Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 21 de março de 2011

Epopéias da Índia Antiga (O Mahabharata) – II – O Argumento


O rei de Hastinapura teve dois filhos: o maior chamado Dhritarâshtra, que era cego de nascimento e o outro chamado Pându.

Segundo as leis da índia, ficava excluído da sucessão à coroa, em benefício de seu irmão menor, todo príncipe cego, aleijado, mudo, gago, surdo ou de complexão franzina e enfermiça, que o impedisse de exercer a régia autoridade, embora ficasse com direito a um amparo vitalício.

Em virtude da morte do pai, ocupou o trono o irmão menor Pându.

A cegueira não constituiu obstáculo ao casamento de Dhritarâshtra, o qual teve cem filhos, ao passo que Pându só teve cinco.

Pându morreu em plena maturidade, e como não avia outro herdeiro direto seno Dhritarâshtra , este ocupou o trono dos Kurus, apesar de sua cegueira, e educou os cinco filhos de Pându juntamente com seus cem filhos.

Quando os príncipes atingiram certa idade,, o rei colocou-os sob os cuidados de um sacerdote guerreiro, chamado Drona, que os educou na arte militar e em todas as ciências necessárias aos príncipes.

Terminada a educação, Dhritarâshtra colocou no trono de seu pai Yudhishthira filho maior de Pându; porém as austeras virtudes de Yudhishthira, o valor e a devoção de seus outros quatro irmãos, despertaram a inveja no coração dos filhos do rei cego. Instigados por Duryodhana, o mais velho de todos, persuadiram aos cinco irmãos Pândavas que fossem a Vâranâvata, sob pretexto de um festival religioso que ali se celebrava.

Duryodhana havia mandado construir um palácio feito de cânhamo, resina, laca e outras matérias inflamáveis, onde os acomodou o astuto príncipe com intento de atear fogo ao mesmo.

Aconteceu, porém, que o bondoso Vidura, cunhado de Duryodhana e seu bando, avisou os Pandavas, que puderam escapar sem que ninguém notasse.

Quando os Kurus viram o palácio reduzido a cinzas, lançam um suspiro de satisfação, certos de que já não encontravam obstáculos em seu caminho e se apoderaram do reino.

Ora, os cinco irmãos Pândavas refugiaram-se no bosque, com sua mãe Kunti e disfarçados depois em estudantes brâmanes, viviam de esmolas pelos arredores; embora sofressem muitos dissabores, sua energia mental e ânimo valoroso venceram totalmente todos os perigos. Assim prosseguiam as coisas, quando um dia, tiveram notícia do próximo noivado da princesa de um país vizinho.

Como era de costume em tais casos, grande número de príncipes e nobres se havia reunido, para que a princesa escolhesse aquele que mais fosse de seu agrado.

A princesa que ia casar-se, chamava-se Draupadi e era filha de Drupada, o poderoso rei dos Panchalas. A moça era de peregrina beleza e de relevantes dotes. Sempre que se celebrava um svayamvara, ou escolha de noivo, os pretendentes disputavam algum exercício de habilidade e destreza.

Naquela ocasião, haviam colocado um alvo em fôrma de peixe, a grande altura, debaixo do qual girava continuamente uma roda com um furo no centro. Para maior dificuldade dos contendores, colocaram debaixo da roda uma tina cheia de água, na qual se refletia todo o artefato.

A prova consistia em mirar a imagem do peixe refletida na tina e disparar a flecha, de modo que essa atravessasse o furo da roda e atingisse o olho do peixe, que servia de alvo. Quem acertasse casaria com a princesa.

Ao local acorreram reis e príncipes de diferentes regiões da Índia, ansiosos por conquistar a mão de Draupadi. Entretanto, todos eles puseram em prática sua habilidade, sem que nenhum acertasse no alvo.

Então, o filho do rei Drupada levantou-se no meio do concurso e exclamou:

- A casta dos kshatriyas fracassou na prova, portanto, ficam admitidos a ela os pretendentes das demais castas e embora seja um sudra, se acertar, casai-se-á com Draupadi".

Entre os brâmanes estavam os cinco irmãos Pândavas e Arjuna o terceiro deles era habilíssimo no manejo do arco. Por isso levantou-se para tomar parte na prova.

Convém advertir que os brâmanes são pessoas pacificas e tímidas. Segundo a lei, não devem tocar em nenhuma arma de guerra, nem brandir a espada e jamais cometer qualquer empresa perigosa, pois sua vida deve ser de contemplação, estudo e domínio de sua natureza interna.

Por essa razão, quando os brâmanes que presenciaram o torneio viram que Arjuna se levantou para empunhar o arco, temeram que contra eles despertasse a ira dos kshatriyas e os matassem, sem discernir os culpados e os inocentes.

Dominados por esse temor, pediram a Arjuna que desistisse do concurso: porém, como o valoroso pândava, segundo vimos, era um kshatriya disfarçado em brâmane, não ligou-lhes importância e empunhando o arco disparou a flecha com tal acerto que atingiu o alvo. A assistência prorrompeu em frenéticos aplausos e a princesa Draupadi cingiu a fronte de Arjuna com a grinalda tradicional.

No mesmo instante, ergueu-se grande clamor entre os príncipes, pois não podiam tolerar que um pobre brâmane se cassasse com uma princesa kshatriya e prevalecesse contra a assembléia de reis e príncipes. Então, resolveram lutar com Arjuna para arrebatar-lhe à força a sua noiva. Iniciou-se o combate, mas o cinco irmãos mantiveram a distância os guerreiros e depois de vence-los em combates singulares, levaram triunfal mente a princesa.

Como os cincos irmãos, disfarçados em brâmanes, viviam de esmolas que recolhiam na comarca, esmolas essas que eram distribuídas por Kunti, quando chegaram naquele dia à cabana em que moravam, exclamaram alegremente antes de entrar:

- Mãe! Hoje trazemos uma esmola verdadeiramente valiosa. Kunti, sem reparar no que podia ser, respondeu lá de dentro:

- Como bons irmãos que sois, deveis reparti-Ia entre vós igualmente. Porém, ao sair e ao ver Draupadi exclamou assombrada:

- Oh! Que disse eu? É uma mulher! Porém já não havia remédio, porque uma mãe não tem duas palavras e aquilo que diz uma vez há de ser cumprido.

Por isso, Draupadi foi a esposa comum dos cinco Pândavas.

É sabido que todo povo passa em seu desenvolvimento por sucessivos graus de civilização. Na passagem da epopéia que acabamos de citar, apresenta-nos o autor cinco irmãos que possuem uma mesma esposa e embora dê por desculpa a ordem sagrada de sua mãe, seu intento foi sem dúvida oferecer um vislumbre do antiquíssimo estado social em que a poliandria era legítima, embora contraída entre os irmãos de uma só família.

O irmão de Draupadi ficou algum tanto pensativo depois da partida de sua irmã e cogitava: "Que gente é essa? Quem é esse homem com quem casou-se minha irmã? Não tem cavalos, arreios, nada! Caminham a pé ...

Por isso, acompanhando-os de longe, chegou junto à cabana e protegido pela escuridão, ouviu o que conversavam, deduzindo que eram realmente kshatriyas. Comunicou a nova a seu pai, o rei Drupada, que ficou satisfeitíssimo. Entretanto, para sua maior tranqüilidade consultou Vyasa sobre se era lícito ou não o matrimônio de uma mulher com cinco irmãos. O sábio respondeu que não havia inconveniente por tratar-se daqueles príncipes. Por isso, Draupadi foi a esposa legítima dos cincos Pândavas, que viveram em paz e prosperidade, tornando-se cada dia mais poderosos.

Embora Duryodhana e seu bando tramassem novas maquinações contra seus parentes todas fracassaram, tendo os anciãos do reino aconselhado ao rei Dhritarashtra que firmasse a paz com os Pândavas.

O rei aceitou o conselho, tendo convidado os Pândavas para voltarem à corte, dando-lhes a metade do reino. O povo alegrou-se muito pelo restabelecimento da paz. Então os cinco irmãos edificaram para sua residência uma formosa cidade a que deram o nome de Indraprastha, estendendo o seu domínio por toda a comarca.

Ao ver-se tão poderoso, Yudhishthira, pândava maior, quis erigir-se imperador de todos os reis da antiga índia. Para tal fim decidiu celebrar um Yajna Rayasuya, ou Sacrifício Imperial, com a assistência de todos os régulos que havia vencido, para prestarem juramento de fidelidade, pagarem tributo e ajudarem pessoalmente as cerimônias do Sacrifício.

Sri Krishna, parente e amigo dos Pândavas, aprovou a idéia mas encontrava certa dificuldade porque um rei vizinho, chamado Jarasandha, projetava também celebrar um sacrifício com cem régulos e já tinha oitenta e seis cativos em seu poder.

Krishna aconselhou uni ataque contra Jarasandha a quem ofereceram combate singular. Aceito o repto, Jarasandha foi vencido por Bhina, depois de catorze dias de luta contínua, tendo os régulos cativos recuperado a liberdade. Depois disso, os quatro irmãos menores saíram à frente de seus respectivos exércitos, em diversas direções e subjugaram todos os régulos das redondezas.

Ao regressar da expedição conquistadora, depuseram os troféus de guerra aos pés do irmão mais velho, para sufragar os gastos do sacrifício, celebrado com invejável pompa, onde prestaram homenagem a Yudhisthira os régulos libertados e os vencidos pelos quatro irmãos. Também estiveram presentes, na qualidade de convidados, o rei Dhritarâshtra com seus filhos, os quais participaram das cerimônias.

Terminado o sacrifício, efetuou-se a coroação de Yudhisthira como imperador e senhor supremo.

Duryodhana encheu-se de inveja e tornou-se inimigo de Yudhisthira, cujo esplendoroso poderio não podia suportar. Como sabia que pela força era impossível derrotá-lo, urdiu uma traição com o propósito de levá-lo à perdição.

O rei Yudhisthira era apaixonado pelos jogos de azar. Duryodhana, aproveitando-se dessa fraqueza de seu primo, combinou com um jogador profissional chamado Sakuni, que retivesse por longo tempo Yudhisthira numa partida de dados.

Na antiga Índia, se um Kshatriya ou guerreiro era desafiado ao combate, devia aceitar o repto a todo custo, sob pena de ver menoscabada sua honra; o mesmo sucedia se fosse desafiado a jogar dados.

Embora Yudhisthira fosse a encarnação de todas as virtudes, como rei, não podia deixar de, aceitar o repto de Sakuni. Este havia trazido, de propósito, uns dados falsos, de modo que o rei foi perdendo partidas e mais partidas, até que aguilhoada pela ânsia da desforra apostou sucessivamente tudo que possuía inclusive ser reino, seus irmãos e até a formosa Draupadi.

Os cinco Pândavas caíram em poder dos Kuravas, que os humilharam sem piedade, infligindo a Draupadi os tratos mais desumanos.

Finalmente, pela intervenção do rei cego Dhritarâshtra, recobraram a liberdade sendo-lhes concedido permissão para apossar-se de seu reino; antes, porém, de cumprido o decreto, Duryodhana, ao ver o perigo, forçou seu pai a que confiasse a decisão final em uma partida de dados, entre os Pândavas e os Kuravas, de sorte que o grupo que perdesse ficaria desterrado durante doze anos, no fim dos quais viveria incógnito em uma cidade, no ano seguinte. Porém, se quebrassem o desterro, sofreriam por mais doze anos, no fim dos quais poderiam recuperar o reino.

Como era previsto, pois os dados de Sakuni eram falsos e ele era muito hábil em prestidigitação, Yudhisthira perdeu também a partida final. Os cincos Pândavas saíram do reino e se retiraram para os bosques e montanhas, onde estiveram durante doze anos, durante os quais realizaram muitas ações de virtude e valor, fazendo às vezes longas peregrinações a sítios sagrados.

Muitos yogis foram visitá-los em seu desterro, contando-lhes interessantes episódios da antiga história da Índia, entre os quais a que transcrevemos a seguir.
–––––––
Continua… História de Savitri
––––––––
Fonte:
Vivekananda, Swami. Epopéias da Índia Antiga.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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