Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Olivaldo Júnior (O Conto da Estrela)

Tinha nascido estrela. Dentre tantos bilhões de iguais, pequenina e sem graça, uma estrela. Deus não a teria feito estrela se não quisesse. Poderia tê-la feito flor, mas a quis fazer estrela. Que remédio!... Brilhava, luzia, fazia toda a força que podia para ver se conseguia algum destaque, por menor que fosse, dentre as "irmãs", mas o que conseguia era uma febre que não passava nunca, que a levava para o Hospital Via-Láctea, cinco estrelas, é verdade, porém, ainda assim, hospital. Logo que sarava, voltava para seu posto e, devagar, luzindo um pouco por dia, ganhava o céu novamente.

Lá de cima, olhando o mundo em que estamos, nossa estrela mirava os humanos, bem menores do que ela, sem saber que muitos deles tinham egos estratosféricos, que valiam por mais de quatrocentos bilhões de estrelas iguais a ela. Sem luz própria, os humanos dependiam da estrela-mor, ou seja, do sol (que nem estrela era), para terem luz e calor concretos. À noite, da lua, mais abstrata, tiravam de seus raios cada verso que acendiam numa página qualquer, numa tela do Windows, em cada olhar já sem luz que os leria depois, quando ficassem carentes dessa guia que é a poesia.

Numa noite de verão, já bem perto do Natal, decidira, aquela estrela, que se mudaria. Não queria mais o céu de suas irmãs. Cansara-se de São Jorge, com seu dragão a tiracolo, botando fogo na lua, enchendo o céu de fumaça, encobrindo um tanto a mais seu brilho, sua chance de ser vista.

Coitada daquela estrela! Se tivesse feito amizade, quem sabe, não seria ou uma das Três Marias, ou, melhor ainda, uma das cruzes do Cruzeiro do Sul... Avessa a isso, sozinha, por mais que luzisse, era ofuscada por essas grandes parcerias celestes e, como um fraco luminoso de hotel, ficava mais só.

Na noite do dia vinte e quatro de dezembro, aquela estrela alcançaria sua glória e, a sua moda, faria história. Mal se levantou de sua cama no buraco negro em que dormia, sorriu maliciosamente para as vizinhas e, pouco depois das seis da tarde, após a estrela Vésper despertar o céu para a jornada, pôs-se à beira de sua janela estelar e, meia noite em ponto, se jogou lá do alto, rumo à vida que sonhava!... Nascida estrela, não flor, luzir, mesmo que um pouco, era o que podia. Não, não era a grande Estrela-Guia, mas "Um pequenino grão de areia / Que era um pobre sonhador"...

Fontes:
O Autor
Imagem – http://
pensamentoslucena.blogs.sapo.pt

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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