Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Aparecido Raimundo de Souza (Três Lágrimas)

EU CHOREI PELA PRIMEIRA VEZ NA MINHA VIDA quando meu casamento com a Dalva desmoronou, soterrado por visões sonâmbulas, no árduo facho da angústia dos estertores mais sombrios. Contava vinte e poucos anos, era muito jovem e imaturo. Entre rastros de violências mal cuidadas, parecia um nômade na busca constante da plenitude pessoal. Nenhuma experiência me conduzia à frente, principalmente a de convivência a dois. Na cabeça, um vazio de múltiplas formas não deixava os pensamentos tomarem chão. Se às vezes cogitava abrir o peito, na tentativa de modificar as coisas mais corriqueiras, secretos ventos sopravam contrariamente, e levavam, para longe, esses desejos mais veementes. Por isso, não havia a quem recorrer para pedir conselhos. Fazia o que dava na telha, como Lúcifer nas trevas, o espírito resistindo às fúrias do inferno, batendo, constantemente, com os costados n’água. Morávamos em um subúrbio apodrecido de São Paulo, e, nessa época, eu prestava serviços a meu pai. Estudava faculdade à noite. A cidade, demasiadamente provinciana, consumia a existência dos dias numa luta suprema de atribulações mórbidas. O povo, em si, tacanho e restrito a dogmas antigos, não oferecia condições de perspectivas melhores. Tudo girava em torno de enervante rotina. Um belo dia, acorrentada dentro do próprio ego, Dalva partiu. Foi embora como o vento gasoso transformado em furacão. Levou mala e cuia, e, a tiracolo, arrastou nosso filho Eduardo.

Por esse motivo, pouco ou quase nada recordo dele. O que guardo, são frágeis mimos, retratos intermediários do único aniversário que conseguimos realizar juntos, nada mais. Se olho no espelho e questiono respostas, o silêncio exaurido me cerca e violenta bem fundo o coração. Se penso no garoto ou experimento arrancar lembranças do passado, apenas flui a negação de um grito sufocado na garganta seca. A toda hora, fantasmas iracundos transpõem os umbrais do imensurável e me amedrontam. Geram, no meu cérebro, cenas abjetas de um filme triste e melancólico que não gostaria de rever.

Deparo com feridas abertas cujas chagas não cicatrizaram. Resumo esse tempo observando que muito cedo, na minha vida, ficou tarde demais. Comecei a namorar, andavam altas, as horas no relógio da desesperança. Aos vinte, portanto, o húmus da solidão denegrida, já havia envelhecido os dias e escurecido, sobremaneira, meu risonho e cálido amanhã...

EU CHOREI PELA SEGUNDA VEZ NA MINHA VIDA quando meu relacionamento amoroso e afetivo com a Carla complicou mais do que devia. Naufraguei,de repente, nas águas gélidas de um mar enfurecido e me acorrentei em porões mal cheirosos, onde lâmpadas e grades se confundiam com despojos de um fim de aurora traçado por mãos incógnitas. Nessa época, já diplomado, nascia do estardalhaço do anel de grau à vontade de seguir carreira e me tornar um advogado brilhante. Na casa dos trinta, ganhava a vida sepultando os meses com os poucos clientes que apareciam no escritório. Carla, a jovem esposa, moldava seus projetos a instintos soltos; construía um universo sem subterrâneos. Nas horas de folga, trabalhava comigo na função de secretaria. Também estudava as ciências jurídicas e pretendia, mais à frente, ser alguém de raízes, pontilhando caminhos em busca de crepúsculos não fecundados. Antes de providenciar o divórcio com Dalva (a primeira mulher), passamos a dormir interiorizado sono, acordar com a alquimia do pôr do sol, a dividir tarefas e afazeres embaixo do mesmo teto. Dessa união, olhos e pensamentos navegando idêntico curso, futuro e pretérito interligados em igual verbo, nasceu Narjara. Todavia, o destino se esvaiu nos contornos da repetição e dividiu espaços. De súbito, veio o fim. Com ele, rusgas, gritos, lágrimas molhando o espelho, reservando, uma vez mais, novas incertezas e dissabores.

Cada um seguiu por sendas opostas. Ânsias solfejando rimas desconexas desenharam um poema melancólico em derredor do que restou de um amor que parecia eterno. Na verdade, foi dura a visão que entrou pela janela na qual me debrucei cansado, vencido, magoado, tentando ver lá fora, na multiplicação do pesado silêncio, o vazio que permaneceu depois que ela (igualmente de bolsas e malas) passou a mão em Narjara, bateu a porta de casa alçando voo em direção a incerto porvir...

ENTÃO EU CHOREI PELA TERCEIRA VEZ NA MINHA VIDA. Desta feita, não por casamentos destruídos, ou por invasões de sofrimentos no alagadiço da alma em frangalhos. Derramei lágrimas em trêmulo mistério pelo nascimento de Amanda, minha filha com Marlúcia. A miudinha chegou, num mastim sonoro, bebendo o orgulho que crescia ao meu redor. Abriu os olhinhos assistida por bons médicos, maternidade de primeira linha, tudo a tempo e a hora. Eufórico, nutrindo a certeza do mortal esplendor, não cabia, no corpo, o contentamento que fluía de dentro do meu coração. Preparei sonhos para o esperado dia. Ensaiei piqueniques, acordei quimeras de um adormecido desejo de explosão refreado na alma. Deixei que florescesse a esperança, como uma canção inocente rasgando o crepúsculo. E ela coroou eterna estrela, efêmera luz divinal, anjo descido do espaço. Mas trouxe, porém, no lábio superior, um pequeno corte desfigurando o rostinho de boneca. Foi, na verdade, um choque, um baque tremendo que consumiu parte de mim. Senti-me como o faminto sem o pão para aplacar a fome visceral, como a dor incômoda na pele do enfermo descrente, como a fé que se matou de tédio no peito de um condenado à pena de morte. Senti-me como se alguém atirasse, inopinadamente, um balde de água fria, com afoiteza descomedida, em noves meses de espera, cercados de preparações e surpresas. Todavia, Amanda, meses depois, cirurgiada, voltou ao normal. Do quadro antigo somente fotos selecionadas em álbuns de família. Uma fita de vídeo mal gravada. Um pedaço da história, da pureza, da infância que logo se tornou remota. Evidentemente que essa lacuna não ficará adormecida, ou esquecida no “para sempre’’.

Amanhã, ou depois, já mocinha, Amanda, irá por certo, indagar por essa fase da sua estrada. É o livro que ao ser folheado não poderá estar faltando nenhuma página, mesmo que essa página traga, à tona, acontecimentos e lembranças que deveriam ficar enterradas.

Amanda, hoje, grita o universo a plenos pulmões. É flor em botão, barco de alegrias singrando águas tranquilas. Minha filha saltita, pula, corre, ri o rostinho marcado por uma tênue e quase apagada cicatriz. Ingênua pétala misturando esperança e perdão em flashes endereçados a Deus. Seu olhar é um pouquinho triste, com certeza, é um pouquinho triste. Quando a vejo (o dedinho polegar esquerdo na boca), me ponho a imaginar o que fiz de errado para ser castigado através dessa inocente? Ao mesmo tempo, me alegro interiormente, porque numa determinada intermitência do destino, entre espinhos e chagas, entre acertos e desacertos, entre idas e vindas, nesse encontro especial (por que não?), ela chegou como uma esperança sem par, iluminando com fulgor descomedido, meus passos incertos. Essa mocinha quer queira eu, ou não, mudou radicalmente os horizontes que pairam sobre minha cabeça -, e, mais que isso -, me fez acreditar piamente que lá do alto, bem acima das nuvens visíveis, alguém gosta um bocadinho assim, de mim. Barriguinha (como a trato carinhosamente) me consagra ao seu esbanjamento de vida plena e eu me sinto inteiramente realizado e feliz por ter tido a sorte de ser escolhido para ser seu PAI.

Fonte:
SOUZA, Aparecido Raimundo de. Havia uma ponte lá na fronteira. São Paulo/SP : Ed. Sucesso, 2012.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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