Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Parte 2

Comédia Teatral

Carmo: Vou já, minha senhora. Olhe que já tenho alguns pastelinhos de bacalhau prontos. Quer que lhos traga?

Augusta: Depois trazes. Mas agora vai lá abrir a porta... Mas antes de abrires vê bem quem é.

Carmo: É o Sr. Coronel Ramalho. Boa noite, Sr. Coronel!

Coronel: Boa-noite, minha querida mulher. Desculpa o atraso, mas esta cabeça já não é o que era dantes. Vê lá tu que com a pressa de chegar a casa, me esqueci do molho das chaves no escritório!

Augusta: Não me digas que entre elas também lá deixaste as chaves do cofre?!

Coronel: Pois claro que também lá ficaram. Mas porque estás tão interessada nas chaves do cofre?

Augusta: Por nada, meu amor... Vê lá tu, sempre tão cuidadoso, esqueceres da chave do cofre no escritório... (baixando a voz) - Ai, Jesus... ai... A minha vida está em perigo...

Coronel: Não te compreendo, pois um esquecimento, qualquer pessoa pode ter. Olha, hoje calhou a mim...

Augusta: Eu nem quero acreditar... (baixando a voz) - arranjaste-me a bonita!... Ai... A minha vida a andar para trás...

A criada entra de rompante no salão, e...

Carmo: Minha senhora, minha senhora... Acuda-me! Ai que coisa tão esquisita que aconteceu!...

Augusta: Desembucha, e conta o que te aconteceu. Carmo, que aflição é essa?

Carmo: Os pastéis, os pastéis... Minha senhora...

Augusta: Sim, os pastéis, o que é que têm?! Não te entendo, vê lá se te explicas melhor, para que eu possa entender. O que é que aconteceu aos pastéis?

Carmo: Desapareceram, minha Senhora!

Augusta: Desapareceram?! Mas como é que isso foi possível?

Carmo: Não sei, minha senhora. Tinha-os numa travessa em cima da mesa da cozinha e, quando regressei, já não estavam lá.

Augusta: Mas essa situação é completamente impossível, pois cá em casa nunca desapareceu nada, mesmo nada. Carmo, procura bem os pastéis, sim, porque eles nem asas deviam ter, pois não? E ratos cá em casa não existem!

Carmo: Minha senhora, podia ter sido algum fantasma que tivesse passado por aqui.

Augusta: Credo mulher! “Abrenúncio pé-de-cabra à francesa”. Fantasmas cá em casa, nem pensar!

Toca a campainha da porta. O Senhor Coronel, embora admirado com o desaparecimento dos pastéis, vai abrir...

Coronel: Ah, é o Sr. Capitão Ribeiro, entre e parabéns, meu caro, pois hoje conseguiu não ser o último a chegar!

Capitão: Alguma vez tinha que ser o primeiro a chegar. Sabe, meu caro Coronel, curiosamente, o meu horóscopo indica que hoje vou ter uma noite fora do vulgar, mesmo fora do comum...

Coronel: Este Capitão Ribeiro, tem cada uma! Vejam bem o que o horóscopo lhe diz? Que ele vai ter uma noite fora do vulgar, fora do comum. Uma pessoa da sua categoria, a ler horóscopos, francamente que não lhe fica nada bem. O primeiro decénio do século XXI já passou, e como há ainda pessoas que acreditam nestas coisas!

Capitão: Meu caro Coronel, diga e pense o que quiser, mas eu acredito nessas “coisas”, como você diz, sem vergonha de o dizer. Cada qual, é como cada um.

Nesse momento a criada entra novamente de rompante no salão...

Carmo: Minha senhora!

Augusta: O que é te aconteceu agora, Carmo?

Carmo: O bolo de laranja...o bolo de laranja... Percebe?

Augusta: Mau, mau... O que é que aconteceu ao bolo?!

Carmo: Minha senhora... Compreende? Não compreende... O bolo de laranja, que estava no fogão...

Augusta: Diz rapidamente... O que é que lhe aconteceu?...

Carmo - Desapareceu! Assim como desapareceram as lâmpadas do corredor e da cozinha. Minha senhora, não consigo compreender estas coisas estranhas, pois isto nunca tinha acontecido antes! Devem ser Fantasmas que andam por aqui... E confesso que já estou a ficar aterrada!

Augusta: Calma, mulher, calma. Tu deves estar com visões: primeiro desapareceram os pastéis de bacalhau, depois o bolo de laranja, e agora até as lâmpadas do corredor e da cozinha desapareceram?

Carmo: Isso tudo, como vê, deve ser obra de Fantasmas, ou de coisas do outro mundo... Estou toda arrepiadinha e cheia de medo, minha senhora !

Coronel: Ah, ah, medricas! Fantasmas? Coisas do outro mundo?! Ah, ah, ah ... Essas ideias só podem sair da cabeça de uma criada! Ah, ah, ah ... Onde é que isto já se viu?! De facto, este serão está a ter um princípio muito divertido!... Muito divertido mesmo! Ah, ah, ah!

Augusta: Querido, por favor não te rias. Não te rias pois eu já nem sei o que dizer, ou melhor, pensar... É que podem muito bem existir Fantasmas, e quem sabe, as tais coisas do outro mundo... Olha que também já estou a ficar como tu, Carmo: arrepiada e com... Bem, com algum medo.

Capitão: Meus caros, já notaram que neste salão cheira a pastéis de bacalhau e a bolo de laranja?! Ora cheirem, cheirem bem, que logo notarão...

Augusta: Confesso que não estou a cheirar nada. Deve ser impressão do Sr. Capitão... Olhe, por favor, não faça nem provoque mais confusões. Por favor, Capitão! Que confusão esta, que momento este!...

Capitão: Eu não quero provocar nenhumas confusões, longe de mim tal ideia! Mas pareceu-me ter ouvido um ruído estranho para os lados da cozinha. Como eu tenho um certo jeitinho natural para descobrir certos mistérios, peço-vos licença para ir investigar o que se está a passar por aquelas bandas... Posso? Dão-me licença?

Coronel: Meu caro Capitão, descubra tudo à sua inteira vontade. Mas tome muito cuidado com os Fantasmas, pois eles, por vezes, até são muito maus, violentos e muito cruéis... Ah, ah, ah, que vontade que eu tenho de rir!

Capitão: Saiba o meu caro Coronel que eu nunca, por nunca, tive medo de nada, e, muito menos de Fantasmas!

Coronel: Vá lá então e descubra alguma coisinha. Faça de conta que está em sua casa. Este Capitão…

Por momentos ouve-se um ruído estranho como uma pancada seca e…

Coronel: Mas, mas o que é que aconteceu ao Capitão? Capitão, responda...

O Capitão entra no salão, a cambalear, agarrado à cabeça e todo sujo...

Capitão: Ai, ai a minha rica cabecinha... Ai... Vejam só o que  aconteceu à minha cabecinha!

Augusta: Coitadinho do Sr. Capitão! Olhem que grande "galo" tem na cabeça!... Diga-nos lá o que é que lhe aconteceu... Vá lá, diga-nos...

Capitão: Ai, ai a minha riquinha cabecinha!... Ai, que me dói tanto, tanto. E também estou todo sujo... Veja: todo sujo... Ai, que me dói tanto a minha cabecinha!

Coronel: Não me diga, meu caro Capitão, que foi um Fantasma que lhe deu uma "toutiçada" (pancada) na cabeça e lhe fez esse "galo", além de o sujar com farinha e ovo!... ah, ah, ah, que divertido eu estou!

A criada entra no salão com ar de pessoa comprometida ...

Carmo: Meus senhores, peço-vos perdão a todos, em especial ao Sr. Capitão. Pois, a culpada do que aconteceu, sou eu!... É que o Sr. Capitão apareceu na cozinha e, como ia para destapar o tacho onde está a cozer uma galinha... Espero que compreendam... como a luz está muito fraca, pensei que fosse um Fantasma - e zá catrapus, dei-lhe com a colher de pau na cabeça e depois atirei-lhe com um ovo e farinha. Desculpem, mas como devem calcular, estou muito desorientada com estas coisas que estão acontecendo...

Coronel: Estão a ver o que é que o nosso Capitão arranjou com esta brincadeira de Fantasmas? "Os Fantasmas Bateram na Cabeça do Capitão" ah, ah, ah, até dava um bom título para um romance policial... ah, ah, ah !

Augusta: O Sr. Capitão não faça caso do que o meu marido diz, pois já sabe como é que ele é. Vamos já arranjar-lhe um banhinho e bem quentinho!

Capitão: Muito obrigado, Dona Augusta. Bem preciso de um banho. Este estúpido acidente... Olhem, que ainda me dói a cabeça, e tenho o fato todo sujo...

Augusta: Carmo, prepara já um banho para o Sr. Capitão. E com a água bem quentinha – ouviste?

Carmo: É para já, minha senhora. Um banho bem quentinho, e em especial para o Sr. Capitão!

A campainha da porta volta a tocar…

Augusta: Desta vez sou eu que vou abrir a porta, enquanto a Carmo prepara o banho para o Sr. Capitão... Olhem quem é que chegou, o Sr. Alferes Marques! Boa-noite, entre, entre...

Marques: Com sua licença, Dona Augusta. Boa-noite a todos. Mas, olha que engraçado, o senhor Capitão Ribeiro com o rosto e o fato cheio de farinha e ovo! Não me diga que virou pasteleiro?

Coronel: Meu caro Alferes, o nosso comum e querido amigo Capitão, quis ir caçar Fantasmas, e, imagine que lhe atiraram com farinha e um ovo! Eheheheh! E não apanhou nenhum dito cujo Fantasma! Que divertido que eu estou, ah, ah, ah!

Capitão: Deixe-se de brincadeiras, pois, quem me atirou com isto, não foi nenhum Fantasma, mas sim a Carmo, a criada! Este nosso amigo Coronel muito gosta de gozar comigo.

Augusta: Vocês por favor não me falem mais em Fantasmas... Ai que eu até me arrepio toda, todinhaaaa...

Alferes: Ó Dona Augusta, não me diga que a senhora ainda acredita em Fantasmas?! Já a minha avó contava o que lhe contou a avó dela...

Augusta: Por favor, Sr. Alferes, em Fantasmas, não acredito... Mas lá que eles existem... Existem!

Entretanto, a Dona Augusta dirige-se ao seu quarto, e…

Augusta: Olha...! Ó seus bandidos, o que é que vocês fazem aqui no meu quarto? Bandidos!

1º Encapuzado - Cala já o bico, mulher... Olha que será muito melhor para ti... Caladinha, disse eu... E juizinho nessa cabeça, e não te esqueças... Juizinho e muita calma, senão, pescoço cortado...

2º Encapuzado - Se tu não te calas, ainda te corto o pescoço – assimmmm!

Augusta: Credo, homem, por favor chegue para lá essa faca... Que nervos!...

1º Encapuzado - Pois é como o meu amigo diz. Muito juizinho, senão... Pescoço fora! Vamos lá ao que mais interessa: quando é que nos dás a massinha, ou seja, o dinheiro que combinámos ?

Augusta: Não sei, não sei. Mas por favor não me façam mal, pois eu não tenho culpa do meu marido, o Sr. Coronel Ramalho, ter-se esquecido das chaves no escritório. Assim, não poderei tirar o dinheiro do cofre, como vocês querem. Mas essas fotografias não são minhas...

2º Encapuzado - Cala-te mulher, pois senão já sabes o que te pode acontecer: pescocinho cortado! E tu até tens um pescocinho bem feitinho...

Augusta: Não sei como fazer ou que fazer! Como já vos disse... Olhem, escutem, tive uma ideia: podiam vir cá amanhã, ou mesmo noutro dia, mais ou menos a esta hora, buscarem o dinheiro que me querem extorquir? Compreendem e estão de acordo?

1º Encapuzado - Compreendemos até muito bem! És muito espertinha, mas nós não nos vamos embora sem a massinha (dinheiro)! Que espertinha me saíste!

2º Encapuzado - Com esta brincadeira toda (que não é nenhuma brincadeira, antes pelo contrário), até rasguei as minhas calças. Foi na cozinha ao fugir da maldita da criada...

Augusta: Então... Então foram vocês que comeram os pastéis de bacalhau e o bolo de laranja?!

1º Encapuzado - Pois claro que fomos! Olha lá, não podíamos matar a fome? E estavam deliciosos! Bem podia ter sido mais...

2º Encapuzado - Pois ainda ficámos com fome...

Augusta: Pois, pois... Agora é que estou a compreender: Vocês é que são os Fantasmas que a criada Carminho julga que são!

Fora do quarto, ouve-se a voz do marido:

Coronel: Augusta, ó mulher, nunca mais sais daí do quarto? Olha que o Sr. Sargento Neto, acabou mesmo agora de chegar. Vem servir-nos o Whisky, pois vamos começar o nosso habitual joguinho de cartas.

Augusta: Marido, eu vou já. Só estou a acabar de me arranjar...

1º Encapuzado - Vai lá, mas toma muita atenção, pois nós, os Fantasmas, (como tu dizes), só vamos embora depois de recebermos o dinheirinho todo. Repito: o dinheiro todoooo!

2º Encapuzado - Não te esqueças que são só dez mil e quinhentos reais!

Dona Augusta, abanando a cabeça e encolhendo os ombros, sai do quarto e entra no salão…

Augusta: Boa-noite, Sr. Sargento Neto. Vou já servir o whisky, e para o Sr. Sargento, uma dose muito especial, tome.

Sargento: Este líquido, aliás, este precioso líquido, hoje parece estar divinal! Que rico whisky. Que delícia mais deliciosa que o Sr. Coronel tem cá em casa! Whisky como este, só nos quartéis e só para oficiais superiores!

Alferes: Este Scotch é mesmo genuíno. O que não admira, pois estamos em casa do Sr. Coronel. Em nada se compara com aquele que no outro dia bebemos em sua casa... Ó Capitão Ribeiro, desculpe lá a franqueza! Mas o whisky que lá bebemos era uma má imitação!

Capitão: Sabe, meu caro Sargento, há dias em que o paladar dos amigos não se encontra tão apurado como o de hoje... Mas este whisky, é de facto muito bom, muito diferente daquela "má qualidade" que bebemos por aí em casa de certos amigos, como por exemplo na do Alferes Marques.

Alferes: Mas esse facto tem uma explicação: o whisky chamado de "Imitação de Sacavém, ou de outra terra qualquer" ainda não atingiu a perfeição desejada!...

O Sr. Capitão entra no salão, depois de sair do banheiro...

Coronel: Meus caros amigos e companheiros, o nosso querido e estimado amigo Capitão Ribeiro foi tomar banho.

Capitão: Claro que tive de ir tomar banho... depois daquele disparate que a Carmo me fez... Olhem lá, por acaso, alguém viu as minhas calças? As minhas calças novas?

Alferes: Ó Capitão, não me diga que perdeu as calças!!!

Capitão: Bem, não quero dizer que as tenha perdido... Mas, logo as calças novas, que me custaram quase uma fortuna!...

Coronel: Então, o Sr. Capitão não sabe onde deixou as calças? É esquisito... Olhe, o seu copo está aqui bem cheio de whisky, beba agora e procure depois as calças. Não é que lhe fique mal o toalhão envolto no corpo... mas compreende... Cá em minha casa... Compreende que não é nada decente...

Capitão: Dou-lhe toda a razão, pois eu também não gosto de andar, ou estar, nesta figura. Entretanto, Dona Augusta, por favor, encha-me outra vez o copo. Muito obrigado pela sua gentileza... está bem assim... assim. Que magnífico whisky este! Parece-me que já estou a ficar com os "copos", ou seja, um pouco grosso, bêbedo... Mas eu quero as minhas calças, as minhas calças novas! Roubaram-mas... Isto deve ser uma manobra para me derrubarem psicologicamente!... Protesto, protesto, protesto... Quero as minhas calças novas... As minhas riquinhas calças novas!

Augusta: Tenha calma, Sr. Capitão, pois as calças vão aparecer. Sim, porque cá em casa, não há  (há...há...há?...) ladrões?... Fantasmas?

Coronel: Caro Capitão, antes de ir procurar as suas calças, beba mais um copo de whisky... Vá lá, não se faça esquisito. Depois de beber, vá procurar muito bem as calças, pois, como diz, e muito bem, minha mulher, cá em casa não há ladrões. Mas espere... Só se foi algum Fantasma que lhas roubou... Ah, ah, ah!... Teria sido um fantasma e, neste caso, fantasma e até ladrão?

Augusta: Ai, credo, marido... Cala-te por favor... Mas se foi... Algum Fan... Fantasma... Podemos pedir por favor que ele devolva as calças... Tive uma ideia: vamos todos gritar, assim: Ó Fantasmas!!! Ó senhores Fantasmas!!! Por favor devolvam as calças ao Senhor Capitão... - Vá lá, gritem todos comigo...

Coronel: Ó Augusta, tu também bebeste whisky? Mas o que é que te deu, para estares a gritar aí aos Fantasmas? Até parece que estás louca...

Sargento: Eu também estou de acordo em não gritarmos por Fantasmas, pois senão, daqui a pouco, ficamos inundados por eles, e lá se ia todo o whisky do nosso caro amigo Coronel. Pois devem existir Fantasmas apreciadores do bom whisky. Penso eu...

Coronel - Agora um pouco mais a sério: Carmo, vem cá depressa... Rápido, mulher... És cá uma vagarosa! Mas que mulher esta...

Carmo: Pronto, ao seu inteiro dispor, Sr. Coronel!

Coronel: Olha lá, vais aqui com o Sr. Capitão procurar as calças dele, as quais não devem andar por muito longe. Pelo menos penso que não...

Carmo: Sr. Coronel, eu não me importo de as ir procurar, mas... Mas o pior é a cozinha...

Coronel: E o que é que tem a cozinha a ver com as calças?!...

Carmo: Sabe, é que estou a cozinhar uma galinha de cabidela...

Coronel: E daí? Não me digas que estás com medo que a galinha levante voo e que fuja do tacho... Ficaste muito calada, diz qualquer coisa, ou estás com medo de qualquer coisa?

Carmo: Estou com medo dos Fantasmas, sim, Sr. Coronel, os Fantasmas podem voltar novamente e levarem com eles a galinha. Já vi que o Sr. Coronel não quer compreender, mas...

Coronel: Mau, mau. Deixa-te de brincadeiras e procura rapidamente as calças, pois o senhor Capitão não pode (nem deve) ficar em cuecas toda a noite!

Alferes: Confesso que eu próprio já estou a ficar com um certo receio dos Fantasmas! E pelos vistos, estes até são comilões! Ai, que horror: Fantasmas! Caro Capitão, não se vá embora, não procure ainda as calças, sem antes beber mais um copito de whisky, ao qual terei muito gosto, e prazer, em acompanhá-lo (a beber outro, claro...!).

Sargento: Ai que medo que eu sinto... Até sinto o corpo todo a tremer! Ah, ah, ah! Fantasmas! E se em vez de Fantasmas, fossem, fossem... Assim com estas formas... Formas femininas, compreendem?! Aí é que seria uma grande orgia! Perdão, Dona Augusta! Vejam lá que eu por causa dos Fantasmas, até me esqueci da senhora. Mais uma vez, as minhas desculpas...

Augusta: Aceito as suas desculpas, mas, Sr. Sargento, por favor não provoque mais confusões, pois já estou a ficar muito nervosa com este assunto. Ufff! Fantasmas…

Alferes: Tem toda a razão, em vez de Fantasmas, podiam ser, por exemplo, Lobisomens, Vampiros, ou mesmo Extraterrestres, enfim... sei lá que mais!

Coronel: Meus caros convidados, não podemos dar mais crédito a este assunto nem falar mais em Fantasmas! Sejamos racionais. Não existem Fantasmas! Não existem e ponto final.

Sargento: Pois é, mas nós estamos a dar crédito a essa parvoíce. Até parece um filme que vi há pouco tempo na televisão, com muitos fantasmas maus que até comiam...

Coronel: Bom. Vamos ao que mais interessa: Olha lá, Carmo, já encontraste as calças do Sr. Capitão? Eu quero este caso resolvido rapidamente, ouviste e compreendeste bem?

Carmo: Já as procurei por todo o lado que é sítio, mas não as encontrei.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças... Eu quero as minhas calcinhas novas... As minhas ricas calcinhas... Um Capitão, nunca por nunca, pode, nem deve, andar em cuecas! É indigno para a sua categoria social e militar.

Sargento: Apoiado, apoiado! O caro Capitão tem toda a razão (mas não chore) e o seu protesto é pertinente... Embora já tenha bebido alguns copos de whisky!...

Alferes: O caro amigo Sargento, tem toda a razão, pois não deve tentar afogar o desgosto de ter perdido as calças, bebendo muito whisky. Olhe que eu conheço quem já tenha perdido as calças por muito menos!

Capitão: Mas eu quero, eu quero as minhas calcinhas novas. Por favor, compreendam-me, pois sinto-me muito infeliz sem elas... Imaginem só se os meus tropas me vissem neste estado!

A criada entra novamente de rompante no salão...

Carmo: Sr. Coronel, Sr. Coronel... Dona Augusta!

Coronel: Que tens tu? O que é que te aconteceu, Carmo?

Augusta: Não chores, pequena, e diz o que aconteceu...

Carmo: Uma desgraça - uma grande desgraça! É que a galinha de cabidela que estava ao lume...

Coronel: Não me digas que a deixaste queimar?!

Carmo: Não a deixei queimar, não. Mas ela desapareceu!

Augusta: Ai aqueles bandidos!...

Coronel: Bandidos?! Augusta, o que é que tu disseste? Aqueles quê? Confesso que não te ouvi muito bem, por favor repete...

Augusta: O que eu disse? Olha, pois disse, ou devia de ter dito: Fantasmas. Ou seja lá o que for... Mas não sei se foram ou não os Fantasmas que levaram a galinha de cabidela... Olha, não sei se disse alguma coisa, ou pensei alto.

Alferes: Amigos, reparem: agora até começou a cair água do tecto... Vejam, vejam! Até parece que está a chover e a água cheira a líquido orgânico.

Sargento: Olha, pois está. E escutem, não ouvem o barulho de um autoclismo a descarregar?

Coronel: De facto, estou a ouvir. Estou cansado de dizer à Carmo que não utilize o banheiro do sótão. Mas ela é teimosa, e o canalizador ainda não apareceu para afinar o autoclismo.

Carmo: Perdão, senhor Coronel, eu não utilizo o banheiro lá de cima, há mais de um mês. Para mais, com o medo que tenho dos Fantasmas, ainda hoje não fui lá  acima ao meu quarto. Que medo!

Coronel: Então, então... Queres dizer que não foste tu que utilizaste o banheiro?

Carmo: Juro por tudo que não fui eu que utilizei aquele banheiro.

Alferes: Bem, meus senhores, vamos analisar os factos referentes a este assunto: primeiro, os Fantasmas comeram os pastéis de bacalhau, depois o bolo de laranja, e por fim a galinha de cabidela. Com uma certa lógica, depois de comerem isto tudo, com certeza que precisaram de ir à casa de banho (banheiro)...!

Augusta: Mas que lógica... tão lógica! Fantasmas a utilizarem um banheiro - onde é que isto já se viu?

Capitão: Com essa conversa toda, não se esqueçam que eu quero as minhas riquinhas calcinhas... As minhas calças novas. Pela minha dignidade de Capitão, eu nunca devia de sofrer o vexame de andar p'ra aqui em cuecas, e logo em casa do Sr. Coronel.

Sargento: O Sr. Capitão tem toda a razão e todo o meu apoio. Mas por favor deixe de chorar, pois, põe-me muito nervoso. Mas... um Capitão em cuecas, ou em slips, é demais!

Alferes: Pois é, mas por causa das calças que eventualmente perdeu, teve o pretexto de já ter bebido quase uma garrafa inteira. Neste contexto, eu também não me importaria de andar em cuecas!

Sargento: Olhe que ainda está a tempo, meu amigo, pois o nosso querido e Sr. Coronel, ainda tem, pelo menos, mais uma garrafa cheia.

Sargento: Olhem que está novamente a cair água lá de cima. E muito mal cheirosa. De certeza que não comeram sabonetes nem beberam perfume!

Sargento: E prestem atenção. Oiçam com atenção… Um ruído tão característico, pois os Fantasmas devem estar a desbeber, ou seja, devem estar a fazer chichi!

Capitão: Mas eu quero as minhas riquinhas calças novas... Como ninguém se incomoda com o assunto, eu vou lá acima e mato todos, todos os Fantasmas... todos... todos, um a um.

Alferes: Amigos, admirem a valentia do nosso Capitão. Que homem tão valente, um verdadeiro representante da valente raça lusitana!

Sargento: É assim mesmo, caro Capitão. Vá mostrar aos Fantasmas o que é ser um homem de barba rija!... E mais: um verdadeiro herói dos nossos dias!

Capitão: Só preciso de uma arma, para assim poder avançar. Vou matá-los todos, todos os Fantasmas que aparecerem à minha frente... À minha frente...

Alferes: Estou mesmo a ver que vai ser uma enorme mortandade! Ai, pobres Fantasmas, agora é que vão ser elas, com o Capitão no encalço deles!

Coronel: Tem toda a razão para proceder assim, meu caro Capitão. Aqui tem uma boa arma: um martelo de orelhas! E assim tão bem armado, não se esqueça de matar todos (mas todos) os Fantasmas que encontrar no seu caminho. Força, Capitão Ribeiro!

Sargento: Mas tenha muito cuidado, não os maltrate muito, pois eu tenho horror em ver sangue. Contente-se só em fazer-lhes umas nódoas negras!

Coronel: Mas que situação tão caricata: um Capitão em cuecas, com um martelo de orelhas na mão, à procura de uns Fantasmas... E tudo isto em pleno século XXI...

Alferes: Deixai ir o homem, que está muito bem temperado em whisky...
Coronel: Oxalá é que não caia pela escada abaixo... E, claro, que apanhe muitos Fantasmas!

CONTINUA

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to