Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

História da Literatura (Classicismo) Parte Final - Gêneros Literários

A literatura da era clássica está dividida em poesia lírica, poesia pastoral, a epopéia, e no gênero dramático (tragédia e comédia).

A poesia lírica, de fundo platônico, encontra sua principal expressão em Petrarca, autor do Cancioneiro - obra com cerca de 350 poemas, na maioria sonetos - que trata do amor inacessível de Laura. Terá seguidores por todo o mundo, como Camões e Sá Miranda (em Portugal), Garcilaso de la Veja e Fernando Herrera (na Espanha).

A poesia pastoral se baseia nos poemas bucólicos de Virgílio e encontra sua maior expressão na Itália com Torquato Tasso (Aminta, 1752) e Sanazzaro (Arcádia, 1502).

O gênero épico foi a criação mais notável da Renascença: trata-se de uma narração em versos de feitos heróicos. A epopéia é a interpretação poética de um mito. Possui versos decassílabos, épicos (medida nova), apresenta rimas ricas, heróis, seres mitológicos, um narrador em 3ª pessoa (observador), e divisão em cinco partes (proposição: tema; invocação: deuses; dedicatória; narração; epílogo). O poeta exalta e glorifica os valores nacionais, legitimando simbolicamente sua nação e profetizando seu destino glorioso. A mais importante obra épica do classicismo português é "Os Lusíadas" que narra os feitos heróicos dos portugueses (os lusos, daí o nome da obra), que, liderados por Vasco da Gama, lançaram-se ao mar numa época em que ainda se acreditava em monstros marinhos e abismos. Ultrapassando os limites marítimos conhecidos - no caso o cabo das Tormentas ao sul da África - chegariam a Calicute, na Índia. Tal façanha, que uniu o Oriente ao Ocidente pelo mar, deslumbrou o mundo e foi alvo de interesses políticos e econômicos de diversas nações européias.

O teatro recupera da Antigüidade a tragédia e a comédia, agora em linguagem vulgar. Em Portugal, destaca-se Antônio Ferreira, com a tragédia Castro. A figura proeminente do período, entretanto, será William Shakespeare (1564-1618), na Inglaterra.

Bibliografia.:

Luís Vaz de Camões nasceu por volta de 1525. Ingressou no Exército da Coroa de Portugal e participou da guerra contra Ceuta, no Marrocos, durante a qual perde o olho direito (1549). De volta a Lisboa, teve uma vida boêmia até 1553 quando, depois de ter sido preso devido a uma rixa, parte para a Índia. Fixou-se na cidade de Goa onde escreveu grande parte da sua obra. Regressou a Portugal em 1569, pobre e doente, conseguindo publicar Os Lusíadas em 1572 graças à influência de alguns amigos junto do rei D. Sebastião. Faleceu em Lisboa no dia 10 de Junho de 1580. É considerado o maior poeta português. Obras: Os Lusíadas (1572), Rimas (1595), El-Rei Seleuco (1587), Auto de Filodemo (1587) e Anfitriões (1587).

Gênero Lírico.:

Após sua morte, a sua obra foi publicada no livro "Rimas" (1595).
Camões lírico é um autor bifronte, ou seja, tem duas faces:

a) Medieval:
- medida velha (redondilhos)
- cancioneiro geral e temática popular

b) Renascentista :
- medida nova (decassílabos)
- sonetos

Camões tem grande preocupação técnica: todos os 14 versos de todos os sonetos (2 quartetos, 2 tercetos) são decassílabos, e a maioria das rima segue a estrutura rítmica ABBA-ABBA-CDE-CDE. Cabe ressaltar que muitos de seus sonetos ainda têm a autoria contestada.

Também podemos subdividir sua produção renascentista em:

Renascimento: visão otimista, equilíbrio (forma e conteúdo), clareza, razão, reflexão, simplicidade, objetividade

Maneirismo (transição entre Renascimento e Barraco): visão pessimista, racional, desequilíbrio, conflito entre razão e emoção, contradições, paradoxos, sinuosidade, desarmonia, antíteses

Quanto à temática, são dois os aspectos mais representativos da produção lírica de Camões: a lírica amorosa e a lírica filosófica.

Lírica amorosa:

O amor é seu principal tema, abordado em duas vertentes:

o amor visto de modo ingênuo, simples, otimista, realizado (mais nos poemas renascentistas puros).

o amor enquanto conflito, contradição (impregnado pela visão maneirista). Aqui há uma divisão em "amor" (com letras minúsculas) e "Amor" (com a inicial maiúscula).
- amor: é individual, implica sofrimento, realidade, dor.
- Amor: é a essência, a idéia, é perfeito, absoluto.

A diferenciação entre "Amor" X "amor" ilustra a influência do neoplatonismo, contrapondo idéia (Amor) e sombra (amor), que leva à imitação. Estabelece-se um conflito entre o amor sensual e o amor platônico, espiritualizado. Camões trabalha mais com o conceito do amor do que propriamente com os sentimentos: ele os universalisa, tirando seu caráter individual.

Lírica filosófica:

Aborda reflexões sobre a vida, o homem e o mundo. O eu lírico reflete um homem angustiado e perplexo diante do seu tempo. Dentre seus principais temas podemos citar:

- Mutabilidade das coisas, da vida, do mundo.
- Desconcerto do mundo (essência é desarmonia?).
- Transitoriedade da vida e de tudo.

O conflito presente na lírica de Camões, traduzido principalmente por antíteses e pelas inversões de linguagem, prenuncia o movimento literário seguinte, o Barroco. Por esse motivo, Camões costuma ser classificado como maneirista.

Gênero Épico.:

Camões celebrou os feitos lusitanos na época das conquistas em sua obra-prima, "Os Lusíadas" (1572) .

O renascimento vai justificar a imitação das epopéias clássicas. A epopéia é épica, ou seja, caracteriza-se como uma longa narrativa, porém em versos. Seu tema nunca é a individualidade, mas sim a coletividade: idéia de nacionalidade (povo). O herói individual na epopéia representa a coletividade, sendo na realidade, um herói coletivo.

HERÓI: OBRA: ASSUNTO:
Aquiles - Ilíada - Guerra de Tróia
Ulisses - Odisséia - O retorno dos heróis
Enéias - Eneida - Fuga de Ulisses para fundar Roma
Vasco - Os Lusíadas - Saga de Vasco (cruzar o Cabo da Boa Esperança)

Os deuses greco-romanos (antropomórficos) são retomados nos Lusíadas e são representados principalmente por Baco (contra os portugueses) e Vênus (à favor).

A estrutura dos Lusíadas:

Versos em número de 8.816, todos decassílabos heróicos.
Estrofes com oito versos.
Estrutura rítmica: AB AB AB CC
A estrutura justifica a monumentalidade da obra.

Organização:
. poema dividido em dez contos
. pode ser dividido em três partes: Introdução / Narração / Epílogo

Introdução

Estende-se pelas dezoito estrofes do Canto I. Subdivide-se em três partes:

Proposição I, 1,3
Onde o tema é proposto: viagens marítimas, conquistas: expansão comercial e imperial. A fé que abre o caminho: domínio econômico - cristianizar as terras pagãs. Lembrança dos heróis do passado. Glorificação do povo português.

Invocação I, 4,5 - tradição das epopéias
Invocação para as musas (Tágires: ninfas do Tejo) darem inspiração.

Dedicatória I, 5,18
Dedica ao rei Dom Sebastião (sem bajulação) antes da batalha de 1578 contra os mouros, em que este desaparece. Henrique de Coimbra torna-se o novo rei. Mas surge o mito do Sebastianismo: Dom Sebastião, o encoberto. Portugal mergulhado em esperanças e temores: um dia o rei voltaria para reerguer o país.

Narração - I, 19 - X, 144

Relata a viagem de Vasco da Gama às Índias e os feitos do povo português. Quando se inicia essa parte, os portugueses já navegavam no Oceano.

I, 19: Já estão quase no fim da viagem: Costa Leste da África. Estrutura de tempo: "in medias res" (tradição).

I, 20: Concílio dos Deuses (mais ou menos vinte estrofes).

I, 42: Portugueses sofrem uma série de problemas.
Chegando em Melinde, o Rei fica curioso com esse povo e pede a Vasco para que conte a História de Portugal e a viagem (volta ao passado). A narração é longa: fala de Luso, da história de Inês, dos iniciadores de Portugal, dos primeiros reis, Revolução de Ávis, etc. Há ligeiras mudanças no tom narrativo. A esquadra deixa Melinde e Baco tenta usar o mar contra os portugueses, mas Vênus protege-os. Chegando à Índia, Baco os prejudica: Vasco é aprisionado. Livres, partem da Índia e recebem uma recompensa de Vênus: passam pela Ilha dos Amores e voltam a Portugal.

Epílogo - X, 145,156

X, 144: Estrofe do retorno: chegada a Portugal.

X, 145: Camões critica os portugueses. A mudança de tom vai até o fim do poema. Ele deixa claro que não pretende continuar a narração.

Fontes:
Garganta da Serpente
Imagem = compartilhada no facebook pela Libreria Fogola Pisa

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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