quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Contos das Mil e Uma Noites (História de Bulukya)

Imagem: IA Microsoft Bing
Havia certa vez no reino de Israel um soberano muito sábio que, no seu leito de morte, recomendou a seu filho e herdeiro, Bulukya, fazer um inventário completo de tudo que o palácio continha. 

Após a morte do pai, Bulukya, já rei, seguiu a sugestão paterna e, ao abrir uma certa caixa de ouro, encontrou nela um pergaminho no qual leu: “Quem deseja ser senhor e dono dos homens, gênios, pássaros e animais, precisa apenas usar o anel que o profeta Soleiman tem no dedo, na Ilha dos Sete Mares onde está sepultado. É o anel que ornava o dedo de Adão, pai dos homens, no Paraíso. Para atingir a Ilha dos Sete Mares, não adiantam navios. Quem quer chegar lá deve localizar o vegetal mágico cujo sumo, esfregado na planta dos pés, torna o homem capaz de andar sobre a superfície do mar. Essa planta só cresce no reino subterrâneo da rainha Yamlikha.” 

Após ler esse pergaminho, o rei reuniu os sacerdotes, mágicos e sábios de Israel e perguntou-lhes se havia entre eles quem conseguiria guiá-lo até o reino da rainha Yamlikha. Todos apontaram para Affan, que possuía as chaves da magia, astronomia, alquimia e feitiçaria. 

Perguntou-Ihe o rei: “Ó Affan, és mesmo capaz de guiar-me até a terra dessa rainha escondida?” 

“Sou “ respondeu Affan. 

Imediatamente, os dois cobriram-se com capas de peregrinos e foram até o deserto. Num determinado ponto, disse Affan: “Chegamos.” 

Desenhou um círculo na areia, fez as invocações dos rituais, e logo a terra se abriu e revelou um caminho que ia descendo. Seguindo o caminho, os dois chegaram a essa lagoa que vês aí, ó Hassib. Recebi-os com minha cortesia costumeira. Quando me expuseram o objetivo de sua visita, conduzi-os ao jardim onde as plantas desataram a falar, cada uma na sua língua própria, exaltando seus vários poderes. No meio dessa sinfonia perfumada, ouvimos uma planta cantar em harmonia com a brisa que a acariciava: 

“Aquele que esfregar os pés com meu sumo maravilhoso, poderá andar sem se molhar sobre todos os mares de Alá.” 

- Esta é a planta que procurais, disse a meus visitantes. E deixei Affan colher todas as flores que quisesse, esmagá-las e recolher o suco num grande frasco que eu lhe dera. Depois, perguntei a Affan e ao rei por que queriam atravessar os mares. Contaram-me. 

Disse-lhes: “Não sabeis que é impossível a qualquer mortal depois de Soleiman possuir aquele anel? Acreditai em mim. Desisti desse projeto e colhei, antes, as plantas que asseguram uma juventude eterna a quem as comer.” 

Mas não consegui convencê-los. Despediram-se de mim e partiram. Tomaram o caminho da ilha que fica do outro lado dos sete mares. Quando chegaram às margens do primeiro mar, esfregaram as solas dos pés com o suco que levavam. Depois, entraram com precaução na água; mas quando se deram conta de que podiam caminhar sobre a água mais facilmente que sobre a terra, adquiriram confiança e andaram mais rapidamente. 

No quarto dia, chegaram a uma ilha que pensaram ser o paraíso de tão bela que era com suas flores, rouxinóis e árvores. Passaram naquela ilha o dia todo e, à noite, subiram numa árvore para dormir. Mas antes de fechar os olhos, sentiram a ilha tremer e viram um monstro desmedido chegar com as ondas, segurando nas mandíbulas uma pedra preciosa que iluminava como um archote. Atrás dele, vinha uma multidão de outros monstros iguais, segurando também na boca pedras luminosas. Ao mesmo tempo, do interior da ilha surgiram tantos leões, tigres, leopardos e outros animais selvagens que só Alá poderia avaliar-lhes o número. Os monstros do mar e os monstros da terra encontraram-se na praia e passaram a noite conversando. Com os primeiros raios do dia, separaram-se e voltaram cada qual para sua morada. 

Bulukya e Affan, que não haviam conseguido fechar os olhos toda a noite, desceram rapidamente da árvore, correram até a praia, esfregaram os pés com o suco mágico e entraram no segundo mar. Atravessaram-no sem problemas até que chegaram a uma ilha coberta de árvores frutíferas, e cujos frutos tinham uma particularidade inédita: cresciam na árvore já preparados com açúcar. 

Os dois viajantes ficaram na ilha sete dias, para deleite do jovem soberano que gostava excessivamente de frutas cristalizadas. Depois, entraram no terceiro mar, que atravessaram em quatro dias e quatro noites. 

No quinto mar, chegaram a uma ilha cujas montanhas eram de cristal com grandes veios de ouro. Suas árvores tinham flores amarelas lustrosas. De noite, cintilavam como estrelas. 

Disse Affan a Bulukya: “Esta é a Ilha das Flores de Ouro. Quando essas flores murcham e caem das árvores, viram pó e se transformam em ouro. Esta ilha é um pedaço do sol que caiu na terra nos tempos antigos.” 

No sexto mar, Affan e Bulukya passaram por outra ilha coberta de árvores. Mas lá as frutas das árvores eram cabeças humanas, umas rindo, outras chorando. Fugiram com horror desse espetáculo e entraram no sétimo mar. 

Era um mar imenso. Dias e noites, eles andaram sem descansar, comendo peixes crus apanhados ao acaso e aguentando a sede. Finalmente, avistaram uma ilha que esperavam ser a que procuravam. Entraram nela e acharam-na cheia de árvores carregadas de frutos. Bulukya estendia a mão para apanhar uma maçã, quando uma voz terrível saiu de dentro da árvore, gritando: “Se tocares nesta fruta, serás cortado em pedaços.” 

Ao mesmo tempo, um gigante apareceu-lhes, ao qual Bulukya, aterrorizado, disse: 

“Ó chefe dos gigantes, estamos morrendo de fome e sede. Por que nos impedes
de tocar nessas maçãs?” 

- Como ousas alegar que ignoras o motivo, ó rei sem memória? Esqueces-te que Adão, o pai de tua raça, rebelou-se contra Deus e comeu a fruta proibida? Desde então, tem sido minha missão guardar esta árvore e matar quem tenta apanhar-lhe as frutas. Procura teu alimento alhures.” 

Deixaram-no e começaram a procurar o túmulo de Soleiman. Depois de terem vagueado na ilha um dia ou dois, chegaram a uma colina de âmbar nos flancos da qual abria-se uma gruta magnífica cujo teto e paredes eram de diamantes. Estava iluminada dia e noite. Entraram nela e foram caminhando, e à medida em que avançavam, a claridade aumentava e a abóbada alargava-se. 

De repente, chegaram a uma sala imensa cavada no diamante. No meio da sala, havia uma cama de ouro maciço, sobre a qual jazia o corpo de Soleiman Ibn Daud. O anel mágico estava no dedo anular da mão direita. 

Affan aproximou-se do trono e pediu a Bulukya que repetisse as palavras esotéricas que lhe ensinara para que o anel deslizasse do dedo real. Mas Bulukya equivocou-se e recitou as palavras na ordem inversa. O erro foi fatal para o sábio Affan. Uma gota de diamante líquido caiu sobre ele e o queimou, reduzindo-o a um pouco de cinza. 

Bulukya fugiu daquela gruta e correu até a praia, onde quis passar o suco mágico nos pés para iniciar a marcha de volta. Mas lembrou-se de que o frasco tinha sido queimado com Affan. Teria morrido lá, abandonado e desesperado, rememorando amargamente os meus conselhos, não fosse pela aparição repentina de um exército de Afarit, Marids e Ghuls que dominavam aquela ilha e a inspecionavam naquele momento. 

Bulukya solicitou-lhes que o ajudassem a voltar para seu reino. Mas eles só podiam levá-lo até seu próprio rei, o poderoso Sakhr, senhor da Terra-Branca onde outrora reinou Chedad Ibn Aad. 

Bulukya aceitou e, num piscar dos olhos, foi levado por cima de mares e montanhas até o palácio do rei Sakhr. O rei o recebeu com todos os refinamentos da hospitalidade árabe e, após contar-lhe a história de seu povo, mandou levá-lo até a entrada de seu país. E o anel de Soleiman, que permite a quem o possuir dominar os mundos e adquirir a imortalidade, continua na Ilha dos Sete Mares. E lá ficará, protegido pelos gênios, até o fim dos tempos.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.
O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

(As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público)

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 7)

(curso ministrado por José Feldman)

7. GUIA DE COMPOSIÇÃO DA CRÔNICA

Aqui está um guia sobre como compor diferentes tipos de crônicas, incluindo crônicas filosóficas, românticas, do cotidiano, de exposição de situações e de recordações, com exemplos.

7.1. CRÔNICAS FILOSÓFICAS

7.1.1. Tema Central: 
Questões existenciais ou reflexões sobre a vida, a morte, a felicidade etc.

7.1.2. Estilo Reflexivo: 
Prosa introspectiva que provoca a reflexão do leitor.

7.1.3. Estrutura: 
Introdução ao tema, desenvolvimento de ideias, conclusão que muitas vezes não oferece respostas definitivas.

7.1.4. Exemplo:
Uma crônica pode começar com a observação de uma árvore solitária em um parque. O autor poderia refletir sobre a solidão e a busca por significado nas pequenas coisas da vida, questionando o que realmente traz felicidade.

7.2. CRÔNICAS ROMÂNTICAS

7.2.1. Tema Central: 
Relacionamentos, amor, perda ou saudade.

7.2.2. Estilo Emocional: 
Linguagem sensível que evoca sentimentos e sensações.

7.2.3. Estrutura: 
Histórias vividas ou imaginadas que exploram momentos de amor ou desamor.

7.2.4. Exemplo:
A crônica pode descrever um encontro em um café, onde olhares se cruzam. O autor pode explorar os pensamentos e sentimentos que surgem durante essa interação, tocando em memórias de amores passados.

7.3. CRÔNICAS DO COTIDIANO

7.3.1. Tema Central: 
Situações comuns e simples do dia a dia.

7.3.2. Estilo Descritivo e Humorístico: 
Linguagem leve e acessível, com toques de humor para retratar a banalidade da vida.

7.3.3. Estrutura: 
Observações sobre eventos diários, transformando o ordinário em interessante.

7.3.4. Exemplo:
Uma crônica sobre a rotina de ir ao mercado, onde o autor narra suas interações com outros clientes e o caixa. Pequeninas ocorrências, como esquecer a lista de compras, podem ser usadas para refletir sobre a agitação da vida moderna.

7.4. CRÔNICAS DE EXPOSIÇÃO DE SITUAÇÕES

7.4.1. Tema Central: 
Questões sociais ou situações que requerem uma análise mais profunda.

7.4.2. Estilo Crítico: 
Abordagem analítica e reflexiva sobre um tema relevante.

7.4.3. Estrutura: 
Apresentação da situação, análise crítica, e conclusão que sugira um caminho a seguir.

7.4.4. Exemplo:
Uma crônica sobre a desigualdade social em uma grande cidade, onde o autor descreve a diferença entre dois mundos: um bairro abastado e uma comunidade carente. A crônica pode incluir dados, depoimentos e reflexões pessoais.

7.5. CRÔNICAS DE RECORDAÇÕES

7.5.1. Tema Central: 
Memórias pessoais que evocam nostalgia ou lições de vida.

7.5.2. Estilo Nostálgico: 
Linguagem rica em sentimentos, que puxa o leitor para experiências passadas.

7.5.3. Estrutura: 
Narrativa que conecta o passado ao presente, muitas vezes concluindo com uma aprendizagem.

7.5.4. Exemplo:
Uma crônica que relata as memórias de uma visita à casa da avó, descrita com detalhes vívidos sobre o ambiente, os cheiros e momentos especiais. O autor pode refletir sobre como essas lembranças moldaram sua identidade.

7.6. CONSIDERAÇÕES

Cada tipo de crônica tem seu próprio foco e estilo, mas todas têm a capacidade de envolver e provocar reflexão. Ao explorar temas relevantes e utilizar um estilo condizente, o autor pode criar crônicas que ressoem com os leitores e ofereçam novas perspectivas sobre a vida.
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Continua…
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JOSÉ FELDMAN (71), paulistano radicado no Paraná, escreve pela cidade de Floresta, escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Resumo biográfico AQUI.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 30 *


 A renúncia corresponde,
muita vez, a muito amar;
como quando o Sol se esconde
para que brilhe o luar!
A. A. de Assis
Maringá/PR
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Lá, muito além das estrelas,
moram minhas ilusões,
e eu, por medo de perdê-las,
transformei-as em canções.
Abia Dias
Itaperuna/RJ
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Nos poemas encontrei
a real identidade
dos vazios que deixei
nos meus versos de saudade!
Agnes Izumi Nagashima
Londrina/PR
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Trovadores, versejando,
em dom divino e fecundo,
e suas mãos derramando,
Beleza e paz pelo mundo...
Almir Pinto de Azevedo
Rio de Janeiro/RJ
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Na mesa do meu irmão,
toda noite e todo dia,
haja café, haja pão,
muita prosa e poesia!
Antônio Rosélio Nunes Pacheco
Itaperuna/RJ
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Se o filho, na luta ingente
da vida, vence com brilho,
o pai o triunfo sente
igual ao que empolga o filho.
Barreto Coutinho
Limoeiro/PE, 1893 – 1975, Curitiba/PR
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Caminha com segurança
quem leva à vanguarda, erguida,
a bandeira da esperança
que impulsiona a sua vida!
Carolina Ramos
Santos/SP
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Não tema a estação de agora,
não tema o inverno, querida.
Que importa o frio lá fora
se dentro a alma está aquecida?
César Augusto Sovinski
Curitiba/PR
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Discreta, naturalmente,
minha ternura se trai,
ante um tiquinho de gente
que me chama de “Papai”!
Cesídio Ambrogi
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP
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Porque o tempo vem, não tarda,
não espera, não vacila,
quem nasce para vanguarda
chega sempre antes da fila.
Cipriano Ferreira Gomes
São Paulo/SP
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Um tesouro brasileiro
é feijoada e caipirinha.
E se houver samba e pandeiro
vira festa na cozinha.
Denivaldo Piaia
Campinas/SP
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Se teu rosto, pai, confessa
o cansaço das jornadas,
quanta ternura se expressa
em tuas mãos calejadas!
Elen Novais Félix
Barra do Piraí/RJ, 1946 - 2015, Niterói/RJ
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Neste momento, calado,
de gestos e olhar bisonhos,
penso em você ao meu lado
nos “amanhãs” do meu sonho.
Ester Figueiredo
Rio de Janeiro/RJ
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Mundo cheio de emoções
é o que desperta o artista,
mexendo com corações
indo além do que se avista.
Fátima Almeida
Recife/PE
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Será um manancial
de fraternidade e amor,
viver a paz mundial
e extinguir todo rancor.
Flora Malta Carpi
Itaperuna/RJ
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O artista traz alegria
traz riso, felicidade
traz ao mundo poesia
e gera bela irmandade.
Giselda Camilo
Recife/PE
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Um belo sonho que eu tive
foi ser uma professora,
grande desejo eu obtive,
na profissão sou doutora.
Giselda Pereira
Recife/PE
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Sonho que estou visitando
o lugar que desejei
e ficar só relembrando
foi tudo como esperei
Idalina Felix
Recife/PE
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Na imensa feira da vida,
as barracas da ironia:
a das culpas - concorrida!...
a dos remorsos - vazia...
Izo Goldman
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP
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O pesar desaparece,
no romper de cada aurora,
quando elevo a minha prece...
Deus abranda a dor de outrora!
Janete Francisco Sales Yoshinaga
São Paulo/SP
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Uma coisa muito boa
numa só frase resumo:
andar com você à toa
sem objetivo e sem rumo.
Janske Niemann Schlenker
Curitiba/PR
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Movimentos de vanguarda
mudam textos na aparência,
mas todo artista resguarda,
quando escreve, sua essência.
Jerson Lima de Brito
Porto Velho/RO
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Bem-te-vis cantando estão ,
a enfeitar o amanhecer...
Regozijo ao coração,
e inspiração ao viver.
José Luiz Ribeiro
Itaperuna/RJ
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Todos sentados à mesa,
com histórias a tecer,
é o cultivo e a riqueza
da amizade a florescer.
Kamila Hecht
Itaperuna/RJ
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Os horrores de uma guerra,
têm as cores da tristeza;
enchendo de sangue a terra,
é um tormento com certeza.
Karem dos Santos da Silva
Curitiba/PR
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Eu gosto de comer pão
também como vatapá
vez por outra o bom feijão
mas, bom mesmo é mungunzá.
Leices Xavier
Recife/PE
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Sem saber quem era eu,
sem norte, luz ou guarida,
teu amor me devolveu
a identidade perdida.
Lilia Souza
Curitiba/PR
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Nesta manhã, chega o inverno
nos renovando a esperança
e mostrando que de eterno
temos só nossa lembrança.
Lucas Bisoni
Curitiba/PR
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Aos que com delicadeza
trazem os grãos da ternura,
ofertamos gentileza
e as benesses da brandura.
Luciana P. Pires
Rio de Janeiro/RJ
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Perdi-me nesta saudade
dos rastros, que atrás deixei,
mas preservo a identidade
nos sonhos que realizei!
Lucilia A. T. Decarli
Bandeirantes/PR
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O que sou, ou quero ser,
não é fruto de barganha.
No meu simples entender,
é sombra que me acompanha.
Lucrécia Welter
Toledo/PR
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Vanguarda é estar mais à frente
do próprio tempo... e insistir
em trazer para o presente,
o semblante do porvir!
Luiz Antonio Cardoso
Taubaté/SP
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Me recordo com saudade
do meu tempo de criança,
eu tinha felicidade,
amor e muita esperança.
Madalena Castro
Recife/PE
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No inverno de noite fria,
tem ares de eternidade;
sem você, sem alegria,
bebo o vinho da saudade.
Madalena Ferrante Pizzatto
Curitiba/PR
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O amor não tem estação,
Vem no inverno ou primavera,
Num outono ou no verão...
Sorte dessa, quem me dera...
Maria do Rocio Vaz
Curitiba/PR
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Oxalá a identidade,
das nações e os povos seus,
comprove que a humanidade
é filha... do mesmo Deus!
Maria Lúcia Daloce
Bandeirantes/PR
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Neste Dia da Cultura,
venho aqui homenagear
com esperança futura,
artistas deste lugar.
Maria Lúcia Spadarotto Neves
Itaperuna/RJ
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Assim é a simplicidade
do homem lá do sertão
que exibe, com vaidade,
os calos da sua mão.
Maria Lúcia F. Rockall
Rio de Janeiro/RJ
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Nossa cidade revela
cultura sem restrição;
seu legado é bela tela
sempre exposta em cada ação.
Marina Caraline de Almeida Carvalhal
Itaperuna/RJ
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O inverno se faz presente,
anda o vivente na rua.
E receba o abraço quente,
calor de Deus perpetua.
Marli Voigt
Curitiba/PR
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Sem o pão, a vida é breve,
seu tempero é a poesia,
ao tecer, bem mais de leve
a beleza que extasia.
Marly Aparecida Carvalho de Mattos
Itaperuna/RJ
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Em qualquer fase da vida,
sempre que a incerteza ocorre,
sem que a fé seja perdida
a esperança nos socorre.
Nei Garcez
Curitiba/PR
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O mundo é uma grande escola
e a vida, mestra exigente;
não seja aluno que enrola,
nem, na lição, displicente.
Nilsa Alves de Melo
Maringá/PR
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Que dolorosa ironia:
a terra muito pisamos,
mas a morte chega um dia...
E sob a terra ficamos!
Paulo Roberto Oliveira Caruso
Niterói/RJ
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Inverno com belo dia,
tem um céu azul brilhante
traz para mim alegria,
fico mesmo radiante.
Pedro Henrique Schewinski Pereira
Curitiba/PR
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Levem-me tudo, no entanto
não levem minha viola;
que essa voz dela, é meu canto
e esse canto me consola!
Professor Garcia
Caicó/RN
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Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser um poeta!
Renato Alves
Rio de Janeiro/RJ
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As "batidas" de emoção,
vêm dos versos sonhadores;
tocam fundo o coração...
Meus irmãos, os Trovadores!
Rô Caron
Curitiba/PR
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O amor quando é verdadeiro
no peito em que faz guarida
principalmente o primeiro
deixa marca em nossa vida.
Sara Furquim
Rio Branco do Sul/PR, 1918 – 2020
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Colibri em seu labor,
competente bailarino,
com um beijo suga a flor,
depois segue o seu destino.
Sebastião Zulmair Pires
Itaperuna/RJ
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Quando a aurora colorida
prenuncia um dia quente,
tal o parto de uma vida
nasce o sol resplandecente.
Silvio Romero Tavares
Campinas/SP
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Somos almas garimpeiras
nessa vida de perigos,
onde em lavras rotineiras
valem ouro os bons amigos.
Sônia Maria Nuss Teixeira Nogueira da Gama
Itaperuna/RJ
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Tal qual uma joia rara,
toda trova é singular,
a tristeza ela repara,
faz a alegria voltar.
Talita Batista
Rio de Janeiro/RJ
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Envergonhado e sem jeito,
meu coração sonhador
conserta o ninho desfeito
enquanto espera outro amor!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo/SP
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Peço a Deus por meus irmãos,
que Ele cure toda dor.
Ergo em trova as minhas mãos:
— Piedade, meu Senhor!
Valber Meireles
Itaperuna/RJ
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Um currículo não diz
das dores, dos sacrifícios,
nem da luta a cicatriz...
Só relata os benefícios.
Vânia Figueiredo
Campinas/SP
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Ao longo da caminhada
em que a vida nos conduz,
vão-se alternando, na estrada,
luz e treva, treva e luz!
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ, 1924 – 2007
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 167


Eram tempos de efervescência nos Campos de Cima da Serra.  A madeira, especialmente o pinheiro, fazia pulsar as serras de corte, movimentar os caminhões transportando tábuas, e enchia a guaiaca dos donos de dezenas de serrarias na região. 

Na Fazenda do Matemático as manhãs de inverno eram geladas mesmo com sol. Geadas cobriam de branco os campos, as canhadas, os campitos ralos onde os pinheiros reinavam altaneiros. E eram costumeiras as nevascas naqueles julhos. 

Por estes caminhos Manuel passava todos os dias em busca do ouro verde para as serrarias. Mas no final daquela tarde o chefe da madeireira lhe ordenou a levar carga de tábuas para um depósito a mais de uma centena de quilômetros na manhã seguinte.

E assim o fez, mas havia a demora com as estradas ruins daqueles tempos.  Anoiteceu. Manuel teve que dormir fora do hotel que abrigava dezenas de operários da empresa.

No dia seguinte chegou para o almoço na serraria. Foi logo em busca da companheira, sua Maria, que trabalhava na cozinha do hotel. 

Cadê a Maria, indagou?! Ela foi embora sem dizer para onde. O mundo ruiu sobre Manuel. Retornou ao trabalho pela tarde. 

De manhã pulou cedo da cama, tomou o café e saiu para a rua. Eis que olhou para o chão e viu um daqueles grandes, imensos estercos de vaca com marca de um pé, de um passo humano. E reconheceu - é da Maria! 

Juntou a peça e levou para o seu quarto no hotel. E por um bom tempo lamentava: só sobrou o rastro da Maria! 

Passaram-se dias, meses empurrando o tempo, quando numa tarde quente de janeiro, Manuel volta do trabalho, chega ao hotel e vê Maria ao lado dum gurizinho de talvez dois anos. Não se conteve. Abraçaram-se, beijaram-se como dantes o faziam.  

Na manhã seguinte a notícia estava em todas as bocas - a Maria voltou para o Manuel. Passado o almoço um curioso de plantão perguntou a ele:

- Então, mano, recolheste de volta a Maria com o gurizinho?

- Por que não?! Quem recolhe a vaca também recolhe o terneiro.  
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O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

(Texto enviado pelo autor)

Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul) O Desafio do Vento Negro


Antes de iniciarmos a nossa jornada, é preciso conhecer o maior herói das lendas romenas: Făt-Frumos (cujo nome significa "Belo Menino" ou "Príncipe Encantado") é o herói arquetípico por excelência do folclore da Romênia. Nascido muitas vezes de forma milagrosa — como de uma lágrima derramada pela Virgem Maria —, ele cresce em poucos dias o que um homem normal levaria anos para crescer. Destemido, puro de coração e dotado de uma força sobre-humana, Făt-Frumos cavalga um cavalo alado mágico (Calul Năzdrăvan) que se alimenta de brasas vivas. Ele é o eterno defensor da justiça, cuja missão é combater os monstros devoradores de homens, como os dragões (Zmei) e as bruxas da floresta.
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O sol mal havia nascido quando os cascos de fogo de uma montaria mística tocaram o solo de Valea Verde. Făt-Frumos desembarcou de seu cavalo alado, com sua armadura de prata brilhando sob a luz da manhã e uma espada dourada presa à cintura. O príncipe herói não vinha em busca de glória pessoal, mas sim para atender ao clamor de socorro que ecoava pelas montanhas. O terrível Zmeu (dragão) do Vento Negro havia roubado a colheita sagrada da região, condenando o povo à fome antes do inverno.

No centro da aldeia, Moșneagul já o esperava, apoiado em seu velho cajado. O sábio ancião olhou para o jovem guerreiro e sorriu, reconhecendo a pureza em seu olhar, mas também a impetuosidade típica dos heróis.

— Seja bem-vindo, Făt-Frumos — saudou o Moșneagul. — Sua espada é formidável, mas o Vento Negro não pode ser cortado pelo aço comum. Para derrotá-lo, você precisará de mais do que força; precisará honrar o solo que pisa.

— Sábio Moșneagul, minha força nunca falhou e meu cavalo corre mais rápido que o próprio tempo — respondeu o príncipe com confiança. — Diga-me onde fica o covil da fera e trarei a justiça de volta a este vale.

Moșneagul assentiu lentamente e entregou ao herói três objetos simples: um punhado de terra da colina sagrada amarrado em um lenço, uma garrafa com água pura da fonte dos Cárpatos e um pedaço de pão de trigo amanhecido.

— Quando o monstro parecer invencível, lembre-se: a força de um herói não vem de seus braços, mas da terra que ele defende. Use esses presentes com sabedoria e respeito às nossas origens — aconselhou o velho.

Făt-Frumos guardou os itens, montou em seu cavalo e partiu em direção às Cavernas Sombrias da Montanha Alta. Ao chegar lá, o céu escureceu e um redemoinho de fumaça preta emergiu das profundezas. Era o Zmeu, uma criatura gigantesca com escamas de pedra e hálito de tempestade.

— Quem ousa me desafiar? — urrou o monstro, lançando lufadas de ar cortantes que rachavam as rochas.

— Sou Făt-Frumos, e vim libertar a vida que você roubou deste povo! — gritou o herói, avançando com sua espada.

A batalha foi feroz. Făt-Frumos desferiu golpes precisos, mas cada vez que cortava o vento, a criatura se regenerava, tornando-se ainda mais violenta. O cansaço começou a abater o príncipe, e o Zmeu, rindo com escárnio, lançou uma rajada que derrubou o herói de seu cavalo, prendendo-o contra a parede de pedra. A espada de prata voou longe.

Prestes a ser esmagado, Făt-Frumos lembrou-se das palavras de Moșneagul. Ele enfiou a mão no bolso e retirou o lenço com a terra da aldeia, jogando-a aos pés do monstro. No mesmo instante, o solo sob o Zmeu tremeu, e raízes profundas emergiram da rocha, agarrando as patas da criatura. Em seguida, o herói derramou a água da fonte sobre as raízes, fazendo-as crescer com uma força indestrutível que paralisou o monstro.

Por fim, Făt-Frumos pegou o pedaço de pão amanhecido — o símbolo do trabalho e da partilha do povo — e o colocou sobre o peito de pedra do Zmeu. Uma luz dourada e avassaladora brotou do alimento, representando a energia acumulada de gerações de camponeses honestos. 

A fera vnão aguentou o peso daquela pureza ancestral; ele rugiu uma última vez e desfez-se em uma brisa suave de primavera, libertando os grãos roubados que voltaram voando para os celeiros de Valea Verde.

Făt-Frumos recuperou sua espada e montou seu cavalo, retornando à aldeia sob os aplausos do povo. Ele aproximou-se de Moșneagul e curvou-se diante do velho sábio.

— Você tinha razão, Moșneagul — disse o herói com humildade. — Minha espada apenas iniciou a luta, mas foi a força da terra e o respeito aos que nela trabalham que venceram o mal.

O velho sorriu e colocou a mão no ombro do príncipe.

— Vá em paz, Făt-Frumos. Enquanto houver heróis que escutam a sabedoria da terra, a escuridão nunca vencerá.

Moral:
A verdadeira força e o heroísmo não residem apenas no poder físico ou nas armas que carregamos, mas na profundidade de nossas conexões com nossas origens, nossa comunidade e os valores que defendemos. A arrogância cai diante das tempestades, mas a humildade combinada com o respeito às tradições é capaz de imobilizar até o mais terrível dos inimigos.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia.
Resumo biográfico pode ser encontrado no link

(Texto enviado pelo autor)

Interlúdio * 18 *


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LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da Seção Bandeirantes de entidade trovadoresca, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a ALCAB e a entidade brasileira de trovas, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.