Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 27 de dezembro de 2015

Olivaldo Júnior (Conto dialógico)

    Um casal de adolescentes numa sala de espera do dentista. Ele, de aparelho azul, fingia que lia uma revista de esportes radicais, que estava de ponta-cabeça. Ela, de aparelho rosa, fingia que lia uma revista tipo Capricho, que também estava de ponta-cabeça. Ambos repararam um no outro quando entraram na antessala do consultório do dentista.

Calados, depois de darem o ar da graça com a secretária do lugar, sentaram-se e, sem dizer nenhuma frase, nenhuma oração, nem mesmo um "Oi", puseram-se a fingir que liam qualquer revista do famoso revisteiro de consultório, com as edições de dez anos atrás de qualquer publicação popular. Não liam nada. Antes, dialogavam. O diálogo é na mente e não precisa de palavras concretas para ser diálogo. Conversando consigo mesmo se fabrica uma porção de diálogos. Saberiam disso aqueles dois adolescentes? Não sei, mas já se diziam mentalmente uma porção de coisas.

Será que ele é de Peixes?", "Será que ela é da hora?", "Será que ele é romântico?", "Será que ela curte rock?", e ensaiavam a aproximação. "Oi, meu nome é Lia. E o seu?", "Oi, sou o Lucas. Seu nome também começa com L. Legal!".

Próximo!, chamou a secretária, e Lucas entrou para ver o doutor. Lia, mal se continha e desenvolvia todo um diálogo sem ele, que não tinha lhe dado nenhuma palavra até então. O amor pode nascer do silêncio? Acho que o amor nasce até do vácuo. Se ele resiste, se ganha fôlego e se sustenta por si mesmo é outra história.

Lucas saiu. Próximo!, chamou a secretária, mas queria dizer próxima, pois seria Lia a entrar. Nervoso, Lucas debruçou-se no balcão para marcar o retorno. Lia, com andar de tartaruga, não sabia se entrava, nem se inventava alguma coisa para perguntar à secretária, só para aproveitar mais um pouco a presença do jovem.

Próximo!, chamou, dessa vez, o próprio dentista. Lia, sem saber o que fazer, com mil coisas na cabeça e nenhuma sílaba na boca, de repente, pouco antes de entrar na sala onde o doutor a esperava, disse ao Lucas: "Oi...". Pra quê! Uma série de possíveis diálogos se formaram na mente do moço que, sem jeito, mas alegre, respondeu: "Oi...".

Ela marcaria seu retorno no mesmo dia do dele. Até lá, milhões de diálogos nasceriam, cresceriam e se desenvolveriam sem que nenhuma palavra mais fosse dita. A vida é dentro? Não sei, mas dialoga.

Próximo!

Fontes:
O Autor
Imagem : http://www.sunflowerjoias.com.br

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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