Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Guilherme de Azevedo (Alma Nova) XV, final

foi mantida a grafia original.
==============================

OS NOVOS LEVIATÃS

Dos antigos Titãs, o mar — fera indomável,
Agora verga o dorso ao peso colossal
Dos novos leviatãs que em bando formidável,
Nas grandes explosões da cólera insondável,
Já levam de vencida o abismo e o vendaval!

Eles seguem no mar, altivos no seu rumo,
Em hálitos de fogo, à nossa voz fiéis,
E como o combatente erguendo a lança a prumo,
Em turbilhões rompendo, as flâmulas de fumo
Ostentam sem cessar correndo entre os parcéis!

Que sopro criador, que força omnipotente
Os fez surgir do nada, os monstros colossais?
O novos leviatãs provindes tão-somente
Do fecundo himeneu, deste conúbio ardente
Do Génio e do Trabalho, amantes imortais!

Correis de mar em mar, altivos, triunfantes,
Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
E as sereias gentis não fazem como dantes,
Ao som da sua voz, perder os navegantes;
O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

Ó alma antiga dorme inerte no regaço
Dos velhos deuses vãos, que o homem criador
Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
Enquanto vai soprando em mil gigantes de aço
Outra alma inda mais larga — o novo Deus-Vapor!

Sua alteza real o pequenino infante
Matou, dum tiro só, dois gamos na carreira:
Um hino mais ao céu, pois era a vez primeira
Que sua alteza vinha à diversão galante!

O vergôntea gentil! Quando um tropel distante
De súbito acordar os ecos da clareira
E uma presa cansada, em rolos de poeira,
Varada, a nossos pés, cair agonizante,

Acercai-vos então da pobre fera exangue
Que estrebucha de dor num mar de lama e sangue
Sem que uni grito de dó nos corações acorde!

No entanto não fiqueis na doce glória absorto:
O velho javali parece às vezes morto
Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

VERSOS A *

Eu sou, mulher suave, aquele antigo louco,
O triste sonhador que o teu olhar cantou,
E que hoje vai sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
Fugir como o luar dum astro que expirou!

Que morra, porque, enfim, bem longo ele tem sido
E tempo é já, talvez, da Morte desposar
O sonho que em minha alma entrou como um bandido
E só da vida sai depois de me roubar!

Eu devera amarrá-lo à braga do forçado,
Como a Justiça faz aos desprezíveis réus,
E lançá-lo depois à vala do passado
Aonde o fulminasse a cólera dos céus.

Mas não; quero embalar-lhe os últimos momentos
Ao som duma canção das quadras juvenis,
E amortalhar depois — em doces pensamentos -
No manto da saudade, os seus restos gentis.

E quando ele seguir às regiões saudosas,
Aonde todos nós iremos repousar,
Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
Que dentro da minha alma houver por desfolhar!

Ninguém profanará seus restos adorados,
Que em paz irão dormir num fundo mausoléu;
E quando alguma vez já hirtos, regelados,
Acordem, porventura, à luz que vem do céu;

Em vão tu baterás, ó sonho, à fria porta
Que em breve hás de sentir fechada sobre ti,
Porque a tua Memória, enfim, já estará morta,
E não te escutarei... Porque também morri!

Ó pobres versos meus, lançai-vos pela estrada
Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
Da luta, encontrareis, meus ínfimos guerreiros,
Formando os batalhões da bélica avançada!

E o trajo em desalinho, a face iluminada,
Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
Que separam de nós os braços justiceiros
Da serena Verdade, a deusa idolatrada.

Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa,
Ao chão vergai sem pena a face semimorta,
Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

E tudo, enfim, esquecendo: os ódios e os desprezos;
Que de entre vós alguns, ao menos, fiquem presos
Como fios de luz, ao manto da Justiça!

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to