Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

História da Literatura (Classicismo) Parte III

Elegia:
poema de fundo melancólico, que fala dos sentimentos tristes ou é inspirada neles;

EXEMPLO DE ELEGIA

Elegia IV

Aquele mover de olhos excelente,
 Aquele vivo espírito inflamado
 Do cristalino rosto transparente;
 Aquele gesto imoto e repousado,
 Que, estando na alma propriamente escrito,
 Não pode ser em verso trasladado;
 Aquele parecer, que é infinito
 Pera se compreender de engenho humano,
 O qual ofendo em quanto tenho dito,
 Me inflama o coração dum doce engano,
 Me enleva e engrandece a fantasia,
 Que não vi maior glória que meu dano.
 Oh! bem-aventurado seja o dia
 Em que tomei tão doce pensamento,
 Que de todos os outros me desvia!
 E bem-aventurado o sofrimento
 Que soube ser capaz de tanta pena,
 Vendo que o foi da causa o entendimento!
 Faça-me, quem me mata, o mal que ordena;
 Trate-me com enganos, desamores,
 Que então me salva, quando me condena.
 E se de tão suaves desfavores
 Penando vive ua alma consumida,
 Oh, que doce penar! que doces dores!
 E se ua condição endurecida
 Também me nega a morte por meu dano,
 Oh, que doce morrer! que doce vida!
 E se me mostra um gesto brando e humano,
 Como quem de meu mal culpada se acha,
 Oh, que doce mentir! que doce engano!
 E se em querer-lhe tanto ponho tacha,
 Mostrando refrear o pensamento,
 Oh, que doce fingir! que doce cacha!
 Assi que ponho já no sofrimento
 A parte principal de minha glória,
 Tomando por melhor todo o tormento.
 Se sinto tanto bem só na memória
 De vos ver, linda Dama, vencedora,
 Que quero eu mais que ser vossa a vitória?
 Se tanto vossa vista mais namora
 Quanto eu sou menos para merecer-vos,
 Que quero eu mais que ter-vos por senhora?
 Se procede este bem de conhecer-vos,
 E consiste o vencer em ser vencido,
 Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
 Se em meu proveito faz qualquer partido,
 Só na vista de uns olhos tão serenos,
 Que quero eu mais ganhar que ser perdido?
 Se meus baixos espíritos, de pequenos,
 Ainda não merecem seu tormento,
 Que quero eu mais, que o mais não seja menos?
 A causa, enfim, me esforça o sofrimento;
 Porque, apesar do mal que me resiste,
 De todos os trabalhos me contento;
 Que a razão faz a pena alegre ou triste.
(Luís Vaz de Camões)


Ode:
composição pequena, de caráter erudito, com elevação do pensamento, sobre vários assuntos. As odes podem ser classificadas em pendáricas (cantam heróis ou acontecimentos grandiosos), anacreônicas (cantam o amor e a beleza), e satíricas (celebram assuntos morais e / ou filosóficos);

EXEMPLO DE ODE

Ode III

Se de meu pensamento
 Tanta razão tivera de alegrar-me
 Quanta de meu tormento
 A tenho de queixar-me,
 Puderas, triste lira, consolar-me.
 E minha voz cansada,
 Que noutro tempo foi alegre e pura,
 Não fora assim tornada,
 [Com tanta desventura],
 Tão rouca, tão pesada, nem tão dura.
 A ser como soía,
 Pudera levantar vossos louvores;
 Vós, minha Hierarquia,
 Ouvíreis meus amores,
 Que exemplo são ao mundo já de dores.
 Alegres meus cuidados,
 Contentes dias, horas e momentos,
 Oh! quão bem alembrados
 Sois de meus pensamentos,
 Reinando agora em mim duros tormentos!
 Ai, gostos fugitivos,
 Ai, glória já acabada e consumida,
 Cruéis males esquivos,
 Qual me deixais a vida!
 Quão cheia de pesar, quão destruída!
 Mas como não é morta
 A triste vida já, que tanto dura?
 Como não abre a porta
 A tanta desventura,
 Que em vão co'o seu poder, o Tempo cura?
 Mas, pera padecê-la,
 Se esforça meu sujeito e convalece;
 Que só, para dizê-la,
 A força me falece,
 E de todo me cansa e me enfraquece.
 Oh! bem afortunado,
 Tu, que alcançaste com lira toante,
 Orfeu, ser escutado
 Do fero Rodamante,
 E co'os teus olhos ver a doce amante!
 As infernais figuras
 Moveste com teu canto docemente;
 As três Fúrias escuras,
 Implacáveis à gente,
 Quietas se tornaram, de repente.
 Ficou como pasmado
 Todo o Estígio reino co'o teu canto;
 E, quase descansado
 De seu eterno pranto
 Cessou de alçar Sísifo o grave canto.
 A ordem se mudava
 Das penas que ordenava ali Plutão.
 Em descanso tornava
 A roda de Ixião,
 E em glória quantas penas ali são.
 Pelo qual admirada
 A Rainha infernal e comovida,
 Te deu a desejada
 Esposa, que perdida
 De tantos dias já tivera a vida.
 Pois minha desventura
 Como já não abranda ua alma humana,
 Que é contra mim mais dura
 E mui mais desumana
 Que o furor de Calírroe profana?
 Ó crua, esquiva e fera,
 Duro peito, cruel, empedernido,
 De algua tigre fera
 Da Hircânia nascido,
 Ou de entre as duras rochas produzido!
 Mas que digo, coitado,
 E de quem fio em vão minhas querelas?
 Só vós, ó do salgado,
 Húmido reino, belas
 E claras Ninfas, condoei-vos delas.
 E, de ouro guarnecidas,
 Vossas louras cabeças levantando
 Sôbola água erguidas,
 As tranças gotejando
 Saí alegres todas ver qual ando.
 Saí em companhia
 Cantando e colhendo as lindas flores;
 Vereis minha agonia,
 Ouvireis meus amores,
 E sentireis meus prantos, meus clamores.
 Vereis o mais perdido
 E mais mofino corpo que é gerado;
 Que está já convertido
 Em choro, e neste estado
 Somente vive nele o seu cuidado.
(Luís Vaz de Camões)


Fontes:
Garganta da Serpente
Imagem = compartilhada no facebook pela Libreria Fogola Pisa

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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