Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 19 de março de 2011

Epopéias da Índia Antiga (O Râmâyana) Parte II – O Argumento


II
O Argumento

Na província de Oudh, hoje unida administrativamente à de Agra, subsiste ainda, embora ruínas, a antiquíssima cidade de Ayodhya, outrora um dos mais poderosos centros religiosos da índia e lugar de peregrinação.

Há muitos séculos, reinava em Ayodhya um rei chamado Dasaratha que, de nenhuma de suas três esposas, havia obtido sucessão; por isso, como bons hinduistas, foram em peregrinação a vários santuários e jejuaram em fervorosa súplica para que Deus lhes concedesse sucessão.

Finalmente seus rogos foram ouvidos e obtiveram resposta em quatro filhos, dos quais o maior foi Rama.

Como convinha à sua estirpe, os quatro irmãos receberam completa educação em todos os ramos do saber. Para evitar futuras contendas, era costume na antiga índia associar o rei o seu filho maior ao governo do país, sob o título de Yuvaraja, que significa: "o rei jovem"

Em outra cidade havia um rei chamado Janaka, o qual tinha unia afilhada maravilhosamente formosa, cujo nome era Sita e que fora encontrada recém-nascida em um campo, como se tivesse surgido do seio da terra.

Em sânscrito antigo, a palavra "Sita" significa "sulco feito pelo arado", e na mitologia Índiana vemos personagens que só têm pai ou mãe ou nascem sem pai nem mãe, do fogo do sacrifício, de um campo, como se caíssem das nuvens etc.

Todas essas classes de nascimentos são freqüentes na mitologia Índiana.

Sita, como filha da Terra, era pura e imaculada. O rei Janaka criou-a e desejou encontrar-lhe digno esposo, quando a mesma atingiu a idade núbil. Na antiga índia costumavam as princesas reais escolherem marido. A esse costume deva-se o nome de Swayamvara; segundo esse costume, o pai da princesa convidava a todos os príncipes das redondezas para se apresentarem à corte, onde a princesa, ricamente vestida, grinalda nas mãos e precedida por um arauto que ia enumerando as prendas, passava diante deles e colocava a grinalda no pescoço daquele que a donzela havia escolhido para esposo.

Muitos eram os príncipes que suspiravam pela mão de Sita, a qual havia exigido, como prova de merecimento, que o candidato quebrasse com suas mãos um enorme arco chamado Haradhana.

Todos os príncipes fracassaram na tentativa, apesar dos seus esforços, menos Rama, que com elegância e facilidade apanhou o forte arco e com suas mãos quebrou-o pelo meio.

Por isso Sita elegeu a Rama por marido e as bodas foram celebradas com grande esplendor.

Rama levou sua esposa à corte de seu pai Dasaratha, o qual julgou oportuno o momento para nomear juvaraja o seu filho maior e confiar-lhe o governo do país.

Para esse fim Dasaratha preparou as cerimonias da proclamação e o povo acolheu entusiasticamente a notícia, quando uma donzela de Kalkeyi, a mais jovem das três esposas de Dasaratha, lembrou à sua senhora que, havia muito tempo, o rei seu esposo havia prometido duas coisas, em reconhecimento ao muito que a ele Ihe fizera, dizendo-lhe:

- Pede duas coisas que eu possa dar-te e eu lhas darei.

A rainha Kaikeyi, na ocasião, nada pediu a seu marido e até já havia esquecido a promessa; porém a maliciosa donzela começou a aguilhoar a alma da rainha, fazendo-lhe ver a injustiça de colocar a Rama no trono, quando fazendo ao rei cumprir sua promessa, seu próprio filho poderia ocupar o trono; foi assim que a rainha Kaikeyi ficou louca de ciúmes.

A astuta donzela incitou então sua ama para que exigisse logo do rei a concessão das duas coisas prometidas, sendo uma delas a ocupação do trono pelo seu filho Bharata e a outra que fosse a condenação de Rama a catorze anos de desterro nos bosques.

Embora Rama fosse a alma e a vida para o rei Dasaratha, este, como rei, viu-se obrigado a não faltar à sua palavra, quando a rainha Kaikeyi exigiu dele o cumprimento de sua promessa; por isso não sabia o que fazer.

Rama, porém, dissipou a dúvida, oferecendo-se voluntariamente a renunciar ao trono e sair desterrado, a fim de que ninguém pudesse acusar sua mãe de falsidade.

Por isso, seguiu para o desterro, acompanhado de sua amorosa esposa Sita e de seu irmão predileto Lakshmana, que, de modo algum, quis separar-se dele. Os árias não sabiam quem eram os habitantes dos bosques e, por isso, naquele tempo os chamavam "monos" e aos mais robustos e corpulentos chamavam "demônios".

Rama, Sita e Lakshmana foram cumprir seu desterro em um daqueles bosques, habitados por monos e demônios, como talvez denominavam os árias as tribos selvagens.

Quando Sita manifestou o desejo de acompanhar seu marido no desterro, Rama lhe disse:

-Como podes tu, unia princesa, enfrentar as torturas que me aguardam em um bosque cheio de perigos traiçoeiros?

Sita, porém, respondeu:

- Onde Rama for, Sita irá também. Como podes falar-me de origens reais ou de altas linhagens? Irei contigo!

Rama foi acompanhado de Sita e do jovem Lakshmana, irmão menor de Rama. Internaram-se no bosque, até que alcançaram as margens do rio Godavari, onde construíram uma choças e passaram a sustentar-se de frutos silvestres.

Havia já passado algum tempo que ali estavam, quando, um belo dia, surgiu uma gigantesca demonia, irmã do gigante rei Lanka (Ceilão).

Vagando pelos bosques, encontrou-se com Rama e, ao vê-lo tão varonilmente formoso, apaixonou-se loucamente por ele. Rama, porém, além de casado, era um varão castíssimo e não quis corresponder ao amor da intrusa. Esta, para vingar-se, procurou seu irmão, a quem descreveu com ênfase a dominadora beleza de Sita, esposa de Rama, dizendo-lhe que dela se apoderasse.

Rama superava em poder todos os mortais e não havia gigante nem demônio, nem mortal algum que fosse capaz de vencê-lo. Por isso o rei gigante de Lanka buscou na astucia aquilo que considerou impossível conseguir pela força.

Dês-se modo, às artes de outro gigante, que era mago, o qual transformou-o em formoso cervo de Pêlo dourado. Assim metamorfoseado, este foi ao bosque onde Rama vivia e começou a saltar ao redor da cabana, até que, fascinada pela extraordinária beleza do animal, Sita pediu a Rama que o capturasse para ela. Indo à caça do animal, Rama deixou Sita sob os cuidados do seu irmão – Lakhsmana; este, porém, acendeu um círculo de fogo ao redor da cabana e disse à irmã:

- Pressinto que te vai acontecer algo de mau; Portanto, peço-te que não transponhas o círculo mágico, do contrário, cairás no infortúnio.

Entretanto, Rama havia ferido o cervo com uma flecha, tendo o animal morrido e se transformado em figura de homem. No mesmo instante, ouviu-se na cabana a voz de Rama que gritava:

- Ó Lakhsmana, vem socorrer-me.

Sita exclamou:

- Corre a ajudá-lo, ó Lakhsmana.

Lakhsmana replicou.

- Esta voz não é de Rama!

Entretanto, Sita de tal modo insistiu que Lakhsmana saiu a procurar Rama. Assim que ele se distanciou, apresentou-se junto ao círculo mágico, em frente à porta da cabana o rei gigante, disfarçado em monge mendicante, pedindo esmola.

Sita respondeu-lhe:

- Aguarda um pouco, pois logo meu marido voltará e te dará muita esmola.

O falso mendigo replicou:

- Não posso esperar, bondosa senhora, pois estou esfomeado. Dá-me o que tiveres.

Sita lançou mão de algumas frutas para atirá-las ao mendigo, mas este persuadiu-a a entregá-las pessoalmente, pois nada havia a temer de um santo varão.

Logo que Sita transpôs o círculo mágico para dar as frutas ao mendigo, este assumiu imediatamente sua fôrma gigantesca e arrebatou-a, colocando-a num carro encantado, que partiu velozmente com sua cobiçada presa.

A infeliz, desfeita em pranto, não teve quem a protegesse naquela solidão; lembrou-se porém, de assinalar o caminho percorrido com os adornos que trazia nos braços.

O rei gigante, raptor de Sita, chamava-se Râvana e levou-a a Lanka, seu reino, hoje denominado Ilha de Ceilão.

Chegado à corte, Râvana propôs a Sita que consentisse em ser sua esposa e rainha do país, ela, porém, que era a castidade personificada, não quis nem sequer ouvir as palavras de Râvana, que, para castigá-la, obrigou-a a permanecer dia e noite sob uma árvore, até que mudasse de atitude.

Quando Rama e Lakhsmana voltaram à cabana, não teve limites o desconsolo de ambos, quando notaram o desaparecimento de Sita, pois não podiam imaginar o que havia acontecido a ela. Saíram, pois, em busca da moça e explorando o bosque inteiro dela não acharam vestígios.

Já estavam cansados, quando encontraram um grupo de monos, chefiados por Hanumân, o "mono divino", o melhor dos monos o qual, solicitamente, pôs-se a serviço de Rama. Inteirado do caso, disse-lhe que haviam visto atravessar os ares um carro em que ia sentado um demônio, ao lado de uma formosíssima mulher, toda em prantos, a qual ao voar o carro sobre eles, havia atirado um bracelete para chamar-lhes a atenção.

Quando lhe apresentaram o bracelete, Lakshmana não o reconheceu, porque na antiga Índia, a esposa do irmão mais velho era tão reverenciada pelos seus cunhados, que Lakhsmana nunca se havia atrevido a pousar o olhar nos braços de Sita, Rama, porém, reconheceu imediatamente o bracelete de sua esposa. Os monos então, disseram a Rama quem era e onde vivia aquele rei gigante. Isto feito, todos partiram para persegui-Io.

O rei dos monos chamava-se Bâli, porém, o trono lhe havia sido usurpado por seu irmão menor Sugriva. Houve luta, e Rama ajudou Bâli a recobrar a coroa. Este, agradecido, prometeu auxiliar Rama a libertar Sita. Entretanto, percorreram todo país sem encontrá-la.

Finalmente, o mono divino saltou das costas da Índia às do Ceilão, procurando Sita pela ilha inteira, sem lograr encontrá-la. Râvana havia vencido os deuses, os homens, o mundo inteiro e raptara todas as mulheres formosas. Por isso Hanumân refletiu e disse:

- Sita não pode estar com as concubinas no palácio. Teria preferido a morte à desonra.
Por essa razão, prosseguiu em suas pesquisas, encontrando, finalmente, Sita sob a árvore onde Râvana a aprisionara.

Estava pálida e delgada como a lua nova ao horizonte. Hanumân assumiu então a transpor o figura de um pequeno mono e, escondido na ramagem da árvore viu como a irmã gigante de Ravana vinha atemorizar Sita para forçá-la a submeter-se; a casta esposa, porém, nem queria ouvir falar do rei gigante.

Quando a irmão de Râvana partiu, Hanumân aproximou-se de Sita mostrando-lhe o bracelete que Rama lhe havia dado para atestar sua identidade, relatando-lhe como seu marido o havia incumbido de procurá-la; que seu marido, logo que soubesse onde ela estava, viria com um poderoso exército para vencer o gigante e libertá-la. Acrescentou, entretanto, que, se ela quisesse, poderia tomá-la nos braços e com um salto atravessar o oceano e devolvê-la a Rama; porém, como Sita era a castidade em pessoa, recusou aquela insinuação, porque deliberadamente não admitia ao seu lado outro homem senão seu marido. Assim, permaneceu onde estava e deu a Hanumân uma jóia desprendida de seus cabelos, para que a entregasse a Rama. O mono divino despediu-se dela e voltou para seu país.

Inteirado do que havia sucedido a Sita, segundo o relato de Hanumân, Rama reuniu um exército de monos, chegando ao ponto mais meridional da ilha, onde construíram uma ponte chamada Setu-Bandha, entre a índia e o Ceilão. Atualmente, com a maré baixa é possível passar a pé enxuto de um ponto a outro. Para construir a ponte, os monos arrancaram radicalmente várias colinas, assentaram-nas no mar e cobriram-nas com pedras e troncos de árvores. Um esquilo revolvia-se na areia para encher com ela o corpo e depois, ao passar no trecho da ponte em construção, sacudia-se todo para espalhar a areia, contribuindo assim com muitos grãos para o levantamento da obra colossal, dirigida e projetada por Rama.

Os monos riam e zombavam do esquilo ao vê-lo espadanar-se na areia e sacudi-la depois na ponte, pois seu trabalho era insignificante, comparado ao deles que carregavam colinas inteiras, enormes bosques e grandes cargas de areia.

Rama, porém, disse-lhes:

- Bem-aventurado é este esquilo, porque faz seu trabalho com toda a habilidade de que é capaz e, portanto, é tão grande como o maior de vós.

Em seguida, acariciou suavemente as costas do esquilo e é por isso que se vê até hoje nas costas desse animal a marca longitudinal dos dedos de Rama.

Terminada a ponte, o exército de monos, sob o comando de Rama e Lakshmana, invadiu a ilha do Ceilão. Durante alguns meses guerrearam encarniçadamente contra as hostes de Râvana que, finalmente, foi vencido e morto. Os vencedores se apoderam de todos os seus palácios, que eram de ouro maciço. Rama cedeu-os a Vibhishana, irmão menor de Râvana e levou-o ao trono, como recompensa dos valiosos serviços que havia prestado durante a guerra.

Rama e Sita resolveram sair de Ceilão com seu séquito e regressar à índia; o povo porém, quis que Sita demonstrasse haver permanecido pura, enquanto esteve em poder de Râvana.

Rama, respondeu-lhes:

- Que prova ou testemunho quereis, se minha esposa é a castidade personificada?
- Não importa! Queremos a prova.

Assim, acenderam uma fogueira sacrificial, cujas chamas não queimariam a Sita, se houvesse permanecido pura e ali a arrojaram.

Rama ficou angustiado, temendo pela vida de Sita, porém, no mesmo instante, surgiu o deus do fogo, trazendo em sua cabeça um trono, no qual a jovem estava assentada.

Todos ficaram satisfeitos pelo feliz resultado da prova.

Regressando ao bosque, Rama recebeu a visita de seu irmão Bharata, que o notificou da morte do velho rei Dasaratha, dizendo-lhe que não se atrevera a ocupar um trono ao qual não tinha direito e, portanto, como sinal de respeito, nele havia colocado os sapatos de Rama.

Este, então, voltou à capital e com o beneplácito do povo foi aclamado rei de Ayodhya, tendo prestado os juramentos de estilo que, nos tempos antigos faziam os reis em benefício do seu povo, pois o rei era escravo do povo e devia inclinar-se ante a opinião pública.

Depois que Rama passou alguns anos na feliz companhia de Sita, alguns começaram a espalhar a notícia de que a rainha havia sido outrora raptada por um demônio, que a levou além do oceano. O povo não se conformou com a prova do fogo e exigiu outra mais convincente, sob pena de ser a rainha desterrada.

Para satisfazer os pedidos do povo, Rama desterrou sua esposa, que foi viver no mesmo bosque em que estava a ermida do sábio e poeta Valmiki. Este encontrando a infeliz Sita chorosa e abatida, ficou sabendo o que havia ocorrido e abrigou-a em sua ermida, onde a rainha, pouco tempo depois, deu à luz dois gêmeos.

Com o passar do tempo, o rei Rama teve de celebrar um solene sacrifício, segundo os costumes reais; porém, como na Índia não permitem os Shastras que um homem casado celebre uma cerimonia religiosa, sem a companhia da esposa, de sua sahadharmini ou correligionária e Sita estava no desterro, o povo pediu a Rama que se casasse novamente. Ele, porém, pela primeira vez em sua vida, opôs-se à vontade do povo e disse: Isto não pode ser. Sita é minha vida!

Em vista disso, para que a cerimonia fosse realizada, o rei mandou construir uma áurea estátua de Sita e ordenou que se ornamentasse um palco no lugar do sacrifício, para intensificar o sentimento religioso, por meio de uma representação dramática.

Por esse tempo, os gêmeos de Sita, chamados Lava e Kusha, eram dois garbosos mancebos que Valmiki havia educado na vida de bramacharin (Noviço que faz voto de castidade, pobreza e obediência nos mosteiros hindus), sem revelar-lhes sua origem.

Durante aquele longo período, Valmiki havia composto a epopéia da vida de Rama, acompanhada de música apropriada para ser cantada em rapsódias. Sabedor do festival que ia realizar-se em Ayodhya, dirigiu-se à cidade com os desconhecidos filhos de Rama e Sita, os quais, sob a discrição de seu mestre, cantaram no palco a vida de Rama, com tão surpreendente habilidade que fascinaram os espectadores, presididos pelo rei, seus irmãos e os magnatas da corte.

Quando os cantores chegaram à passagem em que o poema descreveu o desterro de Sita, Rama ficou profundamente comovido. Valmiki, porém, disse-lhe:

Não te aflijas porque verás tua esposa.

Sita, então, surgiu no cenário, enchendo de alegria o coração de seu fiel e amoroso Rama.

O povo, porém, exigiu em altas vozes:

A prova! A prova!

Tão profundamente abalada ficou Sita por aquele reiterado receio do povo, a respeito de sua reputação, que implorou aos deuses um incontestável testemunho de sua inocência.

Naquele momento, a terra abriu-se e Sita desapareceu em sem seio, exclamando:

Eis a prova!

Ante tão trágico desfecho, o povo arrependeu-se. Rama estava inconsolável, curtindo imensa dor, quando, poucos dias depois, chegou um mensageiro dos deuses para dizer-lhes que estava terminada sua missão na terra e deveria voltar ao céu.

Aquela mensagem levou Rama ao reconhecimento do seu verdadeiro ser. Então, atirando-se às águas do rio Savayu (atualmente Gogra) que banhava a Capital, reuniu-se com sua amada Sita no outro mundo.

Fonte:
Vivekananda, Swami. Epopéias da Índia Antiga.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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