domingo, 15 de dezembro de 2024

José Feldman* (Pafúncio e o Festival de Música)


Em uma cidade onde a música ecoava em cada esquina, o jornalista Pafúncio, conhecido por suas habilidades em transformar qualquer evento em um caos, estava a caminho do Festival de Música “Sons e Sorrisos”, um evento que prometia ser o maior do ano e que reuniria artistas de todos os gêneros, desde pop até pagode.

Ao chegar ao festival, Pafúncio se deparou com uma multidão vibrante, repleta de fãs de todas as idades. Ele estava vestido de maneira peculiar: uma camiseta de uma banda de rock dos anos 80, calças largas e um chapéu colorido que parecia ter saído de um desfile de carnaval. Com seu bloco de notas em mãos e uma caneta que parecia mais uma espada, ele estava pronto para capturar as melhores histórias.

O festival começou com uma apresentação de uma banda de rock local chamada “Os Gritadores”. 

Pafúncio, que nunca tinha entendido o apelo do rock pesado, decidiu que era a oportunidade perfeita para fazer uma pergunta inusitada. Após o show, ele se aproximou do vocalista e disparou: “Se a sua música fosse um lanche, qual seria e por quê?” 

O vocalista, pego de surpresa, pensou por um momento e respondeu: “Um hambúrguer gigante, porque é cheio de camadas e é saboroso!”

Pafúncio, com um sorriso no rosto, anotou a resposta e a transformou em uma manchete: “Os Gritadores Revelam: Música é como Hambúrguer – Saborosa e Indigesta!” O jornalista seguiu seu caminho, rindo da sua própria criatividade.

A próxima atração era um famoso DJ chamado “DJ Tico-Tico”, conhecido por suas mixes eletrônicas e por fazer as pessoas dançarem até o amanhecer. 

Pafúncio, sempre em busca de uma boa história, decidiu que precisava saber o que havia por trás de suas batidas contagiantes.

“DJ Tico-Tico, se você tivesse que escolher entre tocar em um festival ou fazer um show para um grupo de gansos, o que você escolheria?” 

O DJ, sem perder o ritmo, respondeu: “Gansos! Eles têm um ótimo senso de tempo!”

A cada apresentação, Pafúncio se tornava mais ousado. Ele decidiu que iria entrevistar os fãs, perguntando: “Qual é a música que faz você dançar como se ninguém estivesse olhando?” 

Uma jovem respondeu: “Aquela que toca no rádio, mas que eu nunca sei o nome!” 

Pafúncio, sem perder tempo, escreveu: “Fã Confessa: Música que não se lembra é a melhor para dançar!”

Enquanto o dia avançava, Pafúncio encontrou um estande de comida que vendia os mais variados petiscos, desde hambúrgueres até churros. Ele, sempre com fome, decidiu experimentar um churro gigante com recheio de nutella. Enquanto mordia o churro, um pedaço escorregou e acertou o nariz de um famoso cantor que estava passando por ali. 

O artista, surpreso, olhou para Pafúncio e disse: “Isso é uma nova forma de me fazer sentir doce?”

Pafúncio, em sua típica falta de jeito, respondeu: “Claro! Aqui no festival, a comida e a música estão sempre se misturando!” 

A plateia, que já estava atenta, caiu na risada, e Pafúncio, sentindo-se o centro das atenções, decidiu que sua próxima missão seria entrevistar o cantor.

Após algumas tentativas hilárias, Pafúncio finalmente conseguiu se aproximar do cantor. Ele fez a pergunta que estava martelando em sua cabeça: “Se você pudesse criar uma nova dança para a sua música, como ela se chamaria?” 

O cantor, com um sorriso maroto, respondeu: “A dança do churro! Porque quem não ama um petisco enquanto se diverte?”

No final do festival, Pafúncio tinha tantas histórias que poderia escrever um livro. Ele voltou para a redação com um sorriso no rosto e uma barriga cheia de churros, pronto para transformar suas experiências em uma matéria que deixaria todos rindo. 

E assim, o jornalista continuou sua jornada, sempre em busca da próxima fofoca e da próxima risada.

Fontes 
José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Lígia Messina* (Almas errantes)

Aldo, pai de Georgina, gostava de contar histórias fantásticas. Nos serões, depois do jantar, ele se empolgava em narrar fatos intrigantes de amor e almas do outro mundo. Uma dessas histórias ela jamais esqueceu: de Ana Helena e o mestiço José Maria.

Vivia em São Luiz Gonzaga um rico fazendeiro que tinha uma filha em idade de casar. Ana Helena era uma guria bonita de cabelos vermelhos como o céu no entardecer, olhos esmeralda como a campina, pele branca quase translúcida e faces rosadas. José Maria (era assim chamado pelos padres, pois não sabiam quem eram seus pais, então era filho de José e de Maria), meio índio meio branco, forte como o corcel negro que cavalgava em pelo e livre como o vento do Rio Grande.

O pai de Ana resolve que ela vai se casar com o filho mais velho de seu amigo de infância, que vive lá em São Miguel. Naqueles tempos, tudo se arranjava, principalmente casamentos. Na época aprazada, Ana Helena e sua mãe seguem para São Miguel acompanhadas por muita bagagem e duas mucamas.

Luiz, o noivo, espera ansioso para comprovar a beleza da futura esposa, tão decantada por seu pai. José Maria, atrás do patrão, aguarda para carregar as malas.

Ao descer da carroça, os olhos de Ana são atraídos para o belo mestiço, e ambos mergulham no verde olhar da moça e nos olhos negros do rapaz. Apaixonam-se. Amor à primeira vista.

Não demorou muito para conseguirem escapulir e se encontrar na velha Igreja dos Jesuítas. Trocam juras de amor eterno, pensam em fuga, querem ir para bem longe. Mas são descobertos.

Luiz manda o capataz amarrar o mestiço pelos pés no seu próprio corcel, que dizem ter vindo lá das arábias (Há... vai saber). Começam a açoitar o cavalo, José Maria então brada angustiado:

- Vai, meu velho, corre! Foge do açoite!

O cavalo obedece ao comando do dono, deixando cair grossas lágrimas de pavor de seus olhos negros e redondos. O corpo do rapaz foi jogado no Rio Jacuí e suas águas o envolveram em carinhoso abraço. O cavalo nunca mais foi visto.

Ana Helena, enlouquecida, sobe na mais alta torre da Igreja e se joga para a morte. Este foi o fim trágico dos dois amantes.

No entanto, conta a lenda que, quando o sol se põe e o vento assovia nas ruínas da igreja, veem uma moça vestida de branco, tendo sob o vestido saias multicoloridas. Dá a impressão de que desliza sobre o arco-íris. E um rapaz de pele trigueira desmonta do corcel negro, a encontra, e juntos, de mãos dadas, chegam ao pé do altar. Ali realizam na morte o sonho que não concretizaram em vida.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  
* Lígia Messina nasceu em 1946, em Porto Alegre/RS. Formou-se professora normalista em julho de 1968. Casou-se com um médico militar pernambucano em janeiro de 1972, que havia conhecido por correspondência. Após o casamento, foi morar em Recife. Depois foi para o Rio de Janeiro, pela necessidade de trabalho do marido. Foi morar em Belém/PA, onde ficou por quase 20 anos. Formou-se em Pedagogia, com duas habilitações (supervisão e administração escolar) em 1982. Pedagoga com mais de dez publicações em poesia e prosa.

Fontes: Alda Paulina Borges et al. Contos contemporâneos. (Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche). Porto Alegre/RS: AGE, 2016.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Padre Celso de Carvalho



José Luiz Boromelo* (Cafezinho)


O dia prometia. Sol de verão derretendo o asfalto, o trânsito a passo de tartaruga, as vagas engolidas pela imensidão de para-brisas, a cabeça latejando pela noite mal dormida, a preocupação com as contas vencidas. Mas ele precisava dar um jeito. O dinheiro já havia acabado e o mês ainda estava pela metade. Pensava na viagem prometida à esposa e nos livros caros dos filhos. O bolso estufado de boletos indicava que os compromissos assumidos esperavam por uma resolução. Para ontem, aliás. Depois de algumas voltas pelo quarteirão conseguiu, com muito custo, enfiar o veículo num espaço apertado. Saiu rapidamente sem colocar o cartão do estacionamento, que naquele momento pouco importava. Caminhou apressado, pensando numa maneira de convencer o gerente da agência bancária a lhe conceder um empréstimo de emergência, mesmo com o saldo da conta corrente no vermelho há muito.

 Acompanhou pacientemente o ponteiro do relógio em sua volta completa para finalmente ser atendido. Fez cara de tristeza, exibiu uma aparência preocupada, prometeu restringir o uso do cartão de crédito, aceitou prontamente o seguro de vida “oferecido” pelo banco para finalmente ouvir a boa notícia: seu pedido fora autorizado. Nem quis saber das taxas de juros estratosféricas ou da longevidade das parcelas. O que ele queria mesmo era pagar as contas atrasadas.

Agora o homem já se sentia mais aliviado, momentaneamente sem o peso da angústia nos ombros. O estômago vazio roncava pedindo atenção, pois fora colocado obrigatoriamente em segundo plano. A preocupação voltou-se para o carro deixado na rua. De longe avistou um policial de trânsito com seu bloco de multa nas mãos. Pensou em passar ao largo, dar um tempo e ignorar a situação, mas tinha outros compromissos. Disfarçou o quanto pôde fingindo falar ao celular enquanto se aproximava do veículo. Tremeu ao ouvir uma voz questionando a propriedade do automóvel, apontado com o dedo em riste. Hesitou por alguns instantes, tempo necessário para tentar alguma saída honrosa.

 Sentiu um aroma agradável de café fresco que vinha da panificadora em frente e logo colocou em prática sua desenvoltura argumentativa, sem deixar de repetir a cena representada ao gerente do banco. Cabisbaixo, desfiou uma por uma suas dificuldades, acrescentando exageradamente detalhes com o intuito de comover a autoridade ali presente. Certo de que seu teatro fora convincente o suficiente, cometeu o último erro quando inadvertidamente convidou o policial a tomar um cafezinho. Quase acabou preso, o carro levou uma multa por estacionamento irregular e ouviu poucas e boas por sua petulância. Irritou-se com o controle remoto do alarme que não funcionava mais. Nem poderia, pois estacionara seu veículo do outro lado da avenida. Resolveu então experimentar o bendito cafezinho sem pressa, devidamente acompanhado por um merecido sanduíche natural. Dinheiro na conta, carro sem multa e barriga cheia. Sorriu ao lembrar que apesar de tudo, o dia não havia sido tão ruim assim.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  
* José Luiz Boromelo, é de Marialva/PR, policial rodoviário aposentado, escritor, cronista e agricultor, colaborador da Orquestra Municipal Raiz Sertaneja.

Imagem criada por JFeldman com Microsoft Bing

Estante de Livros (Resumos de 10 contos de O. Henry*)


1. O presente de Natal
Um conto comovente que narra a história de Jim e Della, um jovem casal pobre que deseja dar presentes especiais um ao outro no Natal. Della decide vender seus longos cabelos para comprar uma corrente de relógio para o relógio de Jim. Enquanto isso, Jim vende seu relógio para comprar um conjunto de pentes para os cabelos de Della. Quando se encontram para trocar os presentes, percebem a ironia de suas ações, revelando o amor sacrificado que têm um pelo outro.

2. A história do homem que não tinha nada
Este conto foca em um homem chamado John, que vive uma vida humilde e sem posses. Em sua jornada, ele se depara com diversas situações que o testam. Através de seus encontros, John descobre que a verdadeira riqueza não está nas posses materiais, mas nas experiências e nas relações humanas. O final surpreendente revela que, apesar de sua pobreza, ele possui um tesouro emocional que o torna mais rico do que muitos.

3. A última folha
No enredo, duas jovens artistas, Sue e Johnsy, vivem juntas em Greenwich Village. Johnsy contrai pneumonia e perde a vontade de viver, acreditando que vai morrer quando a última folha de uma parreira do lado de fora de sua janela cair. Um velho pintor, Behrman, decide ajudá-la. Ele pinta uma folha falsa na parreira, que a faz acreditar que ainda há esperança. No entanto, ele acaba pegando pneumonia e morre, revelando o sacrifício que fez para dar à jovem a vontade de viver.

4. A rosa da Pérsia
Neste conto, um jovem chamado Ali, que se disfarça de príncipe persa, visita uma loja de flores em Nova York. Ele se apaixona por uma bela florista chamada Rose. Para impressioná-la, ele inventa uma história sobre sua riqueza e posição social. No entanto, quando a verdade vem à tona, Rose revela que não se importa com o status e também nutre sentimentos por Ali. O conto explora a ideia de que o amor verdadeiro transcende as aparências e as posses.

5. Um amor de estudante
Este conto narra a história de um jovem estudante que se apaixona perdidamente por uma colega de classe. Ele descobre que ela é uma talentosa pianista, mas que vive em dificuldades financeiras. O estudante decide fazer sacrifícios para ajudá-la, mesmo que isso signifique comprometer seus próprios sonhos. O conto enfatiza a beleza do amor altruísta e os desafios que os jovens enfrentam em busca de seus objetivos, mostrando como o amor pode inspirar grandes gestos de generosidade.

6. A loteria da Babilônia
Neste conto, O. Henry apresenta uma visão fantástica de uma cidade onde tudo é regido por uma loteria. Os cidadãos são constantemente surpreendidos por sorteios que determinam eventos em suas vidas, desde o que comer até quando morrer. A história explora a ideia de destino e sorte, refletindo sobre a aleatoriedade da vida. O final, inesperado e irônico, revela que a verdadeira sorte pode ser uma questão de perspectiva.

7. A casa do juiz
O conto gira em torno de um juiz aposentado que vive em uma casa cheia de recordações de sua carreira. Um jovem advogado visita o juiz para pedir conselhos sobre um caso. Durante a conversa, o juiz compartilha histórias de seus anos no tribunal, revelando as nuances da justiça e da moralidade. Através de suas memórias, o contador de histórias reflete sobre as falhas do sistema legal e a complexidade do caráter humano, levando o leitor a questionar o que realmente define a justiça.

8. As aventuras de um fotógrafo
Neste conto, um fotógrafo de rua se vê em situações inusitadas enquanto tenta capturar a essência da vida urbana. Ele encontra personagens excêntricos e momentos engraçados, sempre com sua câmera em mãos. Através de suas interações, o fotógrafo descobre que cada pessoa tem uma história única e que a beleza da vida está nas pequenas coisas. O final do conto destaca a importância de valorizar as experiências cotidianas e as conexões humanas.

9. O advogado do diabo
Um advogado ambicioso se vê em um dilema moral quando é chamado para defender um homem acusado de um crime hediondo. À medida que investiga o caso, ele descobre que seu cliente é, na verdade, um homem bom que cometeu o crime em um momento de desespero. O advogado deve decidir entre sua carreira e sua consciência. O conto explora a ética na profissão e as complexidades da natureza humana, culminando em uma reviravolta que desafia as expectativas do leitor.

10. O homem que sabia demais
Neste conto, um homem comum se vê no meio de uma conspiração internacional. Ele descobre informações confidenciais que podem ter sérias consequências. À medida que tenta desvendar a trama, ele se depara com perigos e dilemas morais. O conto examina a ideia de conhecimento e responsabilidade, mostrando como a vida pode mudar drasticamente quando se tem informações que podem afetar outros. O final surpreendente deixa o leitor refletindo sobre as implicações do que sabemos e do que escolhemos ignorar.

Esses resumos oferecem uma visão geral das histórias, seus temas e personagens, destacando a genialidade de O. Henry em capturar a complexidade da vida humana com humor e ironia.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  

**O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, nasceu em 11 de setembro de 1862, em Greensboro, Carolina do Norte/EUA. Ele teve uma infância marcada por várias mudanças, já que seu pai era um médico e sua mãe morreu quando ele era jovem. Em sua juventude, trabalhou em diversas funções, incluindo como balconista e farmacêutico. Em 1896, após ser acusado de desvio de fundos em seu trabalho como caixa em um banco, ele se mudou para a América do Sul, onde começou a escrever. Ao retornar aos Estados Unidos, ele adotou o pseudônimo O. Henry e começou a publicar contos em revistas, ganhando fama por suas narrativas envolventes e reviravoltas surpreendentes. O. Henry teve uma vida pessoal tumultuada, marcada por problemas financeiros e saúde. Ele faleceu em 5 de junho de 1910, em Nova York, mas deixou um legado duradouro na literatura com suas histórias que capturam a essência da vida urbana e a natureza humana.
Obras Relevantes: Heart of the West, 1907; The Caballero's Way, 1907; The Gift of the Magi, 1905; Four Million, 1906; The Last Leaf, 1907.
O. Henry é lembrado por seu estilo ágil e por suas histórias que frequentemente apresentam finais inesperados, tornando-o um dos mestres do conto curto na literatura americana.

Fonte: José Feldman (org.). Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Erigutemberg Meneses (Cascata de versos) 04

 

José Feldman (O Lado Cômico das Salas de Espera)

Ah, as salas de espera! Esses pequenos microcosmos onde a paciência é testada e as conversas são tão variadas quanto os tipos de revistas deixadas à disposição. Entrar em uma sala de espera é como abrir um livro de contos, onde cada personagem é uma história esperando para ser contada.

Imagine a cena: você entra, e logo é recebido pelo cheiro característico de desinfetante misturado com café amargo. As cadeiras, dispostas em fileiras, parecem mais um jogo de Tetris mal resolvido. Algumas estão ocupadas por pessoas que, claramente, têm mais histórias do que você pode imaginar. A primeira delas é a senhora de cabelos brancos que traz em sua bolsa tudo o que poderia ser necessário em uma emergência: um lanche, uma garrafinha de água, e, por que não, um livro de receitas! Ela envia um olhar curioso para você, e você se pergunta se deve acenar ou simplesmente focar na sua revista de moda de 1998, que está mais desatualizada que a previsão do tempo para o próximo mês.

À sua direita, um homem de terno, que poderia facilmente ser confundido com um agente secreto, está nervosamente digitando em seu celular. Não se sabe se ele está respondendo a e-mails importantes ou se está apenas tentando achar um meme que explique sua situação atual. O que realmente faz você rir é que, em algum momento, ele ergue os olhos e dá uma rápida olhada ao redor, como se estivesse verificando se alguém o está espionando. O que ele não percebe é que todos ali já se tornaram especialistas em decifrar expressões faciais enquanto aguardam sua vez.

No canto, um grupo de crianças se contorcendo em suas cadeiras, cada uma mostrando sua habilidade inata de fazer barulhos estranhos. Enquanto uma delas tenta imitar o som de um motor de carro, outra começa a cantarolar uma música que você não consegue identificar, mas que, de alguma forma, se encaixa perfeitamente na trilha sonora daquela sala. Os pais, com a expressão de quem está prestes a ganhar o prêmio de "Paciência do Ano", tentam controlar a situação, mas a batalha parece perdida. Afinal, quem pode competir com a energia contagiante de uma criança?

Em um canto mais afastado, um homem idoso está sentado em silêncio, observando tudo. Ele parece um filósofo à espera de uma epifania. Quando você olha para ele, ele ergue uma sobrancelha, como se dissesse: "Essa é a vida, meu jovem. Aceite-a". E você se pergunta se ele está ali esperando uma consulta médica ou se apenas decidiu fazer uma pausa na rotina para refletir sobre o sentido da vida — ou sobre o que vai almoçar depois.

E como esquecer das revistas? Ah, as revistas! Revistas de beleza, saúde, viagens e, claro, aquelas que têm pelo menos cinco anos de defasagem. Você se pega folheando uma que ensina como fazer um penteado da moda, enquanto a única coisa que você consegue pensar é que seu cabelo está preso em um coque improvisado e que você não tem a menor ideia do que está fazendo. É um exercício de autoafirmação: "Sim, eu poderia ser a próxima influenciadora digital, se não fosse por esta sala de espera e por este coque desastroso".

E, claro, há sempre o clássico "sistema de chamadas" que, em algum momento, decide brincar de esconde-esconde. O nome é chamado, mas a pessoa está tão absorta em seus pensamentos ou na tela do celular que, por um breve momento, o mundo para. Você observa o agente secreto, a senhora com a bolsa mágica e as crianças, todos em um estado de suspense coletivo, torcendo para que o chamado não seja seu. Quando finalmente a pessoa se levanta, todos exalam um suspiro coletivo, como se tivessem acabado de assistir a um clímax emocionante de um filme.

A sala de espera, com suas peculiaridades, é um reflexo da vida: cheia de personagens, histórias e momentos de espera que, à primeira vista, podem parecer comuns, mas que, quando observados de perto, se revelam um espetáculo digno de ser apreciado.

E assim, enquanto o tempo se arrasta e o relógio parece ter decidido entrar em modo de férias, você percebe que, apesar da ansiedade da espera, há sempre algo surpreendente ao seu redor. 

A sala de espera é, afinal, um lugar onde o cotidiano se transforma em um espetáculo, e o comportamento das pessoas estão sempre à espreita, esperando para serem descobertas.
 = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  
Fontes: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

O. Henry* (Maio, Mês Matrimonial)

Por favor, surrai o poeta quando ele vos quiser cantar as delícias de maio. É um mês presidido por espíritos malignos e insensatos. Duendes e diabretes assombram os bosques floridos; Puck e seu séquito de anões estão ativos na cidade e no campo.

Em maio, a Natureza nos brande um dedo admoestador para advertir-nos de que não somos deuses, mas membros enfatuados de sua grande família. Recorda-nos que somos irmãos do burro e do clã dos mariscos condenados à sopa, que somos descendentes em linha reta do amor-perfeito e do chimpanzé, e apenas primos-irmãos das rolas arrulhantes, dos patos grasnadores, das empregadas domésticas e dos policiais dos parques.

Em maio, Cupido atira às cegas — milionários casam-se com estenógrafas; judiciosos professores cortejam mascadoras de goma, de aventais brancos, que servem nos balcões dos lanches rápidos; diretoras de escola retêm os meninos maiores depois das aulas; rapazes com escadas atravessam furtivamente gramados onde Julieta espera, em sua janela de rótula, com o telescópio embrulhado; casais que saem para um passeio voltam matrimoniados; velhos de polainas brancas passeiam nas imediações da Escola Normal; mesmo os homens casados tomam-se sem querer carinhosos e sentimentais, dão palmadinhas nas costas das esposas e resmungam: "E então, minha velha?"

Maio, que não é deusa, mas Circe fantasiada para o baile em honra da linda debutante, o Verão, nos torna a todos estouvados. 

O velho Mr. Coulson resmungou um pouco, e depois aprumou-se na cadeira de inválido. Sofria terrivelmente de gota em um dos pés, e era dono de uma casa perto de Gramercy Park, de meio milhão de dólares e de uma filha. E tinha uma governanta, Mrs. Widdup. O fato e o nome merecem, cada qual, uma sentença. Têm-nas.

Quando maio cutucava Mr. Coulson, ele se tornava irmão mais velho das rolas. Na janela junto da qual se sentava, havia jardineiras com junquilhos, jacintos, gerânios e amores-perfeitos. A brisa trazia-lhes os aromas para dentro do aposento. Imediatamente travava-se luta renhida entre as fragrâncias das flores e o eflúvio eficiente e ativo do linimento para gota. O linimento levava a melhor; mas não antes de o perfume das flores esmurrar o nariz de Mr. Coulson. A obra fatídica de maio, falsa e implacável feiticeira, fora levada a cabo.

Através do parque, chegavam ao órgão olfativo de Mr. Coulson outros cheiros inegáveis, característicos e registrados da primavera, exclusivos da Grande-Cidade-Sobre-o-Metropolitano, Cheiro de asfalto quente, de cavernas subterrâneas, de gasolina, patchuli, casca de laranja, gás de rua, gurabas de Albany, cigarros egípcios, cimento, e tinta fresca de jornais.

A brisa que soprava era doce e branda. Pardais esvoaçavam felizes por toda a parte. Jamais confiai em maio.

Mr. Coulson retorceu as pontas do bigode encanecido, maldisse o pé, e esmurrou a campainha posta na mesa a seu lado.

Surgiu Mrs. Widdup. Era uma quarentona loira louçã, lépida e ladina.

— Higgins saiu, sir — disse, com um sorriso reminiscente de massagens vibratórias. — Saiu para postar uma carta. Deseja alguma coisa, sir?

— Está na hora do acônito — respondeu o velho Mr. Coulson. — Pingue as gotas para mim. Ali está o vidro. Três gotas. Em água. Maldito Higgins! Ninguém desta casa se importará se eu morrer nesta cadeira por falta de cuidados.

— Não diga isso, sir — retrucou. — Alguém se importará muito mais do que se possa imaginar. Disse treze gotas, sir?

— Três — retorquiu o velho Coulson.

Tomou a dose e a seguir a mão de Mrs. Widdup. Ela corou. Oh, sim, é fácil de fazer. Basta prender a respiração e comprimir o diafragma.

— Mrs. Widdup — disse Mr. Coulson —, a primavera chegou de vez.

— Não é mesmo? — replicou Mrs. Widdup. — O ar está realmente quente. Vêem-se anúncios de cerveja em toda esquina. O parque está cheio de flores amarelas, rosas e azuis; e eu sinto dores agudas nas pernas e no corpo todo.

— "Na primavera" — citou Mr. Coulson, retorcendo o bigode — "a fantasia de um j...", quero dizer, "de um homem inflama-se com pensamentos de amor."

— Que coisa! Não é mesmo? — exclamou Mrs. Widdup. — Parece que está no ar!

— “Na primavera” — continuou o velho Mr. Coulson — “a mais viva íris reluz sobre a lustrosa pomba.”

— São mesmo ardentes, os irlandeses — suspirou Mrs. Widdup, pensativa,

— Mrs. Widdup, — tornou Mr. Coulson, fazendo uma careta ao sentir uma pontada no pé gotoso — esta seria uma casa muito solitária sem a senhora. Sou um..., quero dizer, sou um homem de idade... mas tenho apreciável fortuna. Se meio milhão de dólares em títulos do governo e o afeto verdadeiro de um coração que, embora não pulse mais com os primeiros ardores da mocidade, ainda assim palpita de genuíno...

O estrondo de uma cadeira derrubada junto ao reposteiro do quarto contíguo interrompeu a venerável inconsciente vítima de maio. No aposento entrou Miss Van Meeker Constantia Coulson, trinta e cinco anos, alta, ossuda, conservada, nariz emproado, insensível, bem-educada, perfeito espécime do estilo de Gramercy Park. Ela levou aos olhos seu lornhão (armação sem hastes) . Mrs. Widdup inclinou-se num átimo e pôs-se a arranjar as ataduras do pé gotoso de Mr. Coulson.

— Pensei que Higgins estivesse aqui — disse Miss Van Meeker Constantia.

— Higgins saiu — explicou-lhe o pai — e Mrs. Widdup atendeu ao meu chamado. Assim está melhor, Mrs. Widdup, muito obrigado. Não, não preciso de mais nada.

A governanta retirou-se, corando sob o olhar frio e inquiridor de Miss Coulson.

— Este tempo de primavera é maravilhoso, não acha, minha filha? — disse o velho, conscientemente consciente.

— É isso mesmo — replicou Miss Van Meeker Coastantia Coulson, algo sibilinamente, — Quando começam as férias de Mrs. Widdup, papai?

— Creio que ela disse daqui a uma semana — respondeu Mr. Coulson. Miss Van Meeker Constantia deteve-se por um minuto junto à janela, a contemplar o pequeno parque, banhado pelo brando sol da tarde. Com olhos de botânica inspecionou as flores — as mais poderosas armas de maio insidioso. Com os pulsos gélidos de uma virgem de Colônia, repeliu o ataque da suavidade etérea. As flechas do sol aprazível caíram por terra, enregeladas, da fria panóplia do seu peito insensível. A fragrância das flores não despertava sentimentos ternos nos recessos inexplorados de seu coração adormecido. O pipilar dos pardais a aborrecia. Ela zombava de maio.

Embora Miss Coulson fosse impenetrável à estação, era bastante arguta para avaliar-lhe o poder. Sabia que homens idosos e mulheres de cintura grossa saltavam como pulgas amestradas ao som da ridícula música de maio, gaio mês zombeteiro. Já ouvira falar, antes, de velhos e tolos cavalheiros que desposavam suas governantas. Que coisa humilhante, afinal de contas, o tal sentimento chamado amor!

Na manhã seguinte, às 8 horas, quando chegou o entregador de gelo, a cozinheira avisou-o de que Miss Coulson queria falar-lhe no portão.

— Ora, ora, não é que estou ficando irresistível? — disse o entregador, admirado de si próprio.

Como concessão, desenrolou as mangas da camisa, largou os ganchos junto de uma seringueira, e entrou. Quando Miss Vau Meeker Constantia Coulson o interpelou, ele tirou o chapéu.

— Há uma entrada nos fundos deste porão — disse Miss Coulson — que pode ser atingida pelo terreno baldio vizinho, onde estão escavando os alicerces de um edifício. Quero que traga por esse caminho, dentro de duas horas, 500 quilos de gelo. Pode contratar um ou dois ajudantes. Vou mostrar-lhe onde deve ser depositado o gelo. Quero que me entregue 500 quilos diariamente, da mesma maneira, nos próximos quatro dias. A companhia pode debitar a despesa na nossa conta habitual. Tome isto pelo seu trabalho adicional.

Miss Coulson estendeu-lhe uma nota de dez dólares. O entregador inclinou-se, e segurou o chapéu com ambas as mãos atrás das costas.

— Com a sua licença, senhora. Será um prazer servi-la em tudo quanto desejar.

Pobre mês de maio!

Por volta do meio-dia, Mr. Coulson derrubou dois copos que estavam sobre a mesa, quebrou a mola da campainha, e gritou por Higgins, tudo ao mesmo tempo.

— Traga-me um machado — ordenou, sarcasticamente —, ou encomende um pouco de ácido prússico, ou chame um policial para me matar. Prefiro isso a perecer gelado.

— Parece mesmo estar esfriando, sir — replicou Higgins. — Eu ainda não havia reparado. Vou fechar a janela.

— Feche — disse Mr. Coulson. — É a isso que chamam de primavera? Se continuar assim, voltarei para Palm Beach. Esta casa parece um necrotério.

Mais tarde, apareceu Miss Coulson, a indagar solícita como ia passando o pé gotoso.

— Constantia — inquiriu o velho —, como está o tempo lá forá?

— Limpo — respondeu Miss Coulson —, mas friozinho.

— Parece inverno brabo — tornou Mr, Coulson.

— Um exemplo de "inverno adormecido no colo da primavera" — disse Constantia, olhando distraidamente pela janela —, embora a metáfora não seja de muito bom gosto.

Um pouco mais tarde, ela se esgueirou pelo lado do pequeno parque e foi até a Broadway fazer umas compras.

Mais tarde ainda, Mrs. Widdup entrou no quarto do inválido.

— Chamou, sir? — perguntou, exibindo várias covinhas. — Pedi a Higgins que fosse à farmácia e julguei ter ouvido a campainha.

— Não, não chamei — respondeu-lhe Mr. Coulson.

— Receio tê-lo interrompido ontem — continuou Mrs. Widdup — quando estava para me dizer algo.

— Por que está fazendo tanto frio nesta casa, Mrs. Widdup? — atalhou o velho, severamente.

— Frio, sir? — disse a governanta. — De fato, já que me chama a atenção, parece mesmo que esse quarto está muito frio. Mas lá fora está quente e agradável como em junho. Em dias assim, o coração da gente parece querer pular para fora da blusa! E a hera toda viçosa nas paredes da casa, e os realejos a tocarem, e as criancinhas a dançarem nas calçadas… é o tempo próprio para confessar o que nos vai no coração! Ontem o senhor dizia...

— Mulher! — trovejou Mr. Coulson —, a senhora é uma tonta! Pago-a para tomar conta desta casa. Morro de frio no meu próprio quarto e a senhora me chega com uma conversa despropositada sobre heras e realejos. Vá buscar-me um sobretudo imediatamente. E veja que todas as portas e janelas estejam fechadas. Uma velha gorda, irresponsável e obtusa como a senhora a tagarelar sobre primavera e flores em pleno inverno! Quando Higgins voltar, diga-lhe que me traga um grogue quente. E agora suma-se daqui!

Quem poderá, todavia, vencer a impudência vivaz de maio? Maroto que é, e perturbador da paz dos homens de bom senso, nem a esperteza de uma virgem prudente, nem um depósito de gelo o fará empalidecer na luminosa galáxia dos meses.

Ah, sim, a história ainda não terminou.

Passou-se uma noite, e na manhã seguinte Higgins ajudou o velho Coulson a levar sua cadeira até a janela. A gelidez do quarto desaparecera e pela janela aberta chegavam perfumes divinais e odores amenos.

Mrs. Widdup entrou apressadamente e postou-se junto à cadeira. Mr. Coulson estendeu sua mão ossuda e tomou a mão rechonchuda da governanta.

— Mrs. Widdup — disse —, esta casa não seria um lar sem a senhora. Possuo meio milhão de dólares. Se isso, e o verdadeiro afeto de um coração não mais no verdor da idade, mas ainda cálido, puder...

— Já descobri a causa do frio — atalhou Mrs. Widdup, inclinando-se para a cadeira. - Foi gelo, toneladas de gelo, no porão e na casa da fornalha, por toda parte. Fechei os registros pelos quais o frio subia até o seu quarto, Mr. Coulson, pobrezinho! E agora els-nos em maio outra vez.

— Um coração fiel — tornou o velho Coulson, algo divagantemente — que a primavera fez reviver, e... que dirá minha filha, Mrs. Widdup?

— Nada receie, sir — replicou ela, alegremente. — Miss Coulson fugiu com o entregador de gelo ontem à noite!
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  

*O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, nasceu em 11 de setembro de 1862, em Greensboro, Carolina do Norte/EUA. Ele teve uma infância marcada por várias mudanças, já que seu pai era um médico e sua mãe morreu quando ele era jovem. Em sua juventude, trabalhou em diversas funções, incluindo como balconista e farmacêutico. Em 1896, após ser acusado de desvio de fundos em seu trabalho como caixa em um banco, ele se mudou para a América do Sul, onde começou a escrever. Ao retornar aos Estados Unidos, ele adotou o pseudônimo O. Henry e começou a publicar contos em revistas, ganhando fama por suas narrativas envolventes e reviravoltas surpreendentes. O. Henry teve uma vida pessoal tumultuada, marcada por problemas financeiros e saúde. Ele faleceu em 5 de junho de 1910, em Nova York, mas deixou um legado duradouro na literatura com suas histórias que capturam a essência da vida urbana e a natureza humana.
Obras Relevantes: Heart of the West, 1907; The Caballero's Way, 1907; The Gift of the Magi, 1905; Four Million, 1906; The Last Leaf, 1907.
O. Henry é lembrado por seu estilo ágil e por suas histórias que frequentemente apresentam finais inesperados, tornando-o um dos mestres do conto curto na literatura americana.

Fontes: O. Henry. Caminhos do Destino. Contos. Publicado originalmente em 1909.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Vereda da Poesia = Dorothy Jansson Moretti (Três Barras/SC, 1926 - 2017, Sorocaba/SP)



Célio Simões* (O nosso português de cada dia) “Dor de Cotovelo”

No senso comum, sentir dor de cotovelo significa sentir inveja. Simples assim… 

Na doutrina católica, junto com a soberba, a avareza, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça, a inveja é um dos sete terríveis pecados capitais. Para quem não sabe os chamados pecados capitais são considerados desde o Século XIII, pelo catolicismo, como os pais de todos os demais vícios, más ações e maus pensamentos da humanidade. E são capitais porque tem origem no latim “caput”, que significa cabeça ou parte superior. Os juristas sabem disso, acostumados que estão pela frequente consulta ao “caput” de um determinado artigo de lei. 

Identificar alguém com uma tremenda “dor de cotovelo” ou mesmo um invejoso não é tarefa difícil, a partir da observação de próprio comportamento, destacando-se nele os seguintes distúrbios de personalidade: 

1) são muito competitivos, pois reivindicam as atenções apenas para si e querem sempre estar à frente dos demais, mesmo que para tirar uma simples fotografia; 

2) não costumam fazer elogios aos outros, mas adoram ser elogiados ou simplesmente se autoelogiar; 

3) sentem prazer em criticar todo mundo, mesmo imotivadamente, deles ninguém escapa; 

4) subestimam ou desdenham as conquistas alheias e exaltam apenas as suas, mesmo que não sejam relevantes ou significativas. 

Trata-se, evidentemente, de um sentimento altamente destrutivo, maléfico e mesquinho, mas que infelizmente está presente no cotidiano das relações pessoais de qualquer grupo social. É comum dizer-se que alguém ficou “roxo de inveja”, quando não, com “dor de cotovelo” pelo êxito de outrem. Daí o antigo sábio adágio: “O invejoso adoece quando o vizinho passa bem”… 

No íntimo, o invejoso é um coitado, que sofre e até se sente mal pelas conquistas alheias. Ele é incapaz de ficar feliz pelos outros, pois em sua tosca concepção de vida, a vitória de alguém representa para ele uma espécie de perda pessoal. 

A origem da expressão está associada à cotovelada, que passou a ser utilizada como um sinal discreto para chamar a atenção de alguém ao lado sobre algo incomum ou extravagante, sempre possível de ser censurado ou ridicularizado. O invejoso inadvertidamente se revelava ao tocar com o cotovelo o corpo de quem lhe estava próximo para que ele reparasse em algum detalhe da conduta alheia e partilhasse com ele o mesmo sentimento de despeito que, num círculo vicioso, é exclusivamente resultante da própria inveja. Se alguém dava muitas cotoveladas por estar a todo o momento procurando algo para reprovar, botar defeito, criticar ou falar mal, era natural e razoável que lhe doesse o dito cujo no final do dia. 

Há quem diga que foi do famoso compositor Lupicínio Rodrigues, cantor de músicas do estilo “fossa”, a autoria da expressão “dor de cotovelo”. A música dor-de-cotovelo, também conhecida por fossa, atualmente virou sofrência e existe desde que o rapaz da caverna conheceu a moça da outra caverna, de quem levou um tremendo fora. Modernamente, o termo faz alusão a aquele relacionamento que acabou, mas a pessoa não quer admitir a perda. 

Como diz o rei Roberto Carlos, “não adianta nem tentar me esquecer”. É a trilha para uma dor de cotovelo, embora cheia de orgulho pelo desafio sub-reptício que lança… (julga-se inesquecível). Inconformado, a vítima se escora na dura madeira de um balcão de bar, para esquecer o amor perdido e se embriagar. É a cena clássica de alguém sentado em um bar, com os cotovelos apoiados no balcão enquanto mexe uma bebida em um copo e chora o amor que perdeu. 

Ontem como hoje, também é comum utilizar a expressão “dor de cotovelo” para designar o indisfarçado recalque provocado pelo ciúme, a tristeza causada por uma decepção amorosa, a mágoa de alguém por não ter êxito em determinada conquista ou qualquer outra desilusão principalmente no campo sentimental.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  

(*) O autor é advogado, escritor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Artística e Literária de Óbidos, da Confraria Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

Fontes: Uruá Tapera. 08 julho 2021
https://uruatapera.com/dor-de-cotovelo/ 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Estante de Livros ("A Leste do Éden" de John Steinbeck*)

"A Leste do Éden" ("East of Eden"), publicado em 1952, é uma das obras mais ambiciosas de John Steinbeck, explorando temas de moralidade, identidade e o conflito entre o bem e o mal. A narrativa se passa na Califórnia, principalmente no Vale de Salinas, e entrelaça as histórias de duas famílias, os Trask e os Hamilton, ao longo de várias gerações.

ENREDO

O romance começa com a introdução das famílias Hamilton e Trask. Adam Trask é um dos protagonistas, um homem que se muda para o Vale de Salinas com a esperança de criar uma vida melhor. Ele é marcado por um relacionamento conturbado com seu pai, que tem uma visão rígida e opressiva da vida. A história logo revela a rivalidade entre Adam e seu irmão, Charles. A tensão entre eles culmina em um confronto violento, refletindo a luta pela aceitação e o amor paterno.

Adam eventualmente se casa com Cathy Ames, uma mulher manipuladora e sem escrúpulos, que logo se revela uma mãe negligente ao abandonar Adam e seus filhos gêmeos, Cal e Aaron. A ausência de Cathy afeta profundamente a vida dos filhos, que crescem em um ambiente marcado por conflitos internos e rivalidades.

TEMAS CENTRAIS

1. O Conflito entre o Bem e o Mal: 

Um dos temas mais proeminentes é a luta interna entre o bem e o mal. O conceito de “tu podes” é central à obra, sugerindo que cada indivíduo tem o poder de escolher seu próprio destino. Essa ideia é fundamental para a evolução dos personagens, especialmente Cal, que busca redimir-se das ações de sua mãe.

2. Identidade e Hereditariedade:

Steinbeck explora a influência do passado na formação da identidade. Cal e Aaron lutam para definir quem são em meio ao legado de sua mãe e as expectativas do pai. A busca por aceitação e amor é uma constante em suas vidas.

3. Relações Familiares: 

As dinâmicas familiares são complexas e multifacetadas. A relação entre irmãos, a influência dos pais e a busca por conexão são temas centrais. Steinbeck apresenta a família como uma força poderosa, capaz de moldar e destruir ao mesmo tempo.

4. Ambiente e Natureza: 

O Vale de Salinas é mais do que um cenário; é um personagem que reflete as emoções e as experiências dos protagonistas. A natureza é retratada como uma força vital que influencia as vidas dos personagens, simbolizando tanto beleza quanto desafios.

PERSONAGENS PRINCIPAIS

- Adam Trask: Um homem bondoso, mas ingênuo, que busca amor e aceitação. Sua vida é marcada por uma relação conturbada com seu pai e seu irmão, Charles.

- Charles Trask: O irmão de Adam, que representa a inveja e a rivalidade. Sua relação com Adam é complexa, marcada por ciúmes e a busca pela aprovação paterna.

- Cathy Ames: A esposa de Adam, uma personagem manipuladora e sombria que abandona a família. Cathy simboliza o mal e a desumanidade, desafiando as noções de maternidade e amor.

- Cal e Aaron Trask: Os filhos gêmeos de Adam e Cathy, que refletem a dualidade entre o bem e o mal. Cal, em particular, luta com a sombra de sua mãe e a busca por aceitação.

A história entrelaça a herança dos Trask com a vida dos Hamilton, uma família que representa a bondade e a moralidade. Samuel Hamilton, patriarca da família, é um sábio agricultor que serve como mentor para Adam e seus filhos, trazendo uma perspectiva mais esperançosa à narrativa.

ESTILO E LINGUAGEM

Steinbeck utiliza uma prosa rica e poética, imbuída de um forte senso de realismo. Seus personagens são desenvolvidos com profundidade emocional, e a narrativa é entremeada por reflexões filosóficas que elevam a história a um nível mais profundo. O autor faz uso de diálogos autênticos, capturando a voz do povo e a complexidade das relações humanas.

IMPACTO E RELEVÂNCIA

"A Leste do Éden" é frequentemente considerado um dos grandes romances americanos, e sua relevância perdura ao longo do tempo. A obra não apenas oferece uma crítica social e uma reflexão sobre a moralidade, mas também toca em questões universais que continuam a ressoar com os leitores contemporâneos.

FILME "VIDAS AMARGAS"

"Vidas Amargas" (título original: "East of Eden") é uma adaptação cinematográfica de 1955, dirigida por Elia Kazan e estrelada por James Dean, Julie Harris e Raymond Massey. A película se concentra principalmente na relação entre Cal e Aaron Trask, trazendo à tona os conflitos familiares e a luta pela aceitação.

A adaptação de Kazan é notável por sua capacidade de capturar a essência emocional da obra de Steinbeck, embora tome algumas liberdades criativas. James Dean, em sua performance como Cal, traz uma intensidade emocional que personifica a luta interna do personagem. A relação entre irmãos é retratada com profundidade, enfatizando o tema da rivalidade e da busca por amor paterno.

O filme se concentra mais na luta de Cal para superar seu passado e a influência de sua mãe do que na complexidade da narrativa original. A adaptação é visualmente impressionante, utilizando a cinematografia para evocar a beleza e a dureza do Vale de Salinas.

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

"A Leste do Éden" explora questões universais sobre a condição humana, a moralidade e as complexidades das relações familiares. Enquanto o romance de Steinbeck oferece uma visão abrangente e multifacetada, a adaptação cinematográfica de Kazan destaca a intensidade emocional dos personagens, tornando a história acessível a um público mais amplo. Ambas as obras permanecem relevantes, refletindo as lutas atemporais da humanidade e a busca por identidade e aceitação.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  

*John Steinbeck nasceu em 27 de fevereiro de 1902, em Salinas, Califórnia. Cresceu em uma família de classe média e teve acesso à literatura desde jovem, o que influenciou sua carreira. Estudou na Universidade de Stanford, embora não tenha concluído o curso. Trabalhou em diversas funções, incluindo como operário agrícola e jornalista, experiências que moldaram sua visão social. Durante a Grande Depressão, começou a escrever obras que abordavam as dificuldades dos trabalhadores e as injustiças sociais. Ele se tornou um dos maiores escritores americanos do século XX, ganhando o Prêmio Nobel de Literatura em 1962. Faleceu em 20 de dezembro de 1968, deixando um legado duradouro na literatura.

Obras Mais Relevantes: "O Destino Viaja de Ônibus" (1937); "As Vinhas da Ira" (1939); "A Pérola" (1947); "A Leste do Éden" (1952); "O Inverno de Nosso Descontentamento" (1961)

Essas obras refletem a preocupação de Steinbeck com a condição humana e as injustiças sociais, consolidando seu lugar como um dos grandes escritores da literatura americana.

Fonte: José Feldman (org.). Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

José Feldman (Guirlanda de Versos) * 11 *

 

José Feldman (Fábula do Gato, do Cachorro, da Raposa e do Homem)

Naqueles tempos em que os animais falavam. 

Em uma aldeia tranquila, um gato chamado Felix, um cachorro chamado Bruno, e uma raposa chamada Bela, viviam em harmonia, cada um com suas peculiaridades, mas sempre respeitando as diferenças uns dos outros. 

Felix, o gato, era astuto e independente. Passava os dias explorando os telhados e caçando pequenos insetos. Bruno, o cachorro, era leal e protetor. Passava seu tempo cuidando da casa de seu dono e brincando com as crianças da aldeia. Bela, a raposa, era curiosa e hábil, sempre buscando novas aventuras na floresta. 

Certa manhã, enquanto os três amigos se reuniam perto da fonte, um homem apareceu na aldeia. Ele era conhecido por ser muito rico, mas também muito ganancioso. O homem tinha ouvido falar das habilidades únicas de cada um dos animais e decidiu que os queria para si. Assim, ele planejou capturá-los. 

Felix, com sua astúcia, percebeu os olhares do homem e alertou seus amigos. “Vocês viram aquele homem? Ele não parece confiável. Precisamos ter cuidado.” 

Bruno, sempre protetor, respondeu: “Devemos nos unir e confrontá-lo. Juntos, poderemos nos defender.” 

Bela, porém, tinha uma ideia diferente. “E se usássemos a astúcia de Felix e a força de Bruno para despistá-lo? Podemos mostrar a ele que não somos brinquedos para serem possuídos.” 

Os três concordaram em criar um plano. Enquanto Felix se escondia entre as sombras, Bruno latiu alto, atraindo a atenção do homem. Assim que o homem se aproximou, Felix saltou rapidamente de onde estava, surpreendendo-o e fazendo-o tropeçar. Bela, ágil como sempre, correu em círculos ao redor do homem, criando uma distração. 

O homem, confuso e irritado, tentou capturar Bela, mas ela era muito rápida. Com um último movimento astuto, ela levou o homem a correr atrás dela em direção à floresta. 

Os três amigos aproveitaram a oportunidade para se afastar, rindo juntos de sua esperteza. 

No entanto, enquanto corriam, Bela começou a se sentir culpada. “Acho que fizemos algo errado. O homem, por mais ganancioso que seja, apenas queria nos levar com ele. Não podemos simplesmente desprezar os sentimentos dos outros.” 

Felix concordou, mas Bruno estava preocupado. “Mas ele só faria isso para nos explorar. Não podemos permitir que isso aconteça.” 

Após algumas horas de reflexão, eles decidiram voltar à aldeia. Enfrentariam o homem e tentariam convencê-lo a mudar seus modos. Com coragem no coração, os três se aproximaram da casa do homem. 

Quando chegaram, encontraram-no sentado na varanda, visivelmente frustrado. “O que vocês querem?” perguntou o homem, com um tom de desdém. 

Felix, sempre astuto, começou: “Viemos aqui para conversar. Sabemos que você tem suas razões para querer nos capturar, mas gostaríamos de lhe mostrar que a amizade e a liberdade são mais valiosas do que a posse.” 

Bruno acrescentou: “Você pode ter tudo o que deseja, mas a verdadeira felicidade não vem de dominar os outros. Vem de compartilhar e respeitar.” 

Bela, com sua sinceridade, finalizou: “Se você nos deixar livres, poderá se surpreender com o que podemos oferecer. A amizade é um presente que não se pode comprar.” 

O homem, tocado pelas palavras dos animais, começou a refletir. Ele percebeu que, apesar de sua riqueza, estava solitário. Ao ver a união e a amizade entre Felix, Bruno e Bela, algo dentro dele começou a mudar. 

“Talvez vocês tenham razão,” disse o homem, com um sorriso tímido. “Eu sempre pensei que a riqueza me traria felicidade, mas agora vejo que a verdadeira riqueza está em relacionamentos. Vocês estão livres. Não quero mais aprisioná-los.” 

Os três amigos, aliviados e felizes, agradeceram ao homem e partiram. Eles aprenderam que, mesmo diante da adversidade, o diálogo e a compreensão podem mudar corações. 

Moral da Fábula
A verdadeira riqueza não está na posse, mas na amizade e na liberdade. Quando respeitamos os outros e buscamos entendimento, podemos transformar até os corações mais gananciosos.
=====================================
Fontes: José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing