Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Guilherme de Azevedo (Alma Nova) VIII

foi mantida a grafia original.
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A UM CERTO HOMEM

Agora és todo nosso: a rude voz da história
Já pode hoje falar
E dar-te um balancete às nódoas e à glória
Rei-Sol de boulevard.

Que dias de esplendor! Porém como começa
A noite e a podridão!
Foi Deus que te mandou também para a Lambessa
Da eterna punição!

Enfarda a tua glória e leva-a que é vergonha
Que vejam amanhã,
Que até lhe depenou as águias de Bolonha
O abutre de Sedan!

E visto que em redor nenhuma estrela brilha
E a noite é longa e má,
No caminho do opróbrio acende a cigarrilha
E, César, ouve lá:

Que altiva e bela a França! Aquela Gália ardente
Que de Valmy levou,
Descalça, quase nua; a Marselhesa em frente;
Nossa alma até Moscow!

Seus filhos têm a foice: envergam rudes clâmides
Depois, caminham sós;
E enquanto ceifam reis acordam nas Pirâmides
A alma dos Faraós!

E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento,
Na gleba das nações,
Convictos semeando o novo pensamento
No sulco dos canhões!

Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza
E quando a tens aos pés,
Celebras a vitória aos hinos de Teresa,
A musa dos cafés!

Banquetes dás ao crime; e os teus heróis de esquina
Ainda a afrontam mais,
Tornando a Marselhesa em torpe Messalina
Dum circo de chacais!

E sobre alguns montões de mortos ainda quentes,
Enfim campeias, tu,
Que deste à sagração das cousas dissolventes
um Petrónio Sardou!


Porém, quando ao comer ainda um beijo à Fama,
Um dia avanças mais,
Teu carro triunfal trambolha-te na lama
E então como tu sais!

Revolves-te no horror das vis, infectas ondas
De lodo e podridão,
E vais de manto roto e vestes hediondas
Buscar a escuridão!

Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente
Da luta que sorri,
Do fumo dos canhões fugiste, e de repente...
Matou-te um bisturi!...

Que entrada a tua, então, na fúnebre morada,
Pisando, incerto, o pó,
À luz duma lanterna, ao vir da encruzilhada,
Sinistro, sujo e só!

Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos
Dos bons e dos leais,
Apenas descobriste a marca dos castigos
Nas faces triviais!

E quando te assustava o olhar altivo de Hoche
E o gesto de Danton,
Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche
Meu César-Benoiton!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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