Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vicência Jaguaribe (14 de março, o Dia da Poesia)


Soube, pela Internet, que 14 de março, é o dia da poesia. E eu que, desde ontem, penso em minha mãe, cujo aniversário caía nesta data. Para mim, 14 de março era, até hoje, o dia do aniversário de minha mãe. E só.

Não sabia que havia o Dia da Poesia, como há o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Dia do Comerciário, o Dia do Médico, e outros dias mais. A lista deve ser imensa e não vale a pena pesquisá-la. Sei, sim, que há o Dia do Livro e o Dia do Livro Infantil. Mas o Dia da Poesia é novidade para mim. Assim, vamos acabar achando a coisa mais natural do mundo exigir — de quem, não sei — um Dia do Romance, um Dia do Conto, um Dia da Crônica. E por aí vai. Acho que os trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas do ano não dão mais para festejar tanto Dia.

Um dia dedicado à poesia! Talvez seja por isso que o mundo anda tão sem sensibilidade, tão frio, tão carente de beleza e de calor humano. Talvez seja por isso que as pessoas não se dizem mais palavras doces — nem salgadas. As pessoas não se falam mais. Não se pode ter o “Dia da Poesia”. A poesia deve estar presente na vida humana todos os dias, para evitar-lhe o ressecamento, a robotização e a sujeição ao material, à rotina, à mesmice. Só a palavra da poesia quebra os grilões da palavra do cotidiano, que nos sujeita por estar a serviço do poder.

Na aula inaugural da cadeira de semiologia literária, do Colégio de França, pronunciada no dia 7 de janeiro de 1977, Roland Barthes ensina que a língua “não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista, pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”. Para libertar-se dessa dominação é que o homem faz literatura, que é um “trapacear com a língua, trapacear a língua”: “Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura”.

Eu diria que, no interior da literatura, a palavra da poesia é a que mais trapaceia a linguagem; é a que mais a revoluciona; a palavra que mais se afasta do poder, fazendo um trabalho de deslocamento em relação à palavra do cotidiano. Não é à toa que Jean Cohen, em A plenitude da linguagem, nos diz que “a função poética não apenas tolera, mas exige mesmo a transgressão dessas normas [as normas da língua]. A linguagem ‘normal’ não é, portanto, a linguagem ‘ideal’. Muito pelo contrário, pois é na sua destruição que assenta a instauração do que Mallarmé chamava a ‘alta linguagem’”.

A palavra poética é capaz de dizer o indizível. É capaz de revelar o que está dentro da alma humana sufocando-a. A palavra poética arranca a fórceps a palavra que não quer ou não pode sair. É disso que fala a poetisa Mônica Magalhães Cavalcante no poema

Compartilhamento

Só o poeta escuta
Uma voz outra,
A dor oculta
Que a palavra insulta.

Só o poeta entende
O grito contido,
O olhar reticente
Que a rima pretende.

Só o poeta proclama
A poesia não-dita,
O amar de quem ama
Que este (re)verso reclama.

Sendo a voz daquele que não sabe ou não pode falar da sua dor, o poeta tem a capacidade de salvar do sufocamento, por meio de sua palavra mágica. Sim, a palavra da poesia é uma palavra mágica, que transforma, em um trabalho de alquimia, o vômito em essência olorosa. Sobre esse poder misterioso que se evola da poesia fala Mário Quintana em

Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

e Roseana Murray em

Lamparina

mais que promessa de luz
ardendo secreta
lamparina de quebrar a noite
geografia oculta de água
e cristal
poesia é pano de forrar
a alma
no meio do vendaval

É exatamente pela capacidade mágica que tem a palavra poética de nos trazer alívio, salvar-nos do afogamento interior, tirar-nos do ambiente infecto e insalubre da rotina, libertar-nos da palavra escravizadora do cotidiano, que defendo não um Dia da Poesia, mas uma constância da palavra poética em nossas vidas. Ela nos desperta para a beleza do mundo, que nossos olhos não mais alcançam. Ela nos faz ver o mundo, a natureza, as pessoas com o olhar virgem do estrangeiro, que chama nossa atenção para o que nossos olhos cansados de olhar sem ver não conseguem enxergar.
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Fonte:
A Autora

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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