Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 15 de março de 2011

Lino Mendes (Conversas Curtas com Fernando Máximo)



Falar com FERNANDO MÁXIMO é, pelo menos na nossa região mas não só, falar com alguém que trata por tu a “poesia popular”, e esta pequena “conversa” é disso mesmo elucidativo. Mas entremos na “conversa”, não sem antes lembrar que “ a quadra é o vaso que o Povo põe à janela da sua alma” (Fernando Pessoa).

Amigo Fernando, hoje falemos apenas de Poesia – de Poesia Popular. E a começar, o que caracteriza para si um género poético como popular?

Eu, por mim, caracterizo um género poético como popular, todo aquele que sem se servir de palavras muito rebuscadas consegue transmitir de uma forma fácil, simples e perfeitamente perceptível uma mensagem.

Que géneros populares existem e como os caracteriza?

Para mim existem duas modalidades de poesia que são essencialmente populares: a quadra e as décimas. As quadras e as décimas eram feitas por gentes sem estudos, por gentes do campo que nas suas poucas horas de ócio as desenvolviam. As cantigas à desgarrada não eram mais que improvisação de quadras, feitas na altura sempre em resposta a uma provocação, a um desafio. As décimas, mais elaboradas, eram feitas pelos homens do campo quando sós, pelas planícies, atrás dos gados, iam matutando na vida e conseguiam de modo soberbo, traduzir em verso os seus anseios, os seus medos, a dura realidade da vida de então. Qualquer destes géneros, a quadra e a décima, são expoentes cimeiros da poesia popular.

Estará a poesia popular a ser devidamente divulgada junto dos jovens?

As ambições dos jovens actuais não passam pela aprendizagem da poesia e muito menos da poesia popular. Talvez que se devesse e pudesse ir junto da juventude ler-lhe poesias que os seus familiares mais chegados – tios, avôs – tenham feito e tentar incutir-lhe o espírito de que se eles, sem terem habilitações literárias conseguiam fazer trabalhos tão bem feitos, os jovens, letrados, melhor ainda poderiam dar seguimento à poesia. Mas, sinceramente, acho muito difícil…

Muitos consideram a quadra popular como um produto menor, de fácil elaboração. Em minha opinião porém, as “quadras ao gosto popular” de Fernando Pessoa, estão longe de ter a qualidade das quadras de Aleixo. O que pensa sobre o assunto?

As quadras jamais poderão ser consideradas um produto menor se elas forem feitas com cabeça, tronco e membros. Uma quadra tem que transmitir em quatro versos apenas, uma mensagem, uma crítica, seja ela positiva ou negativa. E tanto quanto mais simples for a sua elaboração quanto mais fácil se tornará a sua percepção.
As quadras do António Aleixo, pela sua profundidade, pela sua sábia elaboração, pelo facto de atingirem perfeitamente os seus objectivos, apesar de serem feitas por um simples cauteleiro, guardador de rebanhos, quase analfabeto, e talvez até mesmo por isso, têm para mim um valor muito maior do que as quadras de Fernando Pessoa, pese embora todo o respeito que tenho por este grande vulto da cultura Nacional.

Como define o actual momento quanto aos Jogos Florais?

Pessoalmente dou grande importância aos Jogos Florais pois eles demonstram uma enorme vontade de escrever por parte daqueles que respondem afirmativamente a esses desafios. A verdade é que são sempre muitos os poetas e prosadores que concorrem a estes eventos culturais.

No entanto preocupa-me uma situação que passo a partilhar: a organização de uns Jogos Florais requer muita dedicação, muita entrega, muitas horas de trabalho. O meu receio é que, quando os “carolas” que agora estão á frente da organização destes eventos não possam mais colaborar, não haja quem lhes dê continuidade e estes concursos literários acabem abruptamente. Sei bem do que estou a falar, pois tenho conhecimento de situações em que tal já se verificou.

Que projecto gostaria fosse elaborado para uma preservação da poesia popular portuguesa?

A poesia não é coisa que se possa ensinar. Menos ainda a poesia popular. Ela é genuína, nasce com a pessoa. No entanto penso que as Associações Culturais devem ter um papel determinante nesta matéria, promovendo encontros de poetas e poetisas, não só na área de acção onde estão inseridas, mas trazendo até si poetas e poetisas doutras regiões para troca de impressões e experiências. Em Avis, há cinco anos que, com assinalável êxito, a Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural (ACA) – www.aca.com.sapo.pt promove encontros de poetas, percorrendo em cada ano uma freguesia e trazendo até ao concelho de Avis, de cada vez, cerca de 40 poetas que vêm de terras tão distantes como por exemplo Évora, Portalegre, Entroncamento, Alandroal, Vila Viçosa e Ervidel, no Baixo Alentejo, além, é claro, da prata da casa.
É este espírito que deve prevalecer para que a poesia popular não se acabe de todo.

Não será que a décima é uma modalidade em vias de extinção?

A experiência de pertencer á organização dos Jogos Florais de Avis, leva-me a concluir que quem faz poesia em décimas são as pessoas de mais idade. As décimas são de difícil execução, têm regras fixas para serem elaboradas e para serem umas décimas bem feitas, não chega colocar as palavras que rimam no sítio onde é preciso rimar. Além de rimar as palavras têm que fazer sentido, têm que ter uma certa consistência de raciocínio e por vezes isso é difícil de acontecer.

Partindo de uma quadra, o mote, este é depois desenvolvido por mais quarenta versos, o que leva a que as décimas também sejam conhecidas pelos mais idosos como “obras de quarenta pontos”. Como disse atrás, as décimas antigamente eram feitas por quem passava o dia no campo com o gado e sozinho ia pensando nas agruras da vida. A maior parte desses fazedores de décimas não sabiam ler nem escrever. Mas sabiam as regras das décimas. E faziam-nas. E decoravam-nas. Ainda hoje há por aí muito poeta, infelizmente analfabetos, que sabem muitas décimas de cor e que se encontram apenas registadas nas suas memórias.

Cabe-nos a nós, os amantes deste tipo de poesia, fazer uma recolha junto dessa gente para que, um dia, quando eles morrerem, não se perca essa preciosidade que é a sua poesia.

No sentido de preservar precisamente algumas destas situações, a ACA, está a elaborara um livro de recolha de poesia popular de 40 poetas nascidos ou residentes no concelho de Avis, que estima editar em Outubro aquando da 2ª Edição dos “Escritos e Escritores”.

Todos nós temos um papel importante na preservação deste modo de poesia e podemos, fazendo recolhas, evitar que as décimas sejam uma modalidade em extinção, e que se extingam mesmo mais depressa do que o expectável.

Eu por mim estou a fazer a minha parte: tenho recolhidas mais de uma centena de décimas de diversos poetas do meu concelho que contactei e que me deram os seus trabalhos, muitos deles apenas decorados pelos autores.
E você? Vai ficar indiferente?

Fonte:
Colaboração de Lino Mendes/Portugal

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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