domingo, 3 de junho de 2012

Casimiro de Abreu (Carolina) VII - A Última Hora


Um mês depois, nos últimos dias de agosto, Carolina gemia agonizante em Setúbal.

Que coração de mulher resistiria a tantas comoções?

Com a cabeça formosa recostada no travesseiro, firme e resignada, ouvia ela da boca do sacerdote as doces e consoladoras palavras do Evangelho.

Sobre uma pequena mesa via-se um crucifixo entre duas velas acesas, que espalhavam pelo quarto a sua claridade mortuária.

Oh! triste e solene hora do passamento! Como se patenteia então eloqüente o nada das grandezas humanas!...

— Filha, dizia-lhe o padre, com sua voz suave; lembrai-vos só de Deus, diante do Qual ides em breve comparecer. Arrependei-vos, filha, e Ele que é um Deus de bondade e misericórdia há-de perdoar-vos.

— Deus perdoa-me, padre?

— Perdoa-vos, sim, filha.

— Então morro contente; mas eu também queria levar outro perdão da terra.

— Dizei, filha.

— É o de meus pais, que eu abandonei, padre; mas eu amava-os muito.

— Também te devem perdoar, filha, porque Deus manda que se perdoe.

— Ainda falta outro, padre.

— Dizei, filha.

— É um homem que eu amei muito, padre, e que ainda amo.

— Fizestes-lhe mal, filha?

— Traí-o, padre, disse ela chorando.

— Descansa, filha, ele também te há-de perdoar.

— Meu padre, queria pedir-vos um favor.

— Falai, filha.

— É de enviardes para Lisboa a carta que está sobre aquela mesa; é o último adeus que eu digo àquele homem.

— Eu enviarei a carta, filha. Mas por que chorais? são ainda lembranças deste mundo, que vos pungem? Já vos arrependestes sinceramente de tudo: pois bem; desligai o pensamento de tudo que é terrestre, mesquinho e pequeno, e pensai em Deus, sublime e grande.

— Padre, padre, eu vou morrer! repeti-me que Deus me perdoa.

O padre aproximou-se e curvado sobre o leito dizia-lhe:

— Minha filha, Deus é bom, Deus perdoa quando Seus filhos se arrependem como vós vos arrependestes.

— Minha pobre mãe, adeus! murmurava a agonizante, perdoa a tua filha, meu pai!

Depois um tremor percorreu-lhe os membros, um soluço saiu de seu peito e fazendo um último esforço disse: adeus... Au... gus... e a voz expirou-lhe nos lábios e a cabeça pendeu para o lado, sem um gemido.

Estava morta.

O padre contemplou-a um instante, mudo e enternecido.

— Morreu! disse ele enxugando uma lágrima, ainda tão jovem! Foi o mundo que a matou.

EPÍLOGO

Alguns dias depois, Augusto, trêmulo, abria uma carta fechada com obreia preta, e lia:

Adeus, Augusto: quando leres esta carta já estarei morta. Consola meu pai e minha mãe, se os vires. Não amaldiçoes a minha memória! Morro beijando o teu retrato, que levo comigo ao túmulo. Adeus! ora por mim!

CAROLINA”.

— Sim, sim, disse o mancebo, caindo de joelhos e juntando as mãos, eu oro por ti. Que Deus te perdoe como eu te perdoei.

FIM

( O Progresso, números 351 e 352, respectivamente
de Lisboa, 12 e 13 de março de 1856).

Fonte:
ABREU, Casimiro de. Carolina. in SILVEIRA, Sousa da (org.). Obras de Casimiro de Abreu. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura -MEC, 1955. Texto-base digitalizado por: Fernanda Duarte, Rio de Janeiro – RJ

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