN munido de uma lata de cal e pintando os meios-fios, alguns metros adiante. Nosso amigo imediatamente lembrou-se da lição do velho Jaú, o "liquid-paper", e não se fez de rogado: apanhando no lixo uma pequena garrafa plástica de 6OO ml de Coca-Cola, foi até o gari, pediu um pouco de cal, e em seguida, voltando para o carro, apanhou em sua bolsa um chumaço de papel higiênico.

Após limpar o borrado do pneu, com o papel encharcado de cal, o bom Nildo pintou novamente as quatro bolinhas faltantes, e ficaram redondinhas, perfeitas as meninas! Tão certinhas que Nildo rodou o resto do dia e ninguém percebeu sua obra de arte...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Sammis Reachers (Malandro demais se atrapalha)

Agora vamos falar de um motorista que passou toda a sua carreira na empresa Ingá. Bom malandro, mulherengo e beliscador, nosso amigo tem um apelido inusitado: Videocassete. Isso mesmo, um malandro com alcunha de eletrodoméstico.

Bem, nosso amigo era chegado numa 'infração'. No tempo em que os ônibus da empresa não tinham câmeras, ele, se encontrasse um cobrador que também gostasse do 'belisco', fazia a festa: eram montes de passageiros pela porta da frente.

Eis que um belo dia nosso personagem está na garagem, e seu cobrador efetivo, que já estava acostumado aos trâmites e métodos de Videocassete, faltou ao serviço. Na garagem, 'torrando' (na sobra ou sem linha fixa) um cobrador novato, com somente uma semana de casa; negro magrinho, cria do morro Santo Cristo, no Fonseca, em Niterói. Nosso sagaz Videocassete olhou e pensou: "Êpa, olha ali um frango novo, vou colocar ele do jeito que eu gosto."

E lá foram os dois, fazendo linha na saudosa 62 Fonseca x Charitas. Mas, ainda saindo da garagem, enquanto estavam sozinhos no veículo. Videocassete perguntou ao rapaz, a quem ele avaliara como muito parado, muito devagar:

- E aí meu compadre, me diz ai: Você gosta de arrumar o do lanche? (Do lanche, fique claro, era a senha para roubar algumas passagens).

- Pô, gosto sim. Mas eu sou novo e fico meio cabreiro...

- Esquenta não, deixa comigo. Hoje a gente vai arrumar muito dinheiro.

E lá foram eles para a jornada de trabalho. Lá pelas tantas, já perto da última viagem, Videocassete chama o rapaz e lhe diz:

- Filho, você está começando agora, então vou lhe ensinar: Eu joguei um monte de passageiro pela porta da frente. Em compensação, a maior parte da arrecadação é minha. Entendeu? Se der cem reais, setenta são meus e trinta seus, pois o trabalho foi todo meu.

Ao ouvir isso, o cobrador pulou:

- Espere aí, mas Isso está errado! O certo é ser meio a meio! E se algum fiscal ver, quem vai pra rua sou eu, que não estou rodando a roleta quando me pagam!

Videocassete insistiu, desesperado para engabelar o rapaz:

- Rapaz, aqui funciona assim. Todo mundo faz assim. Ou você se enquadra no esquema ou fica ruim pra você.

O jovem, encurralado, resolveu assentir, para que Videocassete acreditasse que ele aceitou a sinistra divisão.

Ao fim    dos trabalhos,    o jovem calcula o valor conseguido: algo em torno de oitenta reais. Ao comunicar a Videocassete, ele disse:

- Imaginei isso mesmo, daqui da frente eu fico só contando... Então, já sabe: cinquenta para mim e trinta para você.

Já na garagem, o rapaz, após marcar junto ao despachante o número final da roleta e encerrar a guia (ficha) de trabalho, vai em direção ao nosso querido Videocassete, para lhe entregar, de maneira encoberta, a sua parte do despojo que amealharam. Faz de conta que está apertando a mão do mesmo, lhe entrega seu crachá e junto, a soma em dinheiro, em notas bem dobradinhas.

Videocassete, malandro velho, coloca imediatamente a soma no bolso, sem conferir, para que ninguém visse o movimento.

Dias depois. Videocassete avista o jovem rapaz na garagem. Faz menção de chamá-lo, mas o rapaz faz sinal de que não tem nada pra falar com ele. Videocassete, bastante irritado, vai em direção ao jovem, e ao chegar perto, cochicha:

- Rapaz, qual é a sua? Você me deu uma porrada de notas de dois reais enroladas, um volume enorme, mas tinha só vinte reais! E você ficou com sessenta!

Ao que o rapaz respondeu;

- Amigo, você acha que por eu ser novo aqui, sou algum otário seu? Fui criado na favela, no pé da malandragem. Acha que vim aqui pra tomar volta? Na escola em que você estudou, eu já dei muita aula.

E saiu andando, rindo de nosso velho Videocassete, que, dentro da garagem e à vista dos chefes, nada mais poderia fazer ou dizer.

É como se diz: O mal do malandro é achar que todo mundo é otário…

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários. São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Sammis Reachers (Lourival na Troca dos Leões)

Lourival, ainda muito jovem, decidiu ingressar na carreira de rodoviário. Naquele tempo era bem mais fácil tirar a carteira na categoria D. Era possível tirá-la direto, sem ter que passar pela B. Assim, com menos de 20 anos Lourival já era motorista. E numa das melhores (e também mais exigentes) empresas do estado: a Viação 1001.

Certa feita a empresa decidiu-se por colocar Lourival para dirigir numa linha importante: Rio de Janeiro x Governador Valadares (em Minas Gerais). Além de ser bem jovem, nosso amigo ainda era novo na empresa, e sentiu o peso da responsabilidade. Não podia dar mole.

O primeiro e segundo dias na nova linha foram tensos, mas transcorreram sem problemas, Mas, no terceiro dia... O ônibus estava parado no ponto final da Rodoviária Novo Rio. Os passageiros embarcavam normalmente.

Após algum tempo, Lourival, que estava no banheiro, se dirigiu ao veículo, e tranquilamente sentou-se em sua posição. Aí os problemas começaram. Um senhor já grisalho, grande e de voz grossa, levantou-se do meio do salão e dirigiu-se para a frente do veículo. Deu então uma boa olhada de cima a baixo no franzino Lourival e disse:

– Com você eu não viajo!

Em seguida, voltando-se para os outros passageiros já assentados, berrou:

– Eles vão colocar um moleque para pilotar esse ônibus. Querem arriscar nossa segurança nas mãos de um garotão que nem barba tem!

Antes que o pobre Lourival pudesse gaguejar alguma coisa, a confusão estava armada: outros passageiros, influenciados pelo velho encrenqueiro que não parava de falar, também se levantaram e começaram a matraquear.

E agora??? O pacato Lourival não sabia o que fazer. Ele era novo na empresa e mais novo ainda naquela muito boa linha; não poderia de jeito nenhum arrumar problema, mesmo sendo inocente.

Enquanto isso, o falatório continuava. Lourival já começara a suar de tão nervoso, quando de repente uma ideia veio lhe iluminar, no momento em que ele viu um outro companheiro rodoviário passando tranquilamente pela plataforma da rodoviária. Saltando do banco, Lourival contou sua estória, mandou seu "caô";

– Queridos, fiquem tranquilos que eu não vou dirigir este ônibus não. Sou só o manobrista. O motorista é aquele ali – disse, apontando para    o desavisado companheiro que andava do lado de fora do veículo.

Imediatamente Lourival desceu e, abraçando o rodoviário que ele nunca vira na vida, não perdeu tempo e foi logo contando sua história triste e também seu pequeno plano para o companheiro. O cidadão, mesmo um pouco contrariado, resolveu salvar a pele do nosso amigo. Entrou no veículo, cumprimentou os passageiros, que se acalmaram. Em seguida, pediu licença e fechou a pequena portinhola, que em muitos ônibus de viagem, separam a cabine do motorista da parte de trás (o salão) do ônibus.

A seguir, sem que pudesse ser visto pelas janelas, Lourival se esgueirou de volta ao ônibus, trocou de lugar com o tal motorista, que saiu de fininho enquanto Lourival dava a partida no veículo.

E assim lá foi seguindo sua viagem o bom Lourival. Rodou por ininterruptas cinco horas, quando então se aproximou o primeiro ponto de parada, momento em que os passageiros podiam descer para esticar as pernas e comer alguma coisa. Era a hora da verdade. Lourival voltou a suar frio.

Ao encostar no pequeno posto de paragem, Lourival abriu a porta, mas sem colocar sua cara à vista. Os passageiros começaram a descer, aparentemente sem reparar em Lourival, que olhava para o outro lado. Mas aí chegou a vez do velho encrenqueiro descer. Já nas escadas, ele parou e voltou-se para Lourival. Percebeu então que aquele era o "menino" com quem ele dissera que não iria viajar.

– Ei, é você!! – disse o velho.

– Sim, sou eu, senhor.

– Venha, vamos descer!

Assustado, o pacato Lourival levantou-se e desceu as escadas. Imaginava que tipo de coisa iria acontecer.

– Amigo, até que você dirigiu muito bem. Me equivoquei a seu respeito; me perdoe. Você é um grande condutor.

Surpreso e aliviado, Lourival respirou mais tranquilo. Mas não era tudo.

– Venha, rapaz – disse o coroa. – Venha que vou lhe pagar o almoço. Venha!

E assim o bom Lourival, que achou que iria até apanhar, ganhou um amigo e um fiel pagador de almoços...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários. São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Sammis Reachers (O valentão da madrugada)

Algumas histórias por que passamos em nosso dia-a-dia envolvem certa violência, e sabemos que o melhor, em relação à violência, é mantermos distância dela. Afinal, "violência gera violência." Mas, trabalhando nas ruas, estamos sujeitos a tudo, e muitas vezes nossa única opção é dançar conforme a música. Trabalhando durante a madrugada então, ah, aí é que 'o bagulho fica doido'.

Tudo começa com nosso amigo Sílvio, hoje motorista e homem de Deus, mas na época trabalhando como cobrador, e dado a tomar alguns tragos da "marvada" cachaça. A madrugada ia em seus inícios, lá pelas uma da manhã. A empresa era a ABC de São Gonçalo; a linha era a 12, Santa Luzia x Covanca. Havia já alguns passageiros no carro, dentre    os quais alguns maus    elementos, bandidagem conhecida do bairro Jardim Catarina. Sempre pegavam carona    quando iam ou voltavam de suas 'atividades'. Área de chapa quente é sempre igual: Se não uma amizade, ao menos alguma tolerância se estabelece entre eles, os marginais, e os rodoviários que, acuados, não têm outro recurso senão fazer vista grossa a certos movimentos e caronas.

Pois bem, em certo ponto sobe no veículo um elemento, moreno parrudo, acompanhado de duas mulheres, bonitas e vestidas como 'mulheres da vida'. As mulheres passam pela roleta, e em seguida o cara que, mal-encarado, saca uma nota de cem cruzeiros, algo como 100 reais de hoje. Ao que Sílvio, o cobrador, pergunta:

- O senhor não teria nota menor aí não?

- Só tenho esse, dá seu jeito aí.

Sílvio disse então para o elemento aguardar, pois não havia ainda troco suficiente. O indivíduo, muito cheio de si e querendo se mostrar para as duas mulheres, que sorriam, começou a bater boca com nosso amigo. Ofensa vai, ofensa vem, um dos tais malandros, que estava lá no fundão do buzu, se levanta, vai até Silvio e diz baixinho:

- Aí, cobra, esse malandro tá chiando muito. Segura aqui essa peça e põe na cara dele - e em seguida sacou um trabuco da cintura e fez menção de entregá-lo a nosso amigo.

- Não, não, quero não, tá tranquilo - disse Sílvio, assustado.

Enquanto isso o indivíduo, entretido com as mulheres, sequer percebera a movimentação. Mas continuou a falar grosso, enquanto o malandro voltava para seu lugar.

Mas, meus amigos, o problema foi que o indivíduo não parou de falar. Não se aguentando mais, dois dos malandros se levantaram, e um deles foi logo apontando o canhão direto na cara do 'brabo'.

- Abre a porta aê, motorista. O otário aqui vai descer. Bora otário, desce!

O cara, levantando-se assustado e contrariado, ainda perguntou:

- E o meu troco?

– Troco?!! Tem troco não mané! Desce, vaza!!!

O indivíduo, agora sem a expressão de homem valente, desceu. Mas, como bom otário, cometeu mais um erro: do lado de fora, foi até a porta de trás, que se abrira para apanhar outro passageiro, e perguntou novamente ao cobrador:

- E o meu troco? Quero meu troco.

Ao ouvir isso, os malandros não se aguentaram:

- Para, para, para aê, motô, que nós vamos limpar esse mané.

Os quatro elementos desceram atrás do 'valentão', e o ônibus seguiu viagem, tranquilamente, com Sílvio aliviado por se ver livre da encrenca.

Uma semana depois, um dos malandros do Catarina apanhou novamente o ônibus da dupla. Ao reconhecer Sílvio, o marginal foi logo contando:

- Aí, cobra, lembra daquele otário? Limpamos ele e as duas meninas. Até a camisa e o tênis dele levamos.

Moral da história: Cuidado quando for pegar um ônibus na madrugada. Toda humildade é pouca!

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários. São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Sammis Reachers (Ei, você, me dá esse dinheiro aí)

A dupla da linha 49-2 (Fonseca x Icaraí circular) Antônio Marcone e Gilberto "Infernal", circulando num moderno veículo 'piso baixo', automático, avançava tranquilamente pela praia de Icaraí, em Niterói.

Ao aproximarem-se daquele que é o segundo ponto da praia, o motorista Marcone, homem tranquilo e boa praça, percebeu algo inusitado. Um indivíduo, notando de relance a  aproximação do ônibus, tirou sua mão do bolso da calça para fazer sinal. Ao arrancar bruscamente a mão, uma nota saiu desapercebidamente de seu bolso e caiu ao chão. Marconi comentou o fato com o 'cobra' Gilberto, apenas a título de curiosidade.

Pois bem: ao parar a viatura e abrir a porta para o embarque do cidadão, por sinal o único passageiro do ponto, Marcone fez menção de avisar ao mesmo sobre a nota. Mas, quando ia abrir a boca, Gilberto (que estava em sua roleta bem ao lado da porta dianteira, como é comum nesses veículos 'piso baixo') se antecipou e disse para o cidadão, com a maior das caras de pau:

- Por favor cidadão, você pode pegar aquela nota ali pra mim?

O coitado do indivíduo, pego de surpresa, simplesmente apanhou a sua própria nota que caíra e entregou de mão beijada a Gilberto...

Detalhe: eram míseros dois reais...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Sammis Reachers (Samuel "Bronson")

Samuel hoje é um motorista pacato, cansado de encrencas, aguardando a chegada da aposentadoria. Mas nem sempre foi assim. Quando jovem, Sassá era "da pá virada", como ele mesmo gosta de dizer.

Tendo iniciado ainda jovem sua carreira de rodoviário na cidade do Rio, após certo tempo Sassá veio trabalhar em Niterói, na empresa Ingá.

Acostumado ao ritmo alucinado do Rio de Janeiro, do lado de cá, todos os dias antes de iniciar os trabalhos, nosso amigo procedia a um sinistro ritual, que trouxera da cidade vizinha: colocava sua grande pistola Beretta 9mm cromada sobre o banco, e sentava-se com a perna por cima. O eventual desconforto já nem o incomodava mais.

Dia vai, dia vem, lá está Samuel, dirigindo pela linha 49, a linha-mãe de todas as tretas. Em certa altura, Samuel percebe que dois elementos suspeitos, que entraram no veículo, "deram um voo", ou seja, passaram por baixo da roleta, que ficava na parte de trás do veículo. Sassá, tranquilo e 'maquinado', seguiu a tocar. Alguns minutos transcorridos, os elementos se levantaram e anunciaram o assalto. Enquanto um fazia a coleta dos passageiros, o outro fora para a dianteira, e, com uma mochila vestida para a frente, sobre o peito, segurava alguma coisa com a mão enfiada por detrás da mesma.

Nisso Samuel, sangue-frio, não aguenta e pergunta:

- Que foi, rapaz? Está com dor de barriga? Tá aí assustado segurando a barriga...

- Dor de barriga nada, mano! Num tá vendo que é um assalto?!

Nesse momento, um idoso que estava sentado naquele banquinho pequeno, à direita do motorista, não suportou a forte emoção e começou a urinar nas calças. Samuel também não aguentou a cena, e desatou a rir. O bandido achou ruim;

- Tá rindo do quê, ô mané? Fica na moral aí! - E nesse momento sacou a 'arma'; um velho revólver calibre 22, enferrujado e capenga. Bem, velho ou não, é sempre uma arma. Samuel ficou em silêncio.

Após a coleta dos passageiros, os dois indivíduos disseram:

- Pare ali, em frente àquela rua.

Samuel parou. Mas, antes de abrir a porta, sacou tranquilamente a sua enorme 'ferramenta', que brilhava como uma estrela, apontou-a para a cara dos dois elementos que, meio que distraídos observando a movimentação na rua, se amontoavam na escada prontos para descer, Sassá então falou, com uma calma perturbadora:

- Antes de descerem, coloquem por favor tudo o que roubaram aqui no capô. Ah, e coloquem também o brinquedinho de vocês. Gostei dele, tão pequenininho... Vou levar para minha filha brincar.

Pegos de surpresa, e vendo o sinistro sorriso e o frio brilho no olhar de Samuel, os vagabundos não tiveram alternativa senão depositar tudo no 'altar' e descer em silêncio.

O cobrador Dada, e os passageiros não acreditavam no que viam.

- Você é maluco, é doido! ~ diziam, assustados.

- Agora senhores passageiros, cada um venha aqui e veja na mochila deles o que é seu.

Mas a notícia chegou a seu Francisco, o dono da empresa, que, claro, convocou Samuel para prestar esclarecimentos. Aquele tipo de atitude imprudente não poderia se repetir.

- Ora seu Francisco, do que o senhor reclama? Me dou ao trabalho de defender o seu patrimônio e o de seus clientes, além da honra de sua empresa, e o senhor ainda acha ruim?

Francisco, percebendo que o jovem Sassá era caso perdido, mandou que    ele voltasse ao trabalho, recomendando que ele tomasse cuidado, e evitasse andar armado.

Mas e os bandidos, estará você se perguntado? Não voltaram em busca de vingança, ou ao menos para tentar novos assaltos? Sim. Certa feita, tarde da noite, estavam os mesmos trapalhões em outro ponto, e ao verem o veículo aproximando-se, deram sinal. Reconhecendo-os à distância, Samuel parou bem defronte a eles, abrindo a porta dianteira para que pudessem vê-lo. Apenas olhou em silêncio. Os rapazes, ao reconhecê-lo, gritaram;

- Pode ir tio, pode ir! O senhor é maluco, contigo nós não vamo não!

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia 
dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

domingo, 5 de setembro de 2021

Sammis Reachers (A Inimiga Pública)

Cristiano é a figura da serenidade. Ô cara tranquilo. Mas, claro, sem ser bobo.

Num belo dia de sol assanhado, conduzindo ônibus da linha 62 (Sta.  Bárbara x Charitas), veículo lotado, nosso pacato Cris para a viatura na altura do bairro Vila Ipiranga, para o embarque e    desembarque de passageiros. Isso antes de serem construídas a pista seletiva e as estações na Alameda São Boaventura.

Após observar que o último passageiro a embarcar já estava a bordo da nave, Cris apertou o botão que fechava a porta traseira e partiu com o veículo. Mas ao olhar novamente para o retrovisor da direita, percebeu um vulto pulando para dentro, no exato momento em que a porta se fechava. O cobrador imediatamente bateu a moeda na roleta, no código de "abrir a porta". O braço da pessoa ficara agarrado!

Se você é motorista, ou rodoviário de qualquer função, ou mesmo uma pessoa de bom senso, sabe que há um limite do campo de visão que o espelho retrovisor abarca. Assim, se uma pessoa está fora deste campo de visão, e ao ver a porta do ônibus aberta, corre em direção a mesma e pula sem maior aviso, é imensa a chance de acontecer de ela ser 'fechada' na porta. Essa é mesmo uma das maiores causas de acidente nos coletivos.

E foi exatamente isso que a passageira, uma mulher, fez. Por sorte, houve tempo de o ônibus parar e abrir a porta sem que a mulher se ferisse. Após entrar e passar na roleta,    a cidadã nada falou. Nem um pio.

Simplesmente tomou fôlego e foi esgueirando-se naquele ônibus cheio até chegar à parte da frente. Ao chegar próxima ao motorista, ah!, aí ela soltou o verbo.

– "Seu filho da $#%@, seu cor&%, seu %&@$#! Queria me matar seu desgraçado! Precisa aprender a trabalhar, seu @&#$@! - gritava a mulher, cansando os pulmões.

O problema é que a explosão de fúria da mulher parecia não ter fim. O tempo passava e ela, mesmo após o motorista ter-se desculpado e explicado do perigo do que ele fizera, e que ela sequer estava no ponto quando ele parara, continuava gritando, para desespero de Cristiano e dos passageiros, assustados e já irritados com aquele berreiro, que parecia fazer aumentar o calor daquele dia escaldante.

Cansado de ouvir, nosso Cristiano, sempre tranquilo, mas agora falando bem alto, no tom da senhora, fez uso da palavra:

– Senhora, estou trabalhando desde as oito da manhã, e o INIMIGO já enviou três pessoas, três pessoas para tirar a minha paz. Este veículo está lotado e eu preciso de atenção para conduzir essas vidas em segurança. A senhora é a quarta pessoa que o INIMIGO enviou?

Ao ouvirem tal coisa, alguns passageiros resolveram 'comprar o barulho' do sofrido Cristiano, Foi quando um deles começou a chamar:

– Inimiga! Inimiga! Cale a boca aí, sua capeta!

Diversos outros passageiros, fazendo coro, começaram a gritar, ritmadamente:

– Inimiga! Inimiga! Diaba! Inimiga!

A mulher, agora desnorteada, fechou a matraca e não sabia onde enfiar a cara. A única solução em que pensou foi descer do ônibus, no primeiro ponto que viu.

Enquanto descia, o coro dentro daquela viatura lotada continuava, numa mistura de raiva e gozação, parecendo uma torcida organizada:

– Vai embora, inimiga!

– Vai infernizar seu marido, megera!

– Vai a pé, diabo!

Pobre cidadã, sentiu na pele o que é ser uma inimiga pública…

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do 
dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Sammis Reachers (Ele não queria ser motorista...)

Alcemir 'Maricá' trampava há 25 anos como cobrador da Ingá. Era homem de baixa estatura e corpo magro, conservado apesar da idade. Rosto sempre de sobrancelhas franzidas, como se fosse um cara 'brabo'.

Mas de brabo só mesmo a cara, e acerta o ditado quando diz que quem vê cara, não vê coração...

Entre lutas e dívidas, certo dia sua mulher, morena forte e enfezada, de estatura bem maior que a dele, mandou esse recado na cara do pequeno Alcemir:

- Agora chega, Alcemir! Com esse seu salário de fome não dá pra gente viver! Ou você vira motorista, ou eu largo de você e arrumo um!

No dia seguinte lá foi o nosso Alcemir, triste e amuado, falar com a chefia da empresa. Antigo e bom funcionário, ele imediatamente conseguiu uma chance na garagem, ou 'escolinha',

- Hoje à tarde mesmo você pode vir fazer o teste.

E assim, à tarde lá estava o assustado Maricá. O chefe da garagem era o lendário 'Seu' Joel, excelente, mas muito, muito exigente profissional. Um verdadeiro sargentão. Após as apresentações, Joel diz:

- Bem senhor Alcemir, sei que o senhor já sabe dirigir, pois possui carteira de motorista, categoria B. Está vendo aquele ônibus ali? Vá até lá, ligue o carro e saia bem devagarinho.

Missão dada é missão cumprida; Maricá entrou no veículo, sentou-se no 'cockpit', limpou o suor do rosto tenso. Girou então a chave na ignição e ligou o motor; mas em seguida, ao invés de liberar o freio de mão e passar a marcha à ré. Maricá levantou-se do banco e desceu do veículo bem, mas bem devagar (afinal Seu Joel não lhe mandara ligar o carro e sair bem devagarinho?), na ponta dos pés e olhando assustado para o Seu Joel, que não acreditava no que via...

Hoje o Alcemir, conformado, é um ótimo profissional do volante e continua a prestar serviços para a mesma casa, com ótima conduta e presteza.

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Sammis Reachers (A insanidade de Marival)

Finais da década de 90, eu havia acabado de entrar na função de cobrador, na empresa Ingá. Certo dia, em meio aos trabalhos, chegou a notícia de um feito quase inacreditável, de tão louco. Vamos aos fatos.

A linha era a 49-1 (mas naquela época as duas linhas 49 eram designadas, e não me pergunte o porquê, por 49-3 e 49-4). O cobrador era o Marival, mulato invocado e conhecido por seus arroubos de fúria. O dia de verão estava especialmente quente; eram por volta das três da tarde, os ônibus da linha ainda não possuíam ar condicionado. Para completar, o carro estava rodando 'no buraco', a muita distância do carro da frente, e já lotado.

O furioso Marival estava transtornado. As roletas ficavam na parte de trás do veículo, no meio do salão, e a lotação era tanta que nem uma brisa conseguia entrar pelas janelas e alcançar Marival. O bruto suava em bicas, o sol batia diabólicos 43 graus, e chegando à praia de Icaraí, pra fechar o caixão, um engarrafamento fora de hora...

O amigo Marival já estava sentindo tonteiras, e cheio, excepcionalmente transbordante. De repente, ele se levanta da cadeira e dá um berro lá pra frente:

– Chicão, abre aí! Abre essa droga de porta e espera que eu vou ali…

O motorista Chicão não entendeu nada, mas abriu a porta e viu Marival pular e correr para a praia.

– Vai pegar troco no quiosque – pensou o velho Chicão. Qual não foi sua surpresa quando, alguns segundos depois, um dos passageiros gritou:

– Motorista, o Cobrador mergulhou na água!

Ao se levantar para olhar para a praia, Chicão viu o maluco do Marival, com o uniforme encharcado, já correndo de volta pro ônibus. Subiu pela porta traseira, pulou a roleta, sentou-se no banco e, sob o olhar espantado dos mais de oitenta passageiros que lotavam o ônibus, gritou, tranquilo:

– Bora Chicão, agora pode tocar.

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes 
do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

domingo, 1 de agosto de 2021

Sammis Reachers (Jaú “Liquid-Paper”)

O cidadão conhecido por Jaú era antigo motorista da empresa Fortaleza, de Niterói.

Certa feita, enquanto o hoje também motorista Nildo era ainda manobreiro na mesma Fortaleza, lá chegou Jaú, à noite, recolhendo o carro após sua última viagem. Sempre tranquilo e conversador, naquele dia Jaú estacionou o veículo no meio do pátio e saiu apressado. Assim que ele desceu do veículo, um dos manobradores logo assumiu o volante, pois aquele carro estava na escala para ser lavado (a cada noite eram lavados alguns veículos). Enquanto ele manobrava o carro para posicioná-lo no lavador, Nildo observava e ajudava, de fora do veículo, na manobra.

Porém, logo que os primeiros jatos de água bateram na lataria do ônibus, Nildo notou algo estranho: como num passe de mágica, uma extensa linha começou a surgir na lateral do veículo, em sua parte branca (naquela época os veículos da empresa eram bicolores; branco e marrom). Mas aquela linha não estava ali, Nildo tinha certeza. Ao se aproximar, mesmo molhando-se, nosso amigo percebeu que se tratava na verdade de um enorme arranhão, e que em algumas partes quase rasgara a lataria.

Se você já foi manobreiro, sabe que em muitas empresas o veículo deve ser observado quando retorna à garagem, para verificar se há alguma avaria; caso exista, o motorista é notificado e em geral deve pagar pelo prejuízo. Por outro lado, se o motorista coloca o carro na garagem e ninguém nota nada na hora, depois fica difícil arrumar alguém para assumir a culpa; o motorista pode alegar que não foi ele, que foi o parceiro do outro turno, que já estava assim, ou pior: que a avaria fora feita pelos manobradores, pelo que eles então deveriam pagar.

Isso tudo passou rápido pela cabeça de Nildo, ao perceber aquela enorme linha surgir milagrosamente no veículo. Havia um tipo de tinta sobre o arranhado, mas a tal "tinta" não aguentou a água! Ao olhar lá para a frente, Nildo ainda pôde divisar o velho Jaú, passo apressado, saindo da garagem.

Nosso amigo não perdeu tempo: disparando como um Usain Bolt, Nildo conseguiu alcançar Jaú, a quem segurou pelo braço.

- Peraí, malandro! Tem alguma coisa errada lá no seu carro! Tá com uma enorme avaria lá na lateral! E tinha um tipo de tinta fresca cobrindo!

– Avaria? Tá doido? - tentou desconversar Jaú.

Nisso um dos chefes, que observava a situação, se aproximou e encostou Jaú na parede:

- Como é, seu Jaú? O carro está arranhado e tinha tinta sobre ele?

Jaú tentou se desvencilhar da acusação e gaguejava dando desculpas, nitidamente nervoso, quando o chefe o cortou:

- Olha, você está gaguejando muito, e nem quero saber o que houve: é melhor o senhor admitir agora e pagar o pequeno prejuízo numa boa, uma merreca, do que tomar uma justa causa no dia de amanhã. Vai tomar uma justa causa, hein! Você que sabe. E aí, o que você fez afinal?

Pego de calças arriadas, não teve jeito. O pilantra do Jaú confessou:

- Sabe o que é, chefia... Eu levei uma fechada de um parceiro da (empresa de ônibus) Pendotiba, um barbeiro do #$%&*@, e acabei arranhando a lateral numa caçamba de entulho. Poxa, esse mês eu estou durinho, e pago duas pensões... Aí eu comprei um vidrinho de Toque Mágico, sabe, esses Liquid Paper que usam no colégio, e pintei o arranhado...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Sammis Reachers (As "belgas"* de Claudinho)

* “Belga”: sujeitar à quebra

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Cláudio Pereira, de Claudinho, que é seu carinhoso apelido não tem nada. É um camarada muito sério e com pinta de brabo, embora no fundo daquele coração seja bem tranquilo. Mas não pise no calo dele.

Claudinho começou na Ingá como cobrador. Não queria ser motorista, e após alguns anos, surgiu a oportunidade de ser auxiliar de plataforma, que eram aqueles camaradas que ficavam nas estações (baias ou plataformas) da Alameda São Boaventura, no objetivo de auxiliar a população e o tráfego de ônibus. Dois anos se passaram, e Claudinho se rendeu: Foi para a escolinha (manobra) para se tornar motorista.

Certa feita, após sair da garagem com o ônibus, e já indo em direção ao bairro da Ilha da Conceição, onde trabalhava na linha 60 (Ilha da Conceição x Icaraí), o motorista Alan, amigo de Cláudio, lhe manda um "zap":

- Ô Claudinho meu amigo, você esqueceu a lanterna do seu carro acesa aqui, do lado de fora da garagem da empresa... E o pior; o alarme disparou, e fica tocando de cinco em cinco minutos...

Claudinho pensou rápido e se assustou. Era ainda oito da manhã, e ele só iria largar lá pelas quinze horas. E mais, havia acabado de pagar trezentos reais naquela bateria – que além de descarregar, corria o risco de estragar. Ele precisava fazer alguma coisa, mas como? Belgar o ônibus?

Aí ele se lembrou do validador. O validador, a máquina que fazia a leitura dos cartões eletrônicos dos passageiros (RioCard e as gratuidades) estava bem lento. Não era bem um defeiiiiiiiito, mas... Tinha que servir!

Chegando no ponto final da Ilha, Claudinho foi logo avisando ao despachante:

- Olha aí Paulinho, este validador está muito lento e assim não dá pra trabalhar não. Já me aborreci ontem à beça com essa porcaria, vou levar esse carro pra garagem para eles darem uma olhada.

E lá foi Cláudio. Mas havia um problema: Ao passar a mensagem de áudio pelo Whatsapp para Cláudio, Alan estava próximo ao inspetor da empresa, Gilson, que marotamente ouviu toda a conversa. Mesmo sem saber que Claudinho iria belgar, ele já imaginava que alguma coisa ele iria aprontar só pra vir desligar a lanterna do carro? que era seu xodó, comprado com muito suor e algumas lágrimas.

Ao adentrar com o veículo na garagem, como era de praxe, Cláudio o levou até os fundos, onde fica a oficina, e depois voltou andando para a portaria da empresa, onde se reuniam os funcionários. Lá, antes de Cláudio abrir a boca, Gilson mandou:

- Fala Cláudio! E aí, qual é a belga?

-A belga é o validador, Gilson. Está muito lento...

- Não, não. A belga do ônibus eu sei, eu estou falando da belga do seu carro lá fora, com a lanterna acesa e o alarme tocando...

Claudinho mais uma vez pensou rápido, e pelo sorriso irônico de Gilson, percebeu que ele desconfiava que a belga do ônibus era só pra poder desligar a lanterna de seu querido Corsa. Mas, sincero que era, não se fez de rogado:

- Olha Gilson, a belga de um é o validador, e ele está lento mesmo, a gente pode ir lá e fazer o teste. Agora, a belga do outro eu vou lá ver. Confesso que vim aqui foi mesmo por isso. Gilson, a bateria do meu carro me custou trezentos reais. Mesmo se você me der três dias de suspensão, pra mim sai mais barato do que eu comprar uma nova. Sou sincero, chefia, meu carro é prioridade. Vê o que o senhor vai fazer aí.

Gilson, um chefe sério mas no fundo possuidor de um bom coração, ao invés de repreender e mais, punir Claudinho, disse apenas:

- Eu gosto desse moleque, gosto desse moleque... Moleque sincero, moleque macho.

E assim Claudinho, que não é pilantra, mas de bobo também não tem nada, escapou de uma bela punição - e ainda salvou sua bateria novinha...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Sammis Reachers (O valente Marcondes e o ancião larápio)

Atualmente, Marcondes abandonou a vida de rodoviário e está trabalhando no comércio. Vários podem ser os motivos, e quem sabe um deles é o que passaremos a relatar...

Jovem despachante, Marcondes iniciou sua carreira como cobrador, na empresa Ingá. Moleque malandro, desenrolado, gente fina mas também valente, "brabo" que só ele.

Efetivo no ponto em frente à estação das Barcas, no centro de Niterói, nos finais de semana ele costumava ser escalado para trabalhar do outro lado da rua, em frente à loja Leader, próximo ao Plaza Shopping. Não me pergunte como, mas nessas vezes Marcondes aparecia por lá com um banquinho de madeira, que era pra poder ficar sentado quando houvesse uma trégua na frenética movimentação de ônibus.

Posicionando seu banquinho tranquilamente encostado na parede da loja, nosso amigo costumava pôr sua mochila embaixo do mesmo, pois não havia mais onde guardá-la e ele não queria ficar com a mesma pendurada nas costas, durante oito longas horas. No mais, ali era prático e fácil de vigiar, pois ele só precisava levantar-se, ir até o veículo da vez e marcar a ficha, a apenas uns quatro metros do tal banquinho.

Certo dia, durante uma dessas marcações, um homem, já bastante idoso, viu o banco de apoio desocupado e simplesmente sentou-se nele. Marcondes percebeu, mas resolveu ficar quieto, pois isso acontecia às vezes, e geralmente com idosos: o cidadão ou cidadã via um banco solitário, parado no meio do nada, e já devia imaginar que era público, pois ia logo sentando-se, como se estivesse no sofá de casa. Nosso amigo então permaneceu em pé, e seguiu com as atividades. Marca carro daqui, marca carro dali, e nada de o velhinho levantar-se. Entretido com o trabalho, Marcondes    esqueceu-se momentaneamente do velhote.

De repente, sentiu    uma pontada, uma intuição latejando lá no fundo de seu ser, mandando observar o tal banquinho. Ao olhar, percebeu que o banco estava lá, mas agora vazio. "Ufa!", pensou nosso amigo, já cansado de ficar em pé. Mas sua alegria durou pouco; a parte abaixo do banco também estava 'vazia': sua mochila havia desaparecido!

Naquela região, num tremendo domingo, as ruas ficavam bastante desertas. O valente do Marcondes passou a vista para todos os lados, como uma águia, quando viu, a certa distância, o velhote, meio capenga, correndo e levando sua mochila. Imagine a fúria do nosso despachante!

Dando uma forte arrancada, já de punhos fechados, certo de que alcançaria rapidamente o ancião larápio, nosso herói sentiu algo atravancando o seu avanço: sua calça nova e da melhor qualidade, que ele comprara recentemente... Acontece que nosso amigo, vaidoso, mandara uma costureira apertar bem as pernas da calça, para que ficassem bem justinhas e sexys. Só que ficaram tão, mas tão justas, que impediam o valente de correr!

Imagine a tristeza do bruto, preso em suas calças apertadas, vendo o coroa capenga fugindo com sua mochila, sozinho, em plena luz do dia... e ele sem poder alcançá-lo. Por sorte do nosso amigo, a cidade estava tão deserta àquela hora que praticamente nem testemunhas havia para presenciar aquele ultraje, aquela humilhação de nosso guerreiro gladiador e sua calça de cantor sertanejo...

E assim nosso herói, mano sagaz, malandro bom de briga mestrado e doutorado na faculdade da favela, dentro dela, seus tesouros: três moedas de um real, uma penca de bananas d'água (era o almoço do bruto), uma garrafa de água (quente), um boné encardido da Cyclone e dois cuecões samba-canção sujos, que era tudo o que ele tinha...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Sammis Reachers (A velhota matreira)

Na linha 49 rodam muitos veículos. Por vezes chegam ao ponto final dois ou três, ao mesmo tempo.

Por motivos diversos, foi proibida a mudança de passageiros do carro de trás para o da frente. Tal fato gerou muita reclamação da parte dos passageiros, que preferiam adiantar-se no carro da frente a ter que aguardar a vez daquele em que já estavam poder sair.

Num belo dia chega o cordial e prestativo motorista Cleber ao ponto, tendo um carro já estacionado à sua frente. Ao estacionar e preparar-se para descer e levar a ficha (guia) ao despachante, para a marcação do horário, uma senhora idosa, bem franzina, lhe pergunta:

– Posso passar para o carro da frente, meu filho?

– Não, senhora, infelizmente não pode mais.

– Mas eu estou com pressa!

– Mas não pode mais, minha senhora, é ordem do dono.

– Mas o que eu vou ficar fazendo aqui dentro?

Cleber, homem tranquilo, mas já se estressando, disse:

– Olha, minha senhora, a senhora pode fazer o que quiser.

Disse isso e desceu do veículo, junto com o cobrador, deixando apenas a porta dianteira (embarque) aberta, para caso algum passageiro quisesse ir logo subindo.

Cerca de dois minutos depois, enquanto conversava com o despachante no ponto final, Cleber sentiu um toque em suas costas. Era a velhinha.

– Meu filho, como é? Esse ônibus sai ou não sai?

– Mas, minha senhora, a porta de desembarque estava fechada! Como a senhora conseguiu descer?

– Ué, meu filho, eu passei por baixo da roleta! Tá pensando que eu sou quadrada???

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Sammis Reachers (A garganta do Topete)

Sim, essa é outra história de nosso querido Paulo Paixão, o homem que vive em apuros.

No tempo de Fagundes, Paulo fazia o chamado turno duplo. Após a primeira pegada ou etapa, os carros eram levados para a Ilha da Conceição, em Niterói, onde se localizava uma garagem de apoio da empresa.

Bem, diversos motoristas largavam ao mesmo tempo, e juntos se dirigiam para o bairro de Ponto Cem Reis, onde pegavam o ônibus para a garagem do bairro Laranjal, em São Gonçalo, para prestar conta da féria arrecadada.

Pois lá foi o Paulo, junto a diversos cobradores e motoristas, dentro de um ônibus da linha Apolo x Niterói. Naquela hora da manhã, só haviam leões (rodoviários) dentro do ônibus. Paulo sentou-se num dos bancos da frente. Do outro lado do salão sentou-se o motorista Márcio, conhecido popularmente como Topete.

Falador, Topete logo sacou um enorme celular, e começou a contar vantagem:

- Tá vendo esse celular aqui, Paulinho? Achei ontem! Olha aí, que pancadão! Bluetooth, WiFi, autofalante potente.... Fui ver nas Casas Bahia: um celular desses custa uma grana, mano!

Realmente o celular era, à época, de último modelo, com todas as melhores funcionalidades que a tecnologia permitia. Paulo apenas observava, em silêncio.

Pois então eis que, aproximando-se o veículo da altura do bairro de Novo México, se levanta um indivíduo que estava sentado logo no banco grande lá da frente, até então apenas ouvindo a história que estava sendo contada às suas costas. Ele olha para Topete e Paulo, saca uma arma e aponta para... Paulo.

- Você aí! Perdeu, mané! Me passa o celular de que você tá falando aí!

Paulo, pego de surpresa, ainda tentou argumentar, ao perceber que o ladrão imaginara ser ele quem falava do tal celular:

- Eu? Mas meu celular é velhinho e está com defeito...

O malandro não acreditou e apanhou o celular que Paulo apresentou.

- O dinheiro, agora me dá o dinheiro!

- Mas eu não tenho dinheiro. Eu sou motorista e trabalho com cobrador, e não fico com o dinheiro.

Enquanto todo esse diálogo transcorria, o presepeiro do Topete já havia escondido seu poderoso celular. Vendo que Paulo não tinha mais nada para perder, e satisfeito por ter ganho o celular, o malandro puxou a cigarra (campainha) e desceu no ponto do Novo México, sem roubar mais ninguém, deixando para trás alguns passageiros bastante assustados.

Quanto ao sacana do Topete, ele ria baixinho, feliz por o indivíduo ter confundido o Paulo com ele. Já o nosso querido Paulo, lendário sofredor que, de "bucha", perdera seu velho Motorola "tijolão", estava desconsolado...

Só mais um detalhe: O celular de Paulo, que o malandro levara achando tratar-se de um último modelo, além de velho, estava com defeito: o miserável só falava no viva-voz.

Pobre Paulo. E pobre ladrão.

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Sammis Reachers (Andrezinho e o batismo de fogo)


Nota do blog:

Sammis Reachers, que adotou o pseudônimo de Ron Letta neste livro, conta sobre histórias divertidas da vida dos Rodoviários, profissão que o autor exerceu em Niterói. Veja mais sobre Sammis após a história.

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André foi por muitos anos cobrador na Ingá, linha 21 (Fonseca x Centro). Trabalhou com o velho Godá, de saudosa memória, Godá que por si só daria um livro como este, de tão grande trapalhão que era. Mas nosso herói de hoje é o André.

Com o passar dos anos e o acúmulo de filhos, o pequeno André passou a considerar que o salário de cobrador estava pequeno para alimentar a tropa. Resolveu então seguir o único caminho que lhe parecia viável: partir para a manobra (escolinha) no objetivo de tornar-se um motorista.

Meses se passaram, e André lá, esforçando-se ao máximo. Por fim, chegou o grande dia de André ter sua "estreia" como motorista. Seria no sereno (horário da madrugada), e sem cobrador: naquela época a empresa havia adquirido os primeiros micro-ônibus. André, como seria natural, estava bastante nervoso. Tudo era motivo de preocupação: o primeiro dia ao volante, o fato de estar sozinho, sem a ajuda de um cobrador, e ainda por cima o horário, em que ele nunca trabalhara: a madrugada. Mas não tinha jeito; eram muitas bocas pra alimentar e todos contavam com ele. E lá foi André pro seu batismo.

Mas todos que já foram ou são rodoviários sabem de uma coisa, que aprenderam provavelmente bem rápido: a rua é o lugar da incerteza. Tudo é possível, e o rodoviário logo aprende que "se está na chuva, é pra se molhar".

Logo em sua segunda viagem, linha 23 (Teixeira de Freitas x Terminal), sai André do terminal rodoviário João Goulart, com o ônibus cheio, em lotação de bancos. Chegando defronte à rodoviária de Niterói, algumas centenas de metros após o terminal, o escaldado André nota uma estranha movimentação próxima ao ponto da rodoviária e a entrada da rua Barão de Amazonas, que fica ao lado da mesma. Para quem não conhece Niterói, fique sabendo: aquela região por trás da rodoviária e ruas adjacentes torna-se, durante a madrugada, uma imensa zona de baixo meretrício, de prostituição.

Ao aproximar-se mais daquele imenso furdunço, André não percebeu que o sinal fechara-se, entretido que estava observando o que ele entendeu serem as "primas". Por sinal, eram muitas delas. André freou em cima da faixa, de forma um pouco brusca. Imediatamente, as meninas (e "meninos" também, pois havia travestis naquela manada) avançaram sobre o veículo.

- Abre aí, seu motorista, me dá uma carona aí!

- Ei gostoso, olha pra mim - disse outra, levantando o curto vestido e mostrando suas "partes".

Ao mesmo tempo, outras foram para a frente do ônibus e começaram a dançar e rebolar. André já estava tenso, e tudo piorou quando alguns dos passageiros, nervosos com aquela bagunça na rua, passaram a incitá-lo:

- Como é que é, seu motorista! Eu tô com minha família aqui!

E um outro berrou:

- Avança o sinal, amigo, vamos sair daqui, olha essa bagunça aí!

O falatório era geral e nada do sinal abrir. Do lado de fora, as primas e travecos só faltavam voar de tão fogosas, rebolando e mostrando suas partes, cismadas com a cara do sofrido André. E nosso herói, encurralado entre a zona de fora e a gritaria de dentro, não sabia o que fazer. Não podia avançar o sinal, não no seu primeiro dia ao volante. Se causasse um acidente, por menor que fosse, estaria na rua.

Aquele breve minuto em que o sinal demorou para reabrir foi o minuto mais longo da vida do pequeno André, que suava frio...

Quando finalmente o sinal abriu, foi com imenso alívio que André conseguiu mover o veículo dali. Respirando fundo, acreditou que o pesadelo ficara somente naquilo, mas estava enganado: Um  dos passageiros ainda teve o desfrute de ligar para a garagem e falar que o bom André "estava dando carona para piranhas e zoando com elas num ônibus cheio de famílias".

No dia seguinte André estava "pegado" (suspenso do trabalho), LOGO EM SEU PRIMEIRO DIA DE MOTORISTA, e teve que ir na garagem da empresa prestar esclarecimentos.

É o que chamamos de batismo de fogo!!!
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SOBRE O AUTOR
Sammis Reachers nasceu em 1978, em Niterói, mas desde sempre morador de São Gonçalo, ambos municípios fluminenses. É poeta, escritor e editor. Autor de nove livros de poesia e três de contos/crônicas, organizador de mais de quarenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta - ou vice-versa.

Como autor, publicou:
POESIA
Uma Abertura na Noite (2006).
A Blindagem Azul (2007).
CONTÉM: ARMAS PESADAS (2012).
Poemas da Guerra de Inverno (2012, 2021).
Deus Amanhecer (2013).
PULSÁTIL - Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014).
GRÃNADAS (2015).
Poemas de Amor em Trânsito (2018).
Cartas & Retornos (2021).
 
CONTOS/CRÔNICAS
O Pequeno Livro dos Mortos (Letras e Versos, 2015).
RODORISOS - Histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários (2017, 2021).
Renato Cascão e Samy Maluco - Uma dupla do balacobaco (2021).

Leia mais textos do autor (e baixe alguns e-books gratuitos) em:
O Poema Sem Fim - www.opoemasemfim.blogspot.com
Azul Caudal - www.azulcaudal.blogspot.com
Jornal Dafa'- www.jornaldaki.com.br/blog/categorÍes/sammis-reachers
Recanto das Letras: www.recantodasletras.com.br/autores/reachers
Diversas,    das    antologias    gratuitas    que    organizou:
www.linktr.ee/sammisreachers


Fonte:
Ron Letta. Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários. 
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Sammis Reachers (A pinga, os pinguços e a vala de óleo)

O motorista era o Sidnei, que além de militar como chofer de busão era também soldado da Polícia Militar, no tempo em que era possível aos tais manterem dois empregos. Sidnei era o que podemos chamar de 'bandalha', aquele motorista meio amalucado, que quando dá na venta, faz o que quer.

Bem, nesse dia Sidnei vinha com o carro para a garagem da Ingá, já encerrados os trabalhos no turno da tarde, recolhendo de seu expediente na linha 31 (Beltrão X Ponta da Areia). O ônibus era um antigo queixo duro, com portas enormes.

O cobrador, outro presepeiro de responsa, o lendário Chacrinha, deitou-se no banco de trás do ônibus e veio dormindo enquanto Sidnei dirigia-se à garagem.

O bom Sidnei, bandalha como só ele, havia tomado umas cachaças antes de levar o carro para a garagem, mais até do que ele estava acostumado. Sim, grave infração, mas o cara era cana... Ao entrar na garagem, alguém lhe disse para colocar o carro 'na vala', que é uma parte elevada onde se lavam as partes inferiores e se fazem reparos nos ônibus. Sidnei, muito mamado, arremeteu à toda em direção à vala.

Segundos antes, ele havia aberto as duas portas, para que o marcador de roletas (catraca) na portaria da empresa pudesse anotar o número do encerrante, mas ao andar esquecera-se de fechá-las. Enquanto isso o velho Chacrinha, o cobrador, também mamado, nada de acordar.

Ao aproximar-se da vala, ao invés de diminuir a velocidade para posicionar o veículo no estreito espaço, o maluco do Sidnei se atrapalhou e acelerou ainda mais. O resultado? Deu uma grande bordoada no muro ao fim da vala, que foi ao chão.

Quanto ao cobrador Chacrinha, o boneco caiu do banco fim rolou como uma jaca madura e caiu para o fundo da vala, que sempre estava molhada e cheia de óleo e graxa.

Levantou-se desnorteado e todo torto, xingando, efeito da cachaça...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Sammis Reachers (Antônio e os malandros voadores)

Conheci Antônio enquanto ele trabalhava como cobrador na linha 24 (Palmeiras x Gragoatá), em Niterói. Ele já era um coroa, e sempre gente fina. Antônio hoje está encostado pelo INSS, e prestes a se aposentar. Mas, nos idos da década de 80, Antônio era um jovem cobrador iniciando seus trabalhos na empresa Ingá. Tirava o horário do chamado vice-pelanca (penúltimo horário da tarde), 16:45, na linha 49 circular.

Ao entrar na empresa, naquela época, Antônio se deparou com uma realidade singular: as caronas eram 'permitidas', ou melhor, toleradas: se algum fiscal visse a dupla dando carona, deixava passar batido ou no máximo chamava verbalmente a atenção dos responsáveis. Mas, se visse o cobrador ou o motorista pegando dinheiro, aí era rua na certa. O jovem Antônio, muito temeroso, evitava seja dar carona, seja principalmente, quando a carona era 'inevitável', aceitar qualquer dinheiro.

Pois bem. Uma bela tarde, já em início de noite, nosso Antônio vinha em sua terceira viagem, na altura do que hoje é o terminal rodoviário João Goulart (que na época não    existia). Tremendo verão, os reflexos do dia escaldante ainda se faziam sentir. Eis que sinalizam ao veículo e embarcam dois elementos um tanto suspeitos. Antônio estranhou: os camaradas estavam de blusas de manga longa, naquele início de noite muito quente. As roletas, claro, ficavam na parte de trás do veículo.

Um dos rapazes, sacando uma moeda e fazendo menção de dá-la para Antônio, disse:

- Segura aí essa moeda, sangue bom. Nós vamos dar um voo (passar por baixo da roleta).

Antônio recusou a moeda e disse que não poderia deixá-los passar. A fiscalização estava acirrada e, infelizmente, seria preciso que pagassem a passagem.

Um dos malandros, se irritando, sacou um grande bolo de notas de dinheiro, e disse para o cobrador:

- Dinheiro nós temos, otário. O negócio é que nós não queremos pagar passagem. Libera logo pra gente passar aí, vambora, rapál

Enquanto esse diálogo transcorria, um cidadão, sentado próximo ao cobrador, levantou-se e, já empunhando um tremendo três oitão e apontando-o para os caras, disse para Antônio;

- Não está vendo que eles querem te assaltar, rapaz? Num calor desses e esses dois de blusa comprida?

Os passageiros presentes no veículo, ao perceberem toda essa movimentação, ficaram assustados. Uma velhinha começou a gritar.

- Calma, calma todo mundo! Eu sou policial!

Os dois malandros olhavam assustados para o policial. Antônio, atordoado, não sabia o que fazer.

- Vocês vão pular ou vão morrer aqui? - Disse o policial.

E, antes que os elementos pudessem responder, ele gritou:

- Motorista, acelera! Acelera e abre a porta!!!

O motorista, que de santo não tinha nada, entendeu logo o recado. Acelerou à toda a velha carroça, e lá quase na altura do Moinho Atlântico, abriu a porta.

- Bora cambada! Ou pula ou morre! Ou pula ou morre!!!! - gritou o policial.

Sem pensar duas vezes, os dois elementos saltaram do ônibus em grande velocidade, dois malandros voadores...

Olhando para trás, tudo que Antônio pôde ver foram os dois malandros, pássaros sem asas, capotando diversas vezes no asfalto duro. Duro e ainda quente...

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes
 do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

sábado, 6 de novembro de 2021

Sammis Reachers (A gravata solucionadora de tretas)

Nos idos de 2016, quando a empresa Rosana, pertencente à Ingá, resolveu acabar com os cobradores, alguns deles, os mais antigos, foram realocados para a Ingá.

Nessa leva de cobradores, veio um irmãozinho muito sério e de pouquíssimas palavras. Negro de raiz nordestina, ele estava sempre com sua camisa de manga fechada na gola e de gravata por cima, mesmo trabalhando em carros sem ar condicionado, situação em que a empresa não requisitava o uso de camisa de manga longa, e muito menos da gravata.

Acontece que um velho e sacana cobrador da Ingá, o controvertido dinossauro Joair, cismou de ficar manjando o tal cidadão. E assim os dias se passavam e Joair se espantava vendo o bitelo, num calor des-gra-ça-do, trabalhando com aquela gravata apertando-lhe o pescoço, gravata que ele não tirava nem mesmo após largar do trabalho. Além do Joair, a galera toda já estava com medo:

"Vai que essa moda pega? Vai que o homem decide que todos devem usar gravata, mesmo no ônibus 'quentão'?"

Num belo dia de terrível calor, sufocante, Joair, após sair do trabalho e ver que o indivíduo largara ao mesmo tempo que ele, e se dirigia para o ponto de ônibus, sempre encapado até o gargalo, não aguentou mais e perguntou:

- Ô, ô meu irmão, com licença. Querido, um calor desses... porque você não tira ao menos essa gravata?

- Eu vou resolver um problema - respondeu o irmão, pego de surpresa.

Joair, que nunca foi de perdoar um mole, concluiu:

– Ué? Mas quem vai resolver o problema? É você ou a gravata?

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Sammis Reachers (Flashes: Pequenos toques de humor Ácido)

O motorista era o Jaime Cigano.

A mulher entra no veículo e, sem nem cumprimentar o profissional, indaga:

- Motorista, de que lado do ônibus fica o sol?

- Do lado de fora, senhora. Tenha um bom dia.
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Motorista Cocoroca, linha 730 (Charitas x Castelo), O chofer já cansado, devido ao engarrafamento quilométrico no centro do Rio. Tudo parado, em todas as direções: Minutos se passam e o veículo só consegue andar dez metros. Ele imobilizado na fila do meio, corre uma transeunte e bate com toda força na porta. Cocoroca, mesmo fora de ponto e sob o risco de tomar uma multa, abre. A mulher coloca um pé na escada e dispara:

- Oi, o trânsito está engarrafado?

Cocoroca não aguenta:

- Se ele estivesse dentro de uma garrafa... Mas me parece que congestionado ele está. Não lhe parece?
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O mesmo Cocoroca, a mesma linha. Uma chuva torrencial desabando, nosso amigo na última viagem para em frente à  Central do Brasil, para o embarque de passageiros. Ao abrir a porta, escuta esta:

- Quanto custa esse ônibus?

- Não sei... Isso só o dono da empresa pode lhe informar, pois foi ele quem comprou.
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Motorista Fernando e cobrador Silvio, carro cheio, ponto cheio, de repente uma mulher empaca na porta e pergunta, já berrando:

- Ô motorista, esse ônibus é o 49?

- É sim.

- E você vai direto nessa rua aqui? - disse ela, apontando para a frente, por sinal a única rua que havia.

- Não senhora, direto não. Eu vou parando.
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Motorista Hélio "Lindão":

- Seu motorista, esse ônibus pode levar meu cachorrinho?

- Aí do lado tá escrito "carrocinha"?
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Mesmo Hélio:

- Passa no shopping?

- Passa sim.

- Mas passa na porta?

- Eu nunca tentei, mas se tirar as escadas eu tento.

- Cavalo!

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários. São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Sammis Reachers (A insanidade de Marival)

Finais da década de 90, eu havia acabado de entrar na função de cobrador, na empresa Ingá. Certo dia, em meio aos trabalhos, chegou a notícia de um feito quase inacreditável, de tão louco. Vamos aos fatos.

A linha era a 49-(mas naquela época as duas linhas 49 eram designadas, e não me pergunte o porquê, por 49-3 e 49-4). O cobrador era o Marival, mulato invocado e conhecido por seus arroubos de fúria. O dia de verão estava especialmente quente; eram por volta das três da tarde, os ônibus da tinha ainda não possuíam ar condicionado. Para completar, o carro estava rodando 'no buraco', a muita distância do carro da frente, e já lotado.

O furioso Marival estava transtornado. As roletas ficavam na parte de trás do veículo, no meio do salão, e a lotação era tanta que nem uma brisa conseguia entrar pelas janelas e alcançar Marival. O bruto suava em bicas, o sol batia diabólicos 43 graus, e chegando à praia de Icaraí, pra fechar o caixão, um engarrafamento fora de hora...

O amigo Marival já estava sentindo tonteiras, e de saco cheio. De repente, ele se levanta da cadeira e dá um berro lá pra frente:

- Chicão, abre aí! Abre essa droga de porta e espera que eu vou ali...

O motorista Chicão não entendeu nada, mas abriu a porta e viu Marival pular e correr para a praia.

– Vai pegar troco no quiosque - pensou o velho Chicão.

Qual não foi sua surpresa quando, alguns segundos depois, um dos passageiros gritou:

- Motorista, o Cobrador mergulhou na água!

Fonte:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.