Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 20 de dezembro de 2015

Contos Populares Portugueses (História de Debaixo da Terra)

Havia um lavrador que tinha três filhas e ia botar água a uma lameira, e sempre ouvia lá uma voz que lhe dizia:

- Traz-me a tua filha!

E o homem voltava para casa muito triste. As filhas perguntaram-lhe o que tinha, e ele contou-o. Ofereceu-se a mais velha para ir, e foi, mas a voz disse que não era aquela. Depois foi a do meio, e a voz disse o mesmo.

Por fim, foi a mais nova, e logo se abriu na terra um alçapão, por onde ela desceu, e foi ter a um quarto, onde estava sozinha e servida por um negro. O negro viu-a um dia muito triste e perguntou-lhe o que tinha. Ela respondeu que o coração lhe adivinhava que a sua mãe tinha morrido. O negro foi dizê-lo ao amo, e este mandou-lhe as chaves para ela tirar o dinheiro que quisesse e ir a casa. Também mandou aparelhar o cavalo branco e disse que ela montasse assim que este desse três patadas, senão o cavalo não esperava.

A rapariga foi e a mãe estava morta. O cavalo deu uma patada, e ela soltou um suspiro muito grande. Depois o cavalo deu duas patadas, e ela deu outro suspiro. As irmãs perguntaram-lhe o que era, e ela contou. A terceira patada, montou e foi-se embora.

Outro dia, estava muito triste, o negro perguntou-lhe o que tinha. E ela disse que o coração adivinhava que o pai tinha morrido. Sucedeu o mesmo que da primeira vez: ela foi, o pai morrera, mas as irmãs perguntaram-lhe se ela estava bem. Ela disse que sim, só tinha de noite um grande pesadelo. As irmãs disseram-lhe que metesse uma vela acesa dentro de uma panela e a cobrisse com um testo e quando tivesse o pesadelo tirasse o testo para ver.

Assim fez, e viu um homem, que lhe disse:

- Tu nem foste boa para ti nem para mim, que eu tinha o meu encanto hoje acabado, e agora dobraste-me.

Mas vestiu-a de rapaz e disse-lhe:

- Hás de ir servir para o rei. Toma lá este anel. Quando te vires apoquentada, lembra-te de quem te deu.

A rapariga foi servir para um palácio, e a rainha agradou-se muito do moço, porque era muito bonito. Para o tentar, mandava-o trazer água e ramos de flores para ele entrar no quarto dela, mas ele deixava tudo à sua porta.

Um dia, a rainha foi acusá-lo ao rei, dizendo-lhe que o moço a tentara. O rei mandou-o enforcar. A rapariga não tinha tornado a pensar no anel, mas quando o carrasco ia a deitar-lhe a corda lembrou-se, e logo ali apareceu um homem vestido de branco, que perguntou ao rei porque é que o ia enforcar. O rei explicou porquê.

Ele mandou-a descer, e despiu-a toda, e disse que, como era mulher, não podia meter-se com a outra. O rei então mandou matar a rainha e queria casar com a rapariga, mas o encanto disse que não, que lhe tinha custado muito e que era dele. E casaram.

Fonte:
Viale Moutinho (org.) . Contos Populares Portugueses. 2.ed. Portugal: Publicações Europa-América.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to