quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Figueiredo Pimentel (A faquinha e a bilha quebrada)

Vicente já está de volta da escola, sossegado, sim, mas a deitar sua olhadela para as vistosas lojas. De repente para. Que estará ele a ver com tanta curiosidade? Um açafate cheio de faquinhas brancas, lindíssimas. Ah! como devem cortar bem! Que lâminas tão polidas e brilhantes! E não são caras: – a oito vinténs. Vão-se-lhe os olhos, mas falta-lhe o melhor; oito vinténs é uma quantia demasiada para as suas finanças. A mãe, uma mulher pobre, apesar de trabalhar muito, pode-lhe lá dar dinheiro para comprar uma faquinha!

— Oh! diz o Vicente de si para si; que poderia eu fazer para ganhar aquele dinheiro?

Saía da loja um sujeito carregado de compras.

— Oh! rapazinho, ajudas-me a levar estas encomendas para minha casa?

— De muito boa vontade, respondeu-lhe o Vicente, se não for muito longe, porque minha mãe se zanga quando venho tarde da escola.

— É muito perto daqui, não te demoras nada.

O Vicente pegou em dois pacotes, e foram ambos andando até a rua onde morava o homem.

— Está bem, rapazinho, aqui tens pelo teu trabalho, – e deu-lhe dois vinténs.

— Muito obrigado, meu senhor, mas eu não quero receber dinheiro por um serviço tão pequeno.

— Pois então guarda-os para te lembrares de mim, tornou-lhe o sujeito, entrando em casa.

Para a rua correu Vicente, pulando de contente.

— Ó mãe!! ó mãe! Olhe o que me deram quando eu voltava da escola: dois vinténs, ambos novinhos (e pôs-se a contar o caso à mãe).

— Se eu pudesse ganhar mais seis vinténs, chegava-me exatamente para comprar uma faquinha. Ah! se a mãe soubesse como são bonitas!

— E para que precisas tu de uma faquinha?

— Ó! mãe! Com uma faquinha posso fazer muitas coisas: aparar os meus lápis e os dos meus condiscípulos; cortar ramos na alameda para chicotes e flautinhas; arranjar um barquinho; e até ajudá-la a descascar as batatas para o jantar, porque as nossas facas são muito grandes. Parece-me que já a estou a ouvir dizer: – Então, ainda não viste a faquinha do Vicente? É tão bonita! E a mãe, quando eu tiver os oitos vinténs, dá-me licença para comprar uma?

— Dou sim, filho. O que eu não sei é como tu os hás de ter.

Vicente passou o serão a imaginar como poderia ganhar alguns vinténs, mas, por mais que batesse na testa, foi-se deitar sem nada ter descoberto.

Um dia, às sete horas da manhã, havia apenas alguns instantes em que se levantara, tirou a lama da porta. De repente, ergueu casualmente a cabeça, e deu com o tio Martinho à janela. É um dos vizinhos.

— Oh! pensa o Vicente; o tio Martinho está já tão velho para tirar a neve que lhe caiu à porta; depressa a retirou para ele não escorregar quando for sair.

Dito e feito. Quando Vicente voltava para casa, abriu Martinho a janela e pôs-se a chamá-lo.

— Fizeste bem, meu rapazinho, em me evitar alguma queda. Se repetires isto quando tornar a chover, dou-te um vintém.

Vicente pensou nas faquinhas, e aceitou contentíssimo a proposta. Infelizmente a chuva não cai todos os dias a cântaros, e decorreu muito tempo antes de ter o dinheiro necessário.

E assim passaram-se semanas e semanas. Trabalhando daqui e dali, mesmo assim o menino apenas conseguiu arranjar sete vinténs.

Só lhe faltava um, para completar a quantia com que poderia comprar a ambiciosa faquinha.

— Ah! se chovesse muito esta noite. Era o pensamento fixo do rapazinho, em cada serão, quando se ia deitar.

***

Uma manhã levantou-se, correu à janela para espreitar o tempo, e a mãe viu-o andar aos saltos, e bater palmas.

Não sabia o que isso queria dizer, mas adivinhou-o quando viu o Vicente, depois de lhe ter vindo pedir a bênção, e de lhe dar um beijo, pegar na pá e na vassoura, e sair de casa.

A mãe pôs-se a espreitá-lo. Que azáfama! que desembaraço! As mãos roxas da friagem, mas a vassoura num corrupio.

Acabou. O Martinho abre a porta, sai, tira a bolsa, e o oitavo ambicionado vintém passa da mão do vizinho para a de Vicente. Correr a ir buscar os outros sete vinténs, guardados com tanto carinho numa caixinha, almoçar e partir para a escola, foi obra de um momento.

Como ele salta pela rua fora! Que leva fechado na mão? Um tesouro que tem medo de perder: oito vintenzinhos em que se vai revendo, contando-os e tornando-os a contar.

Lá está já na rua da loja sedutora. Um instante mais e a faquinha é dele.

***

Do outro lado da rua vai uma menina, vestida pobremente, e andando com muita cautela para não escorregar. Parece transida de frio; as mãozinhas, roxas de todo. Leva uma bilha de leite. O Vicente ia já a entrar na loja, quando, de repente, vê a menina escorregar e cair ao atravessar a rua. A bilha quebrou-se-lhe! O leite que ia ser o almoço da avó, todo entornado!

Quando a vê cair, corre para a ajudar a levantar-se. Já em pé, a menina, lavada em lágrimas, conta-lhe que não leva nem um real, e que a avó ainda não almoçou. Vicente olha para os seus oito vinténs, depois para a loja onde estão penduradas as faquinhas, depois para a pequenina, que ainda continuava a chorar. Reflete um momento.

— Vem comigo, diz-lhe ele pegando-lhe na mão; ambas haveis de ter que almoçar.

Levou-a a outra loja em que não se viam faquinhas, mas uma grande quantidade de pratos, xícaras, bilhas de todos os tamanhos e de todas as cores. O rapazinho escolheu uma bilha azul e branca, muito bonita, pagou um tostão à dona da loja, e ato contínuo foi à leiteria, onde a mandou encher de leite. De todo o seu dinheiro, nada lhe sobrou.

A menina, doida de contente por ter uma bilha nova, sorriu-se e consolou-se. Retomou o caminho de casa, levando ao lado o seu novo conhecido, mas sempre com mil precauções para não tornar a cair.

E, ao separar-se dele, perguntou-lhe:

— Como te chamas?

— Vicente.

— E eu, Maria. A minha avó diz que ainda sou pequenina para guardar dinheiro; mas, quando crescer, hei de ter muito, e hei de te comprar um brinquedo, porque hoje foste um anjinho para mim.

As duas crianças ainda conversaram alguns instantes. Depois separaram-se, prometendo que haviam de ser amigos para sempre. Maria correu para avó, mostrou-lhe alvoroçada a sua bilhinha nova e contou-lhe tudo o que lhe aconteceu. Vicente seguiu para a escola, resplandecente de alegria, pela boa ação cometida.

Fonte: Alberto Figueiredo Pimentel. Histórias da Avozinha. Publicado em 1896. Disponível em Domínio Público.

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Motorista barbeiro”

Antigamente, os barbeiros eram conhecidos não apenas por realizar cortes de cabelo e barba, mas também por desempenhar tarefas como extração de dentes, remoção de calos e unhas, entre outros.

Previsivelmente, tais serviços, incluindo pequenas cirurgias médicas e odontológicas, eram executados de forma precária, pois eles não possuíam nenhuma habilitação técnica, por isso as consequências desagradáveis, senão desastrosas, aos infortunados “clientes”.

Conta-se que em uma cidade do interior do Brasil, um dos barbeiros locais, sentindo fracassar seu faturamento pela concorrência de outros, viajou e quando voltou, trouxe na bagagem outro tipo de equipamento: seringas, pinças e boticões, passando a extrair os dentes de amigos e conhecidos, mediante pagamento.

Vem de longe essa expressão muito usada no dia-a-dia das cidades brasileiras. Há quem se reporte ao século XIX, quando ganhou impulso a fabricação de carros. E se alude aos profissionais que cuidavam de barbas e cabelos, certamente não era pelos erros na execução dessas tarefas e sim, quando atuavam como supostos protéticos, enfermeiros ou médicos. 

Não é comum advogados, engenheiros, contadores, agrônomos, economistas e magistrados, por mais que cometam erros, serem rotulados de “barbeiros”. Isso é mais comum com os profissionais da saúde, valendo lembrar o ditado que bem ilustra essa assertiva: - “o erro do médico a terra encobre; a do dentista está na cara”. 

Aos motoristas rotulados com essa pecha, é emblemático o caso da jovem que reclamava que seu antigo carro falhava muito e não tinha força para subir qualquer ladeira. Depois do mecânico passar uma semana testando o motor na tentativa de descobrir o defeito, e já tendo trocado todas as peças possíveis, observou que a proprietária partia com o veículo funcionando normalmente, porém voltava reclamando do mesmo problema: o motor estava rateando. 

Angustiado e sem saber mais o que fazer, sugeriu ele à distinta senhorita que fossem dar uma volta, com ela na direção e ele como passageiro, observando. No dia do “teste drive” ela ligou o motor e no momento da partida, puxou o afogador ao máximo e candidamente comentou: “isto aqui é um ótimo lugar que eu uso sempre para pendurar a minha bolsa!...”. Perplexo, o mecânico viu logo que o defeito nunca fora do carro e sim da motorista “barbeira”, que sem noção da utilidade do afogador, usava-o indevidamente como cabide, comprometendo o funcionamento normal do veículo.

E quem de nós nunca viu uma “barbeiragem” pelas ruas e estradas do Brasil? Ser chamado de “barbeiro” é quase uma ofensa, mas há situações que não escapam desse qualificativo, expresso ou implícito. Tendo perguntado ao vizinho se sua esposa já estava dirigindo bem o carro da família, após ser aprovada com louvor pela autoescola do bairro, veio a resposta inesperada:  
 
- Está sim! Inclusive, ela já faz as curvas na mesma hora que a estrada faz... 

Foi em Portugal que passaram a ser chamados de “barbeiros” aqueles que, de maneira tosca ou imperfeita, executavam qualquer serviço. Mas quando o termo chegou ao Brasil, desembarcou junto com os primeiros automóveis, então esse passou a ser o conceito informal atribuído a quem dirige mal, judia do veículo na hora de estacionar, engata marcha à ré sem olhar quem está atrás, prejudica os demais condutores e promove pânico na via pública. 

Se no século XV o termo “barbeiro” era atribuído a quaisquer atividades mal executadas, com o passar do tempo foi relacionado precipuamente aos motoristas, daí a expressão “motorista barbeiro” - ou seja, aquele que transforma em vítima o próprio carro ou o trânsito como um todo, já comprometido pelos constantes engarrafamentos nas médias e grandes cidades, principalmente quando esse vilão insiste em dirigir bisbilhotando o celular. 

Ou, o que é mais preocupante, quando ainda sem a necessária versatilidade com os veículos de câmbio automático, os “barbeiros” invadem lojas, sobem em canteiros ou derrubam paredes de garagens, simplesmente porque pisam fundo no acelerador pensando que é o feio! 

Não por acaso, tramita no Senado Federal o projeto de lei n.º 3.688/2024 propondo a utilização de carros automáticos e elétricos nas aulas práticas de direção, visando a obtenção da CNH. Pode ser que com essa medida legislativa, esse tipo de barbeiragem diminua bastante ou pelo menos fique limitada àqueles que são “barbeiros” por incrível vocação...  
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(*) O autor é advogado, escritor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Artística e Literária de Óbidos, da Confraria Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

Fontes: Texto enviado pelo autor.
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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Edy Soares (Fragata da Poesia) 67

 

José Feldman (Amor e Tragédia nas Sombras da Intolerância)


José era um homem comum, um judeu não praticante que trabalhava incansavelmente em um hospital na cidade, jovem ainda, tinha cerca de 21 anos de idade. O dia a dia se desenrolava entre tubos de ensaio, mas havia algo de especial em seu coração que ainda não tinha despertado. Isso mudou quando conheceu Najla, uma colega de trabalho, uma jovem de beleza estonteante e olhos que refletiam a dor de uma vida conturbada. Ela era jovem também, 19 anos de idade, filha de imigrantes libaneses que traziam consigo a cultura e a religião com muita devoção.

A atração entre eles foi imediata, mas havia um empecilho: Najla estava em um relacionamento com um rapaz que parecia prometer o mundo a ela. No entanto, essa promessa se desfez como um castelo de areia quando ele a engravidou e desapareceu, deixando-a sozinha e vulnerável. A família de Najla, profundamente religiosa, a declarou impura e a expulsou de casa, condenando-a ao ostracismo por um erro que não era apenas dela.

Desesperada e sem ter aonde ir, Najla encontrou abrigo em José. Ele, que sempre teve um coração generoso, não hesitou em alugar um pequeno apartamento para que ela pudesse ter um lugar seguro para esperar o nascimento de seu filho. Durante o dia, ele convivia com sua família, que nada suspeitava de seu amor secreto. À noite, ele se tornava o porto seguro de Najla, compartilhando momentos de ternura e esperança em meio a um mundo que parecia estar contra eles.

O amor que floresceu entre os dois era um oásis em um deserto de intolerância. José adotou a ideia de que a filha que estava por vir, seria um símbolo de sua união, um laço que desafiava as barreiras que a sociedade impunha. O nascimento de Yasmin, em 9 de dezembro de 1975, trouxe uma luz nova à vida de ambos. José não a via apenas como a filha de Najla; ele a amava como se fosse sua, um amor profundo e incondicional.

Mas essa felicidade era efêmera. Em 14 de maio de 1976, tudo mudou. Naquele dia fatídico, José, Najla e Yasmin estavam deixando o prédio para um passeio no parque planejando o futuro juntos, em um momento simples virou tragédia. Ao saírem do apartamento, dois ladrões armados os abordaram. O pânico se instalou quando um dos bandidos tentou arrancar a pulseira do pulso de Yasmin. Com um empurrão, a inocente criança caiu, batendo a cabeça e rolando escada abaixo, enquanto seu choro ecoava em meio ao caos.

José, em um ato desesperado, correu para agarrar Yasmin, mas quando finalmente a alcançou, o silêncio que se seguiu era ensurdecedor. Ela já estava sem vida. O grito de Najla, misturado ao desespero de José, atraiu vizinhos que correram para ajudar, mas nada poderia salvar a pequena. Os ladrões fugiram diante do ocorrido. A cena era um pesadelo, um momento que se tornaria uma ferida aberta em suas almas.

A vida continuou, mas José e Najla foram consumidos pela dor. O luto se transformou em um peso insuportável; um mês depois, Najla fez a escolha trágica de tirar a própria vida. Ele se viu sozinho, mergulhado em uma depressão que parecia não ter fim. Sua família, alheia ao que realmente havia acontecido, levou-o a um psiquiatra. No entanto, a ajuda parecia inútil diante de sua dor insuportável. Em um momento de desespero, ele tentou se suicidar, mas o destino tinha outros planos e ele sobreviveu, sentindo-se ainda mais desamparado.

A culpa corroía sua alma. Ele culpou Deus, questionando a razão pela qual um amor tão puro e sincero entre um judeu e uma árabe não poderia existir em paz. As noites se tornaram um tormento; os sonhos eram assombrados pela imagem de Yasmin rolando escada abaixo, pelos gritos de Najla, pela dor que não se dissipava.

A tragédia de José e Najla se desenrolava como uma peça shakespeariana, repleta de amor, perda e a eterna busca por aceitação em um mundo que muitas vezes se recusa a entender. O amor que havia florescido entre eles, mesmo em meio a tanta adversidade, foi sucumbindo sob o peso da intolerância e da tragédia. A história deles, marcada por momentos de beleza e dor, nos lembra que, apesar das barreiras que tentamos erguer, o amor verdadeiro é uma força imbatível, ainda que, por vezes, tragicamente efêmera.

Décadas se passaram desde aquela tragédia que transformou José, mas a dor que ele carrega é tão viva quanto no primeiro dia. Tentou reconstruir sua vida, mas a imagem de Yasmin rolando escada abaixo e a visão de Najla, caída no meio da rua, não o abandonaram. Essas memórias o assombram, como sombras persistentes que se recusam a se dissipar.

Hoje, sozinho em sua casa, nos momentos de quietude, especialmente à noite, quando a escuridão cobre o mundo, os pesadelos vêm. Ele se vê novamente naquele dia fatídico, o grito de Najla ecoando em seus ouvidos, a impotência de não poder salvar a filha que nunca teve a chance de conhecer. José repete para si mesmo que deveria ter feito mais, que deveria ter encontrado uma maneira de protegê-las. A culpa é um peso que ele carrega, uma carga invisível que o atormenta.

A ideia de ter filhos nunca foi uma possibilidade. O medo de reviver aquela perda, de ver outra criança diante de um perigo semelhante, paralisou seu desejo de paternidade. Ele observa as crianças brincando no parque, sentindo uma mistura de amor e dor. Os risos que ecoam ao seu redor apenas intensificam o vazio em seu coração. As lembranças de Yasmin, que poderia ter corrido por aquelas mesmas calçadas, o perseguem como um fantasma.

As noites se arrastam, e os pesadelos se tornam mais frequentes. Ele acorda em suor, o coração acelerado, tentando se lembrar que o que passou não pode ser mudado. Mas a mente é traiçoeira, e os sonhos levam-no de volta àquela escada, àquele momento de desespero. Ele se pergunta se algum dia encontrará a paz que tanto almeja, se as cicatrizes da mente podem realmente cicatrizar.

Os anos se acumularam, mas a dor não diminuiu. Ele busca consolo em pequenos rituais, em memória de Najla e Yasmin, falando com elas em sussurros, como se ainda pudesse alcançar suas almas. Ele vive com a esperança de que, ao menos, elas saibam que ele as amou profundamente, que sua vida foi marcada por um amor que desafiava todas as barreiras, mas que também trouxe uma dor insuportável.

A sombra do passado é uma companheira constante, e José convive com ela. Ele sabe que, mesmo após tanto tempo, o amor e a perda estão entrelaçados em sua história, e que a memória de Yasmin e Najla permanecerá viva dentro dele, como um lembrete de que a vida é preciosa, mas também frágil.

Fonte: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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A. A. de Assis (Pescador chicorgo)

A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis) é de Maringá/PR
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O professor Amauri Meller, diretor das Faculdades Maringá, pioneiro ilustre e respeitado na cidade, nas horas vagas sempre curtiu uma boa pescaria. Lá um dia, na beira do rio, entrou a discutir detalhes com um pescador profissional. Ele, um homem da cidade, a deitar erudição sobre peixes no ouvido de um caboclo que já nascera mexendo com anzóis e tarrafas.

Sei lá eu de que falavam, qualquer coisa referente a tipos de iscas, temperatura da água, estações do ano… O fato é que Amauri tentava provar por a + b que em determinadas horas de determinados dias, e em determinadas circunstâncias, a colheita de peixes costumava ser mais farta. Tentava provar e provava. Por a + b. 

– Credito no senhor –  disse o homem.  Mas só porque o senhor é um chicorgo.

Renomado professor de física e de matemática, acostumado a lidar com senos, cossenos e mil complicadas fórmulas, Amauri até entende também bastante de agricultura, pecuária, piscicultura e de outras artes e engenhos. Contudo não imaginava o que pudesse ser chicorgo.

Ficava chato confessar sua insapiência no assunto. O pescador poderia estar armando um jeito de pisar nalgum ponto fraco da cultura do mestre. Iria depois dizer que certos segredos são reservados aos nascidos na profissão. E o professor da cidade podia entender lá das suas trigonometrias e dos seus Pitágoras, mas de chicorgo não sabia nada.

Amauri desviou a conversa. Quis saber como ia a soja na região… se o pasto estava bom para o gado… se o pessoal do sítio estava contente com os preços dos seus produtos… se ainda havia lavouras de café nas vizinhanças…se isso, se mais aquilo… Mas nada de atinar com o que pudesse vir a ser o tal de chicorgo.

Pensou em deixar de lado o vexame e humildemente pedir ao caboclo que lhe traduzisse a estranha palavra. Mas… e se o homem se ofendesse? E se fosse coisa tão simples que reduzisse o prestígio do professor?

Pergunta, não pergunta… melhor matutar um pouco mais.

Chicorgo? – indagava Amauri às distantes memórias do seu tempo de colégio interno. Talvez fosse algum regionalismo. Algum dialeto do sul ou do norte. O homem coçou a barba e veio com nova pergunta:

– O senhor, que estudou chicorgo, pode me dizer se é mesmo verdade que as represa que tão fazendo nos rio vai desarranjar os tempo de chuva?

– Há possibilidade de que sim. A natureza está sendo muito violentada.

Mas que diabo… será que chicorgo tem algo a ver com meteorologia?

Não tinha. Depois de muita conversa, o professor afinal matou a charada: “chicorgo” era apenas a maneira como o  simpático parceiro de pesca pronunciava a palavra “psicólogo”. E ele nem para desconfiar…  

(Crônica publicada na edição do Jornal do Povo em 26 de setembro de 2024)

Fontes: Angelo Rigon
https://angelorigon.com.br/2024/09/26/pescador-chicorgo/
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Vereda da Poesia = Alexandre Rodrigues Fernandes (Vila Nova de Gaia/Portugal)


Abbie Philips Walker (História da Vovó Coelha)

Abbie Philips Walker, EUA (1867 – 1943)
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Patty Coelho sentou-se olhando para seu livro de histórias com um olhar muito insatisfeito em seu rosto. Ela ficou tão interessada nas fotos que não viu sua avó vindo pelo caminho e correu para encontrá-la como sempre fazia.

“Ora, Patty, querida, qual é o problema? Parece que você não gostou das fotos e histórias do seu livro.” - disse a vovó coelha.

“Ah, vovó!” – disse a pequena Patty Coelho, deixando cair seu livro no chão e correndo para sua avó, “Eu não vi você chegando. Estou tão feliz em vê-la.”

“Diga-me por que você parecia tão infeliz? Você não gosta do seu livro?” – perguntou a vovó coelha.

“Sim,” - disse Patty Coelho - “eu gosto às vezes, mas me canso de ler o tempo todo sobre Peter Coelho, Jackie Coelho e Bennie Coelho e olhar suas fotos. Eu gostaria muito de ler uma história sobre uma menina Coelho. As coelhinhas nunca fazem nada que daria uma boa história, vovó?”

“Claro que sim, minha querida. Eu nunca te contei sobre Susie Coelho que comeu sua boneca?” – perguntou a vovó Coelho.

“Oh, vovó, conte para mim!” – disse Patty Coelho, dançando em volta de sua avó nas patas traseiras e com as orelhas em pé só de pensar no que ela estava prestes a contar. “Conte-me a história, rápido, faça!”

Vovó Coelho sentou-se nos degraus da casa de Patty e tirou seu tricô de uma sacola e, enquanto tricotava, contou a história de Susie Coelho que comeu sua boneca.

“Era uma vez”, disse a vovó Coelho, “vivia uma menina Coelho chamada Susie. O pai e a mãe dela eram pobres e não viviam como você, onde podiam conseguir comida em abundância, e ela também não tinha um livro com figuras.

“Susie Coelho nunca teve nada para brincar. Ela tinha sorte se tivesse o suficiente para comer.”

“Mas um dia Susie Coelho viu uma garotinha com uma boneca passando pela floresta onde ela morava, correu para casa de sua mãe e chorou por uma boneca. Sua mãe não podia comprar uma boneca para ela porque elas não moravam perto de uma loja e, se morassem, ela não teria dinheiro para comprar uma; então Susie chorou e chorou, e quando seu pai chegou em casa ela ainda estava chorando.”

“’Qual é o problema com a Susie?’ ele perguntou, e a mãe de Susie disse que queria uma boneca.”

Depois que Susie foi para a cama naquela noite, sua mãe disse ao pai: ‘Pensei em uma coisa; podemos fazer uma boneca para Susie.”

“Como podemos fazer uma boneca?” perguntou o pai de Susie, parecendo surpreso que sua esposa sugerisse tal coisa.”

“Eu vou te dizer”, disse a mãe de Susie, “você vai até o jardim na casa da fazenda do outro lado da colina e me traz uma cenoura grande e um pé de alface bem crocante, e eu vou te mostrar como posso fazer uma boneca .”

“Então o pai de Susie saiu correndo e pegou a cenoura e a alface e trouxe para casa.”

Então a mãe de Susie cortou o topo da cenoura para fazer uma cabeça e fez olhos, boca e nariz de amoras, e então ela fez um lindo vestido de alface com uma saia de babados, que era longa, então não importava se a boneca não tinha pés.

Ela fez uma capa com uma folha de alface e um gorro com uma folha pequena; as roupas eram presas com pequenos gravetos que o pai de Susie cortava.

“Veja! Acho que ficou bonita”, disse a mãe de Susie, segurando a boneca para o marido ver.

“Parece gostoso de comer”, disse o pai de Susie, estalando a boca. A mãe de Susie borrifou a boneca com água, para mantê-la fresca, e colocou-a ao lado da cama de Susie.

De manhã, quando ela acordou, foi a primeira coisa que viu. “Oh! Eu tenho uma boneca! Eu tenho uma boneca!” ela gritou, rindo e correndo para sua mãe com a boneca nos braços.

Susie brincou com a boneca por um tempo, mas, como eu disse, Susie não tinha coisas boas para comer como você, e uma cenoura inteira e um pé de alface só para ela era algo novo para a coitadinha da Susie Coelho, então, depois de um tempo, ela apenas mordiscou um pouco da capa e depois mordiscou um babado do vestido.

“’Acho que ela vai ficar bem se tiver apenas um babado na saia”. disse Susie, então comeu uma folha de alface.”

Depois de um tempo ela comeu o gorro, e aos poucos ela comeu o outro babado e o restante da capa.

“Uma boneca sem vestido não adianta”, disse Susie, então ela comeu a cenoura, e esse foi o fim da boneca de Susie Coelho.

“Oh, vovó, que história linda”, disse Patty. “Eu acho que é bom o suficiente para imprimir em um livro. Você não vai mandar imprimir? Por favor faça. Sei que muitos pequenos gostariam de ler sobre uma menina Coelho, bem como sobre Peter e Jackie e outros meninos Coelhos.

Então, a vovó Coelho fez o que Patty pediu, e é assim que você está lendo a história.

Fontes> Abbie Phillips Walker (EUA, 1867 - 1951). Contos para crianças. 
Disponível em Domínio Público.
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Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Fazer uma vaquinha”

Vez por outra, somos gentilmente convocados a FAZER UMA VAQUINHA, isto é, comparecer com algum, se coçar, meter a mão no bolso ou na bolsa, entrar num “ra-chá-chá” para ajudar alguém em dificuldades financeiras, que necessita fazer uma cirurgia, comprar as tralhas para o casamento, saldar um compromisso que envolve numerário e tantas outras situações do cotidiano. Há quem diga que as famigeradas “taxas extras” dos condomínios, que faz o regalo dos síndicos e o pesadelo dos condôminos, na verdade não passam de vaquinhas institucionalizadas, assim como a coleta de óbolos nas sacolinhas, durante os ofícios religiosos nas igrejas, é outra modalidade de vaquinha em prol das casas paroquiais.

Mas de onde será que surgiu esta curiosa expressão usada em todo o país? Segundo o professor Ari Riboldi, no livro “O Bode Expiatório”, a expressão surgiu de uma prática de premiação no futebol, inspirada no jogo do bicho. Nessa inédita obra, o autor põe em destaque certas expressões envolvendo apenas o MUNDO ANIMAL, cuja origem quase sempre está lastreada em antigos costumes, lendas, mitos e no folclore. Assim com a da vaquinha, outras estão alinhadas, como, por exemplo, “espírito de porco”, “tempo de vacas magras”, “tem boi na linha”, “bicho de sete cabeças”, “burro amarrado na sombra”, “idade da loba”, “missa do galo”, “estar com a macaca”, “deu zebra”, “matar cachorro a grito”, “pagar o pato”, “lágrimas de crocodilo”, “memória de elefante”, “papagaio de pirata”, “soltar a franga”, “falar cobras e lagartos”, “ovelha negra”, “cabra da peste”, “deu zebra”, “cavalo dado não se olha os dentes”, “galinha ciscando pra frente”, “elefante em loja de vidros”, “pisando duro igual ema no choco”, “pato rouco”, “cavalo paraguaio”, “brabeza de jararaca”, etc.  

Relativamente a FAZER UMA VAQUINHA, consta que em 1923, a torcida do Vasco da Gama, tradicional Clube do Rio de Janeiro, resolveu motivar os atletas do time concedendo-lhes generosas premiações em dinheiro, desde que se empenhassem nas disputas conseguindo vitórias ou, se impossível, tornando difícil o êxito dos adversários. Com esse desiderato, a fanática torcida vascaína se dedicou a arrecadar numerário entre seus integrantes e simpatizantes, sendo que o valor apurado tinha inspiração nos números do jogo do bicho. No padrão monetário da época, o 5 do cachorro, equivalia a 5 mil-réis, em caso de empate; o 10 do coelho, equivalia a 10 mil-réis, em caso de vitória num prélio comum; e o 25 da vaca equivalia a 25 mil-réis, o maior dos prêmios, somente concedido em triunfos maiúsculos, contra os adversários mais fortes ou mais famosos, alcançados em partidas decisivas, como por exemplo, uma disputa no final do campeonato carioca. Nesta última hipótese, era comum os torcedores afirmarem que tinham conseguido “fazer uma vaca”, isto é, juntar uma grana polpuda, correspondente ao prêmio máximo daquela época.

O tempo, que tudo transforma, se incumbiu de tornar a expressão “FAZER UMA VAQUINHA” (já no diminutivo) ser utilizada sempre que um grupo de pessoas deseja organizar uma festa, comprar algo de maior valor, enfrentar uma despesa inesperada, como até hoje se faz para quitar uma conta “salgada” num restaurante, conhecida como “a dolorosa”, propiciar meios para um doente fazer uma cirurgia, comprar uma cadeira de rodas, quitar alguma dívida, arrecadar fundos para instituições filantrópicas e até com a clássica coroa de flores, durante o velório de um amigo que se foi e seja merecedor dessa derradeira homenagem. Atualmente existem vaquinhas na internet para quase tudo, criadas em sites específicos, algumas extravagantes, como a de cantores anônimos para gravarem seu primeiro disco, sendo muitas delas obviamente falsas, criadas apenas para capitalizar os espertalhões, por isso se diz que vaquinha confiável é aquela que se faz entre as pessoas mais chegadas, de “induvidosa” honestidade e em prol de uma causa justa, seja ela qual for.
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(*) O autor é advogado, escritor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Artística e Literária de Óbidos, da Confraria Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

Fonte: Uruá Tapera. 18 setembro 2024
https://uruatapera.com/fazer-uma-vaquinha/
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domingo, 8 de dezembro de 2024

Jerson Brito (Asas da poesia) 03

 

José Feldman (A Comédia da Academia de Ginástica)

Entrar em uma academia é como adentrar um teatro onde cada frequentador desempenha um papel distinto. Às vezes, você se pergunta se está ali para malhar ou se a verdadeira intenção é assistir a uma comédia.

Logo na entrada, você é recebido pelo “Entusiasta do Fitness”. Com seu sorriso radiante e uma camiseta colada ao corpo, ele parece ter sido esculpido por um artista renascentista. Ele está sempre pronto para dar dicas sobre como fazer o agachamento perfeito ou a melhor maneira de combinar suplementos. 

Ao lado dele, a “Influencer de Instagram” captura cada movimento, postando selfies com legendas motivacionais. Enquanto você tenta se concentrar, ela sorri para a câmera, como se o espelho fosse seu maior aliado. O que mais impressiona é a quantidade de pessoas que, em vez de focarem no treino, ficam a observar essa cena como se estivessem em uma apresentação de circo.

E não podemos esquecer do “Frequentador de Cadeira”. Esse é aquele que, ao invés de levantar pesos, se acomoda em um canto, sempre com um celular na mão. Ele está ali, claro, mas a única coisa que realmente se movimenta é o polegar. A cada quinze minutos, ele dá uma olhada no espelho, como se estivesse esperando que alguém comentasse sobre sua presença ilustre. “Apenas esperando o momento certo para treinar”, ele justifica, enquanto se perde em mais uma rolagem de feed.

Ah, e as desculpas! Elas são quase uma arte própria. O “Desculpador Profissional” é um personagem comum. Ele pode ser facilmente reconhecido por seu olhar pensativo e a habilidade de criar uma justificativa para cada situação: “Hoje não dá para malhar, porque o trânsito estava terrível”, ou “Eu realmente queria, mas meu gato estava se sentindo solitário”. Essas desculpas são como um show de mágica: desaparecem antes que você possa questionar.

Enquanto isso, há a “Mestre da Procrastinação”. Ela entra na academia, faz uma série de alongamentos que poderiam ser confundidos com poses de ioga e, em seguida, se dirige ao bebedouro. O que parece ser uma pausa estratégica se transforma em um mergulho profundo nas redes sociais. Cada notificação é uma nova oportunidade para “se recuperar” de um treino intenso que, assim como a miragem no deserto, nunca acontece.

E quando chega o momento do personal trainer, a cena se transforma em um verdadeiro clamor. O “Poderoso Personal” é a estrela do espetáculo. Ele entra, musculoso e cheio de energia, e a sala logo se enche de olhares admirados. Aqui, as pessoas não têm vergonha de confessar que, por mais que o treino em grupo seja ótimo, elas precisam de um motivador pessoal para não desistir ao primeiro sinal de dor. O “Poderoso Personal” é um maestro, e cada cliente é sua orquestra. “Vamos lá, você consegue! Uma última série, só mais cinco repetições!”, ele grita, enquanto os frequentadores se contorcem na dor.

E como não mencionar os “Guerreiros dos Pesos”? Esses são aqueles que parecem estar em uma competição invisível. Eles fazem questão de levantar mais pesos do que qualquer um ao redor mas, ao mesmo tempo, possuem uma habilidade especial para evitar qualquer tipo de contato visual. Ao ver um deles, você nota que a única coisa que realmente pesa é o ego. Eles se esforçam tanto que você se pergunta como ainda conseguem se equilibrar em pé, mas pasme, eles sempre conseguem!

A academia se transforma em um espaço de interação social. As conversas sobre dietas, os segredos da proteína perfeita e as anedotas do dia a dia se entrelaçam em meio aos exercícios. Afinal, malhar pode ser a desculpa, mas a verdadeira razão pela qual todos estão ali é a camaradagem e, claro, as boas histórias para contar.

Assim, enquanto você se esforça para levantar aquele peso que, à primeira vista, parece mais um carro, não pode deixar de perceber que, na verdade, a academia é um grande palco. Cada frequentador traz sua própria comédia e, no final das contas, todos estão apenas tentando encontrar um pouco de leveza em meio ao suor e aos músculos doloridos. E mesmo que o “Poderoso Personal” não consiga fazer todo mundo amar a malhação, ele certamente garante boas risadas ao longo do caminho!

Fontes: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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Hans Christian Andersen (O colarinho)

Era uma vez um cavalheiro elegante. Tinha uma calçadeira e uma escova, e possuía o mais lindo colarinho do mundo. É a história desse Colarinho que vamos ouvir. 

Já havia atingido a idade em que devia casar-se e, por acaso, encontrou, certo dia, com uma Liga, na cesta de roupa lavada. 

- Escuta! - disse ele - nunca vi criatura tão delgada e elegante, tão suave e graciosa. Posso perguntar como se chama? 

- Não o direi. - respondeu a Liga. 

- Onde mora? - insistiu o Colarinho. 

A Liga, porém, de tão tímida e encabulada, nem respondeu. 

- A senhorita é como um gracioso cinto, - disse o Colarinho - uma espécie de cinto interno... Vejo que a senhorita tanto presta serviços como enfeita. 

- Não fale comigo, - disse a Liga - não me parece que lhe dei pretexto para isso. 

- Deu. Ser tão linda como a senhorita já é pretexto bastante. 

- Não chegue tão perto de mim! - protestou a Liga - o senhor até parece homem! 

- E sou. Sou um cavalheiro elegante. - disse o Colarinho - Tenho calçadeira e escova. 

Não era bem verdade, pois quem os tinha era o seu dono, mas ele gostava de contar vantagem. 

- Não chegue tão perto de mim! - repetiu a Liga - Não estou habituada a isso! 

- Fingida! - disse o Colarinho. 

Foi ele então tirado da cesta de roupa lavada, engomado e posto no espaldar de uma cadeira, ao Sol. Em seguida, foi levado para a tábua de passar. O ferro quente veio vindo. 

- Cuidado! - disse o Colarinho - Sinto calor. Sinto-me outro, estou perdendo as dobras. Está me queimando! 

- Trapo velho! - respondeu o Ferro. 

E passou, altivo, sobre o Colarinho, imaginando ser uma locomotiva que ia a puxar vagões. 

- Trapo! - repetiu. 

O Colarinho desfiou um pouco nos cantos. Veio a Tesoura, para cortar os fios. 

- Oh! - disse o Colarinho, vendo-a - A senhorita deve ser uma primeira bailarina! Como sabe erguer as pernas! A senhorita é a dançarina mais linda que já vi. Nenhum ser humano a poderá igualar. 

- Sei disso! - atalhou a Tesoura. 

- Bem merecia ser condessa, - continuou o Colarinho - tudo quanto possuo é um amo elegante, uma calçadeira e uma escova. Quem me dera ter um condado! 

- Estás me cortejando? - perguntou a Tesoura. 

Zangou-se, e assestou-lhe um profundo corte. 

- Terei, decerto, que pedir a mão à Escova. - deliberou o Colarinho. 

- Como conserva bem seus cabelos, senhorita, - começou, ao vê-la - nunca pensou em tornar-se noiva? 

- Pensei! E tanto pensei que já estou comprometida, como deve saber. 

- Já é noiva! - disse o Colarinho. 

Não havia mais ninguém para cortejar, e ele mandou tudo às favas. 

Passou-se um longo tempo. O Colarinho foi parar no depósito de uma fábrica de papel. Havia ali uma grande reunião de trapos, os finos de um lado, e os grossos do outro, como é conveniente. Todos tinham muito o que contar, mas o Colarinho era quem mais falava: um verdadeiro fanfarrão. 

- Tive muitas namoradas! - contou ele - Eu não podia mais viver sossegado. Também, pudera, um cavalheiro elegante, como eu, com muita goma! Dono de uma calçadeira e de uma escova, que eu nunca usava. Deviam ter me visto naquele tempo. Nunca esquecerei minha primeira namorada, uma Liga, tão fina, tão suave e graciosa. Ela atirou-se a um balde de água por minha causa. Houve também uma primeira bailarina, de quem ainda guardo esta cicatriz. Ela era tão irascível! Minha própria Escova andava apaixonada por mim. Perdeu todo o cabelo, só de paixão. Sim, sim... Tive muitos casos assim na vida. Mas quem mais pena me causou foi a Liga, que se lançou ao balde de água. Tenho muita coisa na consciência, e bem posso tornar-me papel branco. 

E foi em que todos os trapos se tornaram. Todos os trapos se transformaram em papel branco. O Colarinho veio a ser precisamente o pedaço de papel que aqui vemos, no qual está impressa esta história, e isso porque ele era um fanfarrão, alardeando coisas que nunca se tinham passado. 

Nisso devemos pensar, para não nos comportarmos do mesmo modo, pois não sabemos se vamos também parar um dia num depósito de trapos e nos transformaremos em papel branco, no qual será impressa toda a nossa história, até os detalhes mais secretos, vendo-a conhecida de todo o mundo, como a do Colarinho.

Fonte> Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente entre 1835 – 1872. Disponível em Domínio Público

Vereda da Poesia = Carolina Ramos (Santos/SP)







Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Corredor polonês”

Todos aprendemos na escola ― às vezes, da pior maneira ― que “CORREDOR POLONÊS” é o nome dado a um castigo em que um indivíduo é forçado a passar por duas fileiras de pessoas que o agridem fisicamente. Todavia, embora essa prática violenta seja conhecida em todo o mundo, a menção aos poloneses só existe em nosso idioma.

Em inglês o castigo é chamado “running the gauntlet” (“correndo a manopla”). Em espanhol (“pena de baquetas”), em francês (“châtiment des baguettes”) faz referência às baquetas usadas pelos percussionistas das bandas marciais, usadas para aplicar bastonadas aos infelizes submetidos à punição. Na mesma pegada, e ainda mais diretos, os alemães dizem “Spieβrutenlaufen” (“corrida sob varas pontiagudas”) e os chineses usam a expressão (jiādào biānda) que significa, literalmente, “corredor de chicotadas”. Em italiano se diz “passare sotto le Forche Caudine”, em lembrança à humilhante rendição dos exércitos romanos na Batalha de Forcas Caudinas, um estreito passo de montanha na região da Campânia, em 321 a.C. Curiosamente, não houve mortos ou feridos nesse evento. Por sua vez, os poloneses conhecem esse suplício como “Praszczęta” e atribuem sua origem a uma punição militar aplicada, até o século XIX, pelo exército russo! Por que então a língua portuguesa faz referência à Polônia? 

Ao contrário do que alguns pensam, o corredor polonês não é o indivíduo que corre desesperado tentando se esquivar dos golpes infligidos. Tampouco são poloneses os algozes enfileirados. Essa expressão tem origem em uma estreita faixa de terra disputada por alemães e poloneses entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra. Ao final da Primeira Grande Guerra, as nações vencedoras se reuniram em Versailles para decidir as penalidades que deveriam ser cobradas à derrotada Alemanha. Entre elas, incluíram a cessão de parte do território alemão à Polônia, para que essa nação tivesse uma saída para o mar.

Essa região, uma área longa e estreita que cortava em duas partes o território alemão, passou a ser chamado “CORREDOR POLONÊS”. Vigorou de 1919 a 1939, quando o exército nazista o atacou por ambos os flancos, na invasão à Polônia que marcou o início da Segunda Grande Guerra. Ao fim da guerra, em 1945, não apenas o Corredor Polonês, mas também as áreas subjacentes, foram entregues à Polônia, permanecendo assim até hoje. Porém, a memória do rápido e violento ataque alemão que encurralou as forças polonesas presas no “corredor” é lembrado até hoje nos países de língua portuguesa quando alguém é instado a passar, por punição ou trote, por entre duas filas de companheiros impiedoso. (Fonte: espaço2d.com.br).
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Estas expressões idiomáticas são publicadas na Terça da Cultura Popular em sites do Pará.
Nas palavras de Célio Simões “A TERÇA DA CULTURA POPULAR começou por acaso. Publiquei num dos sites em que escrevo, um texto explicando a origem de certas expressões idiomáticas, que usamos quase sem perceber nos diálogos do cotidiano. Cito, como exemplo, algumas já divulgadas: Chato de galocha, Mão de vaca, Casa da mãe Joana, Santinha de pau oco, Chegar de mãos abanando, Sem eira nem beira, Dor de cotovelo, etc. Outras virão, na medida do possível. Atualmente tais textos são divulgados por vários sites e blogs de Belém (1), Santarém (1), Óbidos (2), Manaus (1)”
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(*) O autor é advogado, escritor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Artística e Literária de Óbidos, da Confraria Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

Fontes: 

Aparecido Raimundo de Souza (A minha eterna prisão no cárcere de um tempo que nunca será meu)


 DESDE QUE me entendo por gente (e olha que isso faz bom tempo), vivo privado da minha liberdade de ir e vir, custodiado numa cadeia de edificação ciclópica, como se tivesse sido esquecido pelo destino no meio do Oceano Atlântico, e onde a minha cela, para piorar meu quadro diabólico se assemelhe a uma espécie de gaiola dos loucos e desvairados, como a das edificadas naquela antiga prisão do século dezenove, conhecida como a fortaleza de Boyard, erigida entre as ilhas de Aix e Oléron, no sudoeste da França. De uma dessas celas, tento, em vão virar fumaça em pleno ar, sem, no entanto, lograr êxito de pelo menos dar de cara com uma chaminé salvadora.  

Na verdade, esse cárcere não fica muito distanciado de se assemelhar — sem tirar nem pôr — a um daqueles cativeiros dos tempos da Roma antiga onde se confinavam os escravos rebeldes desobedientes de seus amos e senhores. Faço referência, obviamente, ao calabouço dos tempos — ou seja — registro a minha desdita como se morresse um pouco a cada dia num lugar ermo e ignominioso destituído das benesses de um céu mavioso e de um sol bonito e aconchegante incrustrado nos cafundós de meu “eu” interior. Em meu recôndito, os minutos se arrastam como correntes enferrujadas e as horas se amontoam sobre os ponteiros como pedras pesadas ao redor dos meus pés de passos calejados. 

O tempo — essa entidade implacável — construiu, para mim, um mundo de paredes invisíveis, tipo um labirinto que exala o tempo todo um estado de desespero e a noção de “passado presente-e-futuro” se entrelaça em uma espécie de música bestificada enlaçada numa dança lancinante e enganosa de vida perpétua. Cada dia, quando acordo, tenho a impressão de que o cubículo onde me encontro, mostra meu corpo acrescido de um novo grilhão. Com ele, igualmente acorrentado, a minha liberdade de voar, fugir, sumir, dar no pé, entra em parafuso torto. Enfim, o delírio de me escafeder para algum lugar menos desumano, vai na onda. Mingua, perde a textura. Com isso, as tentativas me parecem e se me afiguram como um registro do rascunho de uma lembrança distante, assim como uma promessa que nunca chegará. 

Sempre que desperto, a cada manhã, o mesmo ciclo de flagelos volta à carga. Retorna com força total, como se eu estivesse manietado em um loop interminável de rotinas e obrigações das quais não poderia, de nenhuma forma, abrir mão. Os minutos, por conta, parecem se esticar e encolher, brincando com a minha percepção, fazendo com que o tempo (o meu tempo) passe à revelia, e, para meu desassossego, se consuma de forma cruel e caprichosa. De contrapeso, o meu passado, com suas memórias e arrependimentos, se faz vivo como uma sombra constante. 

As sombras nos contornos de um rosto extremamente negro, como a destituição total da ausência de sol no Círculo Polar Antártico, ao sul do planeta Terra. Essa negritude, a bem da verdade, me persegue com suas imagens fragmentadas de sons e ruídos, barulhos e fuzarcas que não consigo esquecer. Tento, em vão, mas ao final, me desencorajo vencido e acuado. Cada escolha que faço errada, cada momento que já me chega perdido, se reflete nas paredes e nas grades de minha prisão. O que poderia ter sido e o que realmente foi, se unem, se misturam, se mesclam, se associam em um mosaico de nostalgias e arrependimentos.

O meu imediato, o meu hodierno, o meu agora, ou ainda, o meu espaço efêmero e fugaz —, em outras palavras de igual porte —, ou sintetizando, o profundo rés-do-chão onde vivo e vegeto a maior parte do tempo, não me deixa deslanchar, singrar novos ventos, ou reviver ainda que por um espaço ínfimo, o sonho de Ícaro. Mesmo aqui, alfinetado pelos percalços diurnos diários, a sensação malograda e frustrante de estar encadeado, chumbado, aferrado e submetido, não me larga, não me deixa, não me abandona, tampouco desgruda. O presente, o meu presente é ainda uma série de tarefas intermináveis repletas de responsabilidades esmagadoras. Cada uma delas se arrastando de volta à minha cela. 

As oportunidades surgidas, parecem escorregar entre os meus dedos, como areia fina que não possa de nenhuma forma humana segurar. O meu amanhã, por outro lado, ou o porvir dilatado das minhas quimeras, é um horizonte afastado, frio gélido e nebuloso. Parece uma promessa fria e fraca, tipo assim, um Nirvana que possivelmente nunca se materializará. Apesar desses prós e contras, não estou de braços cruzados, ou “A espera de um milagre,” como o calvário vivido por John Coffey, que morreu inocente na cadeira elétrica, por um bárbaro crime que não cometeu. Os fenômenos incomuns nunca foram meus parceiros. 

Sempre se fizeram distanciadamente elásticas. Espero e planejo. Entretanto, a incerteza, ao contrário, é a única certeza dentro do meu agora. A cada passo que empreendo em direção ao futuro, ou ao que presumo ser um trajeto de fisionomia próspera, porém, tal civilidade não se materializa. Em razão disso, me sinto um zero ao quadrado. Um “nada” obtuso puxado de volta para um buraco de profundidade sem via segura, de onde possa regressar, alvissareiro, sem as espessas correntes de um tempo magnânimo não me tolhendo o seguir adiante. Sempre que tento escapar desse inferno que me queima os ossos, apesar de todos os esforços.

A verdadeira liberdade (pelo menos o tênue sopro que às vezes me contempla), ou dito de forma mais esclarecedora, a que sonho vinte e quatro horas, surge em forma de um devaneio, ou um ponto equidistante. Uma quimera disparatada. Tudo me chega como uma visão distorcida, alterada, disparatada que se dissolve quando tento alcançá-la. As horas passam, os dias se tornam semanas, e as semanas se transformam em anos. O tempo, ou o meu tempo é o meu carcereiro implacável, e eu sou seu prisioneiro. No entanto, talvez a verdadeira chave para a minha liberdade esteja na aceitação do tempo como ele é, ou, de alguma forma ainda não aprendida, careça de escavar e a condicionar como previsível o imprevisível, e, infinitamente impersistente, o persistente. 

Viver atado às garras de um cubículo do tempo é um desafio constante. Talvez, acredito seja a mesma senda, ou uma oportunidade única para me encontrar em algum lugar seguro. Um espaço que não repita esse canto em que estou. Mas a pergunta é: encontrar exatamente o quê? Afinal, em que mundo vegeto? Sempre me questiono e não obtenho resposta. Seria o significado nas ínfimas bobagens não vistas, as coisas ou as brechas, ou entre os percalços e os grilhões perseguidos que me atormentam? Oxalá, no final, a verdadeira liberdade não seja a ausência de tempo. Por certo, a minha felicidade se coadune ao fetiche da capacidade de viver plenamente dentro de suas garras e literalmente envolto dos calcanhares à raiz dos cabelos, “titaniquiados” sei lá, no naufrágio inaudito das minhas próprias e severas limitações.

Fonte: Texto enviado pelo autor.
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sábado, 7 de dezembro de 2024

Luiz Poeta (Nuvens de Sonhos) 03

 

José Feldman (Arauto do Amanhecer)

 Texto dedicado ao amigo A. A. de Assis 

 Ah, poeta, como é lindo
teu trabalho, e quão fecundo...
- Noite e dia produzindo
sonhos novos para o mundo!
A. A. de Assis (Maringá/PR)


Ah, poeta, como é lindo o teu trabalho, um ofício que floresce nas entrelinhas da vida. A cada verso, a cada rima, você dá vida a mundos invisíveis, onde a imaginação dança livre. É um dom fecundo, como um jardim repleto de flores que desabrocham em cada estação, trazendo cores e aromas que encantam a alma.

Noite e dia, você se entrega à criação, mergulhando nas profundezas do ser e das emoções. Em cada momento de solitude, transforma silêncios em palavras, como se o universo sussurrasse segredos que apenas você pode captar. Sua caneta é a extensão do coração, capturando a essência do que é humano, do que é belo e doloroso.

Produzindo incessantemente, você tece sonhos novos para o mundo. Cada poema é uma semente lançada ao solo fértil da esperança, um convite a sonhar, a refletir, a sentir. As páginas se enchem de histórias que ressoam em todos nós, despertando memórias adormecidas e anseios por um futuro melhor.

Assim, você se torna o arauto de um novo amanhecer, a voz que ecoa na eternidade, lembrando-nos de que a arte é um farol na escuridão. Ah, poeta, teu trabalho é uma ode à vida, um presente que nos inspira a olhar além, a buscar a beleza nas pequenas coisas e a acreditar que, mesmo em tempos difíceis, os sonhos ainda têm o poder de transformar o mundo.

Fonte: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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Eduardo Martínez (Que nem hamster na roda)

Hoje acordei indisposto. E pensar que logo ontem estava que nem hamster dando voltas intermináveis naquelas rodas, ritmo frenético que nem... Que nem? Ah, que nem textos daquele escritor gaúcho... Melhor nem falar quem. Vá que alguém comece a me xingar? Nem sei se você já leu, mas vou logo avisando que o rojão é daqueles que provocam o maior estrondo. Emoção à flor da pele. Não nasci com aquela coragem toda que ele possuía de se expor. Covarde que sempre fui, prefiro me esconder atrás das minhas personagens. 

Do jeito que estou, que me venha um poema ou um conto do Daniel Marchi. Melhor poesia, que me transporta para algo que pinga fora da prosa. Ademais... De onde tirei esse ademais? Que seja ademais. Então, ademais, poesia me perturba a mente, que vaga toda vagabunda por ruelas tipo aquelas próximas ao Centro Cultural Banco do Brasil no Rio. Conhece? Pois deveria. 

Ando desgostoso, não da vida, mas da humanidade. Que lástima ter nascido preso ao corpo de uma espécie tragicamente fracassada. Que duraremos pouco, não tenho dúvida, só não calculo o estrago que ainda poderemos fazer. Enquanto isso não chega, e creio que ainda levará algumas gerações, estou aqui apreciando meu café gourmet, ao mesmo tempo em que ouço os vizinhos gritando gritos aos berros. 

Aliás, dia desses, lá estava no Uber, quando resolvi puxar assunto com o motorista. Quanta asneira em míseros quilômetros! É incrível a capacidade que um homem possui de juntar tantas e tantas bobices numa só mente. Somente numa! 

Por sorte, na volta, peguei outro motorista, este esclarecido. Contei-lhe sobre a viagem anterior, o que o fez gargalhar, mas, logo em seguida, ficamos taciturnos. Pois é, taciturnos, macambúzios, quietos, olhando para o trânsito que ia e vinha, como se alguns carros quisessem fugir, enquanto outros talvez desejassem nos atingir em cheio. Isso é que dá ter consciência de que não temos mais jeito. 

Tudo está aqui dentro, mas nada acontece. Uma hora essa vida tosca acaba. Só desejo estar confortavelmente acomodado em uma rede preguiçosa na varanda, sonhando com a praia, que desejo estar logo em frente, o barulho das ondas quebrando. Se o tempo ajudar, arrisco até um tchibum.

Fonte: Blog do Menino Dudu. 19/11/2024
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2024/11/que-nem-hamster-na-roda.html

Vereda da Poesia = A. A. de Assis (Maringá/PR)

 

Sammis Reachers (A segunda vida de Gregor Samsa)

Não posso ver: tudo é sensação, para além ou de antes do visual, transcendência tátil: energias?

Não me lembro completamente quem sou. Lembro trechos. Pedaços de rostos, cadeias de palavras que já não entendo e são música boa ou ruim.

Estou nalguns braços. Alguém me move. Energias fluem, posso senti-las quase como odores. Atravessamos linhas de campos magnéticos. É magnífico este novo sentido, este meu único multisentido, seu caudal de silenciosa epifania.

Lembro-me de destruir o jardim. Apanhei o taco e destruí as roseiras de alguém que não me lembro, alguém muito importante, alguém que importava. Destruí todas aquelas plantas de nomes débeis e frescos que não sei, aqueles nomes inúteis que sempre mantive aquém de mim.

Espalhei as terras, derrubei as pequenas contenções, como meios-fios, que delimitavam aquele inferninho verde. Estranho como disso me lembro bem. Cada movimento acertado.

Parei de ser movimentado: sinto o vento, quentura. Ela é como uma canção. Suas ondas borrifam o que quer que sejam meus receptores, me deitam num torpor adocicado. Sou feliz.

A pulsação que me movimentou aproxima-se, sinto seu avanço pelas linhas do campo magnético, ela deita água em meu pés. Não posso movê-los, nem tento: não anseio o movimento, anseio os movimentos que me vêm: flutuações do campo, comunicações que ainda não decodifico – mas o farei – a viscosidade do calor solar que banha-me, e este furor, esta fome consumindo meus pés: este fausto manjar de águas. Água. Água. Como nunca percebi? Como ela pode ser tão doce, e ter me passado incógnita, obscurecida? Para cada nova sensação faltam-me as palavras, conceitos de perfeito encaixe, mas tal abismo se avoluma ao toque da água. Fruição, tepidez... uma quase promiscuidade, coquetel de psicotrópicos conflitando e equalizando-se, a um só tempo, em meu corpo possuído. Agora percebo que o céu é feito de água, e para ela e para a luz é o meu desejo.

Os campos magnéticos ondulam. O sol cintila. Meus pés alimentam-me. Dormi furioso ontem, não falei com Maria (agora me aflora tal nome), mal lavei as mãos sujas de terra, rolei como um diabo antes de conciliar o sono. Acordei dentro da paz.

Sou planta.

Fonte: Recanto das Letras. 02/10/2016