Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel) (Sonetos Escolhidos 3)

Imagem: Biblioteca Manuel Antonio Pina
DESENCONTRO (1)

Tomado de saudade e sofrimento,
um dia eu quis rever a terra amada.
sondei a posição varia do vento
e pus meus olhos e meus pés na estrada.

Noite ainda (acordei de madrugada),
tinha a lua por luz, por seguimento...
Nem sentia o cansaço da jornada,
pensando no ontem, no hoje, como alento.

Me alegrava pisar velhos caminhos!
Os pássaros contavam nos deus ninhos
e a natureza toda, então, sorria.

Ouvi tocar o sino em minha aldeia,
lembrei das orações na hora da ceia
e da casa que outrora me acolhia.

DESENCONTRO (2)

Fui devagar, pois, afinal, queria
gozar a sensação de uma beleza
que me ficara intacta, à alma presa,
bem distante da atual selvageria.

Meus olhos, percorrendo a redondeza,
iam matando as sombras sem valia,
cheio de força, o copo estremecia,
e de calor e luz... Longe a tristeza.

Era um quadro tão belo e tão feliz,
do qual jamais pudera ser juiz...
Porém, quando cheguei: - “Que coisa alheia!”

– exclamei. A montanha era mais baixa,
a igreja velha, o sino rouco, e a faixa
de rua era tão feia... Era tão feia!...

DESENCONTRO (3)

Vi que o tempo não poupa, tudo encaixa,
mexe na minha vida e faz sua teia...
O sangue virou gelo em minha veia,
a pressão, que me era alta, se rebaixa.

Luz se havia era pouca., e de candeia,
no breu da noite... E não havia caixa
de banco... Nem rapaz e nem muchacha...
Deserta de homem, de mulher, a aldeia.

Então, pergunto a mim: Qual o destino,
se vim buscar aqui meu ser menino
e menino nenhum aqui encontro?

Vim rever minha terra e meu passado.
Mas, o que vejo? - Um sonho naufragado...
E eu perdido num louco desencontro!

EM DUAS RIMAS

A vida nasce numa enorme festa,
Nasce do amor, no instante da folia
Do sexo, da paixão e da alegria.
Mas também chora, a vida é uma floresta.

Há confusões. Porém sobra uma fresta
Por onde socorrer-se na agonia,
Dá passagens na busca de harmonia.
Há morte e vida e luzes nessa gesta.

Há buscas ideais, filosofia...
Indagações: – Meu Deus, que coisa é esta?
O amor a transformar-se em poesia.

E assim morrer: – Cantando uma seresta,
Ou ir sorrindo para uma outra festa
É o fim que todo homem gostaria.

EMOÇÕES


Só tenho olhos pra aquilo que me nega,
só sinto o cheiro e a fala de outras vinhas,
mais me apetece o rosto que as covinhas,
e em mim a luz é sombra e se me integra.

Se há gosto em minha boca, não me pega,
mas se meu corpo alisam – coisa minha –,
meu passado sofrido se esfarinha
e a nuvem interior se desintegra.

A natureza, em mim, vem da floresta.
Gosto do vento a arrepiar a testa,
gosto de rir... Mas como rir primeiro?

Vivo tão sério! Não, de mim não riam,
se as emoções mais tolas me aliviam:
- São pérolas que dôo ao mundo inteiro!

GOZO EXTENSO

Gozo os segundos todos, ano a ano,
do que ainda me resta por saúde,
não me entristece olhar o que não pude
ser. E dos meus achaques não me ufano.

No que fiz e refiz, por ser humano,
injetei muitas gotas de bondade.
Pela essência da calma que me invade,
sou a esperança no que não me engano.

E em tudo a fortaleza me aclareia
como os gozos de outrora... Tão intenso
é o meu prazer e minha nova messe.

No momento outro sonho é que me enleia:
- O encanto de saber que estou imenso,
num coração que, enfim, rejuvenesce.

MÁRTIR

De que serve contar já tantos anos
de vida, se a verdade foge e foge,
o ontem nunca mais tornando ao hoje,
e o amanhã tão perto, e seus enganos?

Não me valeram experiência e danos
que as primaveras fúteis produziram,
se, em lugar de saudades, me surgiram
só lembranças inúteis, desenganos...

De que posso, vaidoso, me gabar
senão da arte, em saber ouvi-la e vê-la,
embora não me leve a qualquer parte?

Ora, bem! Zombarei do grande azar
de ter nascido em Vênus, bela estrela,
pra fazer vida no planeta Marte.

MINUTO ETERNO

Deitada é bela, e, se levanta, estua:
Sinal de cio... Fecha os olhos, pensa...
Como, então, me darei a recompensa
de mais de perto vê-la inda mais nua?

Voar ao prédio em frente desta rua
e surpreendê-la em sua displicência?
Perder todo este medo e a paciência
de anjo sem paz que sabe e não flutua?

Vou morrer de ciúme aqui, de longe,
por não tê-la sequer um só segundo,
por delirar, na posição de monge.

Se fosse minha um só minuto – eterno–­,
zombaria das glórias deste mundo
e trocaria os céus por todo o inferno.

VOYEUR
(Segunda versão de “Minuto Eterno”)

Seminua, deitada, insone e quente,
no sofá, fecha os olhos, pestaneja...
Ah, eu queria ter cometimentos
pra mais de perto vê-la, vê-la, vê-la!

Voar deste meu prédio lá, na frente,
tocar seu corpo em toda a displicência...
Ai, não posso! E com isto me entristeço
como um anjo incapaz, louco e doente.

Tenho ciúmes, sim, no longe-e-perto.
Vejo um inseto pousado no seu peito
quando aqui morro em posição de feto.

Se fosse minha por um dia apenas
seria o homem mais feliz do mundo,
renegaria os deuses do universo.

O FANTASMA

Quem lhe matou a vida de menino
e a tão sonhada vida de rapaz?
Não sabe, está perdido e vai atrás
do perdido nos becos do destino.

Entre os deuses e o diabo, oh desatino!
de desistir ninguém o fez capaz.
Foi buscando vitória sem ter paz,
sem vislumbrar seu ser em pequenino.

Mesmo assim, sob os gritos de revolta,
luta fria e ferozmente atrasado...
Só que um dia o fantasma a si se volta.

E renasce uma imagem tão candente
que o leva a gargalhar de toda gente,
no sorriso feliz de um só pecado.

O QUE MORRE

Casa e caminhos morrem desamados,
esquecidos, na solidão do amém.
Os segredos falecem de guardados,
e amores morrem quando morre alguém.

O porto morre, a onda se esvazia,
e o sonho esvai-se quando acorrentado,
e treva nasce do morrer do dia.
Vão-se o rico, o feliz e o desgraçado.

Nada é perene, pois quem nasce vibra
somente um instante para a queda enorme,
eis que essa lei fatal tudo equilibra.

Morrem lembranças, fruto do passado,
e o presente e o futuro quando dorme
o homem sem fé, sem luz, abandonado.

Fonte:
O Autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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