Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 19 de março de 2011

José Geraldo Martinez (Lendas da Infância)

Ilustração de
Antonio Elielson Souza da Rocha (PA)
Um dia me contaram uma lenda .

Existem nas matas, a Caipora, meio gente e meio bicho, com os pés ao contrário. Adora fumar. Só permite que alguém entre mata à dentro se, antes, colocar fumo ou cigarro no pé de qualquer árvore .

Aquilo de certa forma me causou expectativa, mesmo porque, papai havia me convidado para pescar e justamente num córrego margeado por pequena mata.

Chegado o dia , preparei toda tralha de pesca: anzóis, iscas , varinhas, picuá , lanches e guloseimas...

Não podia me esquecer do cigarro da Caipora .

Fui correndo comprar .

Para me garantir, comprei logo cinco maços de cigarros e um pedaço de fumo .

Seguimos pela manhã que se abria quente , ensolarada e de poucas nuvens .

Conosco levamos um amigo , "Girico", este apelido lhe foi dado por seu tamanho . Era franzino , miúdo , a ponto de mostrar as costelas todas . "Girico" é o nome dado ao jegue tão usado e querido pelos nortistas !

Ele era pequeno porém, forte .Garoto astuto e destemido, criado a vida toda no mato, nas fazendas da região, até que seu pai acometido de séria doença teve que abandonar a vida no campo e voltar para cidade.

Chegamos finalmente . Logo de cara, Girico fisgou um piau, peixe típico da região e com ele fazia festa, como se desafiando a mim e meu pai. Engraçado que seguidamente , Girico fisgava algum peixe , enquanto a gente já desanimava de molhar as minhocas . E a cada fisgada, a mesma festa. Lembrei-me finalmente da Caipora , depois de escutar um assobio vindo da mata .

Nem perguntei ao meu pai o que seria. Fui logo correndo ao pé de uma velha figueira e lá colocando todos os maços de cigarro, inclusive o pedaço de fumo .Vai se a tal Caipora era do tempo do meu avô ?

Passamos o dia alí pescando, brincando e nos banhando nas águas do rio Baguaçu , no oeste paulista .

A noite chegava e já nos preparávamos para dormir, depois de um farto lanche servido pelo meu pai.

Girico comia feito louco ! O que tinha de magrinho, tinha de guloso. Comeu quatro pães com presunto e queijo tomou uma guaraná de dois litros inteiras, três bananas nanicas ! Arrumamos as camas improvisadas com velhos cobertores, dormimos .

A noite foi de certa forma longa, não parava de pensar na tal Caipora. Tremia de medo à qualquer barulho na mata. Girico, aparentemente, dormia que chegava a roncar. O dia amanheceu, voltamos à pescaria. Curiosamente fui olhar os cigarros colocados para Caipora . Para minha surpresa, estava só o pedaço de fumo! Os cigarros em maço desapareceram. Voltei correndo contar para meu pai me que deu pouca atenção, ironicamente brincou dizendo que aquela Caipora deveria ser urbana, acostumada à cidade .

Criança, ainda, perguntei :

- E na cidade pai, onde a Caipora moraria ?
- Nos jardins das casas, em meio às folhagens .

Fiquei pensando, preocupado. Será que no jardim da minha casa existe alguma Caipora ?

Quis continuar o assunto, mas papai logo me interrompeu com os dedos nos lábios .
- Psiuu ! Tem peixe mordendo a isca !

O dia passou, voltamos para casa felizes. Com alguns pequenos peixes, menos Girico que estava com um farto bornal de piaus grandes. Não dormi pensando no jardim da minha casa. Lembrei-me de algumas vezes que escutara assobiar e achava que podia ser alguma pessoa passando pela rua.

No dia seguinte, fui correndo comprar cigarros. Claro! dos mais baratos, afinal minha mesada era pequena e não podia consumí-la em cigarros para Caipora. Gostava de sorvetes , cinemas , enfim... guloseimas muitas. Aprendi a lição e coloquei apenas um maço de cigarros no meio dos antúrios da mamãe .

Nosso jardim era farto de plantas e arbustos e muito verde, com samambaias, pinheiros e uma enorme laranjeira. Era do tipo lima, que papai não deixou cortar dado a doçura da fruta e os anos que estava ali. No outro dia bem cedo, mal tomei o café, fui olhar se o cigarro estava entre os antúrios . Viva ! Não estava ! Havia mesmo no jardim ,uma Caipora . Sai correndo contar aos amigos , feliz da vida.

Os dias se passaram . A cada amanhecer era um maço de cigarros, depois doces , frutas , assim por diante ...

Até que um dia, contando para mamãe, ela indignada, resolveu comigo ficar escondida para vermos a tal Caipora .

Ficamos no quarto, com a janela levemente aberta, que mal cabiam meus olhos, metade da minha face. Pouco respirava e o coração acelerado à medida que as horas iam passando. De repente ,um barulho... Parei de respirar, mas a minha curiosidade era maior. Permaneci de olhos na fresta da janela. Qual foi minha surpresa ! Girico comia tranquilamente as frutas e doces todos , guardava os cigarros e saia.

Assim deve ter sido à beira do rio . Ele seria a Caipora urbana que meu pai falava .

Muita decepção! O engraçado era que quando chegava em nosso jardim, pressentindo alguma coisa, assobiava como a Caipora colocando-me rapidamente embaixo das cobertas .

Passados os dias, na casa de uma tia, ela me contava sobre a lenda de um tal "boto cor de rosa", que encantava as mulheres com seu canto!

Dias depois, minha prima desapareceu e voltou grávida .

Saí correndo pela rua esparramando a notícia, gritando :

-Tem um boto no jardim da minha tia, minha prima está grávida !
Quem será ? quem será ?

Esta foi a última surra que tomei naquele ano. Afinal, chegavam as festas natalinas e me preparava para receber papai-noel.

Fonte:
http://www.josegeraldomartinez.hpg.ig.com.br/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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